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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe solarenga

rabiscado pela Gaffe, em 24.01.19

Agrada-me sobremaneira continuar a pensar que é realmente de Luís XIV o celebérrimo L’État c’est moi.  (...)

Aqui:

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Gavetas:

A Gaffe jamaicana

rabiscado pela Gaffe, em 24.01.19

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A Gaffe está irritadíssima com os acontecimentos no Bairro da Jamaica que foram ousadamente classificados como ocorrências de índole racista.

 

A Gaffe já passou férias nesse país encantador e embora não tivesse visitado o bairro, pois que o Hotel distava horrores desse lugar e não se encontraram guias com bom aspecto, está em condições de confirmar que os jamaicanos são uma gentinha amorosa e absolutamente nada dada a dar prova dessa doença.

 

A Gaffe ficou estarrecida quando viu aqueles jamaicanos portugueses acusar a bosta da bófia de violência gratuita com laivos de racismo. Não sabendo muito bem o que é a bófia - embora reconheça a primeira componente da expressão como matéria-prima das televisões -, supõe tratar-se daqueles homenzarrões lindíssimos, musculados e fardados e armados, que a Mortágua condena veementemente, com só ela consegue veementemente condenar.

Meninos, não se bate naquela gente.

 

A Gaffe está decidida.

 

Vai imediatamente convidar uma das manas Mortágua - uma qualquer, porque tanto faz que são iguais e ninguém nota a diferença - e a Cristas a equilibrar, para, ladeada por estes extremos extremosos - para além de evitar levar uma bordoada lateral, vai parecer harmoniosa - visitar o Bairro da polémica.

 

Já enverga - para fazer pendant com a deputada - o seu black outfit e já calçou galochas - para fazer pendant com a grande líder.

As três, unidas como Abril mandou, provaremos que Portugal não é racista e que aqueles pobres jamaicanos pretos também não.

Foi tudo bordoada merecida.

 

É um sacrifício que nos fica bem.

 

É evidente que esta rapariga não é o Marcelo. Não vai desatar a beijocar as nódoas negras daquela gente, nem vai tirar selfies, porque o cenário não tem uma luz em condições de figurar no Instagram - não havendo filtros, fica tudo imenso escuro -, mas vai valer a pena ser escoltada por aqueles mauzões gigantescos e repletos de escudos de acrílico que intervêm para apoiar as pessoas de boas famílias na caminhada a favor da diferença.

 

A Gaffe tem de provar que este país não é racista.

 

Já o declarou no facebook e já escolheu também por isso uma fotografia de um mocito com quem não se importava nada de estabelecer diálogo esclarecedor, mas reconhece que ao vivo, bem vestida, com o cabelo bem tratado, acompanhada por fotógrafos e com algum carinho no rosto, a natureza desta mensagem renovadora, apaziguante e cristã, se torna poderosa e faz mesmo com que se distingam de vez em quando os jamaicanos uns dos outros.  

 

A Gaffe admite a existência de um pormenor que exalta as pessoas pouco instruídas e que as leva a desatar aos gritos desagradáveis, acusando um país inteiro de conter raízes racistas.

 

A igualdade.

 

São todos iguais!

 

As pessoas brancas não conseguem distinguir um chinês de outro chinês, mesmo que estes dois piquenos estejam lado a lado.

As pessoas brancas não conseguem pronunciar os nomes dos pretos que - diga-se em abono da verdade -, também não se diferenciam uns dos outros. É impossível chamar pelo Matambukalé Tanrambureré sem termos de nos socorrer depois de um terapeuta da fala. Como pronunciar Pi-Chin ou Pi-Cho-Ti, ou mesmo Pi-La, sem pensar que vamos ser violadas? Como encontrar modo de articular Lakshmi Mahara Surya sem pensar que nos vão despejar açafrão no cabelo, nos vão tatuar uma porcaria em hena nas mãos - desidrata imenso -, ou nos vão tentar impingir uma rosa de plástico quando formos ao Saldanha?!

 

A Gaffe tem conversado imenso com a  senhora Årud Haakonssonhagebak, uma senhora norueguesa lá de casa - sem ser, c’est évident, a colaboradora doméstica, uma romena que nos maça horrores ao tentar fazer com que a percebamos -, que sempre diz que o racismo português é uma fake new, pois que não é viável acusar um povo tecido de heróis camonianos, que nunca levantou um dedo contra a senhora D. Isabel dos Santos e que no passado ofereceu novos mundos a um mundo de gentalha que nem sequer soube agradecer e que agora está convencida que temos obrigação de os acolher nos nossos lares e privacidades, de ser um povo pouco dado à diversidade.

 

Somos um povo que marca a diferença.

É tudo.

Então vá. 

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A Gaffe com lençóis brancos

rabiscado pela Gaffe, em 23.01.19

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Eram brancos os jogos de lençóis que a Jacinta trazia todos os Sábados das arcas para os quartos de cima.

 

Brancos, sempre brancos, brancos que de tão brancos doíam.

Alguns tinham bordados a cheio na dobra que expunham. Flores ou frisos a ondular arabescos que as fronhas repetiam. Outros eram rendas. Entremeios urdidos à mão, brancos, brancos, no negrume de Inverno.

 

 - Vá brincar, menina. Vá apanhar sol e deixe trabalhar quem sabe.

 

A Jacinta abria as asas de lençóis sobre as camas como quem atira redes de pesca aos mares sossegados das manhãs de Sábado. Cheiravam bem essas manhãs. A linho lavado, a sabonete e a alfazema que a Jacinta guardava em saquinhos laçados com fitinhas de cetim nas arcas dos lençóis brancos a doer.

Ficava a ver aqueles pássaros largos de asas, a abrirem o breve voo sobre os ninhos. Fechava os olhos. Pelos olhos fechados aspirava o odor daquele esvoaçar lavado e de açucenas.

Quarto após quarto, após quarto, após quarto. Seguia-lhe os passos. Os lençóis brancos a dardejar bordados.

 

- Vá brincar lá para fora com os manos, menina!

 

A luz do lá fora pelas janelas. Reflectida no voo dos pássaros como penas. O cheiro a luz lavada e a saquinhos de alfazema.

 

- Ajude então com as fronhas, menina. Vá lá Deus saber porque é que o avozinho a deixa aqui, a andar atrás de mim - e sorria, parada por instantes, de mãos cruzadas no regaço de onde a ternura subia até aos olhos.  

 

Chorou neste Sábado.

Ouvi-lhe as lágrimas como lençóis abertos e doridos.

 

Entrei devagarinho no quarto e vi-a sentada na cama que foi da minha avó. De mãos em concha, uma por cima da outra, num abandono branco e envelhecido.

Tinha-se enganado. Foi sem querer. Nem sequer pensou. Não sabe como aconteceu aquilo. Foi o hábito. É a velhice, menina.

 

Chorava tanto.

 

Ajoelhei-me. De joelhos venero imagens santas.

Entrou ali para mudar lençóis que não se mudam, mudos os que ficaram inúteis como trapos, e ficou ali a desfraldar, a apalmar, a estender saudade.

 

- Faz-me tanta falta - treme. É frio.

 

Abro a gaveta. Retiro o xaile que a minha avó usava nos entardeceres mais ásperos de negritude em que as crianças não brincam lá fora.  

Sento-me na cama, pouso as minhas mãos na concha das mãos enrugadas da Jacinta e as duas cobertas pelo xaile, sorrimos baixinho, baixinho, baixinho, para não inquietar as lágrimas.

 

- Vá, Jacinta, anda. Eu ajudo com as fronhas.

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A Gaffe de Maria João Avillez

rabiscado pela Gaffe, em 22.01.19

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Usar um batôn exige uma compenetrada dedicação. Uma rapariga não pode estar atenta a rigorosamente mais nada. O mundo deve tornar-se apenas um som indefinido de uma sinfonia longínqua ouvida em surdina. A operação obriga a um recolhimento imenso e ao rigor imprescindível de um traçado de rota de avião.

 

Estando a Gaffe pronta a esmagar o lábio superior contra o inferior, diluindo dessa forma o vermelho sangue que escolheu vampira, quando sobreveio de forma insidiosa a voz de uma distinta jornalista que possivelmente na infância jogou à macaca com D. Maria II.

 

A Gaffe não sabe como, não sabe quando, não sabe porquê, não conhece a razão do ouvido, não sabe onde ocorreu o acidente, mas estancou de boca aberta com o batôn ainda por homologar.    

 

Maria João Avillez faz uma chalaça com o provincianismo de Rui Rio.

 

A Gaffe não simpatiza com o senhor. Irrita-a a secura e o ar azedado com que o grande líder arranja constantemente a gravata, normalmente tenebrosa e sem qualquer sombra carismática. Em consequência é-lhe indiferente que alguém o considere um pacóvio. Não se amofina com referencias lúdicas às eventuais origens nortenhas do grande estadista.

 

Maria João Avillez, no entanto, desenha de uma penada um belíssimo retrato do que considera necessário um político saber para poder vingar.

 

A jornalista - que de tão bem-humorada despertou a gargalhada no público, ou no publicuzinho, como vos aprouver -, considera que Rio não pode vingar porque nem sequer sabe onde é o Saldanha.

 

O importante, a Gaffe está completamente de acordo com Maria João Avillez, é saber onde fica o Saldanha, Cascais e a Expo do lado onde reside gente de bem. Não é relevante conhecer os apeadeiros da linha do Douro até porque foram quase todos desactivados. O Marcelo já encontrou Pedrogão e parece que não vale a pena a deslocação, pois que não há paisagem que a justifique e aquela maçada de mármore que ruiu já não adianta conhecer, porque se tornou difícil lá passar.

 

Agora, não saber onde fica o Saldanha?!

Parolo!

 

A Gaffe vai introduzir no GPS a referência geográfica de Maria João Avillez.

Disseram-lhe que no Saldanha se ergueram imensos hotéis cobertos de espelhos. Cosmopolitíssimo! A Gaffe vai com certeza encontrar um que a ajude a corrigir o batôn.

 

Ilustração - Fernando Vicente

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O Gui no "Rasurando"

rabiscado pela Gaffe, em 22.01.19

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A minha professora disse-nos que tínhamos de escrever uma redacção muito limpinha e bonita porque queria cola-la no quadro de honra que é um quadrado assim para o alto dos lados onde uns senhores e umas senhoras mandam postas que é post em português.

Já lá está porque era muito bonita. 

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A Gaffe "Rasurando"

rabiscado pela Gaffe, em 21.01.19

Rasurando

Meus amigos e minhas amigas,

 

Apresento-vos o Rasurando, projecto incluído num plano - Opus Grei -  que reúne gente de variadíssimas proveniências e diferenciadas visões e perspetivas do mundo, mas disposta a contribuir para discusões salutares acerca de pontos e de chaves que abrem outras cosmovisões e que permitem e ajudam a repensar o lugar que ocupamos no retângulo - cada vez mais complexo, urdido de inexactidões e pasmos -, que urge colocar em questão.

 

São membros e conspiradores - anunciados numa ordem aleatória -, da estrela Opus Grei:

 

Sarin

naomedeemouvidos

Eduardo Louro

Júlio Farinha

Pedro V

Mami

 

e a Gaffe que funciona quase como mascote, dada a ignorância mais que evidente relativamente aos assuntos que se abordarão.

 

É impossível dar-vos notícia mais completa do que a patente nas já existentes rasuras no blog referido, mas adianta-se que o objectivo é (…) que de forma descomplicada, por vezes séria, porventura bem-humorada, seguramente assertiva, podermos questionar, contribuir, debater, aceitar ou exigir, impelindo os leitores a questionarem-se e a questionarem connosco estas matérias abordadas por tantas perspectivas quantas as que nos lembrarmos. Ou nos lembrarem (…)

 

Imprescindível que subscrevam o blog que agora surge, porque é de utilidade pública - caso ainda não tenham reparado na minha imensa modéstia, fica neste momento a clara prova desta minha qualidade.   

 

Irão verificar que o logo que se anuncia mesmo ali ao fundo aparecerá nas Avenidas sempre que os palpites desta rapariga surjam no blog que agora também é vosso.

 

É evidente que o subscreverão - clicando no perfil Opus Grei - e participarão em todos as saudáveis discussões ali abertas porque, como diria Maria Cavaco Silva, sois – somos todos - gente:

 

InteligentÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍssssssimAAA.

Rasurando

 

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Gavetas:

A Gaffe à escuta

rabiscado pela Gaffe, em 20.01.19

naomedeemouvidos

Porque é absolutamente necessário que a escutemos e porque sempre que a ouvimos, sentimos que vale a pena voltar sem outras palavras que não sejam as que partem do coração, depois de surgirem claras, atentas, disponíveis e sobretudo irrepreensivelmente pensadas.

Foi um privilégio tentar entregar uma imagem às estas palavras.

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A Gaffe do galifão

rabiscado pela Gaffe, em 18.01.19

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A Gaffe tinha assumido o compromisso de não voltar a estar atenta aos burburinhos que à sua volta irrompem como cogumelos em bosque mais húmido e sombrio.

Admite que se está arrasada, tonta, desequilibrada, enjoada depois de ter confirmado - o comando da box da Gaffe tem uma verruga que lhe permite andar para trás na programação, tal qual o botão dos boxers do rapaz - que a Assunção Cristas foi mesmo a casa da Cristina Ferreira cozinhar arroz de atum e não estava a usar galochas! Nem jeans! - como se esperaria, pois que confecionava um prato de pobrezinhos.

 

Esta decepção, este lapso, esta incorrecção, esta falta de maneiras, esta inadequação da Cristas foi a gota de Moët & Chandon que fez entornar o copo.

 

A Gaffe não volta a beberricar fait-divers sem pedigree e se por acaso tropeçar outra vez na versão para gente de bem da Ode Triunfal de Álvaro de Campos, nos medicamentos da psicóloga normalizadora do universo, no ralhete de sala de visita do Goucha a um nazi, ou nas mamas da Rita Pereira a rebolar por todo o espaço, esta rapariga sai da sua zona de conforto e passa a insultar toda a gente no facebook, depois de assumir que não ficou chocada, nem um niquinho para amostra, com as declarações de Yann Moix que ninguém que valha a pena conhecia antes do homem ter dito o que não é de todo um escândalo de arrancar cabelo ou de depilar o cérebro.

 

Minhas caras, o rapaz não se sente atraído por mulheres de cinquenta anos.

Meus amores, todas as campanhas publicitárias, desde a da batata frita no pacote à dos coentros e rabalhetes, pensam e mostram o mesmo.

Não precisávamos era de conhecer as formas que o homem encontrou para se tornar um ridículo galifão a tentar erguer a crista, mas a preferência de um homem entradote por corpos de mulheres mais novas, não traz mal ao mundo. Pode eventualmente originar a compra de um Porsche descapotável vermelho para estacionar junto aos portões das escolas secundárias e inflacionar a venda de cola para dentadura, mas não afecta as cinquentonas que, divertidas, olham a coisa mais linda, que vem e que passa em doce balanço a caminho do mar, o Menino do Rio, o calor que provoca arrepio, o dragão tatuado no braço, o calção, o corpo aberto no espaço e por ali fora até ao refrescar da onda. 

 

Não sejamos más.

 

Todas as mulheres de mais de quarenta e muitos anos que a Gaffe conhece se divertem a congeminar perversidades maravilhosas protagonizadas por rapagões saídos há dois, ou três, ou quatro anos, de uma adolescência de ginásio, ainda com os olhinhos brilhantes de inocência fit, slim e menos coisas e mais coisa.

São mulheres estupendas, poderosas, bem-humoradas, belíssimas, que também gostam de publicidade a espumas de barbear, que já concretizaram sonhos, que já floriram, que já dão sombra, que já caminham seguras e perfeitas pelos trilhos que desenharam e que limaram - muitas vezes usando homens de cinquenta anos que preferem mulheres de vinte e cinco. Todas reconhecem que alguns - muitos - destes jovens equilibristas musculados não vão entrar no circo dos seus amantes, porque sabem que a idade dos meninos não se coaduna com a perícia de uma mulher que aprendeu a voar sem rede.

 

Não sejamos implacáveis. Todas temos de reconhecer que um atleta olímpico em idade tenra, ou um menino muito grande que ainda mama no dedo, é bem mais atraente que Yann Moix. Nós apenas não estacionamos o Prosche descapotável à entrada da Secundária e não nos babamos ao dar entrevistas.

 

A Gaffe sente-se esgotada com estas manigâncias, sobretudo porque são tolices destas que lhe aniquilam a atracção que sempre sentiu por homens mais velhos.

 

Decide, em consequência, deixar de estar atenta a burburinhos.

Vai dedicar-se ao arroz de atum, a servir chá a psicopatas e a curar os senhores dos tais vãos de escada.  

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A Gaffe da Porto Editora

rabiscado pela Gaffe, em 17.01.19

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Vá, sejam educadas, pessoas nervosas do facebook.

Já bastou o alarido que fizeram, bradando pela exclusão e queima da obra, quando deram conta que estava à solta uma frase mais marota de valter hugo mãe que podia ser injectada nos vossos rebentos conspurcando-lhes a inocência.

Agradeçam à censura por vos ter revelado que existe a Ode Triunfal de Álvaro de Campos que por acaso contém os versos:

 

(…) Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas (…)

 

(…) E cujas filhas aos oito anos - e eu acho isto belo e amo-o! –

 Masturbam homens de aspeto decente nos vãos de escada. (…)

 

 

Convém ler o resto. Há o resto. Não se fiquem por aqui, por muito que o desejem.

 

A Porto Editora é tão imaginativa quando decide divulgar a obra de um poeta!

 

Imagem - Teresa Oaxaca

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A Gaffe laminada

rabiscado pela Gaffe, em 16.01.19

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A Gaffe apela a todos os homens!

A Gaffe exorta todos os rapagões!

 

BASTA de infâmias profanadoras da vossa sagrada e milenar virilidade.

 

Homens de todo o mundo aliem-se à campanha contra o politicamente correcto, contra a desvergonha desarvorada, contra o ataque à masculinidade sólida e ancestral, contra a pilosidade facial expressa pelas lâminas malditas que atentam contra o que de mais tradicional existe nas  vossas cuecas que coçais em pleno campo de batalha onde as vossas equipas cospem para o chão interminavelmente, pese embora o piso fique escorregadio e o árbitro rejubile assistindo às vossas quedas aparatosas e dignas de penalties a favor da elevação da besta a campeão.   

 

Não temais!

 

Ao vosso lado estão já jornalistas, actores, pivots e pevides. Nada há a temer, a não ser o avanço descontrolado daquilo que ameaça a testosterona capaz de dominar as feras soltas, de jubas ao vento e saias travadas e boas, mesmo a pedir que as alimentem, nas ruelas da vossa imaginação e nas ruas onde balançais o corpo másculo a caminho do mar.

Ai, que coisa mais linda!

Homens de todo o mundo, deixai a barba crescer.

Amaldiçoai a Gillette, candidata a castradora da liberdade de se ser mamute.

Lutai pela manutenção da tradição, da transmissão da ancestral forma de se ser um chimpanzé psicótico, insultando o chimpanzé e majorando a psicose.

 

Avançai, meus queridos!

 

A Gaffe sempre disse que quem retira a barba a um homem, lhe arranca ao mesmo tempo a pila.

Há que sentir musculado orgulho em conseguir viver com estes dois apêndices sozinhos.    

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A Gaffe em manutenção

rabiscado pela Gaffe, em 16.01.19

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Depois de ter decidido pagar apenas o que consumia, a Gaffe optou por um tarifário livre, com carregamentos soltos e de valores opcionais, para poder sentir que não estava a ser descaradamente roubada pela Altice, operadora que tinha escolhido por razão nenhuma e porque a enche de tédio ter de ouvir as assistentes da concorrência a impingir-lhe os mesmos serviços pelo mesmo preço, mais cêntimo, menos cêntimo.

 

Ufana, desandou por ali fora, com a certeza do dever cumprido e a murmurar o consagrado a mim ninguém me engana, com um ar de Manuel Alegre na tourada.

 

Dias depois, recebeu uma mensagem reportando que lhe tinha sido retirado um euro do saldo, para manutenção do cartão.

Dias depois destes, recebe nova mensagem a informar que se tinha eclipsado mais um euro e mais pico, para manutenção do cartão.

A Gaffe ficou pasmada. Não imaginava que um retângulo tão pequenino acumulasse tanto pó e fosse de tão rápida degradação.

Dias depois destes dias, foi amavelmente brindada com uma frase lapidar que lhe comunicava que o cartão ficaria activo até um dia determinado e que, passada a fatídica data, esta rapariga deixaria de poder efectuar chamadas, mesmo que não tivesse esgotado o saldo que, descobriu de repente, não era cumulativo.

 

Ficou decidido deixar que a implacabilidade do tempo realizasse o dano que a ameaçava.

A Gaffe ficou com um cartão de telemóvel amputado e a felicidade raiou como naquelas fotografias lindíssimas que aparecem no facebook a abençoar frases desgarradas, mas sempre de utilidade extrema.

 

Segundo informação não fidedigna, o cartão será desactivado definitivamente ao fim de três meses de inactividade. A Gaffe tem de agendar a ida ao funeral, que isto de se ser de boas famílias exige sacrifícios.

 

É curioso verificar, por exemplo, que este procedimento é muito similar ao aumento das reformas anunciado em forma de slogan. As pobres olham os foguetes que se lançam e estrelejam e pasmam seduzidas, dispostas a aclamar a benevolência e o altruísmo de quem olha as folhas de Excel com um desprezo humanista e se curva perante a miséria alheia, retirando-a do lodo onde a enfiou. Passados dias - provavelmente o mesmo tempo que leva a chegar a mensagem da Altice ao telemóvel -, o IRS sorve o saldo para manutenção do cartão.

Fica no ar apenas a vaga ideia da pagela no facebook com conselhos e aforismos fanados.

 

É interessante apurar, por exemplo, que a Altice se comporta como as Câmaras cravadas nas zonas em agonia, destruídas por incêndios, que distribuem a grupos de jovens voluntários - que se revezam mês após mês, chegados de várias zonas do país às terras assoladas -, carvalhos, pinheiros e sobreiros, cuja aquisição foi subsidiada, e que não as regam, que não as cuidam, que não as protegem, depois de plantadas, tornando imbecil e patético o voluntariado que se depara, mês após mês, com a morte das árvores pequeninas. Voltam para recolher outras. A Câmara - logo que recuperada a casa de férias do amigo - fornece-as subsidiadas, porque há que fazer a manutenção do cartão.

Fica no ar apenas a vaga ideia da pagela no facebook com conselhos e aforismos fanados.

 

É simpático atestar, por exemplo, que a Altice se comporta como aqueles que vão provando que o jornalismo desapareceu do quotidiano das gentes. Restam resíduos avulsos que cospem fast-food servidos em embalagens de plástico descartável que referem a grande reportagem, ou a investigação jornalística, antes de segurar o guardanapo que limpa aberturas de noticiários com telefonemas populistas de presidentes narcísicos, pois que é necessário fazer a manutenção do cartão.  

Fica no ar apenas a vaga ideia da pagela no facebook com conselhos e aforismos fanados.

 

É estimulante confirmar, por estes poucos - e por outros mais exemplos que se calam, pois que iriam deprimir esta chamada -, que o país é apenas e cada vez mais uma rede de comunicações - privadas ou públicas - com uma razoável equipa de marketing e que, no fundo, tudo se resume à manutenção do cartão e a uma pagela no facebook com conselhos e aforismos fanados.

 

Por isso a Gaffe decidiu - enquanto pode -, mal recebe uma chamada de uma operadora que lhe quer anunciar a Boa-Nova, sussurrar num tom arrastado e rouco, mesmo antes de ouvir o que quer que seja:

 

- Já está, mas há sangue por todo o lado.

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Gavetas:

A Gaffe de saída

rabiscado pela Gaffe, em 15.01.19

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Theresa May já tem um plano B.

É igual ao plano A, mas com mais whisky.

 

Ilustração - Miles Hyman

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A Gaffe sem calças

rabiscado pela Gaffe, em 15.01.19

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A Gaffe acaba de saber que se vai dar continuidade ao dia sem calças, abraçando-se mais uma vez um evento com raízes fora deste jardim.

 

É divertidíssimo, embora por cá se tenha perdido o objectivo que guinou o acontecimento e que nos reportava a uma disrupção, uma ruptura, uma propositada e consciente negação do normalizado e do normativo.

 

Estas pequenas tontices são maravilhosas como forma de afirmação pacífica, e provavelmente inofensiva, de independência em relação ao estipulado como regra burocrática ou acinzentada. Fazem com que nos encontremos com imagens que gostaríamos de banir para todo o sempre e, compensando a onda polar, outras que aquecem os nossos sonhos menos próprios e menos públicos.

 

Nada mais do que tal.

 

A repercussão do ocorrido não adquire dimensões significativas e é aceite como divertido modo de um adulto apanhar frio e aparentar um ar um bocadinho totó, laró, ligeiramente parvo, de pasta séria, carranca fechada, sapatos bicudinhos, gravata esticada e cuecas limpas e pacatamente exibicionistas.

 

O que causa dano nas hostes mais conservadoras, mais uma vez imbuídas de pudores suados, mais uma vez saturando o ar com uma dose engarrafada de bons costumes, é a possibilidade de ofensivamente se notar muito a pila - traumatizando as criancinhas pobres que não vão à praia -, ou a eventualidade da moçoila se estar a colocar a jeito.

 

Estas preocupações recorrentes - sobretudo quando a Maria José Vilaça não opina, fomentando a cura para estas disfunções -, atinge uma gama significativa de tolices sem importância.

É enternecedora a indignação destes escandalizados defensores do lógico intransigente, que muito possivelmente faz companhia à que rasga as vestes quando um rapazola se lembra de vender engarrafado o ar de Fátima, com planos para fazer o mesmo ao ar de Lisboa - há décadas que existe enlatado o ar de Paris, o ar de Veneza, o ar de NY e o ar de quem viaja por todo o lado. As latinhas são uma delícia! 

 

Este tipo de indignação, de choque, de revolta, de escândalo, desconhece que a apetência para transformar a tolice inofensiva em fait-diver turístico - logo ali ao lado dos porta-chaves, dos pins, dos ímanes para espetar na porta do frigorífico ou de outras centenas de recuerdos inimagináveis que abundam nas mais variadas esquinas de todas as cidades visitáveis do planeta -, não provoca o colapso do universo.

 

Parece, no entanto, evidente que esta capacidade para inventar razões para sorrir, é causa de muitos abalos ou mesmo do soçobrar dos universos dos que usam, pela vida fora, apenas as calças onde só há bolsos para enfiar o que há muito engarrafado lhes avinagrou o cérebro.      

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A Gaffe com alfinetes

rabiscado pela Gaffe, em 15.01.19

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O camafeu de marfim está seguro ao ombro de forma desleal. O alfinete atravessa a alça do soutien nevado pelo tecido da camisa ténue.

A minha irmã usa os alfinetes de modo pérfido. Nunca se agarram ao que é mais evidente. Cravam-se na sombra. Espetam-se no escuro. Penetram o insuspeito.  


- Dizem que usas o poder de forma masculina - pico e só depois explico, socorrendo-me do que ouvi há muito tempo. 


Ergue os olhos pardos. Vejo cintilar as lâminas. Cruza as pernas demasiado altas, demasiado esguias, e faz rolar o silêncio devagar na baforada do fumo de um cigarro.  


- Ingénuas. Quando o poder é masculino, é também maricas. 

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A Gaffe escreve a Maria José Vilaça

rabiscado pela Gaffe, em 11.01.19

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Maria José Vilaça, meu anjo,

 

Não pensava voltar a si, acredite, mas não consigo ficar indiferente às suas mais recentes intervenções, tão sacras, relativas à maleita da homossexualidade, depois de Ana Leal ter conduzido uma reportagem - que me provoca alguns solavancos e enjoos éticos - sobre o seu trabalho.

 

Suspeito, sua marota, que de tanto tentar estender o pálio anacrónico àquilo a que chama surtos psicóticos, provocadores de sofrimento e drama, está - como diz o povo -, a tentar fugir com o rabo à seringa, pois que ninguém sexualmente estabelecido – com casa e mesa e roupa lavada -, se preocupa tanto com a dor dos doentes que padecem de homossexualidade como alguém que tem periclitante a sua própria mobília.

 

Nem mesmo os homossexuais.

 

Interpelo-a por mera curiosidade.

Seria adorável que me descrevesse uma sessão daquelas onde inicia a cura da enfermidade que tanto a perturba e que tanto lhe desperta a vocação de milagreira que é coadjuvada pelo cura da esquina, ou pelo pároco do beco.

 

Começa por rezar o terço, ou vai directa à benzedura que exorciza o espírito do mal, alojado na pobre alma do seu paciente?

 

Encharca-o de orações e de xanax - não são a mesma coisa - ou dá-lhe tau-tau no rabinho?

 

Inicia o tratamento encaminhando o doente para o confessionário - apoio espiritual, como diz -, ou usa o método do reflexo condicionado, electrocutanto os testículos, ou os mamilos - caso seja lésbica a possessa -, dos pobres diabos sempre que lhes é mostrado uma das obras nuas de Mapplethorpe, doente que tanto  aborreceu Serralves, ou a página central de uma play-boy dos anos oitenta?

 

embora num primeiro vislumbre tal pareça, não são questões de somenos importância, pois que até me enche de curiosidade este último método como relaxante e superador das tensões dos outros. Dos outros, que eu sou, como a menina, muito altruísta.

 

Das suas respostas, minha tão informada artista, depende o bem-estar de milhões de pacientes que sofrem horrores, que suportam dores imensas, que vivem pesadelos, que são limitados por não terem ainda visto a luz e que esperam desesperados que haja vaga na agenda das suas consultas.

 

Esqueça, boa fada, aqueles que responsabilizam também gente como a Maria José Vilaça por muito do sofrimento a que tanto a menina quer dar fim.

São pecadores bipolares.  

 

Ilustração - S. Cracker

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