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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe tauromáquica

rabiscado pela Gaffe, em 30.10.13

.

O incidente tem já alguns anos, mas continua a assombrar a minha prima, Laura de seu nome, que não volta ao Douro sem primeiro se assegurar se o gado está preso.

Odeia as vacas que andam soltas, paradas a pastar, pachorrentas, melosas, vagarosas e fleumáticas. No entanto, a raiz desta aversão reside no marido das pobres indolentes.

Há no Douro um gigantesco boi maior que o mundo.  Plácido de nome, porque da fama de colérico ninguém o livra. Brutal no tamanho e corpulência, orgulho dos homens que lhe aparam o lustroso pêlo desenhando nele, com tesoura de grande perícia, formas geométricas que brilham ao sol. Como precaução, não vá irritar-se e marrar no incauto, usa no focinho, presa nas narinas, cavernas escuras e húmidas de causar pavor, uma argola em ferro que serve para o unir a um gordo cadeado que por sua vez, no extremo oposto, é preso a um esteio cravado na terra.  
É o cobridor. O Senhor dos genes.  
Ninguém se aproxime.

Quando a minha prima numa exuberante demonstração de entrosamento rural, nos guiou, a mim e à C., numa visita ao brutamontes, tinha garantida a nossa incondicional admiração. Aproximarmo-nos da cerca de madeira onde o mastodonte ruminava, era já uma desmesurada aventura e descomunal prova de coragem.

Mas a minha prima queria mais. Esmagar-nos com o seu arrojo, ousadia, audácia, atrevimento. Mostrar-nos o que vale uma heroína.  
Abriu a cerca. Entrou!  
Nada de errado. O monstro imóvel nem ergueu os cornos.  
E foi então que a ousadia cometeu o erro. De cabeleira farta a dar-a-dar e mãos na cinta oferecida ao bicho, ondula e desafia aos altos gritos.  
- E!! BRUTO!... EI!... OH!...OH! MULHRENGO FEIO! OH! … AQUI!... 
O boi ouviu. 
Observou. 
Bufou. 
EH!... SEU MONSTRO FEIOSO!... SEU PRÉDIO BABÃO! 
O boi ouviu. 
Bufou e decidiu.
Não que se tivesse transformado em disparada locomotiva enfurecida, mas o rumo do seu andar pachorrento empalideceu o mundo. A rapariga recuou ainda sem medo. No outro extremo a argola de ferro segura na estaca de pedra travaria a preguiçosa investida.  
O pânico explodiu quando percebemos que, no extremo redentor, a argola salvadora não tinha sido presa no esteio!  
O boi estava solto e caminhava em direcção à Laura.  
Gritamos. Esbracejamos. Saltamos e bradamos. A C. partiu uma das unhas ao tentar descalçar um dos sapatos para atirar ao monstro que atacava.  
O bicho parou com o focinho húmido babando a blusa imaculada da toureira. Não lhe tocou sequer tal era o espanto por ver uma bandarilheira desgarrada.  
Estacamos. A C. de sapato erguido, esguedelhada, perdida a compostura e a pose, e eu pálida e pronta a sacrificar a vida honrando as que, heroínas, salvam inocentes dos cornos dos demónios.  
Não foi preciso.  
O bicho, Plácido de nome e de feitio, ergueu a cabeçorra e susteve o desmaio da toureira.
Vieram os rapazes e afastaram o pobre monstro que nunca foi o mesmo frente às vacas, porque o perfume de uma rapariga corajosa não se apaga.

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