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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe receosa

rabiscado pela Gaffe, em 24.05.18

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Estranho bicho, o Medo.

Estranhas as entranhas - que lhe são externas - onde decompõe a alma que agarrou.

Só uma vez agride, acidulando o exterior a si, corrompendo a luminosidade e devassando a lucidez. Depois espera que o exercício da corrupção na alma única e isolada em que injectou peçonha alastre e contamine as almas em redor.

 

Uma só vez o Medo actua. Numa só alma. Depois descansa.

O que tritura o resto é o receio, apenas o receio, basta o receio, de sentir sobre aquela que é a nossa vida a reprodução daquilo que conspurcou a outra.

 

Gravura - Domenico Marchetti

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O casamento da Princenza

rabiscado pela Gaffe, em 23.05.18

Eu por acaso não devia dizer nada disto mas sei que o meu primo Zeca vai vender o que arranjou à televisão CM e penso que é uma vergonha um cagão andar a mostrar a vida alheia na televisão como fizeram ao senhor engenheiro. Por isso antes que se saiba e a senhora dona Rainha ficar furiosa vou dizer tudo. Assim deixa de ser supresa e a senhora dona Rainha ainda me vai agradecer. Então é isto. O meu primo Zeca meteu microfones no apartamento da senhora dona Rainha. Ouve-se tudo e nem sequer é estrangeiro. Eu pensava que a senhora dona Rainha falava estrangeiro mas afinal arranha a língua de Camões como a minha professora diz e muito bem que Camões vai-lá-vai à fonte. O meu primo Zeca conseguiu aquilo porque fez um biscate de electricista ali em Tancos quando lhe pediram para montar umas coisas para vigiar os ladrões que havia muita falta de pessoal. Ficou com o material todo que ninguém percebe e quando foi ao estrangeiro compor os fusíveis a uma princenza chamada Sara Fergussa deixou aquilo ligado. A gente ouve a senhora dona Rainha a falar com a Mega Marques antes do casório e eu no fim nem digo mais nada. É assim que começa.

 

Então és tu amore que vais casar com o meu neto mainovo? Olha amore se a tua mãe vier ao casamento diz-lhe que não traga as mamas ao léu e aquelas saias de palha. A gente empresta-lhe um vestido da falecida. As rastas ainda aguento que desde que o rapaz não se case com um homem estou por tudo. Por falar em emprestar tu vai ali ao meu armário e escolhe uma bandolete. Não amore. Essa não que foi do casamento da Cátia Medleton. Há uma muito bonita que nunca mais a vi. Ora vê se não caiu lá atrás. Essa mesmo. Olha que tens de ter cuidado que isso não são Savarosquis. Isso é tudo verdadeiro que não quero que digam que não tens nada na cabeça. Depois deixas no hall. Vais como? Mostra lá o desenho. É um vestido do Gibanchi amore? É simples. Olha gosto. Mas podias levar um vestidinho teu. Levares um vestido de um homem vai dar que falar mas desde que vi as filhas da Sara Fergussa na boda da Cátia já não quero saber. Aquelas duas pareciam drogadas. Saíram à mãe que foi o mafarrico que me entrou pela porta dentro. Ela e a tua falecida sogra deram cabo desta merda toda. Cheguei a pensar que a mulher até podia ter um acidente mas depois lembrei-me que já tinha havido um e dava para desconfiar dos sítios onde eu enfiava os postes. É pena o casamento ser antes dos Golobos de Ouro da SIC. Podias ver uns modelitos e copiar que aquilo é sempre do melhor e assim como assim não precisavas de levar o vestido de um homem que nunca assenta bem nas mamas. Tu não quererás meter um cintinho com uns brilhantes à cinta? Ou assim umas flores bordadinhas em cheio no rego? Uns laços nos ombros? Uns arames no rabo para aquilo levantar? Umas rachas? É pena. Dava mais vida. Já falei com a  Cristina Ferreira e ela disse-me o mesmo e que até te emprestava um dos dela que é de gritos na passadeira. Mas pronto tu é que sabes e o casamento é teu que eu não me meto em nada. Empresto a bandolete e a quinta que parecendo que não ainda se poupam uns trocados e já mandei descongelar os rissóis que sobraram da festa da Cátia que agora é duquenza. Tu descansa que também vais ser duquenza. A duquenza de sussex por causa do assanhado do teu moço que só pensa nisso e já que se fala em assanhados tive uma boa lembrança. Tu podias era convidar o Bruno de Carvalho para fazer o discurso na missa em vez daquele padre americano muito enfuzivo que assim um pessoa sempre se ria um bocado. Há quem tenha o Raminhos e diz que fica bem logo ali à saída da banda filarmónica. Outra boa ideia era convidar o Zé Maria Richardi mais o Álvaro Sobrinho para cantar no fim que estes dois já cantaram em mais coros. Tens é de fazer de conta que não conheces o Marcelo ou vais ter de tirar uma selfes com ele que quilhas o protocolo todo. Olha filha agora vou-me que se faz tarde e ainda tenho de arranjar uma merda para vestir que dê com os semáforos que isto se uma velha se perde só lá vai com luzes.   

 

Depois aquilo desligou-se.

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A Gaffe numa história de amor

rabiscado pela Gaffe, em 23.05.18
 

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Não há histórias de Amor se não forem magoadas. O Amor Feliz não tem narrativa. A Felicidade é analfabeta.

 

Sei de uma história de Amor coberta pelas sombras. Não a sei contar, porque devo ser feliz, ou porque há vendavais ensandecidos que emudecem na história de Amor que eu não sei contar, ou porque há covis onde as palavras estremecem, se acanham e definham, diante daquilo que é suposto ter palavras.

 

A história de Amor que eu não sei contar não tem começo. É como um rochedo. Nunca lhe conhecemos o início. O nosso limite está na paisagem que dele se avista e isso basta.

A história de Amor que eu conheço tem um rapaz lá dentro. Um rapaz de silêncios e penumbras que passava pelas portas quase sem abrir e que se reproduzia nas janelas, afastando pesados cortinados de veludo, para debruçar os olhos leves, indiferentes, sobre os montes pesados aos soluços. Era um rapaz breve. Passava pelas vidas tenuemente e não deixava rasto dos seus passos nas tábuas dos soalhos e das almas. Tinha saudades, diziam, da lonjura, de cidades que brilham no escuro e de jóias pintadas por flamengos. Tinha cansaço nos gestos, tédio nos olhos, enfado no sentir. Tinha promessas fatigadas de manhãs que nunca despertavam, juras afogadas no lago onde passava para dar comida aos peixes. Tinha gerânios e jarros para cuidar, na boca a textura de todos os jardins e tinha uma pérola presa por um fio, um anel de ferro e uma mulher, cega de Amor, aos pés.

 

Quando o rapaz morreu, ninguém ouviu falar da Morte. Fez-se o Silêncio.

 

O corpo veio de longe e foi fechado.

Depois cresceram árvores na mulher. Árvores que deixam o vento passar por entre os ramos de modo a que se ouça a voz do morto.

 

É uma história que eu não sei contar.

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Gavetas:

A Gaffe no Tibete

rabiscado pela Gaffe, em 22.05.18

Estou a ler um livro sobre o Tibete - de Sogyal Rinpoche - e emperrei no capítulo que descreve de forma que considero clara e concisa a filosofia subjacente ao conceito de vida e morte.

 

Não vou sequer discorrer sobre o assunto, porque não tenho capacidade para espirrar o que quer que seja perante a magnificência do que ali é referido, mas há um pequeniníssimo pormenor que me deixou perplexa e que me atrevo a referir aqui.

Diz o volume, a certa altura, que entre o impacto do reconhecimento de um drama ou de uma tragédia, de uma alegria ou de uma felicidade extrema - entendamos drama e tragédia, alegria e felicidade de acordo com as nossas subjectividades -, e as reacções que provocam, existe um instante em que a nulidade surge aliada a uma impotência com características universais e transversais. Ficamos absolutamente vazios nesse brevíssimo instante que poderá não durar não mais do que décimos de segundo.

 

Esta absoluta nulidade, esta nudez, não é nada mais do que a Libertação. O facto de durar um tempo ínfimo, permite a imediata invasão do raciocínio e da emoção correspondente ao facto ocorrido. 

Está na aprendizagem do prolongar deste vácuo o segredo dos mestres tibetanos. É neste espaço que procuram a existência e é neste intervalo oco que colocam a vida, isentando-a e expurgando-a. 

 

Tudo isto pode não passar de um apontamento insultuoso perante a esmagadora sabedoria dos mestres tibetanos, mas talvez não seja disparatado pensar que seriamos considerados um bando de autistas, ou dignos de internamento compulsivo, ou com elevadíssimos défices cognitivos se, no Ocidente, desatássemos todos a aprender a flutuar nos intervalos da chuva.

 

No Ocidente não nos molharmos é circense. 

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A Gaffe com a taça

rabiscado pela Gaffe, em 21.05.18

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O modo mais rápido de obtermos uma resposta é formularmos uma só pergunta de entendimento imediato.    

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Gavetas:

A Gaffe futebolística

rabiscado pela Gaffe, em 18.05.18

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Seria conveniente alguém ser capaz de explicar a esta rapariga perplexa a habilidade e agilidade mental dos adeptos dos clubes de futebol que continuam de caras pintadas, aos urros, suados, empunhando bandeiras, tochas, isqueiros, camisolas, gorros, cuecas, gritando loas às equipas que em campo revelam que nunca se sabe se foram compradas ou se o árbitro está demasiado inclinado, em conchinha com o senhor presidente que no camarote faz com que dez mil euros bastem para construir um resultado.

 

Não se sentirão imbecis?

 

O grau de idiotice é proporcional à quantia investida. No andebol um jogador custa mil euros e, em consequência, o patamar de patetice do adepto é mais brando do que aquele que é atingido quando estão envolvidos dez mil futebolistas.

 

A Gaffe admite que sabe quais são as cores dos clubes. Verde e branco pertence ao Sporting, azul e branco ao Porto e o vermelho é benfiquista. O Académico – ou Académica? a falta que nos faz aqui o Bloco de Esquerda! -, é preto, ou preta – de cor negra, vá, que convém parecer correcta. O resto é cor a dar com tudo e a receber o que se oferece.

 

A Gaffe gosta apenas das coxas dos jogadores e regiões limítrofes e jamais entrará num estádio sem estar protegida pela sua guarda de honra.

 

Não sabe mais, esta pobre moça, pese embora se ter apercebido que no dia de ontem dez canais televisivos estavam ao mesmo tempo a transmitir declarações de tudo o que mexia - menos as da EDP -, esticando durante horas intermináveis o nauseabundo retrato de uma máfia de subúrbio que joga debaixo da relva a bola subterrânea da vigarice mais grosseira e mais estúpida, tendo em conta que se deixa escutar a torto e a direito, acreditando que encripta a batota com lirismos achocolatados.  

 

É de sublinhar, no entanto, que a Gaffe se sente empolgada com as declarações de Ferro Rodrigues que atestando a sua vetusta indignação perante o descalabro futebolístico consegue encaixar uma notinha de porcina demagogia reportando-se ao trabalho de investigação jornalística relacionada com políticos, e com Marcelo que, por estranho que possa parecer, não compareceu no balneário de Alcochete para beijocar os jogadores agredidos pelos amigalhaços das claques. Uma falha que aquele menino que chora com um dói-dói na testa com certeza jamais esquecerá e que justifica uma debandada geral de atletas que se consolam com os pensos rápidos das ofertas mais chorudas de mafiosos rivais.  

 

Esta burlesca trapalhada não tem a qualidade exigida, pese embora o Bentley de Jorge Jesus. A corrupção não pode andar pelas ruas da amargura. Depois de conhecermos Dias Loureiro, Ricardo Salgado, ou mesmo Sócrates, que - alegadamente - a colocaram no patamar das obras dignas de figurar nos anais da história - e sobretudos nos do povo -, não é de todo agradável assistirmos ao rebaixamento da corrupção levada a cabo por um bando de psicopatas sem educação ou sangue-frio, sem berço e sem finura, sem pose, que não sabem usar fatos Trussardi, mas convictos da importância vital que as molduras humanas dos estádios lhes fornecem.

 

Meus queridos, até para se ser corrupto é necessário berço. Para se ser corrompido, basta, nestes casos, uma chuteira e um ou dois golos fora de época.  

 

A Gaffe sente-se exactamente como o seleccionador nacional que - com um allure de Bond parolo de sobrolho encarquilhado, ou com ar de quem tem urgência de acoplar uma sanita ao rabo -, declara sorumbático que não ter palavras, nem adjetivos, para qualificar a situação.

 

A Gaffe também fica sem substantivos e mesmo os verbos escasseiam. Só se arranjam uns advérbios mixurucas que os adeptos podem usar quando se referirem às vezes em que acreditaram nas balizas.    

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A Gaffe sem artifícios

rabiscado pela Gaffe, em 17.05.18

A Gaffe congratula-se ao ver Salvador Sobral já tão bem recuperado, tão bem restabelecido, no sótão expurgado da mansão familiar, longe do fogo de artifício e da falta de sentimento europeu, provando ao mundo que music is not fireworks, music is feeling e assegurando que na História Universal da Música existe uma era antes e outra depois de Amar pelos dois, pese embora esta rapariga considere que o cante alentejano do Mano a Mano pareça cantado com outro coração.

 


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A Gaffe frutada

rabiscado pela Gaffe, em 16.05.18

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Um septo arrogante. A cor da carne, carmim e luzidia. Uma humidade polida. Uma rigidez que cede, branda, tocada pelos meus dentes. Uma polposa, bojuda, carnuda superfície limpa, deslizante. Um fulgor. Uma meninice erguida em desafio. Um suco, uma rajada, um sumo, um jacto, um ímpeto.

 

Ou nádegas minúsculas por onde roça a língua. 

 

Ah, Como eu gosto de cerejas!

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Gavetas:

A Gaffe já escrita

rabiscado pela Gaffe, em 15.05.18

MJ

 

O quarto ao lado do meu ficou deserto.  

Sobre a cama foi deixada a colcha tricotada a cores.  
As lâmpadas quebram lentamente os filamentos sem que ninguém as venha substituir.  
Através da porta de ligação chega um frio e um escuro inusuais. O silêncio torna os dias mais desprotegidos.  
O pó avança lento do quarto vazio quando a casa se fecha e adormece.  

 

Tantas vezes ali estive. Tantas vezes fiquei parada perante o brilho, de olhos a arder por não o ter, que acabava por olhar mais atentamente para as rotas de outras vidas que são como derivas nos mapas das estradas que se perdem.

Era nesses desvios que me fixava, nesses pontos de luz que me deitava.  

Entrava nestes trilhos devagar e às vezes saía de mansinho quando a vontade de chorar se começava a fazer ríspida na garganta.

Às vezes sorria.

 

As raízes do riso e do choro pertencem agora ao silêncio. Emaranhadas, acabarão por se tornar impossíveis de destrinçar. Ficarão de tal modo unidas que uma simbiose secreta impedirá o esquecimento mútuo.

É certo que de raízes pouco ou nada há no meu jardim deserto. Talvez um caule mais tortuoso, um ramo mais retorcido e agora pouco mais.  

A minha casa inteira entardece devagar. 

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A Gaffe mais coisa, menos coisa

rabiscado pela Gaffe, em 14.05.18

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Li algures uma tirada relacionada com o eurofestival que me deixou perplexa.

É da responsabilidade de Rodrigo Moita de Deus e tem - mais coisa, menos coisa - o título Em defesa das minorias e consiste nesta pérola:

 

- Vi um heterossexual no meio do eurofestival.

 

Mais coisa, menos coisa.

 

O difícil é tentar perceber se Rodrigo Moita de Deus se refere a si próprio, ou se avistou no evento mais um para além dele, pois que a terceira hipótese consubstanciaria a mais enviesada saída do armário que alguma vez existiu.

Não é de todo raro assistirmos aos refinadíssimos trocadilhos e floreados pretensamente humorísticos deste rapaz catapultado para o limbo dos opinion makers por erro de casting. Uma das suas antigas aventuras na área das gracinhas - potencialmente uma fabulosa admissão de culpa -, dá-nos conta da avaliação que faz da atracção sexual exercida pelos homens de direita que Rodrigo Moita de Deus considera muito mais poderosa do que a dos homens de esquerda, revelando desta forma que afinal é extremosamente marxista.

 

É evidente que não nos interessam as sexualidades do eurofestival. São todas divertidas - mais coisa, menos coisa.

O que causa alguma perturbação é termos de admitir que até nas mais tontas manifestações da tolice humana, há sempre um retorcido - e ainda por cima feio - capaz de encontrar forma de se mostrar engraçadinho atirando mijinhas pequeninas ao que não percebe, ou ao que percebe demasiado bem.

 

Mais coisa, menos coisa.  

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A Gaffe e as eurovisíveis

rabiscado pela Gaffe, em 11.05.18

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A Gaffe não atribui grande importância ao facto do inglês de Catarina Furtado ser desenrascated. Foi pena ter cometido o erro de pensar em português, traduzindo depois para a língua de Sua Majestade. No entanto, apesar de alegadamente - o que a Gaffe correu para conseguir encaixar esta palavra, dava um trilho paisagístico! – deslumbrante, apesar da sua poderosa presença e indiscutível beleza, a rapariga não foi esperta. Teve um ano para se preparar e descurou o que a condena agora, arriscando a parecer uma vamp com dificuldades de locomoção linguística. Não basta ser a namoradinha de Portugal, há que evitar encarnar a Miss que bamboleia as ancas para enganar o enrolar da língua.

 

Sílvia Alberto disfarçou o mesmo desatando a gritar sempre que lhe era entregue a tocha, como se a plateia fosse composta por surdos - há razões para se suspeitar que era.

 

Filomena Cautela - esfrangalhada aqui, provou que num registo diferente do ali tratado, se portava comme il faut, bastando a sua invulgar genica para aguentar o alarido medonho que explodia em fogo de artifício mal a interpretação se esbardalhava aos gritos.

 

Daniela Ruah, depois de assustar com um allure vagamente cavalar, convenceu. É competentíssima e estranhamente bonita.

 

A Gaffe não responde aos idiotas ingleses que se indignaram com a performance do Herman, porque tal permitiria que continuassem a falar.

   

As cançonetas apuradas possibilitam considerar a portuguesa uma das mais agradáveis, o que constitui um milagre e coloca Salvador Sobral no galho dos parvos iludidos.

 

A Gaffe acaba de comentar o Eurofestival.

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A Gaffe ilusionista

rabiscado pela Gaffe, em 10.05.18

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Há tempos que já lá vão, recebi um recado de uma mulher banal que, numa entrada de mamute, se reportava à alegada homossexualidade do meu irmão. Nada de importante, quer para ele, quer para quem o rodeia, mesmo que a alusão espelhasse uma verdade, o que não é o caso.

 

A mulher era, fazia crer com insistência e bandeiras desfraldadas, uma inflamada defensora dos direitos de tudo o que se mexe - incluindo o sistema neurológico das plantas -, uma abnegada e inabalável paladina das diferenças, uma quixotesca matrona imbecil de utopias parolas, uma cuetisa de pechisbeque capaz de urdir trivialidades usando as rimas que encontrava em saldo.

 

O facto de me ter considerado uma infeliz que até tem um irmão gay, é extraordinário.

 

Habituamo-nos a espreitar pelo buraco das fechaduras precárias das redes sociais. Viciamo-nos nesse nauseabundo encharcar de pretensa vida alheia, acreditamos que detemos o poder medíocre - como todo o poder que é ilusório -, facultado pelo falseado conhecimento do que ao outro pertence, indignamo-nos quando nos falha a mesquinhice filtrada por likes, por twitters, ou por instagrams, e ficamos esfaimados, salivamos e esfregamos o rabo com as patas de trás, quando suspeitamos que de tudo sabemos, posto que é tudo o que ali está. Somos patéticos consumidores de ilusionismos. Somos, em simultâneo, artistas de um circo onde a arena é o vácuo e o próprio piso onde periclitamos. De tal me convenci, muito recentemente. Estou ainda em processo de adaptação.  

 

O desejado insulto da lamentável e iludida mulherzinha, que alia infelicidade a uma eventual ligação familiar com um homossexual, revela não só a sua incapacidade de discernir o que consubstancia as mais evidentes e as mais lógicas premissas que originam as mais simples e as mais comuns das felicidades, mas também nos dá como provado que se tentamos espreitar o que não se pode ver - valha-nos Saint-Exupéry -, acreditando que o intuído no circo é atestado de certezas e portanto passível de ser arremessado como uma pedra, denunciamos demasiadas vezes pedaços alarves da nossa verdadeira índole, deixando que os visados pela nossa torpe espreitadela olhem a descoberto o que queremos a todo o custo filtrar com cor-de-rosa.

 

Nas redes sociais, por mais estranho que possa parecer, revelamo-nos naquilo em que acreditamos, somos o que espreitamos sem ninguém saber e somos sobretudo os ossitos que arremessamos à vida dos outros e que judiciamos ter recolhido durante as incursões que fazemos ao nada que vemos. 

 

Somos como o emplastro. Espreitamo-nos, mas não nos vemos. Espreitamos e somos vistos. 

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A Gaffe doseada

rabiscado pela Gaffe, em 04.05.18

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Uma rapariga esperta sabe que em qualquer situação, a elegância é sempre um dom a manter. Pode eventualmente ser herdado, mas sucumbirá se dele não cuidarmos. Não há nesta área aquilo a que se costuma chamar abébias, embora a Gaffe nunca tenha entendido muito bem o sentido desta expressão.

 

Basta por vezes que uma rapariga se lembre do chinelo que lhe serviu uma vez para enxotar uma barata numa esquina esconsa da vida, para que se esmifre toda uma cultivada sofisticação e apurada elegância, assim como basta que de chinelos calçados tentemos imitar uma prima ballerina numa situação em que bastaria ter cuidado com a coluna.

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A Gaffe a balançar

rabiscado pela Gaffe, em 03.05.18

 

A minha mão passa despercebida, cambaleando sonâmbula no som que os pássaros soltam de ramo em ramo.

A minha mão é ruiva e nem a ferruginosa cor da minha mão permite a inacabada antítese da paisagem do meu corpo.

A minha mão ruiva não é mais do que o rasto que fica, como a ferida de um fruto que se acaba de morder. Um fruto vermelho, uma romã, uma cereja, ou a mordida feroz no coração da tarde ou no meu, que entardece no som despercebido da minha mão sonâmbula.

 

A minha mão ruiva é desigual a mão que digo amar e é nesse dizer do amor que sinto não sentindo que a minha mão balança na mão que digo amar, porque em mim o amor é sempre o oscilar das cores com que as aves fazem ninho.

Foto - Fernand Fonssagrives - NY, 1945

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A Gaffe com sotaque

rabiscado pela Gaffe, em 02.05.18

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- Como é possível que ajuizes alguém de modo tão negativo apenas porque tem sotaque?! - acuso muito indignada a superficialidade da minha irmã que recusou sem apelo nem agravo e sem dados de maior, a não ser o seu sotaque cerrado - fantochado de modo bastante cruel -, a candidatura de um jovem arquitecto portuense.

 

- Não. Erro teu, minha cara, eu faça julgamentos muito antes de eles abrirem a boca.

És tu que o condenas dessa forma ao pensares que fui capaz dessa tolice.

 

Imagem - Melchior-Paul von Deschwanden

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