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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe dos novos parlamentos

rabiscado pela Gaffe, em 10.10.19

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Não me penso capaz de análises políticas susceptíveis de se escapulirem por estas pobres e cansadas Avenidas. Não sou proficiente, como agora se diz.

É-me indiferente saber se foi o esfumar de determinado partido - que gotejando névoas mais suspeitas, permitiu a liquidificação de uma extrema-direita, populista e grandiloquente, patrioqueira e balofa, oportunista e alegadamente unipessoal, xenófoba, homofóbica, racista, misógina, onde também podem agora chapinhar ufanos os que não dizem, mas pensam -, o impulsionador, o obreiro, o que elegeu como parceiras, como idênticas às suas, propostas como, entre outras, as de eliminar o Ministério da Educação, castrar quimicamente agressores sexuais, defender a pena de morte ou proibir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, interditando-lhes a possibilidade de adoptar.  

Reconheço apenas que a Democracia portuguesa durante quarenta e cinco anos recusou admitir que nela eclodisse o ovo da serpente - embora chocado por um Coelho - e que a festa da Páscoa nunca tivesse a antecedê-la uma Quaresma de ofídios.

Provavelmente a Europa - e os outros mundos liderados por escroques -, entrou numa espécie de pós-democracia e eu, provinciana, não o percebi, nem a consigo enunciar.  

Dizem os entendidos que não pode deixar de ser saudável a chegada dos populistas de extrema-direita à ribalta política, ao palco dos parlamentos. Ali podem ser desmascarados, trucidados com argumentos eivados de liberdade e de razão, desmascarados, revelada e denunciada a sua vacuidade e anulado o perigo que inevitavelmente encarnam, gota de ácido a alastrar e a corroer as fibras do tecido a que os Velhos chamaram Liberdade.

Seria certo.

O errado é que nas areias dos discursos dos que se dizem e querem heróis e paladinos das alvoradas e dos dias que os poetas esperaram, há palavras empapadas, curvilíneas serpentinas, circos, malabaristas, contorcionistas, confusões de lantejoulas, nadas movediços e avalanches de ocas frases feitas em que o tempo se esgota de modo aflitivo e irado, porque os outros palram demasiado impedindo que se exibam outras oratórias igualmente vácuas.

Os eleitos a temer podem agora ter palanque, mas será que as nossas democracias estão preparadas para os ouvir?

 

É neste tempo acelerado pelas elocuções ensopadas pelos egos, no tempo sem tempos ou compassos, que a gaguez de Joacine Katar Moreira obriga, obriga-a, a uma escolha rigorosíssima da palavra, a uma selecção implacável da frase, a uma precisão inusual do discurso, a um tempo de espera que tem sido asfixiado ou atropelado sucessivamente, a uma cirúrgica forma de comunicar o que se defende. A gaguez de Joacine faz perceber que já não se ouvia ninguém há muito tempo e constrangidos esperamos que a ideia surja inevitavelmente concisa, paradoxalmente clara, sem os adornos cintilantes do costume.

A gaguez de Joacine obriga-nos a ter tempo e sobretudo a ter tempo de pensar. A gaguez de Joacine dá-nos tempo. 

Talvez, por ironia, venha a ser uma gaguez negra e feminina a esvaecer os que de tão fluentes arremessam, com a urgência de quem quer calar o outro, todas as palavras atoladas.       

 

Imagem - Remy Cogghe

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