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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe na hidromassagem

rabiscado pela Gaffe, em 21.11.19

Remo

A Gaffe reconhece que os corpos masculinos mais extraordinários do planeta são os que a água ajuda a esculpir, seja de que forma for.

No entanto, meus queridos tritões, é destruidor pisarem terra com as barbatanas enfiadas nums miseráveis objectos que obrigam sempre - e comprometedoramente - uma rapariga a desviar o olhar, fixando-o no que mais em cima é bem melhor e mais eficaz que a hidroterapia.  

 

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A Gaffe malagueta

rabiscado pela Gaffe, em 20.11.19

-

1921

- O Domingos diz que está ansioso por "montar o pinheirinho de Natal".

… … ... ... ... ... ... 

... Há gente com uma vida sexual muito picante.

Mana

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Gavetas:

A Gaffe voltada a Norte

rabiscado pela Gaffe, em 19.11.19

Pietro da Cortona.jpg

A varanda voltada a Norte precipita-se sobre o rio como se o uivo do vento por entre as garras de ferro se tivesse unido ao silvo do chicote da água, em baixo, serpente a rastejar.

O meu céu é este.

Lanhos de rio erguidos nos socalcos. Chumbo e prata a pesar no granito de frio que trepa os troncos das árvores e as rugas do espaço permitido suportar pela saudade.

O meu céu é este rio cinzento que brilha como um fio de prata no pescoço da terra.

O meu céu pulsa como corre o rio.

Trago os pés gelados para pisar o céu. Todos os céus são rios que descalça toco, que descalça troco, porque a inversão da paisagem existe na lâmina da varanda voltada a Norte que duplica o frio dos meus pés que pisam água e céu e terra, tudo junto.

Trago vestido o ar que vem do Norte.

O meu céu é este rio cinzento dos socalcos e o precipício da varanda onde me debruço sobre a nudez da terra e emudeço no uivo do vento nos ferros e no silvo da água que caminha sobre o meu vestido.

 

Imagem - Il Trionfo della Divina Provvidenza de Pietro da Cortona

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Gavetas:

A Gaffe no "mêtodo"

rabiscado pela Gaffe, em 19.11.19

1955 Princess Yvonne and Prince Alexander of Sayn-

Levanto-me ainda com Rodrigo Moita de Deus na memória.

Apanhei-o algures a dissertar sobre aquilo que referia como os mêtodos de ensino.

Os mêtodos erraduuuuuussssss de ensino que o prepararam para não se preparar quando fala em ensino, para afirmar saber sem saber do que fala, para denunciar os mêtodos que também o formaram e que através dele provam que realmente, que verdadeiramente, são os erraduuuuuussssss.

 

Levanto-me cansada de Deus.

 

Na foto - Príncipes Yvonne e Alexander of Sayn-Wittgenstein-Sayn, 1955

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A Gaffe horrorizada

rabiscado pela Gaffe, em 18.11.19

A Gaffe horrorizada.jpgA Gaffe decidiu torturar os homens da casa. O maninho e o amigo gigantesco que veio passar uns dias junto desta ruiva. Ambos suplicam o comando da TV e a ambos é dada uma condição para o obterem. Devem confessar 10 atrocidades que cometem quando estão sós durante horas a fio, fechados em casa. Devem ser barbaridades que saibam comuns a todos os rapazes.

 

Olham um para o outro e, para espanto desta rapariga nada cautelosa, começam a enumerar sem qualquer pudor aquilo que até às paredes deveria ser poupado.

 

A Gaffe hesitou imenso em revelar o que ouviu, mas considera serviço público anunciar ao mundo o que estes trogloditas que pensamos civilizados no aconchego do nosso lar, são capazes de ousar quando os deixamos sós.

Algumas das revelações, por escabrosas, podem ferir susceptibilidades e convém que sobretudo virgens e beatas se afastem daqui de imediato.

Conheçamos então do que estes mostrengos são capazes:

1

Esbardalham-se no sofá, com os pés pousados na mesa de apoio, a fazer zapping. Pelo caminho enfiam a mão nos boxers, misturam o que dentro há para misturar, e levam depois os dedos ao nariz;

2

Esbardalhados ainda no sofá, com um braço a apoiar a cabeça, parados a avaliar as maminhas aos pinchos das coristas do Portugal em Festa, tentam cheirar o sovaco, porque sentem qualquer coisa a apodrecer;

3

Vão tomar duche e ensaiam em voz alta o discurso que vão usar para romper com a namorada, ou debitar na frente do Grande Chefe, enquanto fazem xixi nos azulejos e no tapete que impede que escorreguem;

4

Experimentam penteados, depois de se exercitarem ao espelho em poses de culturista. Pensam seriamente em fotografar a pilinha. Só não o fazem porque se esqueceram de levar o telemóvel. Insultam-se e praguejam contra o esquecimento;  

5

Mal sentem fome, abrem o frigorífico e retiram, mexem, enrolam, vistoriam o que há dentro. Comem de pé o que lhes agrada, com as mãos e com a porta aberta. Enfiam um pedaço de pão no frasco da maionese, cheiram os pickles e demais miudezas, levam um ou outra à língua só para provar e voltam a enfiar se for azedo o lambido no sítio;

6

Pensam vestir-se e começam por cheirar a roupa. O colarinho das camisas, o tecido debaixo dos braços, o interior da braguilha dos jeans e, pasme-se, as cuecas, são peças que gostam de inspeccionar com o nariz;

7

Pegam nos livros que estamos a ler, depois de uma sessão de Kung-Fu em que venceram Jackie Chan e de um número de vaudeville em que foram o Sinatra com o desodorizante a servir de microfone, e lêem o último capítulo com um único objectivo: contarem-nos o desfecho;

8

Abrem as nossas gavetas e retiram a lingerie que encontram. A única perversidadezinha que cometem consiste em tentar vestir o soutien mais cobiçado e caricaturar ao espelho a rapariga que os recusou, mas que lhes ficou na memória;

9

Dão uma vista de olhos à mais recente pornografia na net para passados uns minutos perderem o interesse e começarem a googlar o mais absurdo que conseguem inventar. Mulheres com pêlos nas orelhas, Constuitução da República Eslovaca ou choques eléctricos nos testículos dos nazis, são hipóteses a considerar;

10

Por não haver rigorosamente mais nada para fazer, fotografam finalmente a pilinha com o telemóvel. Olham a fotografia, acham um nojo, pequeno e tristonho, e desistem de a enviar à boazona que engataram no baptismo do sobrinho e que os presenteou há minutos com uma foto das férias onde toda a paisagem está tapada por duas mamas ampliadas. Reconhecem que já estavam bêbados quando a conheceram. 

 

Horrorizadas?

 

A verdade é que há razões para tal.

Saber que um jovem e conceituado professor de uma das mais distintas Universidades da Europa e um jovem engenheiro físico de importância vital para uma empresa que opera numa área que ultrapassa um mortal mais simples, enumeram tais horrores como comportamentos comuns a todos os homens que ficam sozinhos - e que pelo menos um dos enunciados é recorrente -, é ficar a um passo de admitir que eles, os homens em geral, quando sozinhos, conseguem ser muito mais civilizados do que nós!  

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A Gaffe ensopada

rabiscado pela Gaffe, em 14.11.19

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Por vezes, o optimismo é apenas uma forma de se representar o trágico com uma nota de esperança.

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A Gaffe começa a planear o Natal

rabiscado pela Gaffe, em 13.11.19

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- Recordo-te que a tralha natalícia é como o Jeffrey Epstein. Não se dependura sozinha.

Mana

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Gavetas:

A Gaffe a um Cantinho

rabiscado pela Gaffe, em 12.11.19

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Aqui, às vezes – tantas vezes! -, o que importa é perceber que existe realmente gente dentro dos blogs e que é necessário voltar a olhar, voltar a abraçar e a redescobrir o que acreditamos já haver conhecido.

Subitamente entendemos que a forma mais simples, mais limpa e depurada de olhar, é talvez a única que se estende interminável pela maravilha que é o reencontro com a pacífica serenidade de um Cantinho da Casa.     

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A Gaffe sem argumentos

rabiscado pela Gaffe, em 07.11.19

Our Lady of Good Counsel, Bartolomé Pérez, c. 16

Uma das maiores inutilidades que entopem as nossas vidas é despejarmos tempo nas sarjetas a argumentar com quem nos detesta seja como for.

É apenas importante verificar se pronunciam bem o nosso sobrenome.

Mana

Imagem - Nossa Senhora do Bom Conselho - Bartolomé Pérez, c. 1680

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A Gaffe com a carta do Manelinho

rabiscado pela Gaffe, em 06.11.19

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"Ai, Nando, qu'é agora qu'ele vai ler a carta do Manelinho ao meu país!"

 

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Gavetas:

A Gaffe com uma vénia

rabiscado pela Gaffe, em 06.11.19

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"E as meninas conhesse o meu Carlitos daonde?"

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Gavetas:

A Gaffe embruxada

rabiscado pela Gaffe, em 31.10.19

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A Gaffe - uma cabeça no ar! - não se deu conta da manigância da data de hoje e esqueceu por completo que a sua reserva de rebuçados está há muito esgotada.

Desprevenida, mas sempre abnegada e com clara propensão para o martírio, vai com certeza ver-se obrigada a ser ela a goluseima.

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A Gaffe arredonda a saia

rabiscado pela Gaffe, em 30.10.19

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É uma maçada uma rapariga, depois de ter lido artigos inteligentíssimos relativos à saia de Rafael Esteves Martins, ser obrigada a pensar.

A verdade é que seria muito mais fácil deixar que o vento deslizasse por entre as faldas e as fraldas da montanha que um ratito conheceu biblicamente, mas o certo é que uma menina cuidadosa não pode permitir que a estação passe sem que a sua brisa se faça sentir ainda que leve, levemente como quem chama por si.

É um aborrecimento fazer de conta que ignorámos que um político, ou um voluntário a tal em nome da plebe, insinua com uma imagem - física, fotografada, visualmente palpável - as suas ambições eleitorais. A representação tem um poder de conversão significativo e cria e recria um elo de ligação, uma espécie de relação pessoal, entre o eleitor e o candidato.

A imagem adquire uma natureza representativa - paternalista? -, que sendo ao mesmo tempo uma supressão da linguagem, se torna consequentemente apta a enformar uma arma capaz de se escapar a um corpo de problemas e de soluções, para dar relevo a um modo de ser, a um estatuto social e mesmo moral.

 

A imagem do candidato é em consequência um provável assalto do irracional ao espaço que em princípio deverá ser o da racionalidade.

 

Desta forma, a saia de Rafael Esteves Martins - enfim, a imagem de qualquer político -, não consubstancia, de todo, o seu projecto, declara apenas o seu móbil, as suas circunstâncias mentais e até mesmo eróticas, o ser que ele é, o produto, o exemplo, o isco.

É mais do que evidente que a esmagadora maioria dos candidatos nos dão a ler na sua imagem apenas as normas - sociais, mentais, morais -, a que obedecem, mas convém acrescentar que essa mesma imagem impõe uma cumplicidade, porque nos permite ler o que nos é familiar, o que nos é conhecido, propondo-nos, em espelho, a nossa própria imagem, enaltecida, sobrevalorizada, transformada em convite para que nos elejamos a nós, através dos que a revelam. Entregamos um mandato a quem nos concebe uma verdadeira transferência física.  

 

É evidente que a saia de Rafael Esteves Martins permitiu uma visualização, uma majoração, de valores que tantos consideram essenciais. É evidente que estabeleceu uma cumplicidade visual com determinado grupo, mas não é suficiente, mas não autoriza a certeza de uma posterior e intransigente defesa desses mesmos valores. Não é um ideal político explanado, não é uma ideologia, não é um projecto, não é um plano, não é um programa. É um homem que vestiu uma saia, contra o aparente bom-senso, que, nestes exactos e precisos casos, funciona como defensor acérrimo de um mundo homogéneo, ao abrigo de perturbações e de fugas. Um mundo replicável.

 

Seria interessante que, ao contrário do usual, os candidatos ao Parlamento nos surgissem como caixinhas por armar. Os eleitores escolheriam as que queriam ver montadas.   

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A Gaffe vê uma história

rabiscado pela Gaffe, em 29.10.19

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Do fundo dos séculos, a ordem estava escrita na memória dos povos.

 

Na ala abandonada do castelo, onde cresciam desgrenhadas silvas, despenteados troncos, furiosos ramos de árvores que enlouqueciam devagar; onde os lagos secos recolhiam folhas calcinadas; onde os pássaros tinham desistido de fazer os ninhos nos beirais destruídos das janelas fechadas e as estátuas de mármore branco e de alabastro tinham sido invadidas por líquenes e musgo; ali, no torreão mais alto, erguido na terra ressequida que se esvaía nos dedos das gentes cinzentas e queimadas, onde a desolação e a sombra matavam a luz estendendo os dedos por todas as estradas, armadas com punhais de medo e de ameaça, onde a morte espreitava em cada esquina, em cada passo, em cada choro de criança, a Princesa tinha sido encarcerada.

 

A ama vigiava.

 

Avançava lenta. Os veludos e véus pesados do vestido levantavam a poeira de prata que pousava nas folhas e nos anjos dos lagos de mármore mortos. Velha como o tempo dos segredos, vigiava.

 

Ao menor som, ao menor gesto, à mais pequena lágrima, a ama surgia, mordia e lancetava. Vinha e ceifava, quem ousasse tentar imaginar um fio de cabelo da Princesa.

Os corpos encontrados nas ruelas eram incendiados para que a peste não encontrasse modo de avançar. O fumo e as cinzas erguiam-se e aliavam-se à penumbra que se adensava sobre a terra. Tinha deixado de haver amanhecer. Havia apenas uma claridade amortecida, porque a luz não surgia no corpo das nuvens de poeira e cinza. O reino gemia de dor e desespero.

Os pássaros haviam desistido de cantar. Abriam as asas sem voar, pousados mudos nos braços das laranjeiras secas e os sussurros das ruas não chegavam a tocar as paredes do quarto de Sua Alteza. As horas desfiavam os seus fios invisíveis enredando o tempo. A Princesa mantinha-se quieta e muda. Tentava não pensar, escoar o que se sentia a sentir e que lhe apertava o peito sem se conhecer tenaz. Os dedos frágeis apertavam a ausência de memórias. Inventava os contornos, os desenhos herméticos, os símbolos e as insígnias da imensa solidão, mas não a sentia nunca por nunca a chegar a conhecer.

 

Ao canto do quarto, de dentro das sombras, erguia-se o corpo velho da ama que havia servido e protegido desde o começo dos tempos todas as Princesas.

Tinha sido a escolhida. Morreria a defendê-la. Nenhuma seta, nenhum punhal, nenhum veneno, nenhuma espécie de morte tocaria a bainha do vestido da menina sem antes tocar o seu coração gigante de animal protector.

 

De cem em cem anos, a Princesa assomava a uma das janelas do torreão.

A velha ao lado. Amaldiçoando os ganidos da multidão. Ganidos como ferros intermináveis, afiados pelo som de uma dor eterna.

Se os olhos da Princesa tocassem nos que choram, tudo seria perdoado. A terra abriria. A floração da Esperança. A luz inteira jorraria pelas ruas. O olhar da menina era o Milagre.  

 Mas Sua Alteza sorria, não olhava. Não os via. De cem em cem anos.

 

Apesar da desolação, do medo, da ameaça de condenação eterna, o povo daquele dia, cem anos passados deste um outro dia, arriscou a morte, que vida não era. Forçou o portão de ferro enferrujado. O que iam fazer era um sacrilégio.

Havia chegado o tempo que a ama temia.

 

Os gonzos rangeram e as portas abriram. Uma corrente de ar gelada rompeu pelo quarto e tocou nas mãos de Sua Alteza. A luz tocou-lhe a barra do vestido. Uma luz cansada e ferrugenta. O sol era diferente nesse dia? Os aromas que vinham dos jardins de longe tinham mais peso, sufocavam. A menina sentiu uma dor pairar naquele instante. Uma dor que não era a dela, mas que vinha devagar e se apoderava de tudo. Chispas de fúria e de ruído anunciavam o caminhar do povo. Ergueu-se e esperou. O ar tornava-se gelado. O denso azul da tarde tinha submetido o aposento, e a Princesa entendeu que da penumbra e da sombra, do escuro e da bruma, a ama não voltava. O frio era uma faca e a luminosidade era agora azul.

 

As portas abriram-se.

 

A luz ténue e dourada do exterior invadiu de manso o quarto e o povo entrou.

Partículas de poeira volteavam em redor de Sua Alteza e um perfume de sândalo começava a sentir-se, enrolando o ar, escondendo-se nas fendas das pedras das paredes. A menina aproximou-se estendendo as mãos. Sedas e veludos, rendas e brocados, arrastavam-se no chão de pedra polida. O barulho do vestido era diferente. Como se houvesse pressa, como se existisse urgência no caminho, como se houvesse gente à espera.

o povo trazia nos olhos o brilho do medo. Trémulo, de joelhos.

Naquele instante a Princesa entendeu.

Aproximou-se. Estendeu as mãos.

 

A bengala tombou no chão como um animal morto e então aquela gente ajoelhada viu em carne viva que a sua Princesa não via.

Era cega.

 

Ilustração - Olga Esther

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Gavetas:

A Gaffe do Rafael

rabiscado pela Gaffe, em 28.10.19

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Rafael Esteves Martinsassessor da deputada Joacine Katar Moreira, diz ponderadamente à comunicação social que está ali presente para discutir questões políticas e não para divagar sobre o seu outfit. Concorda-se, pois que ninguém divaga sobre os aventais que por lá se movem. 

Uma chapada de capeline branca.

 

Vamos acreditar, meu querido, que o menino é apenas um novato e que por consequência ignora que foi publicada mais vezes a cor do verniz das unhas da deputada - ou mesmo a cor da pele do nosso Primeiro -, do que legislação no Diário da República. A alternativa - o menino é useiro e vezeiro nestas marotices e sabe-a toda -, não faz justiça ao seu ar arejado.

 

Devo dizer-lhe, meu caro, que odiei alguns pormenores que me trouxeram à memória a catequista da aldeia de outrora.

 

Não é admissível que marche com um saco de pano foleiro a penduricalhar à tiracolo.

Bem sei, meu querido, que é mais ecológico - ou vegan, ou vegetativo, ou essas coisas hemopáticas, homoepáticas, homeopáticas -, e que é preferível a trazer um feito de parte de uma vaca assassinada e curtida para esse fim, mas, convenhamos meu caro, há bichinhos mortos e esfolados e transformados em maravilhosos Louis Vuitton com mais idade do que a Thunberg. Tinha desculpa. Na altura que o comprou não imaginava que iria aparecer uma piquena aos ralhetes e aos ramalhetes ecológicos e a bradar pelos ecossistemas. Toda a gente que se preza tem do pré-Greta e do pré-PAN qualquer coisita em couro e quando não tem leva o próprio. Não pode esquecer que é só agora que não se podem usar os netos desses falecidos como acessórios. Se for vintage é distinto. 

 

As meias!

Meu querido Rafael, as meias tricotadas pela avó, verde-bicho morto, são também elemento francamente provocatório. Para além de parecerem quentes enfiadas naqueles Dr. Martens - não convém começar a cheirar mal logo no primeiro dia -, aludem à tonalidade do que já se finou há pelo menos uma semana - provavelmente a semana que levou a decidir a melhor forma de espantar os pardais parlamentares e provocar o chinfrim habitual nas redes sociais.     

 

Vou entregar-lhe um conselho. Sei que é o menino que assessoria, mas uma pitada de malícia colorida em jeito de miminho conjuga lindamente com o seu pullover absolutamente oxfordiano que minguou na máquina de pretos que a senhora lá de casa fez na véspera, mas, meu querido, quando quiser que aquilo a que chamam comunicação social não lhe rompa e roa a bainha do outfit - em vez de o ver coser os ideais - escolha vir definitivamente deslumbrante e faça rodar sobre todas as bancadas parlamentares todas as pregas de um kilt bem moldado e, como é da praxe, usado sem cuecas.

 

Talvez assim se veja definitivamente que o menino tem tomates.

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