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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe elementar

rabiscado pela Gaffe, em 02.08.19

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Ocultamo-nos como conseguimos no meio das chamas. O desequilíbrio faz-nos tombar sobre a lâmina e o interior do lume corrói as pedras que amontoamos em castelos de cartas.

Todo o abismo deve ser atravessado com um salto apenas. Não há lugar para dois passos pequenos, mas existe a lâmina, a falha das sandálias de Mercúrio ou o calcanhar do herói que ninguém é.

Protegemo-nos, ou com o corpo, erguendo dele e nele a fortaleza que suplicamos no interior de nós que seja inabalável, ou escudamo-nos com o Pensamento erguido pelos Sábios, construindo nele o pensamento nosso, como se nele e dele houvesse salvação.

Podemos encontrar o poço mais fresco do deserto e mesmo assim a sua água não nos matar a sede.

 

Mas quando um peixe se move, turvam-se as águas. Quando um pássaro voa, uma pena. A erva cresce e não damos por isso. Colhemos flores e as nossas mãos ficam perfumadas.

Mas basta a nossa mão de terra em concha recolhendo a água para que a lua nos tombe nos dedos.

 

Porque somos a água, o ar e a terra sobre o fio de uma espada.

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A Gaffe do "numerus clausus"

rabiscado pela Gaffe, em 31.07.19

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A meia dúzia de pessoas que são contra as touradas, também são contra a família, são contra a cultura portuguesa, são contra o facto de haver uma tradição em Portugal - declara D. Duarte Pio de Bragança.

 

Esta gentelha de bigode parvo - pergunta a Gaffe -, não estuda, não viaja, não vê coisas, não lê livros, não se ouve a mascar merda?!

 (Pardon my french)

No Douro, nestes casos, pergunta-se também:

- Estes morcões não se mancam?!

O que é absolutamente deselegante, não deixando contudo de ser uma formulação repleta de tradição e muito própria de quem não entrou no curso preferido devido - ou derivado - ao numerus clausus, não tendo aberta a hipótese de o pagar a custos de mercado.

Gente do Douro, sem maneiras e sem curso, de maneiras que nada nobre, nada familiar e nada cristalina, derivado à falta de berço.  

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A Gaffe nas limpezas

rabiscado pela Gaffe, em 31.07.19

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A Gaffe veste uma coisita dos seus ilusórios tempos de Jean-Paul Gaultier e decide levar a bom porto a pesadíssima tarefa que iniciou algures Antes de Cristo. Limpar os detalhes dos seus artifícios que, abandonados ao patine das horas que passam, se tornaram lixo.

 

Não tendo facebook para excluir amigos, não possuindo twitter para passarinhar com o pano, opta por ir debicando, aqui e ali, os grãos de pó que se depositaram nos interstícios da sua barroca – rococó, quiçá? - fraseologia.  

 

É evidente que fica exausta ao fim de alguns segundos.

os detalhes empoeirados são em demasia e para tão curto amor, tão longa a vida. Abandonemos, pois, o árduo trabalho e esperemos em sossego imóvel que o algodão se engane.

 

Pese embora a súbita inércia que a avassala, a Gaffe reconhece que uma mulher é capaz encontrar erros e falhas minúsculos, perdidos  nas pequenas fissuras conspurcadas e nas sombras esconsas das esculturas talhadas por homens que de tão sólidos rivalizam com a obra.

 

Somos absolutamente perfeccionistas quando se trata de descobrir poeiras adversas pousadas nas construções masculinas. Somos obsessivas-compulsivas quando nos relacionamos com a magnitude que se diz perfeita dos que nos povoam a vida e nos saltam para a cama. Somos heroínas de Agatha Christie se as provas do delito de imperfeição se encontram cobertas por camadas intermináveis de alibis.

 

Os homens conseguem, durante um breve período de tempo muito inteligente, enganar-nos nas grandes coisas, mas jamais nos conseguirão ludibriar nas pequeníssimas.

 

Meus queridos rapagões, convém que não se iludam.

Somos capazes, na limpeza dos detalhes, de trepar a todos os cantos e esquinas dos lugares, precipícios e falésias, onde acreditais que as vertigens nos convencem a deixar desapurado um grão de pó. Nem que para tal se tenha de chamar a senhora lá de casa

 

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A Gaffe para totós descontrolados

rabiscado pela Gaffe, em 31.07.19

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A Gaffe de carrapito

rabiscado pela Gaffe, em 30.07.19

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O que se passa convosco, rapazes?

 

O que vem a ser aquela coisa minúscula, aquela caganita, aquele pechisbeque, aquele carrapito patético com que agora ornamentais a cabeça?!

 

Há dias em que uma rapariga consegue ignorar o botão de cabelo que amorosamente criais, mas há momentos que só apetece bater-vos com um taco de baseball nos vossos mais protegidos recantos até que aquilo se desfaça de vez.

 

Pode eventualmente ser admitido em gigantes musculados e barbudos. O corpanzil disfarça e é provável que uma rapariga se distraia com o conjunto ou que não consiga ver o bebé no topo da cabeça, mas os mais franzinos deviam abster-se de usar uma desfaçatez daquelas, embora nos pequeninos o cornicho pareça proporcionado.

O problema agrava-se quando não há cabelo que enrole e é exposto uma vassourinha minúscula, espetadinha e ouriçada, o pincel laçado do nosso verniz. Não há nenhuma criatura que vos ache inteligentes.

É o chamado preconceito piaçábico.

Para além disso, dá-vos um ar ansioso. Fica a pairar a vossa impaciência. Dir-se-ia que não aguentais esperar que o cabelo cresça para o poder prender com dignidade e o que desejo leonino que vos invade arrisca sem vergonha fazer-vos passar por idiotas capilarmente ambiciosos.

 

Não há nenhuma conversa séria que resista ao vosso pechisbeque. Ninguém consegue discutir a Teoria do Caos ou os reflexos do naturalismo na Literatura portuguesa dos fins do século XIX com um homem que tem uma coisa espetada no cérebro a olhar para nós e não adianta nada declararem que só admitem discussões de carácter artístico, porque nos apetece de imediato mandar-vos colorir de pernas no ar um livrinho com figuras geométricas.

 

A única razão para o uso de tão peculiar penteado é aquela que nos informa que talvez seja possível pendurar-vos pelo pequerrucho puxo.

 Justifica-o, mas não funciona. Uma rapariga prefere sempre pendurar um homem por outros enfeites.  

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Gavetas:

A Gaffe de terceiro grau

rabiscado pela Gaffe, em 30.07.19

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A prova irrefutável de que os homens vivem num planeta distante com difíceis pontos de proximidade com aquele que habitamos é o modo como atribuem aos objectos capacidade de se tornarem autónomos e de desempenharem tarefas corriqueiras, mas essenciais, sem intervenção humana.

 

É mais do que usual ouvir um rapagão dizer, depois de chegado a casa, sapato marujo ao vento, beijinho fofinho ao lado:

- Vou espreitar o futebol enquanto as batatas se fritam.

Ou então:

- Vou ler um pedacinho do Expresso enquanto a salada se lava.

Mais frequentemente:

- Vou descansar um bocado enquanto os bifes se grelham.

Ainda com maior frequência:

- Vou ali num instantinho ler os mails enquanto a mesa se põe.

 

A salada toma banho de forma muito independente; os bifes atiram-se sozinhos para o grelhador e procuram não esturricar, exactamente como os banhistas ao sol do meio-dia no Algarve; as batatas descascam-se e nuas, magras - uns palitos! –, decidem ficar loiras e a mesa veste-se sem dar satisfações a ninguém para receber estes convidados, qual Carmen Miranda caseirinha.  

Depois a loiça lava-se enquanto o moço saboreia um Chivas Regal Royal Salute esparramado na poltrona enquanto o café se tira.

Esta extraordinária esperança masculina de ver as coisas a acontecer sem intervenção humana é claramente extraterrestre.

Se os não podemos vencer mandando-os para o planeta que os pariu ou, em alternativa, para a pata que os pôs, podemos acompanhar a sua visão do universo, aproximando-nos do modo de comunicar desta espécie. É uma excelente forma de aculturar estas criaturas, adaptando-nos a elas, e ao mesmo tempo saborear as vantagens que nos traz e que reconhecemos num instante.

 

O ideal é trabalhar nos verbos.

Há que evitar o singular. Usemos o primeiro verbo na primeria pessoa do plural sempre que uma tarefa nos pareça problemática e, se possível, façamos com que a restante frase siga os parâmetros usados pelo alienígena.  

- Temos de dar banho ao Rottweiler.

- Hoje saímos sem cuecas, porque a máquina não se ligou.

- Vamos pagar uma multa, porque o carro ficou no lugar das grávidas.  

- Não podemos evitar a reunião do condomínio, porque a convocatória se abriu.

- Temos de ir comprar frango de churrasco, porque o jantar não se fez.

 - Vamos espancar o vizinho que ouve o Roberto Leal a gritar que vai, que vai, que vai lá para a terra da Maria.

- Houston we have a problem.  

 

Se acabarmos a cantar hit the road Jack com o volume nos píncaros para que dentro da nave os radares que o avisam do perigo se avariem com a vibração, estamos então muito próximas de o mandar para casa da mãe onde o fogão cozinha sempre muito melhor que o nosso.

 

Seja como for, alteramos-lhe o planeta.  

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A Gaffe religiosa

rabiscado pela Gaffe, em 29.07.19

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A Gaffe costuma irritar-se com os ditados populares. Geralmente encontra-os incorrectos e impossíveis de generalizar.
 

Admite, no entanto, que o famigerado O hábito não faz o monge contém alguma verdade no interior dos seus panos franciscanos.

Olhando para a rua acalorada, a Gaffe verifica que há monges despojados que a fazem estremecer, de joelhos nas lajes do convento, sentindo, corando, o desejo de ser ela o hábito desfolhado que o monge vai cansando de orações.  

 

Na foto - Bruno Gagliasso

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A Gaffe de Rutger Hauer

rabiscado pela Gaffe, em 26.07.19

 

Há momentos raros em que é revelado o encontro entre universos aparentemente desligados.

 

O solilóquio de Batty, protagonizado por Rutger Hauer, em Balde Runner - obra maior de Ridley Scott, escolhida para preservação no National Film Registry, da Biblioteca do Congresso, como sendo cultural, histórica ou esteticamente significante - é indiscutivelmente um breve, mas potentíssimo, abraçar do Cinema e da Literatura.

É um extraordinário solilóquio que, ao contrário do pensado, não foi da inteira responsabilidade de Philip K. Dick, já que foi reescrito pelo actor que lhe acrescentou o imenso e comovente fim que aproxima a chuva das lágrimas nela diluídas.

É extraordinária a beleza que surge na escolha de uma série muito curta, breve, simples, de palavras que unidas produzem as frases eternas.

 

I've seen things you people wouldn't believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched c-beams glitter in the dark near the Tannhäuser Gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Time to die.

 

Soberbo, Rutger Hauer é neste exacto momento o filme inteiro.

 

Sou incompetente a discorrer sobre o estupendo Blade Runner. Outros já o fizeram, tornando-me incapaz de acrescentar o que quer que seja que retenha interesse, mas é este pedaço de humanidade, de impressionante mortalidade, de desalentador e desesperante sentido de nos sentirmos já vividos, que me convence que nascer e morrer são momentos vácuos, sem história, ocos, indignos de registo.

 

Mesmo a chover, só o que temos entre o nascer e o morrer é a eternidade.

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A Gaffe avoenga

rabiscado pela Gaffe, em 24.07.19

Robert Carsen’s Les Fêtes vénitiennes (André

O dilema de se ter vivido no meio de marés contrárias e contraditórias, resulta na instabilidade das respostas que damos às situações que nos consomem a quietude.

 

Quanto a minha avó materna se enervava, permanecia impávida e destruía o motivo de exaltação.

 

- Vou agora tomar o meu chá civilizado, porque tenho a certeza que a menina se quer ir embora.

 

Quando a minha avó paterna perdia as estribeiras e lhe aconselhavam a calma como lenitivo para o descontrolo, atirava a cabeça para trás, agitava o guizo cascavel das pulseiras, e com um cigarro nervoso entre os dedos, clamava:

 

- Não me irrite, sua parola, ou fica a saber como é estar enfiada até aos dentes numa ópera de Wagner!

 

O to be or not to be numa versão avoenga.

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Gavetas:

A Gaffe no hipermercado

rabiscado pela Gaffe, em 23.07.19

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A Gaffe odeia hipermercados, mas admite que se pode preencher lindamente a despensa na secção dos frescos do Continente.

 

Acredita que na Madeira e nos Açores os carrinhos podem comportar produtos idênticos, mas, segundo dizem, são mais resistentes e mais duros – mais insulados -, embora uma rapariga esperta saiba que é tudo uma questão de se introduzir a moedinha na ranhura certa.    

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A Gaffe pouco provável

rabiscado pela Gaffe, em 22.07.19

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Há alguns dias alguém fez uma ligação para estas Avenidas. Como a curiosidade afagou o gato, esta rapariga foi espreitar a razão, pois que tem sete vidas e pode perder uma ou duas.

O post em causa surgia com uma daquelas frases faceboquianas, emolduradas e pregadas na parede. Nada mais existia, a não ser aquela colada alusão ao modo como me dedico a filosofar, ou em busca de provérbios bíblicos, durante os dias úteis, enquanto que ao fim-de-semana me entrego aos prazeres da carne. Tal constatação, assustava a responsável pela ligação.

 

Achei extraordinário.

 

As probabilidades de se acertar na forma de viver dos outros, através daquilo que intuímos pelo que deles lemos, são iguais às que nos cabem no cabaz do euromilhões.  

 

Estamos sempre invariavelmente longe da vida dos outros, se conhecemos deles apenas as migalhas, e é muito pouco acertado considerar que é legítimo o que se intui, tendo apenas como termos de comparação e únicas referências as nossas próprias vivências.


É interessante, mesmo para a banalidade da frase iluminada e sem dono, o uso do prazeres da carne como exemplificativo da minha actividade lúdica de final de semana, porque ilustra o erro e a enorme distância que separa a minha cama supostamente em desalinho carnal daquilo que realmente me ocupa.

 

Há quase seis anos que os meus fins-de-semana são entregues a um projecto que me consome horas a fio e que me ocupa desde a alvorada ao anoitecer. Foi construído de raiz. Paguei cada pedra, cada telha, cada pedaço de cal, cada trave de madeira, cada lata de tinta, cada vidro, cada porta, cada objecto, cada instrumento, cada peça de mobiliário, cada maquineta, cada detalhe, cada uma das necessidades e urgências que foram surgindo. Continuo a pagar a manutenção, a limpeza, a água, a luz e a segurança. Continuo a pagar às pessoas que comigo trabalham, excluindo a Margarida e a Luísa que se tornaram essenciais nos turnos e nas escalas que não se importam de cumprir sem qualquer remuneração.

Se fosse de Direito, falava em pro bono. Sou de Ciências e, como tal, deixo de ter fácil acesso expressões latinas para nomear o facto de me sentir obrigada a olhar para a minha gente que não tem, que nunca teve, capacidade de pagar o direito de ser assistida condignamente.

Tenho, é evidente, a sorte e a possibilidade de, fora deste projecto, escolher o que quero fazer, quando e onde quero trabalhar, mas aqui, cá dentro do que fui erguendo sozinha, o meu horário é nobre e para lhe obedecer tenho por obrigação os meus fins-de-semana saturados.

É evidente que tropeço - cada vez menos, felizmente - com os chamados ditos e contos de pares e de ímpares, mas sempre mantive a minha privacidade murada e os petardos foram sempre inúteis e inconsequentes.

 

Escapa-se agora um pedacinho de luz sobre os prazeres carnais dos meus fins-de-semana. Deixo que a menina da ligação entre nos meus muito secretos dias inúteis. Foram privados até ao momento, exactamente como mantenho privado, ao contrário do que se supõe, o resto da minha vida ladeada pela vida dos outros.

 

É tontice concluir que nestas Avenidas foram expostas as vidas de quem amo. Jamais incorri no terrível erro de narrar o que não quer ser narrado, ou expor o que não deve e não quer ser exposto. Entre centenas de imagens que aparecem nestas Avenidas, raríssimas são as que revelam o meu mais íntimo universo. Entre as narrativas que se desenrolam por estas paragens, foram evitadas as que se relacionam com aqueles que as iriam abominar se descobertos nelas retratados. O meu irmão, os meus pais os meus avós paternos, o homem que amo e que biblicamente conheço, por exemplo, foram apenas - e raramente - tocados de raspão. Foram sempre preservados. Nunca mostrados.

 

Conheço os meus. Sei exactamente os que posso revelar sem dolo ou dano e os que devo calar e sentir apenas dentro da minha alma.

 

Sou, ao contrário do que se imagina, uma rapariga muitíssimo sensata.  

  

Por tudo o que é dito e mais que não se diz por ser privado, acabo por perceber que, debicando as migalhas que encontramos no caminho, nunca chegaremos à casa de quem queremos. Chegamos sempre à nossa.

 

Imagem -Jon Whitcomb

 

NOTA - O que foi escrito, deve-se a um erro grosseiro de interpretação da minha inteira irresponsabilidade. Não quero - nem posso, nem devo - deixar de pedir publicamente desculpa ao blog envolvido, que se limitou a ser gentil com esta idiota que agora se penaliza, assim como a todos os que leram e tiveram a amabilidade de me comentar.

O erro, contudo, não será apagado. Ficará exposto para me envergonhar. 

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A Gaffe com a face app

rabiscado pela Gaffe, em 19.07.19

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No meio de algazarra muito pouco BCBG, a Gaffe é colhida pela mais recente coqueluche: a face app.

Ao som de gritinhos, gargalhadinhas, saltinhos e pequenas exclamações de divertida surpresa, as meninas vão apanhando o futuro dos seus rostos fresquinhos.

A Gaffe não compreende tamanho alarido saltador. Sempre imaginou o grupo tresloucado bem pior do que o previsto, passado o tempo que se indica.

Recusa, portanto, ser vítima de benevolências informáticas.

Insistem, sugerindo a submissão de um rosto alheio ao seu. A Gaffe aquiesce, num revirar de olhos.

 

Não funciona!

A aplicação não funciona!

 

Espreitam espantadas e um bocadinho irritadas descobrem que a Gaffe tinha escolhido a Cher.

 

Não querem brincar mais.

 

A Gaffe acaba, depois de muito matutar - coisa que faz rugas - por concluir que a face app é útil apenas como forma de tornar mais próxima a relação do povo com os seus eleitos.

A Gaffe pode, deleitada, engraçada e bem-disposta, escolher, por exemplo, o penteado dos políticos. Dar palpites, sugestões, votar nas madeixas que melhor assentam nos sentados seus representantes que mimosos submetem as suas poses marotas ao escrutínio do povo.

Aproxima-nos! Adquirimos uma cumplicidade fofa que nos dá a hipótese de escolher o cor-de-rosa mavioso do tailleur da política, ou o tom exacto da grisalha melena ao vento trauliteiro do deputado europeu.

A face app pode ser inquestionavelmente o método mais sólido de aproximação dos eleitores dos seus representantes. A Gaffe supõe mesmo que não existe outro qualquer, pois que a aplicação não permite, caso existissem, a submissão de ideias e ideias.      

 

Imagem - Joseph Wright of Derby - auto-retrato (detalhe)

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Gavetas:

A Gaffe de JMT

rabiscado pela Gaffe, em 18.07.19

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Há homens que tagarelam. Ouvem-se a palrar e ficam fascinados com os sons que produzem.

Por norma, deixamos fluir o discurso, mostramos um olhar atento, um silêncio respeitoso e uma quietude social de bom-tom, mas distraímo-nos com o tom das peúgas que o palrador está a usar, com a cor da sua camisa, com o formato dos sapatos ou com a madeixa ao vento que teima em voar. Passamos o tempo a divagar sem que nada perturbe o bom correr da pena das palavras do homenzinho.

Não tem importância.

A distância que sentimos entre o que se diz, o que nos soa, e a nossa indiferença, é caminho duro de rasgar, mas o tempo que é gasto a ouvir o palrador está claramente ao nosso dispor e dele e do seu bom uso se faz treino.

 

Aconteceu com João Miguel Tavares (JMT).

Referi, no tempo em que o ouvia, alguns tropeções deste rapaz que podem ser reerguidos aqui, aqui e aqui. Haja paciência.

Depois decidi olhar para outro lado.

Não tinha importância. JMT falava e escrevia sobre o que não conhecia.

 

Aconteceu então o 10 de Junho e JMT ouviu-se a discursar.

Aconteceu então Maria de Fátima Bonifácio e JMT fez-se ouvir a discordar levemente de uma amiga, mas que há culturas superiores a outras, lá isso há.   

 

Outros - e disso é o exemplo colhido no imediato e imediatamente ao dispor -, incomparavelmente melhores do que eu, já rebateram e rebentaram os ditos e escritos destruindo os conceitos de superioridade cultural e civilizacional implícitos ou explícitos no artigo do jornalista. Não é pertinente a pobre opinião de uma ruiva revoltada que em nada acrescenta ao já argumentado.

 

No entanto, JMT adquiriu uma visibilidade inusual. O Governo Sombra forneceu-lhe grande parte do palanque e do púlpito mediático e foi entregando à sua opinião um peso e uma difusão que até agora não tinha.

Pesando este facto, aconteceu o discurso do 10 de Junho. Aconteceu JMT a renovar a elegia e a ode à família numerosa, harmoniosa e como manda a regra, a delimitar o terreno do nós e do eles, sublinhado que eles não pertencem ao círculo onde os portugueses e as portuguesas - pindérica tolice esta de se enunciar desta forma um povo todo! - sofrem as agruras dos abusos e das injustiças, das diabruras e dos crimes, e de mais que não se diz por ser tão mau, do poder, da governação, dos governantes, do grupelho do eles.  

 

Acontece agora JMT a palrar sobre a superioridade de determinadas culturas em relação a outras, atribuindo, entre outras alarvidades, e à laia de gracinha, a prova de inferioridade cultural destas últimas - das outras -, ao facto não ter sido por acaso um zulu a escrever Romeu e Julieta.

Se continuarmos aqui, só pelos escritos, assumimos que JMT escureceu – por ser inferior, suponho – a produção literária de inúmeros recantos do planeta onde se é culturalmente tosco e onde o Iphone provavelmente ainda não adquiriu a importância que o jornalista lhe entrega.

Despreza um acervo cultural de extraordinária importância vindo de locais que JMT considera pouco dados aos encantos do que é liberalmente endeusado pelo superior opinion maker.

Na enxurrada da inferioridade anda aos tombos - entre tantos, tantos outros! -  a poesia Nabati, Seydina Laye, Al-Mu'tamid, Ibn Kuzmān, ibn Ibrǎhim ibn˙Abd al-Ghani, ou Omar Khaiyat e Rubaiyat, a sua monumental obra. Na avalanche da sua superioridade são soterrados a poesia negrista de N. Guillén, enterrados Frantz Fanon, Aimé Césaire ou René Depestre e a negritude é apenas um percalço. Um pedacinho mais de nevoeiro britânico e as Mil e Uma Noites são as de Portalegre e o Kamasutra foi escrito em Lisboa.

 

Preocupante é reconhecer que JMT sendo um homem inteligente, com uma sólida cultura livresca, informado, influente, bem-falante, agradável, de convívio são, com acesso a poderosos meios de comunicação, capaz de articular belos raciocínios lógicos, argumentando de modo convincente se nos aproximarmos com leviandade dos ditos, é capaz de elevar o populismo a um patamar de excelência, contornando e aniquilando os grotescos venturas deste piso.

 

Quando homens assim se conseguem unir com subtileza a bonifácias, tornamo-nos - distraídos com bastante facilidade -, a muito curto prazo, bonifrates movidos por chavões.   

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A Gaffe 007

rabiscado pela Gaffe, em 17.07.19

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A notícia, se verdadeira, deixa-nos, a nós raparigas espertas, prostradas, doridas, frustradas e empapadas em desilusão.

Lashana Lynch será 007

Uma das maiores tolices da história do cinema que já conta com 20 anos de masculino espião.

Uma mulher jamais poderá encarnar 007!

A classe e o charme desta espionagem ao serviço de Sua Majestade serão sempre masculinos.

 

007 foi criado para ser um homem, apenas um homem, só um homem e nada mais do que um homem. Ian Fleming foi peremptório e Daniel Craig cumpriu de forma extraordinária esse destino, recriando um fleumático, musculado, sofredor, carnal, brutamontes e sovado James Bond. O melhor de sempre, o mais atraente, o mais másculo, o mais ensanguentado, o mais sujo, o mais suado, o mais chorão, o mais sensual, o mais bonito, o mais esmurrado, o mais animal e, sem sombra de dúvida, o que faz com que nos faleça o tino mal o avistamos de tronco nu, ou de speedo a surgir no oceano do nosso contentamento.

 

É preciso acompanhar os tempos – dizem alguns com olhos doces, estendendo-me os braços, e seguros de que seria bom que eu os ouvisse, enquanto se afirmam dispostos a calcorrear os mesmos trilhos do tempo que passa.

 

É evidente que as duas décadas de Bond não foram grandemente simpáticas com as mulheres, embora, diga-se em abono da verdade, nunca tenha ficado claro se era o espião que as usava e descartava, ou se era o contrário que se verificava. Não há registo de nenhuma rapariga tombada deprimida depois do alegado abandono do rapagão maroto e não está determinado com exactidão se é 007 a levar as girls para a cama – ou para qualquer outro sítio, que o rapaz sempre foi muito despachado e inventivo -, ou se são elas que aproveitavam a onda dos lençóis para matar o tempo disponível entre o tiroteio.

 

Certo que, sendo 007 uma mulher, a tortura a que a espionagem fica sujeita se torna mais limitada, o que não deixa de ser confortável. Ninguém dá pancadaria nos testículos de Lashana Lynch, à semelhança do acontecido aos de Daniel Craig – um despedaçar dos nossos corações, sobressaltados com tal cena e desfeitos em cada paulada -, mas acreditar que transformar uma mulher em 007 equivale a terraplanar as eventuais ofensas ao feminino, ou a vingar décadas de alegados machismos patentes na saga, tornará homogéneo, justo e muito #metoo, o tratamento dado aos dois sexos nas fitas do espião, é uma tolice desmesurada digna de ser sujeita a ordem para matar.

 

São as mulheres que devem ensinar, educar, James Bond, sem que nessa árdua tarefa careçam de assumir o papel de protagonistas. São divinais, sedutoras, inteligentes, poderosas, belíssimas, potentes e mais que não se diz por ser verdade e cansativo repeti-la.

Bond deve ser confrontado por mulheres da sua craveira, tratado, manipulado, ofuscado, usado, esfolado, despido, suado, largado, protegido e todo o resto que habitualmente é da responsabilidade do espião e de seu uso frequente quando se depara com um maravilhoso par de mamocas. As mulheres sabem que Craig tem um par de outras coisas, que podem inclusivamente ser sovadas, igualmente atraentes.  

 

É uma tolice.

 

Não é de todo necessário entrar em cena Lashana Lynch. Só entope as nossas maravilhosas noites de icónicos machos espiões que tantos arrepios nos causam quando emergem do oceano molhados e feridos, mas prontos a atirar uma rapariga para a areia e a provar insistentemente que os têm de aço. Os braços.

Vá, não sejam ingenuamente condescendentes e paternais. Evitem ser possidónios e sobretudo tentem escapar à pinderiquice feminista.

 

As mulheres, acreditem, sabem educar o James Bond.      

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A Gaffe artesanal

rabiscado pela Gaffe, em 12.07.19

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Na mão dele havia o traço negro das gôndolas e um abandono, ao frio, de estandartes.

Na mão dela ficava o mapa do corpo que era o dele, reencontrado, e o lento arrasto da euforia dos trajectos.

Na mão dele havia um peregrino. Outrora as mãos peregrinavam e no encontro com as mãos dela ouviam-se rezas pagãs nas catedrais.

As mãos dele, divinas.

As mãos dela comédias, saltimbancos súbitos que assustavam prendendo pássaros aos dedos.

 

A mão dele agora no flanco dela, como o esboço morto de um poeta, deixou de ser tudo.

São mortas as baladas que ecoavam por entre os dedos brandos da mão dele.

Talvez a noite aquática das praças tenha desfeito o que ele entrançava na varanda dos seus dedos, ou talvez seja ela a ir-se embora.

 

Porque o fim do amor é artesanal.

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