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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe violadora

rabiscado pela Gaffe, em 16.11.18

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Na Irlanda, pedaço de bela terra que - em simultâneo com a Escócia -, apaixonou a Gaffe irremediavelmente, coexiste ao lado das mulheres uma quantidade assustadora de australopitecus.

 

Alguns deles são mulheres.

 

Em cada pub de esquina, urbana ou nem por isso, bolsar misoginia, machismos tacanhos e preconceitos bolorentos eivados de testosterona, não é de todo raro. Os irlandeses são, ao contrário do que se possa acreditar, genuinamente imbecis e raquíticos no que concerne à mais ténue e diáfana manifestação de feminismos, quaisquer que sejam, sérios ou parvos, sóbrios ou ébrios, reais ou escanifrados, respeitáveis ou desvairados.

 

A sentença que iliba um homem do crime de violação, alegando, entre outras barbaridades, que a vítima estava na altura do sucedido a usar cuecas fio-dental – uma coisa horrível que se mete nos dentes de trás e que incentiva ataques de trogloditas -, não é chocante numa Irlanda repleta de charutos mentais fumados nos grosseiros quintais dos preconceitos medievos. Não é de arrancar cabelos saber que o ronco escrito em letra oficial foi emanado por uma Meritíssima. A Irlanda é, neste aspecto, muito amiga da Relação do Porto e das suas sentenças em casos similares.

 

A Gaffe começa a amortecer a indignação relativamente a estes casos. Sabe - porque lhe disseram, que esta rapariga é de boas famílias e não pisa estrume - que uma pocilga só  medra - ou merda - se os porcos forem alimentados com detritos alimentares, restos, coisas velhas quase podres, tudo mesmo fora do prazo de validade. Parece que depois, isto tudo digerido, dá toucinho, presuntos, rojões e coisas imensamente salgadas que provocam hipertensão e matam imenso.

 

A Gaffe propõe a todas as meninas um desafio.

 

Cada uma de nós vai poder escolher aqui o menino que vai violar, tendo em conta o pacote - de roupa, ou outro qualquer - com que tenta esconder o que nos deixa dementes.

 

A Gaffe exclui da lista o educadinho, pois que já o marcou como seu.

 

Não se preocupem, minhas queridas, estamos a salvo, desde que arguamos que o rapaz, na altura do alegado acontecimento, estava a usar arames nos dentes, que é coisa para nos levar a uma loucura sadomasoquista.

 

 

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A Gaffe e os quatro magníficos

rabiscado pela Gaffe, em 15.11.18

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A Gaffe acredita que deixou de ser necessário repetir o agradecimento aos dois alucinados que se propuseram encetar e levar a cabo um trabalho que os endoidecerá de vez, mais cedo ou mais tarde.

A Gaffe sabe também que o prazer de lhes entregar os parabéns é comum a todos os que assistiram ao desenrolar do processo.

 

É agora, isso sim, necessário continuar a apoiar a iniciativa, votando nos que foram selecionados para a fase final.

 

A Gaffe está ali, nua, desprotegida, na categoria Opinião, ao lado de quatro potentados.

Como toda a gente sabe, é muito bonito - e fica sempre bem -, vestir os nus e abrigar os desvalidos.

 

Então vá.

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A Gaffe encarpada

rabiscado pela Gaffe, em 14.11.18

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Foram decepadas as hortênsias. Em bisel, um golpe curto, quase rente ao chão.

A mágoa de as ver tolhidas pelo Inverno; a saudade dos globos de cor anil, azul-cobalto, enferrujados pelo frio e a tristeza do destino igual ao das sardinheiras de Espanha que eclodiram gigantes como astros de flores ensanguentadas, são amornecidas pelas promessas geométricas das Black Lace que pesam nas japoneiras, em segunda linha, de troncos retorcidos de tão velhos.

Em breve - o mais tardar, Fevereiro - serão o caminho da cisterna.

 

Agora não.

 

O caminho da cisterna é uma nudez entretecida de névoa e de gestos negros de raízes que rasgam a superfície da terra. É o parir do Inverno. Os dedos ríspidos de criaturas cegas pela geada das manhãs dos frios da terra que os gerou. Este estarrecido espanto de sentirmos o silêncio a abrir os interstícios deixados pela morte das pétalas.

O caminho da cisterna é labiríntico. Não pelo traçado que dele se fez, mas por estes dedos que se distendem e que se cravam depois nos lanços mais distantes.

 

Às vezes, há minúsculas passos de fantasmas nas águas que tombam nas ausências das sombras dos teixos. Às vezes, passa um pássaro enlouquecido pelos gritos dos pavões encharcados de frio. Às vezes, a casa é tão distante que nela não entramos sem ter os pés lanhados. Às vezes, a cisterna aberta em círculo cor de chumbo, estanca-nos a vida. Sentimos e há raízes, há dedos das raízes a crescer-nos nas veias, a trespassar-nos as veias, a seguir-nos nas veias.

Às vezes, acabamos por ser frio.

 

As carpas imóveis do lago longe, longe, tão longe daqui, abrem as guelras perto das asas do anjo de pedra.

 

Às vezes, abrem-se as pedras do lago do meu peito e dentro das raízes da cisterna voam carpas. 

 

Chega o Inverno. 

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Gavetas:

A Gaffe coleccionadora

rabiscado pela Gaffe, em 13.11.18

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No início das nossas adolescências, o meu avô perguntava-nos que colecção queríamos fazer.

Não se colocava a hipótese de não coleccionarmos o que quer que seja.

 

Sentava-se no cadeirão favorito, virado a Norte para ouvir o vento frio que uivava arrastado pelos socalcos, e tamborilando no braço de couro com os dedos finos e longuíssimos - um ruído seco, curto e confortável que nunca deixei de recordar -, inspeccionava as nossas escolhas, alterando alguns detalhes, aconselhando, guiando, e exaltando o coleccionismo como contributo para a selecção, estudo, organização, método, rigor, persistência e capacidade de preservação e mesmo de sobrevivência que, segundo o meu avô, deveriam pautar as nossas vidas futuras.  

Uma vez por mês, o meu avô fiscalizava o nosso trabalho. Ralhava-nos ou elogiava-nos, conforme o cuidado ou o desleixo do que tínhamos cuidado do obtido e fornecia-nos instrumentos que sustentavam e permitiam proteger o que tantas vezes nos desinteressava.  À medida que o tempo caminhava, estas vistorias iam rareando, até desaparecerem por completo, quando nos tornávamos maiorzinhos.  

 

A minha irmã escolheu coleccionar insectos.

Havia-os no jardim e foi fácil encontrar alguém que por ela os recolhia.

O meu avô sempre soube da pequena vigarice, mas, mesmo assim, tornava obrigatória a catalogação respectiva do espécime. Ofereceu-lhe a caixa de vidro onde era possível cravar os pobres bichos ainda vivos.

A minha irmã não se tornou uma entomóloga, mas adquiriu uma extraordinária mestria em alfinetar os outros.

 

O meu irmão, chegada a sua vez, escolheu coleccionar minerais.

A distinção entre estes e as rochas era difusa e muitas vezes complicada. O meu avô guiou-o e com a paciência dos sábios foi descobrindo com ele o sector onde, na biblioteca, morriam de tédio os volumes dedicados à mineralogia. A classificação e a catalogação eram igualmente obrigatórias e as caixas das amostras amontoam-se algures no sotão da casa.

O meu irmão não se tornou geólogo. É engenheiro físico o que significa que não sei o que faz. Suponho que é uma profissão que o obriga a viajar imenso e a apaixonar-se amiúde por nórdicas altíssimas, magras e ondulantes, sem qualquer rigidez ou característica mais rochosa do que as já esperadas.

 

Eu morria de medo.

Não sabia o que escolher. Não podia - e os deuses testemunham que não queria - repetir as preferências dos meus antecessores e nada havia que, ainda que vagamente, me interessasse, ou que estivesse logo ali à mão de semear.

 

O meu avô, tamborilando no braço de couro do cadeirão virado a Norte, na sala do vento Norte, com o Norte a uivar ameaças, declarou aberta a minha escolha e esperou quieto, atento, curioso, matreiro.

 

E eu escolhi.

Escolhi o que me pareceu tão fácil.

 

Palavras.

 

Escolhi coleccionar palavras.

 

Todas os meses - uma vez por mês -, o caderno grosso de capa preta que me ofereceu, era revisto.

Todos os dias dos meses guardava as palavras que nunca tinha ouvido antes, que nunca tinha lido antes, mas que me soavam a respirar, a sabores, a cheiros, a gente a chorar, a risos de gente, a sinos, a borboletas, a azul e a cor-de-laranja, a rosas bravias, a tristeza, a árvores de Outono, a folhas, a cães a ladrar, a cancelas a abrir, a veludo, a vidro, a estradas, a grutas, a linho, a trigo, a chuva, a saudade, a pombas, a rio, a mãe, a mel e todas as outras que desciam lentas para o meu coração.

 

O meu avô nunca me ajudou a decifrar o que cada uma tinha dentro. Sorria, fechava o caderno e segredava-me, muito perto do ouvido para que nada fugisse, que eu tinha a colecção mais difícil de todas.

 

Nunca preenchi o caderno grosso de capa preta.

Sempre soube que não valia a pena tentar.

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A Gaffe de John W. Waterhouse

rabiscado pela Gaffe, em 12.11.18

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Emília Cerqueira no papel de Egas Moniz.

- Qu’isto é tudo umas galdérias.

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A Gaffe de S. Martinho

rabiscado pela Gaffe, em 12.11.18

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Depois de quase uma década de esquecimento, os festejos da noite de S. Martinho, neste recanto do Douro, saltaram do escuro orvalhado das sombras há uns - poucos -, anos, autorizados e patrocinados pela minha avó.

 

A minha irmã, sem ainda ter reunido a coragem para os anular, deixa que mais uma vez se espalhem na eira secundária e desactivada que foi coberta de telas, longe da casa e perto dos fogos de risos coloridos e de alma em fogareiro fumegante.

O cheiro a castanhas assadas, jamais suportado pela minha irmã - o estômago da gentil senhora, de extremos histéricos, entra em convulsões frente a castanhas e a chouriço assado -, não se coaduna com o seu Dior creme, crème de la crème. Desce, sustendo a respiração e abanando a mão em frente do nariz. Encaixa as pernas, o charme e o glamour no carro que a levará aos grandes chefs de pequenas doses de mundos diferentes, com hábitos menos aromáticos, mas que a minha irmã prefere, tentando depois recuperar as forças nas receitas durienses e o ar nas varandas solitárias do Douro anoitecido.

 

Eu fico.

 

Não há nada como um oportuno pedido de ajuda no planear da festa para que uma tímida ruiva tenha o prazer de enfrentar uma inevitável carga de abraços e de sorrisos contaminados por olhares marotos.

 

Juntos, eu e o Douro, sentimos que o peso da coroa é menor e que há sempre a hipótese de um abdicar sem que ninguém sinta a falta de um ceptro.

 

A minha presença não é completamente aceite.

O Douro comigo hesita, oscila e bamboleia. Não sabe se me quer, se não me quer. Quer beijar-me a alma, já rendido, mas esperar que de joelhos eu rasteje.

Sorrio e sei que sou demasiado tonta e insignificante, exageradamente colorida.

Facilita o facto de eu sugerir inocência, achada num qualquer socalco de abandono citadino, enfiada num blusão de malha amarrotada, de manta a cobrir-me os ombros que faz frio, e com uns jeans que já viram melhores dias.

Há o notório despertar de uma muito vaga ternura solidária ou de uma solidariedade ternurenta assente no facto de parecer tão desprovida e despojada como este povo para quem a hospitalidade é decisão absolutamente pessoal e pautada por critérios pouco compreensíveis, porque pouco objectivos e muito pouco claros.

A aparência, aqui, é tida como nota capital - como pena capital? - e é um dos elementos responsáveis pelo ostracismo a que é votado o que é estranho ou pela sua aceitação eufórica e entusiasta. No Douro, a primeira impressão tem grande valia e deixa marcas indeléveis nos costados do incauto. Somos amados ou olhados com uma desencorajadora falta de confiança logo no primeiro lance do avistar. Errada ou não, é desta sensação primária que parte o julgamento inteiro que nos condena ou iliba.

Comigo o Douro hesita. Não sabe se há-de amar, se ser amado. Não pode adivinhar, o Douro, que a estrangeira não lhe vislumbra no desfiar da paisagem o mais pequeno fio, o mais pequeno elo da corrente que faz do desamor prisão perpétua.

Não sabe, não pode adivinhar. Por isso hesita.

É nessa hesitação que vou ficando. É nesse balançar que vou permanecendo ilesa e impune, evitando a agressão das pedras cor de cinza e da terra escura torcida pelas vinhas nos olhos do Douro e nos da sua gente.

 

Alguém escreveu, talvez numa noite de S. Martinho mais ousado e mais bebido, que a qualidade de vida de uma população, mesmo até o seu nível cultural e civilizacional - agora é tão moderno que se diga -, se reflectia no estado dos seus dentes.

Se assim visto, o nível referente à qualidade de vida, se assim pensados os estados, ou estádios, culturais e civilizacionais, depressa concluímos que esta gente é a negação de qualquer dentista.

Não há dentes e mesmo quando enegrecidos vestígios se vislumbram, estão cravados em gengivas magoadas que por pouco tempo mais suportarão os tocos e mesmo quando na boca de alguns mais novos, adquirem colorações estranhas, como se os donos mascassem folhas de tabaco a toda a hora.

 

Mas os velhos cantam mesmo assim e há raparigas que riem risos brancos enquanto soltam canções tilintantes e rapazes que estalam a língua e abrem a boca de espanto luminoso enquanto penduram luminárias por entre os ramos das árvores mais baixas que abrigaram da chuva.

As raparigas, de rechonchudas curvaturas tigresse, sobretudos loiras oxigenadas, de nails arco-íris, cruzam os braços encaixando-os entre a barriga e as mamas. Cochicham, tilintam, retinem, coradas e ansiosas, com as pernas vagamente abertas, roliças, mornas, nervosas, suadas. Sorriem, descaradamente tímidas, e esperam os olhos dos rapazes que, sempre aos pares, dividem a coragem da aproximação. Não há subtis manobras. Os jovens machos, de narinas trémulas, de parietais rapados e occipitais escanhoados, com melenas lustrosas no topo da cabeça, de Adidas brancas a cintilar nos pés, de calças justas que acabam nos tornozelos e Kispos enfolados, sorvem os cheiros distinguindo o das fêmeas e seguem a pista. Alguns não vão saber nunca o poder que trazem nos corpos morenos e duros. Mostram o capado, mas de forma explícita, que de tão nua e crua, perde toda a força e reduz-se ao exibir dos músculos moldados pela força do trabalhar a terra. Não há inteligência na forma de usar os corpos forçados e tesos e fortes.

 

As condições estão mantidas:

- Nada mais soará para além da música com sabor a terra.

- O rancho bailará só até às duas da manhã.

- Nada de foguetes.

- Não se darão asas gigantes à multidão que se adivinha a voar picado.

- Haverá rígido controlo sobre os desmandos do vinho que escorrer e um domínio claro sobre a euforia tonta que toca aflitiva as raias do histérico quando a noite avança e dança demais.

 

Que se baile então, obedecendo. O frio é da terra e a terra é de noite cantando fogueiras. Que baile esta gente, bailando no meio das quadras brejeiras. Quadrados, quadrículas marcadas no chão - não vá ser pisado pudor ou decência - com os aguçados lápis azuis dos olhos das velhas que sentadas vão roendo a carne que sabe a castanhas e sorvendo o vinho como a terra água.

Que se baile então debaixo de lâmpadas fracas de cores bem vistosas suspensas por fios cruzados, confusos, comigo perdida nos traços que fazem na palma da noite.

Que baile este povo sisudo e fechado em frente a uma ruiva de olhos pasmados que morre de inveja por não saber ser a festa na aldeia quando o pulsar é terra que dança; uma ruiva que se esgota numa dança de manta nos ombros a tiritar de frio, sem luz e sem brilho de rua em Paris.

 

Que baile este povo por saber que o Inverno é o baile que gela uma terra escura, mas que é também a dança que se quer largada, porque é uma espera do tempo do colorir das uvas.

 

Foto - Piotr Kowalik

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A Gaffe tigresse

rabiscado pela Gaffe, em 08.11.18

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No aniversário de Marie Curie - a menina, convém referir, faz hoje 151 anos -, a Gaffe fica perplexa quando se lhe depara uma magnífica fotografia da Conferência de Solvay em 1927, onde ninguém está a usar padrões tigresse.

 

Se por um lado é compreensível que a cavalheiros os ditos não favorecem, é por outro escandaloso que Marie Curie não reforce a sua feminilidade com uma peça, um apontamento, uma nuance, um sapato, ou uma calça, ou uma luva - ou qualquer coisa assim no singular -, uma bandolete, um cintinho, um chapelinho, um lencinho, um niquinho de trapo ou uma pochete, em padrão tigresse.

 

Tendo em consideração que a cientista é o único pipi a marcar presença entre as pilas nobelizadas ali presentes, e sobretudo o único pipi a quem foi atribuído por duas vezes o Prémio sueco, seria de esperar que marcasse a diferença, que desse nas vistas - embora no caso até se compreenda que não -, com uma nota tigresse que é, sabemo-lo hoje, o orgasmo de toda a mulher que se preza - e das outras também.

 

Sendo o padrão tigresse a maior porcaria, a maior imbecilidade, a maior pantufada, a maior cacada, o mais ranhoso dos padrões mais ranhosos, uma das mais irritantes visões da humanidade, a maior ofensa ao bom-gosto e a negação absoluta do bom-senso, seria de prever que Marie Curie o usasse. Demonstrava às pilas contentes - às do passado e às de tanto presente - que por muito Nobel que ganhe, uma mulher vai continuar parva o tempo todo.

 

Assim, Marie Curie provou apenas que dois passarinhos na mão, valem muito mais do que uma data de pilas no ar.   

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A Gaffe narradora

rabiscado pela Gaffe, em 08.11.18

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A Gaffe reconhece que deviamos apenas usar as palavras quando elas são melhores do que o silêncio, no entanto existe pouca coisa mais dolorosa do que guardarmos dentro uma história que não contamos a ninguém, sobretudo porque nunca saberemos se por causa dela seriamos amados por alguém.

 

Imagem - Denis Sarazhin

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A Gaffe de automóvel

rabiscado pela Gaffe, em 07.11.18

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Quando nos abrem a porta de um Mercedes 300D, ficamos com receio que a criatura, por mais clássica que seja, nos obrigue, depois de sentadas, a meter os pés à estrada e a desatar correr para chegar ao destino.

Se o nosso receio vem acompanhado pelo orgulho do dono que nos segreda:

- É um W123!

É conveniente deixar escapar de olhos muito abertos um AHAHAH! prolongado, com um tracinho de grande admiração misturada com uma pitada de deslumbramento e outra de surpresa.

 

É sempre muito eficaz, sobretudo quando não fazemos a mínima ideia de que porcaria se está a falar.     

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Gavetas:

A Gaffe muda

rabiscado pela Gaffe, em 06.11.18

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Há uma hora em que não ouço a minha Avenida.

 

Próxima do alvorecer, a hora do deserto interrompe as ruas e passa como um vadio com o silêncio nos bolsos. Nessa hora, o mar não tem queixume e dele apenas sinto as mudas ondulações da desbotada lua.

É a hora das palavras por dizer. Chegam nos bolsos do vadio que passa, junto aos silêncios, e ficam presas nos frouxos candeeiros como frutos ou pombas ou pedaços de gente bêbada, escura, que adormece.

 

Invento o meu ruído, nessa hora. O que me faz ouvir o que nas outras horas emudece. Abro a porta e debruço-me nos bolsos dos vadios, dos que usam o silêncio como frutos ou pombas ou travos de gente pendurada nos vagos candeeiros e deixo que as palavras sigam deslumbradas como se tivessem nascido há pouco tempo e pasmadas se infiltrassem nos rochedos.

 

A minha hora muda é o silêncio dentro dos vadios e uma mulher com cabelos soltos, nua, morta sobre as ondas.

 

Foto - Mario de Biasi

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A Gaffe do rebanho

rabiscado pela Gaffe, em 30.10.18

 

 

Coitados dos cordeiros quando os lobos querem ter razão.

 

Foto - René Maltête

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A Gaffe envernizada

rabiscado pela Gaffe, em 30.10.18

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Meus caros,

Ficamos a saber que Isabel Moreira não usa unhas de gel quando - nem sempre envernizada -, se esgadanha no Parlamento pelos direitos das mulheres. 

Agora seria engraçado que as redes sociais, dessem, pelo menos, uma pincelada de olhos no Orçamento - diz a Gaffe a retocar o batôn.

Cartoon - Haderer

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A Gaffe no banco de trás

rabiscado pela Gaffe, em 26.10.18

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Até à auto-estrada o caminho é de buracos e curvas apertadas e estreitas.

 

A mulher ao lado do condutor acomoda-se no banco de forma a minorar o transtorno dos solavancos. Usa o cabelo apanhado por um lenço de seda. Na terra havia apenas um cabeleireiro, um hair stylist, chamado Vitinho, que levava quatro euros e meio por lavar e pentear. Jamais a indignada cabeleira seria entregue a manápulas que, segundo lhe reza a história dos outros, de tão baratas não podem ser perfeitas.

Está em silêncio. O condutor olha-a de soslaio. Vê-a retirar da carteira a cigarrilha.

 

- Não podes fumar aqui - diz o rapaz.

- Vamos ultrapassar a Sharon Stone e abrir a janela do teu lado.

 

Acende o cigarro e espalha o fumo do primeiro travo como se fosse urgente o nevoeiro para disfarçar imperfeições que não existem.

- A tua agressividade é de uma inutilidade confrangedora.

A mulher permanece calada. O fumo do cigarro a esvair-se.

 

- Que foi agora?

- Estou a imaginar a tua frase dita pela Eunice Munoz vestida de freira, encenada pelo Diogo Infante.

- Viste a peça? Sempre achei que fosses mais Ionesco.

- No máximo Brecht.

 

Calam-se.

 

São cúmplices há demasiado tempo e o silêncio é permito sem constrangimentos entre os dois. Ambos reconhecem o que é inútil e o rapaz percebeu há muito tempo que a mulher manipula as decisões do clã de forma insuspeita, mas irrepreensivelmente eficaz. Ela sabe que o homem que agora tossica de forma irritante repleto de fumo, resiste às investidas do touro que é solto quando nas arenas o público o exige.

 

Seduzem os dois da mesma forma. Espiando a vítima. Preparando o lugar da emboscada e conseguem suportar a espera, aninhados contra o vento, rasteiros, rasando o traiçoeiro, atentos a mais ínfima distracção daqueles que desejam e, na altura certa, escolhem o lugar exacto, o desacautelado movimento, o mais desprevenido gesto, o sítio, a veia, a artéria, o órgão onde cravar as garras.

 

Usam, os dois, um egoísmo exacerbado como arma, incontrolável e indomado.

 

É a força que provém desse egoísmo que os torna insensíveis à dor dos seduzidos e lhes apaga, anula e incapacita a urgência que é sentir o padecer dos outros como se deles fosse e os tocasse. São dois animais unidos pela única vontade de possuir por inteiro o que desejam. Esta é razão da indiferença absurda com que olham as vidas dos que não lhes acicatam apetites.

 

Nenhuma bandeira, pendão ou insígnia, nenhuma causa, partido ou revolta os irá motivar. São criaturas ímpias, sem nada que os force a erguer barricadas e a içar a voz, em forma de espada, em nome de alguém.

O rapaz entra na derradeira curva.

Vê o mar.

 

- Devíamos ser amantes.

A mulher hesita. Desvia o olhar e acende outro cigarro.

- Seria incesto, creio eu.

- Eu gosto do pecado. Até a palavra me seduz.

- Eu gosto de pecar, mas é mais sedutor ficar a desejar-te.

 

Ao longe, no banco de trás, assim narrados, os meus irmãos são bem mais fáceis de entender.

 

Na foto - Bozena Jelcic

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A Gaffe encanecida

rabiscado pela Gaffe, em 25.10.18

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Adolfo Dominguez é um dos mais prestigiados criadores de trapos capaz de produzir fortunas com peças suficientemente básicas e inteligentes que acabam a agradar a públicos diversos. Embora não seja - nem de longe, nem de perto -, um dos meus favoritos, é responsável por uma campanha admirável que visa a valorização da idade, a durabilidade, a qualidade e a longevidade - das peças e das pessoas.

 

Sé más viejo

 

O elogio da velhice, a promoção da sabedoria que advém da experiência e da capacidade de racionalizar - e relativizar -, o que se consome, está aliada ao enaltecimento daqueles que ostentam orgulhosamente as cãs que entregam o charme e a beleza inconfundível a quem sabe envelhecer.

 

É lógico que a campanha teve em consideração o facto de vivermos num planeta habitado por gente cada vez mais velha e necessariamente alvo de maior atenção dos publicitários ao serviço do consumo, mas é também verdade que a ainda lenta valorização do envelhecimento assumido sem artifícios, nos vai mostrado a extraordinária beleza das mulheres e dos homens que se vão afastando do ideal de excelência que entroniza a juventude, que lhe entrega a única e derradeira forma de se ser perfeito.

 

Cada um destes velhos nos prova, em todos os momentos, que envelhecer é somente uma outra forma de se ser magnífico.     

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A Gaffe na aldeia

rabiscado pela Gaffe, em 24.10.18

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Minhas queridas, nunca, mas nunca, se atrevam a visitar uma aldeia pitoresca que nunca vos viu mais novas, com os pés vertiginosamente enfiados no vosso glamour Louboutin.

 

O descalabro espera-vos.

 

Esqueçam a sofisticação do equilíbrio treinado nas ruas das capitais europeias; ignorem a delícia que é ver o pasmo das burguesas pequeninas e adocicadas, que saltitam excitadas na hora da catequese; procurem evitar o orgasmo que é sentir que, perto de nós, a princesa lendária que se espetou contra o poste, é cilindrada pelo nosso merecido cintilar.

Tudo o que é deslumbre, sedução e requinte se eclipsa no segundo em que o nosso pé Louboutin surge à porta do Jaguar para pisar as pedras da calçada.

 

A partir desse momento, tudo é trágico.

 

Se a sola rubra do sapato não pisar pistas biológicas deixadas pelas cabras - e não me refiro às catequistas - e por bois que quase nos enfiam o focinho húmido nas axilas, corremos o sério risco de nos estatelarmos no centro da aldeia, com o tacão cravado num interstício manhoso, numa fenda traiçoeira, nas pedras da calçada, sem termos sequer um garboso matulão Armani para nos amparar a queda. Se não formos mordidas pelas galinhas - falo também das catequistas - e sentirmos o nosso jovial conjunto, Valentino Verão 2017, esventrado pelas garras de gatos psicopatas, acabamos a enfardar chouriços de sangue suspeitando que o interior está recheado com uma das nossas incautas antecessoras.  

 

O campo, minhas caras, é um lugar perigoso para uma rapariga pedante, pretensiosa, afectada e snob como eu. Engana-se quem pensa que as cidades sobrelotadas são ninho de armadilhas, incubadoras de crimes. São as perdidas aldeias no perdido interior de Portugal o Dexter Morgan desta história.

 

Nunca, mas nunca, se esqueçam, na rota das aldeias esquecidas, de incluir nas vossas Louis Vuitton um parzito de chinelos que não vos descalce a dignidade e um rosário. Há que pedir a Deus para que, pelo menos, não se nos estale o verniz.

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