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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe anelada

rabiscado pela Gaffe, em 28.09.18

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A Gaffe está pronta.

 

O apartamento desnudou-se finalmente. A luz ocupa o soalho espalhada por uma dimensão que se desconhecia. Parece mais pequeno agora aquele espaço. Incongruentes são as percepções das gentes.

 

Na véspera escolheu a blusa azul-petróleo, fresca, laçada no pescoço, larga e sem mangas. As calças são ferrugem de linho e seda, perto do corpo. Afuniladas, dizem os que sabem. Os caracóis presos por um lenço cor de girassol, deixam-lhe o rosto livre, olhos abertos banhados pelo mar. Tem os sapatos sozinhos a um canto. Não os calçou ainda. Ainda é cedo. Ainda há tempo para molhar a água. Ainda há tempo para queimar as cores.

A Gaffe respira fundo o fundo da saudade, aquele donde parte a bebedeira dos vagabundos que deixaram de chorar em todas as partidas - as da vida e as deles, que são coisas diversas.

A Gaffe roda o anel com pérolas. Estranhou-lhe o peso mal lho deram. Pousa-o no chão, como se deitasse uma criança. À espera, adormecido junto dos sapatos. Voltarão a andar em breve, mas ainda há tempo para os pés descalços sem o peso do anel que vão suster.

 

Dizem que é de noiva.

A Gaffe é uma noiva. Dizem que sim e ela não se importa.

 

A Gaffe está pronta.

O carro chega por fim e fica à espera. A Gaffe desce depois de olhar o mar e de o deixar no soalho aberto em luz anil antigo.

Vai dizer adeus ao Douro e pedir que a terra lhe abençoe o coração das pérolas que pesam.

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Gavetas:

A Gaffe e a actriz

rabiscado pela Gaffe, em 27.09.18

Sussex por Roland Mouret.jpg

Antes e agora, as mais sofisticadas princesas europeias foram actrizes.

 

A elegância absoluta, sem erro e sem margens para dúvida ou hesitação, parece ter como aliada imprescindível uma lapidada capacidade de fingir.

 

Duquesa de Sussex por Roland Mouret 

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A Gaffe escandalizada

rabiscado pela Gaffe, em 27.09.18

O mais recente escândalo britânico:

 

 A duquesa de Sussex fechou a porta do próprio carro!

 

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- What is a car door?

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A Gaffe adjectivada

rabiscado pela Gaffe, em 27.09.18

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É certo e sabido que os rabiscos da Gaffe estão pejados de adjectivos e de advérbios. Uma coisa tremenda que foi desde sempre apontada como desgraça para o bom fluir de um texto. Também é evidente que a Gaffe sempre teve perfeita noção da ocorrência e nunca levantou o dedo da tecla para evitar a desfaçatez. Esta rapariga não gosta de se desgastar com o gosto dos seus críticos, nem tem a intenção de elevar rascunhos tontos ao nível dos escritos dos contidos consagrados. É o que se poderá chamar um vê se te avias de adjectivação.   

 

A Gaffe aproxima-se desta forma das figuras curiosíssimas que de quando em vez trespassam os nossos areais, vendendo bugigangas. Capazes de enfrentar a maior canícula e os mais agressivos raios meridionais, estes senhores pisam brasas carregados de varapaus onde pesam centenas de inutilidades que incluem lenços de coloridos gigantescos, óculos de sol, fios, pulseiras, estatuetas africanas, elixires capilares, berloques, quinquilharia marítima, destroços de automóveis, saídas de praia para matizar gorduras, vestidinhos de alças e de bordado inglês feito na China, mantas da Covilhã, bronzeadores e uma ou outra fotografia de Mapplethorpe apanhada no caixote do lixo de Serralves.

 

A Gaffe não tem qualquer prurido em ser literal e literariamente comparada a estes corajosos vendedores de banhas de praia.

O que a aflige - de forma ligeira e muito precavida, pois que a Gaffe é muito dada a  brunouts repentinos -, é ver-se próxima daqueles senhores que aparentemente não vendem frandulagem, mas que a usam por todo o lado. O importante é que se consiga avistar a olho nu – para contrastar.

 

É evidente que os excessos femininos são condenáveis, mas nós, raparigas, podemos sempre dizer que carregamos a herança cultural de legiões de druidas. Fica bem e ninguém se atreve a passar por inculto. O dente encastrado em ouro que trazemos ao pescoço, que arrancamos à chapada a um passado recente, turbulento e barbudo, é visto como um chamariz da aura ancestral emanada pelos barbeiros, alquimistas ainda imberbes, chegado da escura, densa e esconsa Idade Média.

Com os homens estas preformativas justificações não resultam.

 

Um rapagão que se disfarça de mostruário de farraparia é, por norma, excluído da selecção de rapazes que podem ser despidos por raparigas muitíssimo empáticas, ou demasiado sociáveis nas noites das iguanas.

Os berloques, as medalhas, os anéis nos dedos e os penianos, os botões de punho, os alfinetes, os pins nas lapelas, as pulseiras, as correntes, as fitas nos punhos, as fitas ao espelho, os cintos complexos de fivelas torpedeiro, os picos das botas, os piercings nos mamilos e príncipes nas pilas, as coisas pendentes e as tretas sem dentes, os brincos, os aros, argolas nasais e as depiladas pernas que reluzem de noite, são provas cabais dos crimes que os donos cometem quando desatam a acreditar que é atraente a Feira da Ladra.

 

A Gaffe propõe que toda a fancaria usada por estes rapazes-mostruário, seja neles tatuada. Poupa imenso tempo, não oxida, não sai, nem vai, não foge, não escorrega, não se perde, não se ganha e contribui para que se cumpra o desiderato de toda esta gente à beira mar exposta. Em 2020, os portugueses terão todos uma tatuagem algures e uma selfie com Marcelo.  

 

A Gaffe dá o exemplo e tatua adjectvos e advérbios.                        

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A Gaffe über alles

rabiscado pela Gaffe, em 26.09.18

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A primeira e última vez que a Gaffe andou num táxi, concluiu que deveria ter fretado um helicóptero. Ficava mais em conta, em linha recta, apanhava ar fresco e chegava a tempo e horas ao destino, sem pensar a todo o instante que ia sofre um AVC.

 

Esta rapariga sai de um aeroporto, vinda já não se recorda de onde, e fica a saber que ninguém a consegue ir retirar de um calor imenso de ananases, comprovando-se mais uma vez o quanto a humanidade é capaz das maiores atrocidades sem que as boas pessoas se indignem.  

 

A Gaffe sente-se no dever de avisar que as malas Prada não são as indicadas para arrastar nos pavimentos de granito. As rodinhas são minúsculas, metem-se nos dentes dos rochedos e fazem com uma criatura sinta que foi ao dentista e que o homem lhe enfiou o berbequim no cérebro. Não se adiantam outras hipóteses, pois que Serralves espreita.

Convém referir ao mesmo tempo que é de evitar pedir ajuda àquela espécie de militar que cruza as mãos em frente da pila, abre muito as pernas e se perde em meditação, focado num ponto que fica sempre uns malditos centímetros acima das nossas cabeças. Aponta sempre um dedo silencioso para um lado qualquer como se o estivesse a enfiar no rabo do papa, ou seja, muito lentamente e com pouca convicção e, com um esforço visível, ronca:

- Circule, faxávor.    

É gente pouco recomendável.

 

A Gaffe, absolutamente esgrouviada, de lenço Hermès – não há outros, pois não?! - a ensopar-lhe os caracóis, vestido sedoso e frágil colado ao corpo -  em insinuações que não agradariam de todo ao Conselho de Administração de um qualquer Museu -, e sabrinas Chanel - as pretas e brancas com picotados e lacinho de morrer de lindo -, tenta abrir a porta da carripana mais próxima.

Não. Aquilo estava em fila. Tinha de fretar o da frente.

Lá vai formosa e não segura – será que Camões já foi liricamente retirado do cardápio dos Iphones daquelas coisas adolescentes que vivem no instagram? -, tentar socorrer-se do primeiro da fila, senhor abastado de carnes e anafado de pêlo, que se tinha colado ao banco, apenas com a capacidade de mover a cabeça e esticar a manápula para forçar o manípulo da porta.   

A Gaffe entra na cápsula do tempo perdido em busca de sombra, pois que é uma rapariga em flor.

 

- É p’rá d’onde?      

  

No Douro, um dos petiscos mais populares é constituído por uma cebola crua, embutida em sal e vinagre, que se morde e mastiga misturada com broa. Depois os homens vão aniquilar os fungos das videiras, com o hálito.

O senhor taxista tinha decidido erradicar o míldio, logo ali, de vez.

A Gaffe balbuciou o endereço e o homem arrancou de cotovelos erguidos.

O albatroz que ronca.

A Gaffe vislumbrou o massacrado Iraque invadido injustamente por chusmas americanas, pois que as armas químicas se concentravam, isso sim, nas axilas do condutor do tanque onde esta rapariga amaldiçoava Blair, Aznar e Barroso, para se abstrair do drama que vivia em carne viva. A outra versão rondava defuntos em campos de batalha medieval, mas era alternativa inaceitável tendo em consideração que a idade Média era mais limpinha e não havia plástico para espalhar pelo chão dos viículos montorizados.   

   

A Gaffe olhava para os lados, tentando não mexer a cabeça com receio de a perder.

A Gaffe sentia que um movimento seu podia desencadear uma conversa ou um homicídio.

A Gaffe temia que uma prosa desacorrentada incluísse a luta de classes. Embora pronta e apta a imitar um comunista russo, um herói da Alemanha de Leste, um guerrilheiro cubano ou até Frida Khalo a cuspir para o chão - uma rapariga esperta sabe sempre como sobreviver nos desertos, mesmo nos ideológicos -, a Gaffe temia que o homem fosse o Franco expulso finalmente do Escorial, tendo em conta o cheiro.

    

O senhor cantava pelo caminho.

 

A meio do percurso, esta rapariga petrificada apercebeu-se que havia naquele receptáculo de missa negra uma voz feminina, ao fundo, que acompanhava o vozeirão tonitruante do cantor:

 

Tá turbinada
Tá toda turbinada
Tá turbinada
E não lhe falta nada

 

A Gaffe aceitou o suplício com a abnegação daquelas raparigas muito desprendidas de bens materiais que depois ouvem vozes e morrem assadas. Uma Joana d’Arc.

Cerrou os olhos. Acariciou a sua única amiga, a maldita mala Prada pesada que o senhor tinha ignorado quando percebeu que a tinha de enfiar na carripana e esperou a morte que poderia sobrevir a qualquer momento, por afogamento – a Gaffe diluía-se sem ar condicionado -, ou carbonizada. Que viesse o taxista e escolhesse.

 

Chegou ao destino depois de ter feito um percurso turístico pelo Porto inteiro afogueado. Um pouco mais de sol e era brasa.

Pagou, sem piar, fugiu sem asas e chegou apenas com penas.

 

O único consolo que lhe resta reporta-se ao karma. A Gaffe sabe que no algures perdido do século XX, os confrontos entre os antigos e velhos cocheiros de Lisboa e a Companhia Nacional de Auto-Transportes que inaugurou o serviço de carros de praça, deu no que deu. Já nessa altura se ouvia gritar:

Tàxis über alles!

 

Über alles, meus queridos.

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A Gaffe taxista

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.18

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- Mas afinal, minha amiga, o que é um táxi?

 

Fotografia - Nina Leen

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Gavetas:

A Gaffe de Serralves

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.18

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A Gaffe considera pacóvia e suburbana a atitude do Conselho de Administração de Serralves que permite supor que reprovaria ou esconderia o pipi de Courbet na primeira oportunidade que surgisse nas paredes.

 

Os artísticos membros do Conselho de Administração do museu, poderiam facilmente evitar o desaire Mapplethorpe sentando os rabinhos em cima das fotografias que classificaram como inconvenientes e merecedoras de censura. Era bem mais discreto, ninguém as veria e acabava por ser uma atitude que os aproximaria finalmente do que parece nunca terem sentido na vida.       

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A Gaffe em agonia

rabiscado pela Gaffe, em 24.09.18

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A Gaffe acaba de saber que o Daffy Duck só fazia sexo com lençóis pretos. Nada de patas.

 

Mais uma infância barbaramente destroçada.

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Gavetas:

A Gaffe relativa

rabiscado pela Gaffe, em 24.09.18

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Diz o sábio que o tempo é relativo.

A Gaffe simpatiza imenso com o alegado autor da máxima e embora jamais possa entender a sua Teoria, percebe a simplória sentença que lhe é atribuída.

A consciência das alterações operadas nesta rapariga aos longo destes últimos anos, sobreveio num curtíssimo espaço de tempo. Dois meses foram suficientes para que as metamorfoses ocorridas em silêncio subterrâneo, se revelassem de forma evidente e provassem que o povo tem razão, de quando em vez.

Quem sai aos seus, não degenera.  

A Gaffe apercebeu-se que saía aos seus. Provavelmente aos piores, se pautarmos a nossa avaliação pelas listagens e parâmetros de quem vai pastando unicórnios.

O optimismo ledo e brando, a tolerância suave, a maleabilidade, a paciência, a solidariedade, a compreensão e todas as outras características que são apanágios das boas pessoas, foram sendo assoberbadas, foram tendo acidentes - atropelamento e fuga - e foram assolapadas, devagarinho aniquiladas, pois que devagar se vai ao longe. A grande metrópole do real acabou de vez com a ilusão de que todo isto era impressão, uma fitinha de nada para compor o ramalhete.

 

A Gaffe é uma cabra, cumprindo a tradição dos seus - das suas, sobretudo. Agrada-lhe perceber que orgulha a família.

Como seria de esperar, não a incomoda balir desta forma. Tem o mesmo som da Inocência ou da infância - nem sempre coincidem -, pois que nos convencem que os extremos se tocam.

 

Apesar do dito, a Gaffe observa o mundo como outrora. A diferença está no facto de sentir que no antigamente das estrelas, pese embora os brilhozinhos, usar o capuchinho das pessoas certas podia facilmente ser sinónimo de perigo, enquanto que agora esta rapariga sabe que os lobos estão em extinção. Os pobrezinhos.

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A Gaffe rapidinha

rabiscado pela Gaffe, em 21.09.18

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Entranhada em superficialidade, encharcada em futilidade, embebida em inutilidade, a Gaffe pousa um preclaro pé calçado com o ordenado de um professor português, no granito da sua saudosa Avenida portuense. O outro ordenado cumpre o que planeou. Sempre que o mar se avistar da sua janela, a Gaffe afastará cortinas digitais e afogará saudades espalhando palavras no allure tonto deste lugar abandonado.

 

A Gaffe chega diferente.

 

Sem amigos - um amigo de uma mulher é sempre um maçador amante visto de perfil - e certa de que a sua única amiga, que permanecerá fiel toda a vida, é a sua carteira Louis Vuitton, a Gaffe faz esvoaçar o seu novíssimo penteado que permite que as labaredas dos caracóis atinjam as copas da liberdade ruiva controlada apenas pela mão esguia da dona onde sobressai um Cartier em pérolas. Chega formosa e segura, atirando Leonor pela ribanceira dos camonianos amores, e em Dior pálido - contrapartida às temperaturas exaltadas do seu Porto. Atravessará durante uma semana inteira os lusos corredores ribeirinhos dos olhares copiosos que chicoteará com a indiferença de quem usa óculos escuros para não se ofuscar com o próprio brilho.

 

A Gaffe saracoteia revistas aéreas. Dedica-se há algum tempo aos valiosos temas que as preenchem e sente uma atrasada compreensão e, apesar disso, uma intemporal solidariedade, perante a dor de uma rapariga esperta que identifica a sua partida d’algures com a morte de um elemento da realeza britânica. A Gaffe entende, pois que o seu próprio afastamento se assemelha à morte de Grace de Mónaco. São ocorrências com notórias semelhanças. Diana de Gales, esperta, não dista grande coisa da rapariga, esperta, que agora foi para outro lado. Ambas foram fabricadas pelas câmaras, ambas as usaram com uma eficácia a toda a prova, ambas distraíram e retardaram públicos, ambas foram fotografadas com pobrezinhos ao colo no centro de estudos de luz e ângulos selecionados atá á exaustão e desistência dos ditos e ambas deixaram órfãos que, segundo se vê, medram lindamente. O Goucha e o outro petiz continuam robustos e os príncipes estão felizes com as raparigas espertas que encontraram depois. Nenhuma abala ou abalou o planeta onde se extinguem.

 

É evidente que a escala é diferente. Uma é global, a outra é da SIC; é evidente que a princesa que se espetou contra o muro, teve a sensatez de passar a usar Moschino, Versace e Chanel, depois dos rabanetes, das couves e dos cogumelos da romaria com que se casou; é evidente que sabia murmurar, sussurrar, insinuar e alfinetar - sobretudo nas entrevistas; é evidente que adivinhava que não se cruzam as pernas até que se avistem as amígdalas nos salões onde estão as velhas; é evidente que a tiara não era tudo o que tinha na cabeça; é evidente que a tiara era mesmo de diamantes e é evidente que, nestas áreas - essenciais a quem se passa, sem a passa - os pontos passam ao lado da Serena Williams dos concursos de gritos.

 

Mas, meus amores, o resto não deixa de encaixar muito bem.      

 

Não aborreçam a Gaffe mal esta luminosa rapariga pousa dois ordenados dos professores portugueses nas pedras destas Avenidas, recordando o apelo do ternurento e fofo primeiro-ministro dos portugueses e das portuguesas que lhe garante que, se voltar definitivamente a esta floreira perdida à beira-mar, terá apoio no realojamento, pagará metade de um imposto que deixa de existir por falta de emprego e que se transformará em bruta, em parva, em retardada, em descerebrada, abandonando um salário que quintuplicou e que vai crescendo à medida que dá provas de eficiência, eficácia e dedicação.

 

Não desmotivem a Gaffe. Para desgosto já lhe basta Margarida da Dinamarca.  

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A Gaffe num voo

rabiscado pela Gaffe, em 06.07.18

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Regresso finalmente à luz da superficie plana que fora de mim suporta o que de frio tem a vida inteira, como que chegada a um corpo numa manhã de tronco nu.

Regresso ao corpo da manhã de tronco nu. À curvatura do peitoral esquerdo onde lateja com mais força o coração. Batida certa, compassada e branda.

Regresso ao corpo de Paris como quem se perde, como quem espera num porto o marinheiro que se quebrou no mar, ou dentro da orquídea da nuvem sobre as ondas, e abro as mãos despidas sobre a pele até a pele doer devagarinho, até sentir os peixes dentro dela, retorcendo escamas, reflectindo a lua e mordendo a água que é suor e pedra.

 

Lá fora a minha Avenida passa por mim e entra no meu peito.

Desenho no vidro da partida a saudade que chegou precipitada. Sempre adiantada, a saudade em mim! 

 

Durante todo este tempo de interregno, um tempo da Avenida com um nome tropical, um tempo de Ribeira Negra e gritos de gaivotas, esperei sem destino ou marca, quieta e obediente, que dentro de mim se rasgasse uma janela que perdesse o que fui, quase consciente da minha vacuidade e da inutilidade dos meus olhos. Durante o tempo da Avenida não fiz perguntas a não ser por dentro, sem nunca me esquecer por um instante que a alma não responde ao ritmo do bater do coração da dúvida.

 

Olho agora este meu Porto quieto e percebo o modo como se fechou cobrindo em mim aqueles que passavam. Um imenso cão de guarda de sentinela a um berço.

 

É tempo de me entregar a outra luz e nenhuma outra luz me lavou o corpo como a de Paris.

Paris dentro da chuva, solta nas ruas, presa nos telhados, procura a minha alma para se abrigar e vai encontrar a minha Avenida coberta de mar agarrado às pedras e um Porto inseguro com sabor a vento.

 

Espera-me a madrugada de Paris sobe os telhados que doura a saudade do Douro no meu peito. Cachos de janelas, parras de cortinas e a quietude dos socalcos dos andares onde canso os olhos na subida. Paris despovoada na Avenida e um rio no voo do pardal. A concertina num cesto de vindimas e o meu corpo nu na valsa de calcário.

 

Cet air qui m'obsède tour et nuit
Cet air n'est pas né d'aujourd'hui
Il vient d'aussi loin que je viens
Traîné par cent mille musiciens
Un jour cet air me rendra folle
Cent fois j'ai voulu dire pourquoi
Mais il m'a coupé la parole
Il parle toujours avant moi
Et sa voix, couvre ma voix

 

Padam, padam, padam…

 

 

Il arrive en courrant derrière moi,
Padam, padam, padam, il me fait le coup de «souviens-toi»
Padam, padam, padam, c'est un air qui me montre du doigt
Et je traîne après moi comme une drôle d'erreur
Cet air qui sait tout par cœur.
Il dit rappelle-toi tes amours
Rappelle-toi puisque c'est ton tour
Il n'y a pas de raison pour que tu ne pleures pas
Avec tes souvenirs sous le bras
Et moi, je revois ce qui reste
Mes vingt ans font battre tambour
Je vois s'entrebattre des gestes
Toute la comédie des amours

 

Padam, padam, padam, des «je t'aime» de quatorze juillet
Padam, padam, padam, des «toujours» qu'on achète au rabais
Padam, padam, padam, des «veux-tu, en voilà» par paquets

 

Et tout ça pour tomber juste au coin de la rue
Sur l'air qui m'a reconnue
Ecoutez le chaout qu'il me fait
Comme si tout mon passé défilait
Faut garder du chagrin pour après
J'en ait tout un solfège sur cet air qui bat, 
Qui bat comme un cœur de bois.

 

Piaf (1951)

Música - Norbert Glanzberg

Letra - Henri Contet 

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Gavetas:

A Gaffe sombria

rabiscado pela Gaffe, em 04.07.18

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Via-os passar iluminados pelo calor.

Ficava parada a observar-lhes as sombras que se contorciam nas pedras, mais maleáveis ainda que os corpos que as deixavam escapar. Sempre me pareceram mais frescas, as sombras, mas talvez fosse dos vidros frios onde me fechava para as ver atravessar. Talvez a dependência da luz as arrefecesse. Talvez a percepção da inexistência daquelas manchas na ausência do brilho gerador, me fizesse acreditar que não me afligiam, escaldando como os corpos.

Inspiravam-me confiança, aquelas sombras.

 

Dependo de sombras.

Dependo demasiado daqueles que me asseguram um frio de abrigo quando a luz se enfurece.


As ausências da minha irmã e do meu irmão provocam-me uma sensação de desabrigo e de falta de ar que controlo mal.
O meu irmão tem olhos com paisagens retiradas do rio, mas tem também obscuridades de fúria e desalmamento que se estendem pelas ruas como negritudes. Os abismos da sua alma, que surgem subitamente e subitamente aos nossos pés se abrem, dão-me a sensação angustiante de queda e de abandono, mas, em simultâneo, abrigam-me e turvam ameaças.
A minha irmã tem alma veneziana. Canais de pedras húmidas e praças sombreadas. Há gôndolas e palácios de claridades entrançadas, mas o escuro afunda os alicerces e é neles que encontro o meu esconderijo.


Dependo destas sombras de praças deitadas sobre a luz que passa.


A minha irmã e o meu irmão e a sombra das águas quando os dois se juntam para me abrigar.

Nada mais é meu. 

 

Fotografia - Alair Gomes

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Gavetas:

A Gaffe carnívora

rabiscado pela Gaffe, em 04.07.18

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Gosto de comer, mas sou carnívora. 


Gosto de sentir os dentes a afundar em carne tenra e suculenta, de sentir os molhos aromatizados a banhar-me a boca.

Gosto de lamber nacos de carne para lhes sentir o sabor das ervas que lhes deram alma.

Gosto de lamber a alma da carne. 
Gosto de sentir os ossos a estalar, quebrados pelos dentes, de sucos de carnes frescas assadas com ramos de alecrim.

Gosto de morder enchidos até espalhar todos os sabores por toda a boca, misturando-os em orgias de saliva. 

Gosto de trincar, morder, dilacerar, esmagar, cortar, ferrar, mascar e misturar em carnavais de sabor e baba as carnes suculentas que afago com a língua até me enfurecer.

Gosto de sentir correr pelo queixo os fios de saliva e molho e de lamber os dedos.

 

Com as sobremesas sou mais sofisticada.

 

Ilustração - Ricardo Martinez

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A Gaffe inquirida

rabiscado pela Gaffe, em 03.07.18

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Pequeno Caso Sério provocou.

A menina sabe que a Gaffe não gosta destes jogos, que os contorna sem vergonha e que não respeita as regras quando percebe que não consegue escapar por entre as gotas das palavras, usando o guarda-chuva da tontice. Neste caso, e apenas porque o desafio partiu desta maravilhosa tresloucada, sabe que não quer esquivar-se.

Tem de encimar as respostas com uma imagem fofinha. A Gaffe escolheu uma fotografia de vários bichinhos absolutamente amorosos, do mais fofo que há, e com a vantagem de se poderem vestir.

 

Preparem-se então para o massacre.

 

 Sou muito...   

… ruiva. Tão ruiva que não me canso de arranjar lenha para me queimar.  

Não suporto... 

… ostras e caviar. Quando provei, senti que estava a mastigar a pila do Cavaco Silva.

Eu nunca...

… comi bichos que olham estarrecidos para mim depois de cozinhados.  

Eu já... 

… dei o contacto da minha irmã a um nadador-salvador que me convidou para jantar quando piquei o dedinho do pé na alforreca do cérebro do rapaz. O infeliz passou a sofrer de stress pós-traumático de guerra.

Quando era criança...

… descobri que um par de estalos de deixar queimado o cérebro, esturricava a língua dos meninos que me chamavam fósforo.   

Neste exacto momento...

… tenho saudades dos meninos que me chamavam fósforo. Uma rapariga tem de queimar calorias, mesmo que sejam as dos outros.   

Eu morro de medo...  

… de baratas e de morcegos. As primeiras, porque me disseram que sobrevivem sem cabeça e a uma guerra nuclear, os segundos, porque me disseram que se enredam nos cabelos. Podem ser só boatos, mas, pelo sim, pelo não, os outros que experimentem.      

Eu sempre gostei ...

… de barbas. Obrigava o meu irmão a colar ao queixo os pêlos que cortava da cauda da cadela das nossas infâncias. Eramos crianças muito criativas.

Se eu pudesse...  

… acabava com a pobreza no planeta. Os pobres têm mau hálito e imensos filhos que trepam a todo o lado. São tão maçadores! Também havia Paz no planeta e tudo, e tudo, e tudo. 

Fico feliz...  

… quando revejo Cavaco Silva, porque me faz lembrar que tenho um amigo arqueólogo que é taxidermista nas horas vagas - pormenor que prefiro esquecer amiúde.  

Se pudesse voltar no tempo...  

… apanhava qualquer coisa com rodas que me levasse ao futuro, ou casava com Júlio César e seduzia Marco António - brutamontes morenos, suados, musculados e de mini-saias com tiras de couro, são sempre atraentes seja em que época for -, só para torcer o nariz a Cleópatra.   

Adoro... 

… a gastronomia do Norte de Portugal. Como como uma psicopata criminosa encarcerada e agradeço que seja na solitária.

Quero muito ir... 

… à merda. Há imensa gente que me aconselha este destino. Parece que gostaram de lá estar.

Eu preciso...

de férias. Colei na parede do meu gabinete um poster da Jamaica e pedi que me atassem uma rede de descanso ao bengaleiro e ao puxador do armário. Estou quase lá!  

Não gosto de ir…

... a marisqueiras. Os bichos mortos ficam a olhar para mim todos esbugalhados e há sempre a pila de Cavaco Silva no menu.

 

Vá, não se irritem. Já acabou. A Gaffe fica sempre muito feliz por poder partilhar uns pedacinhos da sua alma convosco, embora, valha a verdade, se borrife para quem a seguir vai pegar no desafio.

Um monstro, esta mulher!

 

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Gavetas:

A Gaffe sem milagres

rabiscado pela Gaffe, em 29.06.18

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Quando caminhamos sobre as águas, há sempre alguém que diz que é porque não sabemos nadar.

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