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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe num encontro

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.19

Vou ao encontro da minha irmã.


Preparo-me para atravessar a rua no lugar onde ela é mais estreita e mais segura. Olho e vejo a mulher distraída, de olhos tapados por óculos de sol quadrados e grandes, um pouco vintage, um pouco da Onassis, a tamborilar com os dedos na mesa do café antigo.

 

Dentro dos vidros, a minha irmã espera. Não se vê observada e por isso não ergue defesas. Tem um cotovelo pousado no tampo de vidro da mesa e o queixo apoiado nas costas da mão. O tronco inclinado de forma ligeira e o pescoço nu, magro e demasiado alto, sem nada que o esconda parece surgir da gola redonda do vestido azul como esguia espada ou torre ou haste de uma flor estranha.


Quantos vidros terei de partir para lhe chegar?
Quantos vidros somos, antes de chegarmos?


No reflexo, a mulher despe os olhos e repara em mim.  

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Gavetas:

A Gaffe queirosianamente fácil

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.19

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Deparo-me, nas minhas andanças por diferentes Avenidas, com verdadeiras jóias, inesperadas, mas perfeitamente aceitáveis tendo em conta os contextos e as épocas em que foram ditas ou escritas.
Fornecem pequenas - contudo brilhantes - informações acerca, por exemplo, de como era encarada quer a narrativa para a infância, quer os seus produtores.

Tomemos, retirando à toa, uma das Cartas de Inglaterra de Eça de Queirós onde é louvada a literatura infantil inglesa e aconselhada a adopção iluminada deste tipo de narrativa fácil.
Ouçamos:

(...) eu tenho a certeza que uma tal literatura infantil penetraria facilmente nos nossos costumes domésticos e teria uma venda proveitosa. Muitas senhoras inteligentes e pobres se poderiam empregar em escrever estas fáceis histórias (...)

 

É natural que senhoras inteligentes e pobres não possam pela certa ser convidadas a escrever O Crime do Padre Amaro ou O Primo Basílio, cujas narrativas não são, de todo, fáceis - embora exijam produtor inteligente. É também curioso verificar que, aparentemente, a razão que origina a recomendação desta actividade seja a pobreza de quem é reconhecidamente inteligente, assim como o desejo manifesto de que esta literatura infantil esteja presente entre os nossos costumes domésticos.

Apesar do aceitável mau grado com que lemos estes anacronismos, somos obrigados a reconhecer que, também aqui, Eça é um iluminista. Ao pretender reformar os costumes, reconhece e considera que a literatura infantil serve essa reforma, não se esgotando nela evidentemente.
 
Mas não deixa de ser interessante este olhar queirosiano sobre o que na época se poderia apelidar a Literatura do sotão.
 
E não deixa de ser pertinente verificar que hoje o leque de quem escreve estas histórias fáceis se abriu imenso, incluindo também gente muito pouco inteligente e de todas as posses e poses.
 
Ilustração - Edouard John Mentha

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A Gaffe de novo a pedalar

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.19

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Este rabisco todo feliz completa esta elegantíssima bicicleta.

Por muito que fosse esse o seu desejo, a Gaffe não vai publicar a fotografia certa, por razões óbvias:

- Este rabisco - embora merecesse -, não pertence à gaveta do Animatógrafo. Neste caso, minhas meninas, temos de ser muito brasileiras e considerar que o hómi d’ámiga, pá eu é mulhé.   

- A Gaffe esqueceu-se de pedir autorização ao Rui e, apressadinha, não consegue esperar que o processo se conclua nas devidas condições.

 

Por isso, meus amores, é bom que pedalem até aqui, porque uma surpresa agradabilíssima fez com que o dia já valesse a pena.

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