Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe barroca

rabiscado pela Gaffe, em 21.05.12

(Chanel, Cruise 2013)

Tento, sempre que disposição tenho para tal, evitar publicar fotografias de desfiles, por motivos óbvios. Ninguém, mortal e quotidiano, consegue trazer apenso a multidão de cabeleireiros, de assistentes e de assessores de imagem, repletos de ganchos, de agulhas, de escovas e tem, atrás dos arbustos, dezenas de pequenos acólitos encarregados de manter sem a mais irrisória falha aquilo que nos vai embasbacar em cima da passerelle.

Mas trata-se de Chanel, minhas queridas, e a esta Senhora tudo é permitido (a não ser a hipotética colaboração com os Nazis).

2012/13 é para a Casa Chanel, para além de outras maravilhosas viagens, também o quase Barroco e, se nos atrevermos com alguma maroteira, um discreto apelo ao Rococó.

A silhueta feminina retoma, de forma atenuada e absolutamente subtil, o busto e as anquinhas de Maria Antonieta e os decotes acompanham a infelicíssima austríaca decapitada.

Brocados de seda trabalhados (emborrachados, dirão os especialistas), como os tectos do Petit Trianon, dobras e relevos quase arquitectónicos, em perfeita harmonia com as enevoadas rendas, discretos folhos e dobragens. Origamis de seda pesada que escondem ou revelam os mais requintados pormenores daquilo a que se convencionou apelidar linha princesa.

A fantasia, já patente, é realçada com os magníficos frisos florais e tons pastel ou adquirindo tonalidades mais intensas. Perfeitos, minuciosos, estrategicamente colocados e dispostos a tornar em poética cristalina toda a colecção que adquire uma modernidade frágil e etérea, capaz de contradizer a tecnologia e quase soturnidade empregue pela, por exemplo, pela colecção D&G.

Os pormenores, como não me canso de sublinhar, são de importância vital, como se prova.

Evidentemente que não é nada adequado para arrasar e esmagar rivais à entrada do Pingo-Doce numa súbita promoção de 50% nas carnes, mas resulta se estivermos a descer a escadaria de uma mansão no Douro.

Agora, minhas caras, não desatem a colar florinhas em todos os vestidinhos brancos que esconderam no armário. Nunca esqueçam que Chanel é sempre uma obra-prima e que ter a ousadia de a plagiar é como ir a Roma e ficar, parola e especada, a tentar ver o anel papal, lá longe, na varanda do urbi et orbi.

 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:



foto do autor