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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe na sala das senhoras

rabiscado pela Gaffe, em 17.11.16

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A sala é minuciosamente feminina. Permaneceu imutável. Dali partiam as decisões que governavam a casa no tempo contínuo de mulheres. Com chávenas de chá e bolachas quentes de manteiga, as senhoras riscavam os destinos dos homens e nos bastidores eram bordadas as rotas e os trilhos que desenhavam no Douro as escadarias de terra.

É mantida intacta.

É a minha sala preferida. Limpa com um desvelo exagerado e quase doentio. Perfeitos todos os minúsculos detalhes, todos os insuspeitos cantos e recantos, todos os vértices e angulares esquinas, todas as boleadas superfícies dos objectos e os mais ínfimos, invisíveis, pormenores.

Nunca aquela sala permitiu ser masculina.

 

Lembro-me que entrei à procura da minha irmã que a reconheceu como o cérebro da casa e se aproxima da sensação de poder que ainda lá dentro lateja.

 

Vi-a.

 

Estava de costas para mim, imóvel, voltada para a janela.

Tentei sair sem fazer barulho. Sei que não devo estilhaçar os silêncios escolhidos por aquela mulher que sempre os teve múltiplos. Foi no instante em que rodei o corpo, em que senti que ia conseguir apagar na sala a minha entrada, que a ouvi de manso, sem se mover ainda:

- Às vezes não sei quem sou.

Fiquei parada e muda. A sala enorme e eu tão breve e tão pequena.

- Às vezes não sei quem sou - insiste - nem sequer sei que imagem tens de mim.

Continua de costas para mim e eu calada e queda. Vejo-lhe o cabelo liso e loiro e amordaçado por um gancho largo e inusual, as calças justas presas nas botas pretas com orla de couro castanho, o casaco de fazenda parda com reforços ovais nos cotovelos e o aflorar quase imperceptível do lenço castanho amarrado ao pescoço.

 

Que imagem tenho eu dela, se perto dela nem de mim eu sei?

É imutável como aquela sala e ao mesmo tempo a pedra contra os vidros.

É o contraste brutal, um confronto aberto com os espaços, a imagem que me chega desta mulher. Como se fosse pedra arremessada contra a superfície dos cristais, como se fosse um paradoxo, desarmonia e erro. Incerta em cada canto, em cada sítio. Errada em cada sala que ela invade.

Ali, de costas voltadas para mim, destrói propositada o feminino que a envolve. Destruirá da mesma forma outros espaços, porque é nela que os espaços se resumem. É por ela que os vemos, que os sentimos, como se não houvesse lugar impune àquele corpo esguio, como se nada houvesse ou tudo fosse nela.

Há gente assim. Quase perfeita. 

 

- Às vezes não sei quem sou.

 

Ouvi-lhe o lamento na sala das senhoras, imóvel, de costas voltadas para mim e já não sei se foi há pouco tempo ou se a voz chegava de outras eras, repetida.

 

Mas a sala é minuciosamente feminina. Tudo está certo. A casa cuidará da sua dona.

 

Imagem - Nicolaes Eliaszoon Pickenoy Retrato de Jovem Mulher (detalhe), 1632

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Gavetas:


11 rabiscos

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De Cecília a 17.11.2016 às 10:31

deviam pegar na mota do mano e dar uma volta - as duas.

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De Gaffe a 17.11.2016 às 10:48

Não é uma boa ideia...
Não é de todo uma boa ideia, acredite em mim.
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De Cecília a 17.11.2016 às 10:56

acredito. eu sei o que é termos uma galáxia inteira a afastar-nos de alguém que deveria ser parte da nossa carne - e que pior do que isso, nos faz duvidar da nossa própria massa.

apenas quis sugerir uma cena de filme romântico pateta: neles as coisas mais mirabolantes funcionam às mil maravilhas.



gostei da brancura e simplicidade da mão : só assim os detalhes mostram a sua riqueza. hoje em dia tal simplicidade anda bastante esquecida
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De Gaffe a 17.11.2016 às 11:09

Não sei se existe a galáxia de que fala a separar dois mundos.
Existe uma espécie estranha de cumplicidade que nos ata as mãos e tantas vezes as almas. Existe uma profunda admiração, o pasmo e o deslumbre por uma mulher inacreditável que tem a inesperada humildade de ter dúvidas.
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De Maria Araújo a 17.11.2016 às 22:05

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De Rapunzel a 18.11.2016 às 07:01

A perfeição atemoriza e por vezes é solitária.
É parecida a relação com a minha irmã. Ela é sete anos mais nova, sempre nutriu uma profunda adoração por mim. Fomos muito próximas jovens adultas. Ela olha para mim com admiração. É difícil ser perfeita, principalmente quando ainda nos atribuem a característica da resiliência. Aí até sentimos que não temos o privilégio de pedir ajuda.
Sozinha em casa dou-me ao luxo da imperfeição, só o meu filhote conhece esta faceta... É uma responsabilidade hercúlea para quem tem oito anos apesar, de me ler com facilidade, até o mais ligeiro levantar de uma sobrancelha.
Acho que a mana está a precisar de um almoço a duas, sem pressas, à beira mar. Afinal, até a Rapunzel precisou, a uma certa altura, de descer da torre para conviver com o mundo, alegre e despreocupadamente.
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De Gaffe a 18.11.2016 às 09:31

A perfeição é quase sempre sinónimo de solidão, mas repare que disse "quase perfeita".
Creio verdadeiramente que não urge que esta Rapunzel desça da torre. talvez necessite, isso sim, que alguém a atinja, mesmo trepando à força de braços.
:)
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De Rapunzel a 18.11.2016 às 09:55

Bom. Muito bom.
Todas as verdadeiras Princesas merecem ser salvas, nas raras ocasiões em que se encontram em apuros, não nos podemos nunca esquecer que somos Princesas autónomas dos tempos modernos.
; )
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De Gaffe a 18.11.2016 às 10:12

E que nem todos os sapos trazem príncipes dentro.
:)
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De Pequeno caso sério a 18.11.2016 às 23:34

Tão bonita a maneira que falas sempre da tua irmã.
Bonita demais para ser guardada só contigo.
Fazes-me um favor? Dá-lhe um abraço apertado . Daqueles longos e silenciosos mais doces que um pastel de nata.

Verás que ela descobre quem é. E tu também.
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De Gaffe a 19.11.2016 às 00:11

Creio que foi apenas um pequeno descuido.
:)
Sempre soube quem é. Às vezes esquece quem os outros são.

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