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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de Nuno Gama

rabiscado pela Gaffe, em 23.05.12

 

(Nuno Gama)

Há Himalaias de tempo que quero falar de Nuno Gama.

Não consigo recolher informação passível de me servir de apoio, porque existem milhares de artigos com o nome do criador português. Depois de me perder por entre algumas dezenas de labirintos, decidi, como rapariga esperta que nunca deixei de ser, esquecer o lido e visto e Nuno Gama surgirá somente como o quero, vejo e sinto, sem amparo de nenhum fã mais aguerrido.

Confesso que me maçou o insistente recurso aos motivos tradicionais portugueses do início de carreira. Às primeiras colecções faltava apenas o cheiro a sardinha assada e a entrecosto. Um piquenique provinciano com um aroma urbano que me era suspeito e indigesto.

O refúgio nos speedos também não me convenceu. Jamais me atrevo a repetir a horripilante e mentirosa declaração que consiste no assim também eu, mas, sejamos honestas, com uma óptima equipa de confecção ao dispor, um acertado leque de matéria-prima e dezenas de corpos masculinos de fazer sufocar de êxtase qualquer catequista ou corista ou malabarista mais tentado a figurar no trapézio, ouso, sem corar muito, o assim também eu e que o Gama me perdoe.

O belíssimo sorriso de Nuno Gama superava e colmatava as falhas e as repetições maçadoras das primeiras colecções.

Mas Nuno Gama envelheceu (de modo extraordinário, é bom que se refira).

Apresenta hoje o necessário aprumo, a lapidação do exagero (trauliteiro ou tradicional), a sofisticação de uma qualquer cidade do planeta a que fornece a indelével, e agora requintada, marca portuguesa. Torna-se multicultural na multiplicidade de cor, na conjugação de tecidos clássicos, ou tradicionais, que adquirem semânticas variadas produzidas por acabamentos quase básicos, quase minimais, pelo feito á mão, pela presença inesquecível dos saruel, kaftans e dejellabas, em estudada e perfeita harmonia com capotes do Alentejo ou samarras transmontanas.

Torna-se indiscutivelmente urbano e intemporal, arrojado e indubitavelmente contemporâneo, pela poder policromático do encontro de extremos geográficos e pela reinvenção de uma semiótica com notórias conotações multirraciais.

Ousado, inteligente, quase simplista, tranquilo, seguro, viril, dinâmico e de uma brutalidade sensual que nos esmaga, Nuno Gama recria deuses quotidianos, deuses diários, em simultâneo acessíveis e proibidos, carregados de cor, desejo, conforto e de um subliminar, mas potentíssimo, apelo sexual.

Gama veste um homem português, não resta a sombra de uma dúvida (embora sobre a sombra do pecado), fornecendo-lhe o que mais nenhum criador lhe concede com tamanha eficácia: a capacidade de o tornar o homem de todas as cidades do planeta.

 

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(Moda Lisboa)

Nota - É dificílimo encontrar imagens representativas do trabalho do criador, pelo motivos que se apontaram, mas é um prazer imenso googlar Nuno Gama!

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