Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe na sala das senhoras

rabiscado pela Gaffe, em 17.11.16

1.90.jpg

A sala é minuciosamente feminina. Permaneceu imutável. Dali partiam as decisões que governavam a casa no tempo contínuo de mulheres. Com chávenas de chá e bolachas quentes de manteiga, as senhoras riscavam os destinos dos homens e nos bastidores eram bordadas as rotas e os trilhos que desenhavam no Douro as escadarias de terra.

É mantida intacta.

É a minha sala preferida. Limpa com um desvelo exagerado e quase doentio. Perfeitos todos os minúsculos detalhes, todos os insuspeitos cantos e recantos, todos os vértices e angulares esquinas, todas as boleadas superfícies dos objectos e os mais ínfimos, invisíveis, pormenores.

Nunca aquela sala permitiu ser masculina.

 

Lembro-me que entrei à procura da minha irmã que a reconheceu como o cérebro da casa e se aproxima da sensação de poder que ainda lá dentro lateja.

 

Vi-a.

 

Estava de costas para mim, imóvel, voltada para a janela.

Tentei sair sem fazer barulho. Sei que não devo estilhaçar os silêncios escolhidos por aquela mulher que sempre os teve múltiplos. Foi no instante em que rodei o corpo, em que senti que ia conseguir apagar na sala a minha entrada, que a ouvi de manso, sem se mover ainda:

- Às vezes não sei quem sou.

Fiquei parada e muda. A sala enorme e eu tão breve e tão pequena.

- Às vezes não sei quem sou - insiste - nem sequer sei que imagem tens de mim.

Continua de costas para mim e eu calada e queda. Vejo-lhe o cabelo liso e loiro e amordaçado por um gancho largo e inusual, as calças justas presas nas botas pretas com orla de couro castanho, o casaco de fazenda parda com reforços ovais nos cotovelos e o aflorar quase imperceptível do lenço castanho amarrado ao pescoço.

 

Que imagem tenho eu dela, se perto dela nem de mim eu sei?

É imutável como aquela sala e ao mesmo tempo a pedra contra os vidros.

É o contraste brutal, um confronto aberto com os espaços, a imagem que me chega desta mulher. Como se fosse pedra arremessada contra a superfície dos cristais, como se fosse um paradoxo, desarmonia e erro. Incerta em cada canto, em cada sítio. Errada em cada sala que ela invade.

Ali, de costas voltadas para mim, destrói propositada o feminino que a envolve. Destruirá da mesma forma outros espaços, porque é nela que os espaços se resumem. É por ela que os vemos, que os sentimos, como se não houvesse lugar impune àquele corpo esguio, como se nada houvesse ou tudo fosse nela.

Há gente assim. Quase perfeita. 

 

- Às vezes não sei quem sou.

 

Ouvi-lhe o lamento na sala das senhoras, imóvel, de costas voltadas para mim e já não sei se foi há pouco tempo ou se a voz chegava de outras eras, repetida.

 

Mas a sala é minuciosamente feminina. Tudo está certo. A casa cuidará da sua dona.

 

Imagem - Nicolaes Eliaszoon Pickenoy Retrato de Jovem Mulher (detalhe), 1632

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:


11 rabiscos

Sem imagem de perfil

De Rapunzel a 18.11.2016 às 07:01

A perfeição atemoriza e por vezes é solitária.
É parecida a relação com a minha irmã. Ela é sete anos mais nova, sempre nutriu uma profunda adoração por mim. Fomos muito próximas jovens adultas. Ela olha para mim com admiração. É difícil ser perfeita, principalmente quando ainda nos atribuem a característica da resiliência. Aí até sentimos que não temos o privilégio de pedir ajuda.
Sozinha em casa dou-me ao luxo da imperfeição, só o meu filhote conhece esta faceta... É uma responsabilidade hercúlea para quem tem oito anos apesar, de me ler com facilidade, até o mais ligeiro levantar de uma sobrancelha.
Acho que a mana está a precisar de um almoço a duas, sem pressas, à beira mar. Afinal, até a Rapunzel precisou, a uma certa altura, de descer da torre para conviver com o mundo, alegre e despreocupadamente.
Imagem de perfil

De Gaffe a 18.11.2016 às 09:31

A perfeição é quase sempre sinónimo de solidão, mas repare que disse "quase perfeita".
Creio verdadeiramente que não urge que esta Rapunzel desça da torre. talvez necessite, isso sim, que alguém a atinja, mesmo trepando à força de braços.
:)
Sem imagem de perfil

De Rapunzel a 18.11.2016 às 09:55

Bom. Muito bom.
Todas as verdadeiras Princesas merecem ser salvas, nas raras ocasiões em que se encontram em apuros, não nos podemos nunca esquecer que somos Princesas autónomas dos tempos modernos.
; )
Imagem de perfil

De Gaffe a 18.11.2016 às 10:12

E que nem todos os sapos trazem príncipes dentro.
:)

Comentar post





  Pesquisar no Blog

Gui