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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe dos ilhéus

rabiscado pela Gaffe, em 17.10.19
 

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Em todos os homens há dispersas e pequenas ilhas de profunda elegância, de sofisticado conservadorismo e de máscula discrição. De vez em quando, uma é avistada!

Já uma mulher navega quase sempre na segurança do segredo de dia friorento na linha mais íntima e serena, escondida, das ilhas mais difusas.

 

Raros são os homens e as mulheres que se mostram sempre abertos arquipélagos.

 

Na fotografia - Madalina Ghenea 

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A Gaffe já sabe ler

rabiscado pela Gaffe, em 16.10.19

 

Para a Tia! Tia! !Tia!

A petiza já sabe ler.

Reconhece as letras, sabe uni-las, constrói sílabas, ergue frases e chega aos fins dos parágrafos estafada, mas feliz.

Esta felicidade estende-se aos adultos que, para além de considerarem ter encontrado na família um prodígio inesperado, ficam libertos da maçadoria que se vinha tornando ler ou inventar histórias todas as noites à beira sono e ao canto da exaustão, quando a criança reivindicava o direito de ouvir a construção da fantasia pelas vozes que lhe desvendavam, que lhe decifravam, os signos e os mistérios contidos num livro.

 

No início, repetir as mesmas histórias era uma bênção que nos parecia maldição até batermos contra a vontade infantil de ouvir Sherazades improvisadas e inábeis.

Éramos três. O livro, a criança e a pobre criatura cansada que noite após noite servia de intermediária entre a fantasia e a avidez de sonho da ouvinte.

- Hoje é a tua vez. Ontem contei duas seguidas!

Agora que já sabe ler, é um alívio. É autónoma. Já permite que os deixemos, a ela e ao livro, entregues um ao outro.

 

Agora que já sabe ler, odeia ler.

 

Reconhece as letras, sabe uni-las, constrói sílabas, ergue frases e chega aos fins dos parágrafos estafada e perdida por completo no labirinto que foi descobrindo, mas onde ainda não encontrou saída. A frase vai-se erguendo sem sentido. Lida, mas não entendida, como se cada palavra conquistada se perdesse no tempo que leva a conquista e que impede que a união das parcelas não tenha resultado.

 

Ao parar de ouvir o contador de histórias, porque se tornou capaz de as procurar e decifrar sozinha, ao ser entregue sem apoio ao livro, deu início a uma luta que perde noite após noite, à beira do sono já despovoado. 

 

Cultivar o prazer de ler numa criança é continuar a ler-lhe, mesmo quando sabemos que ela já vai tocando as frases com tranquilidade. É permanecer três, mesmo pensando que dois já bastavam.


Creio que descobrimos isso apenas quando a criança nos avisa que saltamos uma frase, quando nos aponta, com o dedo a passear nas palavras certas, lendo, palavra por palavra, o erro que cometemos descrevendo em tons de verde a capa do príncipe, quando é lilás para condizer com os olhos da princesa e nos retira, maternalmente, o livro da mão.

 

Creio que descobrimos isso apenas quando ouvimos, numa noite qualquer à beira do cansaço, a criança declarar com convicção que não lemos como deve ser, desatando-nos o livro que abrimos cautelosos e soltando, como deve ser, a história que nos vai adormecer.

A partir desse momento, todas as palavras deixam de ser nossas, que somos tias tontas que não sabem ler, para se transformarem no ninho dos sonhos que fazem leitores.  

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A Gaffe com Tolstoi

rabiscado pela Gaffe, em 15.10.19

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É claro que hesito.

Se pensar ligeiramente mais alto acabo por descobrir a mais evidente das verdades:

Não interessa absolutamente nada aquilo que aqui faço, especada frente ao monitor a escoar frases patetas - patéticas, também - que tropeçam e escorregam, acabando esparramadas nos meus braços.

Depois chega, no labiríntico tempo das nuvens e do vento, com a simplicidade doce do início de tudo, a natural conclusão oferecida pela tonta e inocente futilidade que saltita:

Não tenho a veleidade de acreditar que trago as chaves das catacumbas das catedrais da mente e nem sequer ouso falar das catedrais dos céus, com a certeza da existência de alguém a ouvir, babado e interessado, a alterar a vida, a repensar o ser, a duvidar do ego, a rastejar só para me ler, a piamente orar por mais uma palavra, a beber desesperado os despojos das sílabas que repenso, cruzo, entranço, misturo, embebo e torço.

 

Mas, como diz a Guiduxa Rebelo Pinto: Não há coincidências.

 

Folheio, neste instante, o labirinto da minha guerra e da minha paz e na vida de Nada que é a minha, recomeço a ouvir o velho russo: 


Narra a tua aldeia e narrarás o mundo.


E bem ou mal, atarantada e trôpega, lá volto eu a abrir os portões da quinta.

Fotografia - Sydney Hirsch

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A Gaffe rancheira

rabiscado pela Gaffe, em 14.10.19

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É divertido procurar adivinhar a actividade ou a profissão de um homem através dos acessórios que usa. 

No entanto, não são raras as vezes em que me engano de forma crassa e sem remédio. Distraio-me muito com as paisagens que avisto ou adivinho e a única actividade que decifro é sempre aquela que mais me dá prazer. 

Neste caso, não há que enganar. Basta que me lembre do fácil trocadilho que cavalga por aí, de freio nos dentes e à rédea solta:

Poupe um cavalo, monte o cowboy.

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A Gaffe reverente

rabiscado pela Gaffe, em 11.10.19

Breviário

Esteve privatizado durante mais de três anos. Parado quase outros tantos. Esteve vedado a quaisquer comentários quando se tornou público por escasso tempo. Surge agora aparentemente completo.

Pertence ao homem que me ensinou a escrever. A forma como uno as palavras, está repleta da sua influência e da sua inacreditável capacidade de domar - de chicotear? - as frases.

É meigo e agreste. Mau e bom. Grande e pequeno. Silencioso e eivado de ecos. Grosseiro, bruto, e ao mesmo tempo de uma delicadeza e sensibilidade incomensuráveis. Umas vezes provocador e ácido, outras tantas maleável e frágil. Umas vezes agressivo, bélico, maldito, outras vezes afável e pacífico, terno como a noite. É puro e sujo ao mesmo tempo. Genial e medíocre. Ansioso, inquieto, angustiado e em simultâneo sereno e tranquilo.

É o meu lugar de abrigo. O meu Santuário. O meu lugar seguro.

 

Minhas senhoras e meus senhores,

BREVIÁRIO

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A Gaffe dos novos parlamentos

rabiscado pela Gaffe, em 10.10.19

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Não me penso capaz de análises políticas susceptíveis de se escapulirem por estas pobres e cansadas Avenidas. Não sou proficiente, como agora se diz.

É-me indiferente saber se foi o esfumar de determinado partido - que gotejando névoas mais suspeitas, permitiu a liquidificação de uma extrema-direita, populista e grandiloquente, patrioqueira e balofa, oportunista e alegadamente unipessoal, xenófoba, homofóbica, racista, misógina, onde também podem agora chapinhar ufanos os que não dizem, mas pensam -, o impulsionador, o obreiro, o que elegeu como parceiras, como idênticas às suas, propostas como, entre outras, as de eliminar o Ministério da Educação, castrar quimicamente agressores sexuais, defender a pena de morte ou proibir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, interditando-lhes a possibilidade de adoptar.  

Reconheço apenas que a Democracia portuguesa durante quarenta e cinco anos recusou admitir que nela eclodisse o ovo da serpente - embora chocado por um Coelho - e que a festa da Páscoa nunca tivesse a antecedê-la uma Quaresma de ofídios.

Provavelmente a Europa - e os outros mundos liderados por escroques -, entrou numa espécie de pós-democracia e eu, provinciana, não o percebi, nem a consigo enunciar.  

Dizem os entendidos que não pode deixar de ser saudável a chegada dos populistas de extrema-direita à ribalta política, ao palco dos parlamentos. Ali podem ser desmascarados, trucidados com argumentos eivados de liberdade e de razão, desmascarados, revelada e denunciada a sua vacuidade e anulado o perigo que inevitavelmente encarnam, gota de ácido a alastrar e a corroer as fibras do tecido a que os Velhos chamaram Liberdade.

Seria certo.

O errado é que nas areias dos discursos dos que se dizem e querem heróis e paladinos das alvoradas e dos dias que os poetas esperaram, há palavras empapadas, curvilíneas serpentinas, circos, malabaristas, contorcionistas, confusões de lantejoulas, nadas movediços e avalanches de ocas frases feitas em que o tempo se esgota de modo aflitivo e irado, porque os outros palram demasiado impedindo que se exibam outras oratórias igualmente vácuas.

Os eleitos a temer podem agora ter palanque, mas será que as nossas democracias estão preparadas para os ouvir?

 

É neste tempo acelerado pelas elocuções ensopadas pelos egos, no tempo sem tempos ou compassos, que a gaguez de Joacine Katar Moreira obriga, obriga-a, a uma escolha rigorosíssima da palavra, a uma selecção implacável da frase, a uma precisão inusual do discurso, a um tempo de espera que tem sido asfixiado ou atropelado sucessivamente, a uma cirúrgica forma de comunicar o que se defende. A gaguez de Joacine faz perceber que já não se ouvia ninguém há muito tempo e constrangidos esperamos que a ideia surja inevitavelmente concisa, paradoxalmente clara, sem os adornos cintilantes do costume.

A gaguez de Joacine obriga-nos a ter tempo e sobretudo a ter tempo de pensar. A gaguez de Joacine dá-nos tempo. 

Talvez, por ironia, venha a ser uma gaguez negra e feminina a esvaecer os que de tão fluentes arremessam, com a urgência de quem quer calar o outro, todas as palavras atoladas.       

 

Imagem - Remy Cogghe

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A Gaffe numa cadeira (actualizada...)

rabiscado pela Gaffe, em 02.10.19

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Colaborar com um autor sem dele ter não mais do que lido um propósito, uma indicação de cor e um título, é muito mais complexo do que tentar ilustrar um blogue onde existe a possibilidade de conhecer melhor quem o tutela, através da sua escrita.

Mas foi esse o desafio que aceitei com imenso prazer.

Incito a equipa do SAPO - mais uma vez o Pedro Neves foi irrepreensível na ajuda que teve a amabilidade de me dispensar - a banir o que impede que imagens animadas apareçam nos cabeçalhos das populações - já nos basta o período eleitoral! (informação actualizada em rodapé)

Sem este percalço, figuraria a imagem que pisca aqui em cima e não, por se ter tornado estática ao ser redimensionada automaticamente, a que aparece.  

Seja como for, este é o meu presente de chegada, provavelmente ainda incompleto, mas que não pode deixar de desejar boas-vindas a mais um ilustre habitante deste burgo.

 

Actualização - Graças à equipa SAPO, à extraordinária disponibilidade, amabilidade e competência do Pedro Neves, o Café já pisca!

Muito obrigada. 

 

(E não deixa de ser uma forma - a única que sei -, de vos dizer ... "a gente vê-se por aí".)

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A Gaffe quieta

rabiscado pela Gaffe, em 27.09.19

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O primeiro nevoeiro entrançado nas rendas dos ramos das árvores, azula o amanhecer. As folhas movem-se no colo do primeiro vento. O som das folhas é como o bater das asas dos anjos de encontro às grades da eternidade, ou como a descida dos vermes ao útero da terra.

O berro do pavão estilhaça o vidro da água. Um peixe torce o rumo do silêncio. As pedras respiram as horas demoradas de dourado e o azevinho move os dedos recortados numa agonia de súplica, verde escura, como um grito.

Os homens vão chegando para pisar as uvas. De bocas nuas, chegam cobertos de azul maduro. Calados. Trazem pão nos olhos. Vinho aos pés. Migalhas de palavras. Toalhas de tristeza.

O tempo no lagar escorre.

Fecundada pelas primeiras mortes, a terra estanca.

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Gavetas:

A Gaffe escreve a Greta Thundberg

rabiscado pela Gaffe, em 26.09.19

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Queridíssima Thundberg,

Deixe que a trate assim, pois que temo não conseguir travar a minha vontade de contratar meia dúzia de rufias para desflorestar – ou desflorar, tanto faz - os imbecis que continuam a achar piada aos trocadilhos tugas que continuam a fazer com o seu primeiro nome. Nem toda a gente se pode chamar Vanessa Raquel, ou Maria Benedita, credo!

Depois, minha cara, permita que lhe diga das boas.

A menina devia evitar perturbar as famílias que se preocupam com a educação dos miúdos. Faltar às aulas por causa das couves é meio caminho andado para o colapso das civilizações e as couves vão morrer na mesma, acredite. É uma indecência ver pais desesperados a tentar que os seus petizes cumpram as suas obrigações e tirem as notas exigidas por Medicina e ver todo um trabalho ir por água abaixo por causa das suas birras - espero que tenha reparado no detalhe ecológico que tive a amabilidade de usar. Observe os nossos adolescentes, minha amiga! Se querem seguir os youtubers, jogar o Mortal Kombat ou fumar qualquer coisita num conserto da banda dos rufias anteriores, ou do Valete, não precisam, de todo, de abandonar os TPC. Avisam aos pais por SMS que bazam a Português porque valores mais altos se alevantam, 'tá-se bué. Vai ver que os senhores até agradecem que os deixem em paz e com tempo para a achincalharem. Depois chamam os pequenos para jantar.

É também evidente que não pode ser malcriada nas Assembleias! A ONU ou o Parlamento Europeu estão pejados de pessoas de boas famílias, apoiadas por outras Famílias que, não estando presentes - pois que escolhem lugares de maiores sombrinhas -, se fazem representar discretamente e com uma eficácia que a menina dizem não ter.

Merecia duas chapadonas do Guterres, mas infelizmente o homem está em tratamento nas Termas, enfiado naquelas pocinhas onde há peixes que comem a porcaria que as pessoas que se afundam num pântano têm nos pés. Um nojo. Não compreendo como há quem defenda estes animais.

Há depois aquele seu problema de saúde e com a saúde não se brinca. Com ela e com o penteado. O allure urbano-Heidi que teima em manter é prova de alguma debilidade e instabilidade mental. Os adolescentes saudáveis, minha menina, usam slim jeans rasgados nos joelhos, risca no cabelo feita com navalha, T-shirts com slogans revolucionários, do tipo fuck, shit is my live ou it’s not me, it’s you  - daí o belíssimo inglês que falam - e acho que levantam o mindinho e o polegar, abanando o resto para cima e para baixo, quando querem comunicar com os amigos ... ou, pelo menos, um ar de Nuno Melo.

Devo dizer-lhe que não é necessário que ataquem as suas causas com argumentos entendíveis e atendíveis. Basta a menina não aparecer em público nas condições que são exigidas pelas boas famílias que parte do trabalhinho fica feito. Não interessa nada que só esse ataque - o ataque que a visa, a si, apenas a si, e não às causas que defende -, prove que a menina tem uma razão inabalavel. 

Previno-a, no entanto, que basta que seja chicoteado um prevaricador em público para que as multidões se acanhem apavoradas com a possibilidade de serem também batidas em seguida. Este medo, agora, às vezes dobra se o silvo do chicote se fizer ouvir no facebook.

Penso ter dito tudo o que me ocorreu. 

Não fico para o chá, pois que tenho o veleiro pronto a zarpar, movido pelo vento e suponho que por aquelas coisas fálicas com pás na ponta, que parecem moinhos magrinhos e receio que iguais aos que a menina defende - uma pena não conhecer Cervantes. Parto pois de pandas velas de algodão egípcio fabricadas pelos miúdos lá longe, ainda mais novos que a menina, que por acaso também não vão à escola e a quem nem sequer nascem os sonhos, não sabemos porquê, pois que deixamos de ter causas. Anote que vou de vela! Não sou como a bastonária da Ordem dos Enfermeiros que apresentou uma conta de dez mil euros em combustível no mês de Setembro. É evidente que a senhora - é só fazer as contas, não é preciso ser Secretário-Geral da ONU! - percorreu cerca de 400 Km todos os dias do mês - não apenas nos difíceis, em que só nos apetece desatar a guiar até à Cochinchina -, provavelmente para visitar cada um dos enfermeiros precários da região que lhe fica mais à mão. Uma poluente, como se vê, e ainda por cima com penas de aves esfoladas nas orelhas.

Está a ver?!

Desviar toda a nossa atenção para casos destes, ainda mais relacionados com a saúde do muito próximo, mais assim caseiro, muito bastonária, sai muito mais em conta e nem aquece, nem arrefece, quem a elegeu.

É isso e a carne de vaca nas cantinas, ou a testosterona do giraço. Também serve - e parece tudo o mesmo hamburguer. 

Vá por mim! Faça como eu, gaste tudo em álcool  e deixe tudo arder.

 

Ilustração - Afarin Sajedi       

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A Gaffe num encontro

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.19

Vou ao encontro da minha irmã.


Preparo-me para atravessar a rua no lugar onde ela é mais estreita e mais segura. Olho e vejo a mulher distraída, de olhos tapados por óculos de sol quadrados e grandes, um pouco vintage, um pouco da Onassis, a tamborilar com os dedos na mesa do café antigo.

 

Dentro dos vidros, a minha irmã espera. Não se vê observada e por isso não ergue defesas. Tem um cotovelo pousado no tampo de vidro da mesa e o queixo apoiado nas costas da mão. O tronco inclinado de forma ligeira e o pescoço nu, magro e demasiado alto, sem nada que o esconda parece surgir da gola redonda do vestido azul como esguia espada ou torre ou haste de uma flor estranha.


Quantos vidros terei de partir para lhe chegar?
Quantos vidros somos, antes de chegarmos?


No reflexo, a mulher despe os olhos e repara em mim.  

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Gavetas:

A Gaffe queirosianamente fácil

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.19

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Deparo-me, nas minhas andanças por diferentes Avenidas, com verdadeiras jóias, inesperadas, mas perfeitamente aceitáveis tendo em conta os contextos e as épocas em que foram ditas ou escritas.
Fornecem pequenas - contudo brilhantes - informações acerca, por exemplo, de como era encarada quer a narrativa para a infância, quer os seus produtores.

Tomemos, retirando à toa, uma das Cartas de Inglaterra de Eça de Queirós onde é louvada a literatura infantil inglesa e aconselhada a adopção iluminada deste tipo de narrativa fácil.
Ouçamos:

(...) eu tenho a certeza que uma tal literatura infantil penetraria facilmente nos nossos costumes domésticos e teria uma venda proveitosa. Muitas senhoras inteligentes e pobres se poderiam empregar em escrever estas fáceis histórias (...)

 

É natural que senhoras inteligentes e pobres não possam pela certa ser convidadas a escrever O Crime do Padre Amaro ou O Primo Basílio, cujas narrativas não são, de todo, fáceis - embora exijam produtor inteligente. É também curioso verificar que, aparentemente, a razão que origina a recomendação desta actividade seja a pobreza de quem é reconhecidamente inteligente, assim como o desejo manifesto de que esta literatura infantil esteja presente entre os nossos costumes domésticos.

Apesar do aceitável mau grado com que lemos estes anacronismos, somos obrigados a reconhecer que, também aqui, Eça é um iluminista. Ao pretender reformar os costumes, reconhece e considera que a literatura infantil serve essa reforma, não se esgotando nela evidentemente.
 
Mas não deixa de ser interessante este olhar queirosiano sobre o que na época se poderia apelidar a Literatura do sotão.
 
E não deixa de ser pertinente verificar que hoje o leque de quem escreve estas histórias fáceis se abriu imenso, incluindo também gente muito pouco inteligente e de todas as posses e poses.
 
Ilustração - Edouard John Mentha

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A Gaffe de novo a pedalar

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.19

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Este rabisco todo feliz completa esta elegantíssima bicicleta.

Por muito que fosse esse o seu desejo, a Gaffe não vai publicar a fotografia certa, por razões óbvias:

- Este rabisco - embora merecesse -, não pertence à gaveta do Animatógrafo. Neste caso, minhas meninas, temos de ser muito brasileiras e considerar que o hómi d’ámiga, pá eu é mulhé.   

- A Gaffe esqueceu-se de pedir autorização ao Rui e, apressadinha, não consegue esperar que o processo se conclua nas devidas condições.

 

Por isso, meus amores, é bom que pedalem até aqui, porque uma surpresa agradabilíssima fez com que o dia já valesse a pena.

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A Gaffe de Dautremer

rabiscado pela Gaffe, em 24.09.19

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É impossível seleccionar ilustrações de Rébecca Dautremer sem deixar pelo caminho traços de inacreditável poesia.

 

O traço quase imaterial com que é contada a história; a suavidade com que são usadas as cores, mesmas as mais dramáticas; a maravilhosa recriação de ambientes e de cenários; a atenção aos detalhes que são tratados como elementos primordiais nos universos criados; a líquida palavra desenhada; a fragilidade diáfana do movimentos das figuras; a interferência de elementos chegados de outras fantasias; o cuidado com as palavras escolhidas e o modo como são manipuladas as formas rumo à harmonia, fazem de Rébecca Dautremer uma das mais encantatória ilustradoras/autoras para a infância da actualidade, envolvendo os adultos que se deixam inevitavelmente deslumbrar pelo encantamento das obras-primas.

Todas as suas construções pertencem à estante da magia.

Ver mais )

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Gavetas:

A Gaffe do príncipe encantado

rabiscado pela Gaffe, em 24.09.19

Fernando Vicente.jpgDe acordo com a perplexidade masculina, as mulheres apaixonam-se por um homem exactamente como ele é, por ele ser como é, e num instante desatam a querer modificá-lo.

 

Esta característica para além de fazer parte do nosso encanto, pertence, aos olhos do macho, ao insondável mistério da alma feminina, embora seja constrangedoramente fácil de explicar.

 

A culpa não está nas estrelas, mas próxima delas.

 

Somos todas herdeiras das aristocratas dos contos de fadas. Desde o princípio que convivemos com Princesas encantadas e desde o início que as sublimamos. Temos os genes desta nobreza encantatória que nos são transmitidos pelas narrativas da infância e somos portadoras, mais ou menos conscientes, de um imaginário palaciano em que nos movemos ao som diáfano de histórias antigas de dragões e cavaleiros.

 

Esta miscelânea de coroas encantadas de que somos feitas torna-nos capazes de acordar como a sofisticada e fria - muito Grace Kelly -, Princesa Aurora para logo a seguir, tornarmo-nos a dona de casa suburbana vivida por Branca de Neve, passando nos intervalos pela sopeira consumista que sonha desalmadamente com sapatos, não descurando encarnar, caso for necessário, Maléfica ou mesmo a Bruxa Má, cujos únicos erros são desconhecer por completo Yves-Saint-Laurent e não tratar da pele.

 

Este largo número de Princesas que somos em simultâneo contrasta com a simplicidade dos Príncipes que connosco contracenam.

 

Ao contrário dos homens que, pese embora o dito e redito, são todos diferentes - não valia a pena traí-los se fossem todos iguais -, os Príncipes encantados são idênticos. Uma pobreza que nos leva a acreditar que o rapagão que lambuza o sono de Aurora é exactamente o mesmo que nos revela o maroto fetiche por sapatos.

 

Conhecemos de cor as suas funções e reconhecemos as suas capacidades militares, mas, convenhamos, Branca de Neve pede um Príncipe caseirinho e paciente, disposto a adoptar os sete pequeninos, enquanto Aurora exige a sofisticação palaciana de um Príncipe diplomata e bailarino e Cinderela merece um fashion victim ligeiramente masoquista.

 

A uniformidade principesca é uma maçada.

 

As várias Princesas encantadas que somos - ao mesmo tempo - não deixam nunca de sonhar ver surgir o seu amado irreal e, em consequência, adaptam o real cavaleiro que as encontrou, tentando moldar o barro que lhe chega às mãos sem nunca deixar de amar as formas incompletas com que iniciam a tarefa.

 

Rapazes, tentar modificar-vos é altamente lisonjeiro! Resulta da certeza de termos encontrado um Príncipe diferente e da vontade imensa de o vermos perfeito exactamente como sabemos que sóis ou podeis ser para cada uma das nossas Infantas encantadas.

 

Não dói se aprenderdes a sempre olhar para nós como Princesas.

 

Ilustração - Fernando Vicente

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A Gaffe numa cantiga de Amigo

rabiscado pela Gaffe, em 23.09.19

Lembro-me das tardes penduradas nos ramos como arrecadas nas orelhas das mulheres.


Chegávamos no Verão e ficávamos sentados nas pedras que nos entardeciam.

Trazias a camisa sempre suja, aberta pelo pássaro da cal do sol e as calças rasgadas no joelho e sangue de cerejas e da manhã de amoras. As tuas botas gemiam no soalho ferido pelos rastos e riscos que lhe abrias e o aroma que chegava rugindo nas tílias era tornado brando pelo teu suor.

Cansávamo-nos e queríamos despir-nos e deixarmos de ser gente. Queríamos ser vento e vinho e sono nos olhos. Queríamos ser velhos como o rosto do anjo de pedra no centro do lago.
Trazias na cara o o cheiro do trigo seco ou da semente inútil na ausência do ninho. Na boca o olhar que vem nas pupilas dos pombos e nos olhos das maçãs que escaldam de cansadas.

 

As minhas mãos sem as tuas eram trapos quebrados, poeira e terra seca.

 

Às vezes uma libélula azul como os profetas pousava-te no braço. Deixavas de respirar para que não fugisse.


Sentava-me longe de ti que escrevias e procurava não te perturbar.

Ficavas vergado sobre os papéis em desordem e conseguia seguir-te o perfil definido e quase agudo.

A luz era quase flamenga. Quase Caravaggio ou talvez Vermeer, que a luz nunca permite ser entregue a alguém.

Via a planura da tua testa larga e ampla, o nariz que de tão recto é já perfeito, os dedos que por vezes tamborilavam no tampo em mogno da mesa onde se espalhava o branco dos papéis que ias riscando.

 

(A barba agora invade tudo, como trepadeira ou de grade ou pedaços de setas mortas nas batalhas dos desertos. Já não tens olhos. Tens barba e dentro da barba duas luzes vivas, rasas, que estremecem quando as aves escaldam o silêncio com o bico aberto e grito estilhaçado.)

 

Sorrias ao ver-me a ver-te.

Depois retornavas à ausência, quase um corpo.

Parecias um gigante. Ainda mais gigante que na véspera.

Erguias o olhar. Desviavas e inclinavas a cabeça. Esquivavas-te na penumbra.

Então eu via na fuga lenta desse olhar que me espantava, a forma das pestanas. A alargada tristeza presa nelas. Compactas e negras, demoradas, longas, adensavam as sombras e quase escureciam tudo o que em redor tinha uma luz.

Quase um abismo. Quase corvos. Quase infâmia. Afrontavam a luz, a quase luz, e nos papéis dispersos deixavam as sombras que eram já palavras.

 

Às vezes quase lia. Quase entendia.  

 

Pousava a minha cabeça no teu colo e deixava-me a chorar sem ter motivo, que o teu coração tinha-o no peito trocado pelo meu, na tua mão, e não havia perigo. A tua mão sossegava o meu cabelo. A tua mão aquietava a luz que vinha nervosa por entre as rendas das cortinas. A tua mão sossegava a minha vida inteira.

Inclinavas-te para mim. Dizias-me em murmúrio que na vida apenas valem os instantes e que Morte e Amor são coisas bem pequenas.

 

Crescemos sem o tempo passar no trilho das formigas e na fuga das rolas.

A tua proximidade faz-me falta. Sou melhor do que eu quando estás por perto.  

 

Procuro na memória o som daquelas tardes e de repente sei que não há nada, porque dizer um fado é como não ter braços.

 

Os homens incontornáveis são os que lembram paisagens. Ouvimos o indizível.

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Gavetas: