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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe stylista

rabiscado pela Gaffe, em 30.03.18

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 Páscoa feliz

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A Gaffe nevada

rabiscado pela Gaffe, em 29.03.18

 

 

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A Gaffe sabe que se o Natal é quando um homem quiser, a Páscoa acontece sempre que uma rapariga encontra um coelhinho - embora adequada, é de evitar, dadas as circunstâncias, a palavra coelhão -, capaz de alterar o modo como cantarolamos Bing Crosby.

 

I'm dreaming of a white Easter

Just like the ones I used to know

May your days be merry and bright

And may all you Easter be white

 

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A Gaffe do Pascoal

rabiscado pela Gaffe, em 28.03.18

    

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A Gaffe supõe que a escolha de um coelho para encabeçar a simbologia da época que se aproxima, está relacionada com o facto de o animal ter aquilo a que os brasileiros chamam ovos e com aqueles rituais esotéricos que fazem a alegria dos jovens hippies e das senhoras de meia-idade que conseguem andar aos pinchos pelos bosques defumados, todas nuas, sem que ninguém as detenha por atentado à Antiga Grécia toda estética.

O pobre do bicho sempre foi tido como um reprodutor exímio e tendo a Primavera como leitmotiv é compreensível que seja eleito como emblema de fertilidade.

 

Tudo muito pagão.

Um horror, já que sabemos que foi neste período que Jesus se levantou da tumba, três dias depois de ter falecido - não há registo de ter mantido o cheiro, em posteriores aparições.

 

É evidente que uma coelha está fora de questão. Não é todo decente presentear as crianças de coroa de flores na cabeça e vestidos de tule, com uma criatura com orelhas de Hefner - não há registo deste último messias se ter levantado, enquanto morto.

 

Este lamentável facto é factor de indignação.

A Páscoa devia ostentar como ex-líbris uma coelha. Uma bicha, não umas mamocas apensas a duas orelhas de feltro todas torcidas em cima de um móvel estampado nas páginas centrais de uma publicação repleta de doutos artigos que o mano lê de fio a pavio. Uma coelha normal, não depois de lhe ter sido arrancado o pêlo para feitura de casacos foleiros que acabam sempre a cheirar mal - como os messias - depois de uma chuvada no dito.

Não é permitido que se justifique o lapso alegando que as coelhas não sabem posar, pois que é provado aqui que são criaturas muito capazes de fazer frente e costas a qualquer - ou  a quaisqueres, como diz Miguel Sousa Tavares - moçoila hefneriana.

 

A Gaffe, meus caros, decidiu renovar o símbolo desta ocasião de levantamentos e ressurreições, apresentando-se comme il faut a todos os públicos pascais, incluindo o Teixeira, esperando que reconheçam de uma vez por todas que qualquer - ou quaisqueres, diria o mesmo - que seja a coelha, o importante é sempre a pose e o penacho.

 

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A Gaffe pinoqueiresca

rabiscado pela Gaffe, em 28.03.18

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Estendida na cama, de barriga para o ar, perninha alçada e mãos a servir de almofada, repelta de glamour, hesitava eu em reflectir sobre a Teoria das Partículas e o aumento do PIB no 3º anel, quando o rapagão se vira, apoia a cabecinha numa das mãos e desata a observar-me.

 

Olhei de lado, procurando não fazer muito barulho. Podia ser que o rapaz tivesse petrificado. Seria bastante agradável, em todos os aspectos.

 

- Tens uns olhos gigantes - murmura.

Foi neste exacto instante que me lembrei do atarracado, rechonchudo e irritante Capuchinho Vermelho, a saltaricar pela floresta, prontinho a ser comido.

- Assim cabes todo dentro deles - rosnei eu, através de um sorrisinho amarelo pastel.

- A tua boca é tão perfeita - continuou, ainda com os bolinhos no cesto.

- É só porque tu a beijas - mostrei os dentes desta vez. Brancos de neve. 

- Amo-te  - saltitou o Bambi.

 

Virei-me e obriguei-o a mentir mais.

Prefiro o Pinóquio.

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Gavetas:

A Gaffe da STASI

rabiscado pela Gaffe, em 27.03.18

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Mais misteriosa e de proporções gigantescas - mas desta feita compreensíveis - do que a tese de mestrado do senhor deputado que se demitiu e que já entrou no túnel negro do esquecimento, é a recorrente situação em que me vejo a perguntar o nome a alguém que está na minha frente.

Tendo em conta que não está acompanhado por vivalma, torna-se extraordinária a resposta dada pelo meu único interlocutor de ocasião que escancara os olhos e parece recear um inquérito conduzido pela STASI.

 

- Como se chama?

 

Esta é a questão dúbia, capaz de acordar suspeitas e tremores.

A resposta é sempre intrigante.

 

- EU?!

 

Chego à conclusão que o meu interlocutor acredita que o que realmente quero saber, desesperada, é o nome do intervalinho pequenino de tempo entre o seu espanto expresso num EU esbugalhado e o balbuciar do seu nome.

Tenho a certeza que existe.

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A Gaffe duplicada

rabiscado pela Gaffe, em 26.03.18

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Nestes derradeiros dias chuva, aproximo-me mais vezes da janela.

Gosto de ver a água a serpentear nos vidros, mas nunca aliei qualquer emoção à paisagem encharcada que avisto. Sempre foi apenas chuva. Sigo com os olhos, com os dedos, os trajectos das gotas.

Nada mais.

Sei que são semelhantes aos que percorria em Paris. Olhava as ruas desfocadas e procurava dentro das gotas as deformações que provocavam nos edifícios, como pequenos e redondos espelhos de circo. Ficava durante demasiado tempo a tentar entrar nas gotículas que fugiam num rasto de serpentinas transparentes.

 

Se olhar agora pelas janelas de chuva que agora vivo, não procuro mais do que via outrora. As ruas estão encharcadas e há edifícios que tremem dentro da água que toca e desliza pelos vidros. Não existem diferenças de maior. A chuva uniformiza as paisagens envidraçadas.

Estranho é sentir que quem olha esta duplicação alagada das ruas talvez seja outra em cada paisagem.

As escolhas que fiz em cada avistamento, alteraram o desenho e a rota da gota da minha vida tombando na superfície das coisas. A paisagem ficou impune no exterior, similar em todos os lugares, mas os dedos que percorrem agora a face seca do interior de onde avisto o inalterado, são outros dedos. Diferentes dos que nunca vi e meus mesmo assim.

Ao longe, demasiado esbatidos, há dedos que seguem gotas de chuva nos vidros que não aceitei. São dedos que não conheço, mas que são meus em paradoxo.

Os que acompanham a descida da água pelo vidro de agora, são apenas as tempestades que escolhi.

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A Gaffe dos deuses

rabiscado pela Gaffe, em 23.03.18

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O papel de José António Saraiva não me assenta bem, no entanto é aberta esta excepção, pois que é admissível que estas nuances escuras aqui sejam visíveis por nobre causa e por força de argumento.

 

É curioso verificar como somos capazes de idolatrar os autores de obras-de-arte ao ponto de quase os aproximarmos dos deuses, rendendo-lhes homenagens pirosas expressas em rectângulos floridos onde cintilam frases descontextualizadas, ou imagens fenomenais cortadas onde nos convém, muito ao nosso contento e ao nosso intento.

Muitas vezes rendemo-nos de joelhos.

A adoração que lhes entregamos não é de todo, ou totalmente, descabida. São singulares criadores. Criaturas de excepção.

 

Há no entanto, o esquecimento, provavelmente deslumbrado, da existência do homem - e da mulher - para lá da obra que produz e nem sempre o que se nos depara é digno de respeito.

Retiremos ao acaso, saraivadamente, de forma caótica e sem qualquer lógica, da caixinha desta Pandora de subúrbio:

Caravaggio, um assassino e um celerado;

Michelangelo, um ladrão e um defraudador;

Ezra Pound, um anti-semita convicto e perigoso;

Proust pagava a rapazinhos para se masturbarem enquanto roía os lençóis, enfiado até aos dentes na cama que raramente abandonava;

Virgínia Woolf considerava que as criadas estavam num patamar inferior ao dos seus cães de companhia;

Céline, um nazi;

Enid Blyton desprezava e ignorava os filhos, maltratando-os;

Bukowski, um misógino asqueroso;

Elia Kazan traiu companheiros denunciando-os ao governo americano anti-comunista;

Vargas Llosa escreveu que o assassinato de jornalistas mexicanos é da responsabilidade da liberdade de imprensa e - caso me considerem digna de perdão por incluir uma minhoca nesta minúscula listagem - Cat Stevens assinou a fatwa contra Salman Rushide.

 

A obra, quando fenomenal, assemelha-se à morte no processo de reabilitação daquele que a produz.

Iliba, explica ou apaga as chagas que se foram abrindo nos outros por aqueles que explodiram em talento, honrando e alargando, inovando e dignificando, áreas diversas de forma irrepetível.

 

É evidente que as privadas posições de Proust - um desconforto! -, as canalhices de Michaelangelo ou a presunção imbecil de Virgínia Woolf, são absolutamente independentes das obras que os imortalizaram.

Caravaggio continua a ser um dos mais fascinantes manipuladores da luz, provavelmente igualado - se tais ousadias comparativas nos fossem permitidas - apenas por Renoir e provavelmente superado por Monet; Virgínia Woolf mantém Mrs. Dalloway como um dos mais impressionantes romances da literatura universal e as crónicas de Vargas Llosa continuam a siderar leitores.

A criatura térrea que produz a obra-prima não parece interferir na construção dessa galáxia. E no entanto, existe e é capaz de assassinar, de condescender com o massacre de judeus, de justificar o homicídio de jornalistas, de olhar alguns como criaturas de segunda mão ou de perverter, sinistro, adolescentes.

 

Se estes dados interferem com a leitura que se faz da obra, é duvidoso, apesar de eu - pobre de mim que não conto -, não conseguir tocar num livro de Luiz Pacheco, porque o penso porco, pedófilo, rufia e asqueroso, nauseabundo, manipulador e nojento. Desconheço se no acto de nos apoderarmos de determinada obra, estes factores que - é imprescindível sublinhar - pertencem exclusivamente à esfera do privado do homem ou da mulher que a produziu, atingem e trespassam a apreciação que dela, da obra, se faz, adquirindo peso suficiente para tornar difícil a extracção das vivências escolhidas pelo autor - sobretudo as que nos são repulsivas -, da qualidade quase sobrenatural do que nos é entregue.

 

Seja como for, reconhecer o barro nos pés de cada deus é sempre uma forma de partilhar com eles a mortalidade.        

 

Foto - Aurelio Monge

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A Gaffe quibangista

rabiscado pela Gaffe, em 22.03.18

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Confesso que não sou frequentadora das estatísticas do blog.

Foi uma alegria quando incluídas nas entranhas deste cantito, mas sou uma rapariga inconstante que rapidamente se desinteressa pelo que é igual em cada dia que passa e fui deixando passar os números e os dados que se repetiam.

 

É evidente que é reconfortante saber que somos lidas por quem gostamos e admiramos e é sempre agradável ter a presença assídua de pessoas que nos são queridas e com quem criamos empatias, mas é tolice ficarmos espantadas por nos chegarem visitantes da Ucrânia, da China ou do Cazaquistão. É gente mais proxyma do que pensamos.

 

Um pormenor que ainda me deixa curiosa é aquele que refere os termos de pesquisa.

Jamais obtive resultados menos próprios e, por norma, encontram-me atravessada na palavra Gaffe, no nome que foi atribuído a este pedacinho de nada, substituindo o e as Avenidas por um das Avenidas mais pomposo, e por Maria Guedes - o que me deixa perplexa, pois que não sei quem é a senhora e não creio alguma vez me ter aproximado de nome parecido.

 

Acontece que nas últimas semanas - e diariamente - tenho verificado que sou encontrada através de um termo extraordinário que me deixa preocupadíssima.

Procurei em todo o lado. Abri dicionários, abri enciclopédias, escancarei gavetas, vasculhei glossários, bisbilhotei armários, devassei elucidários, coscuvilhei caixinhas e mexeriquei nos bolsos.

Nada. Tudo era longínquo e tudo absurdo.

 

Humildemente suplico a quem me encontra através do misterioso termo, me elucide de uma vez por todas e me tire desta ansiedade tenebrosa, explicando a esta ruiva ignara a razão de estar ligada a tal enigma e o que raio vem a ser:

 

Quibangismo

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Os terroristas

rabiscado pela Gaffe, em 21.03.18

Hoje vou falar de terroristas. Os terroristas são pessoas pequenas assim como o filho da minha vizinha que tem dois meses porque eu ouço-a a dizer Ai vai ser um terrorista este malandro que já levanta a cabeça quem é o terrorista da mãe quem é quem é o terrorista da mãe quem é meu lindo. Por acaso o menino até nem tem barba grande nem sequer o bigode da mãe e está muito encarquilhado mas também tem uma fralda na cabeça quando sai à rua para não apanhar o sol do deserto que os terroristas são do deserto e bêbados. Também há terroristas grandes mas esses é só álcool que faz explodir as pessoas terroristas que bebem muito. Encontram um amigo e perguntam logo olá à que bar vamos. Nem perguntam se a família está bem. É logo olá à que bar vamos. Depois vão e tumba explodem porque uma pessoa não deve andar com álcool quando está calor que o sol passa pelas lentes dos óculos e aquilo pega fogo num instante. As lupas também são perigosas porque são uns vidros de aumento que os cientistas usam para descobrir se os insectos são homens que se tiverem pila vê-se com a lupa mas que deixam passar o sol nos clipes que há no céu e deitam fogo aos matos que andam porcos mas tão porcos que o governo até fez uns pantenflos a ensinar como os pobres devem rapar a mata sem ser preciso marcar consulta com a despiladora da minha prima. É arrancar tudo à volta das casas e deixar careca um ror de terra num polímero de 100 metros ao redor da aldeia. A gente fica sem pessegueiros mas a lupa já não dá efeito. Também podiam chamar os terroristas que aquilo era um instantinho e só se cansava meia dúzia deles porque tinham de ir a pé para as matas já que não têm garnadeiros nem helipórforos que despejam água em cima das casas a arder e depois queixam-se da seca e das barragens sem pinga que a gente até tem de cuspir para aumentar o caudal que é uma cauda que está mal. O governos podia mandar cabras e toiros para comer a mata que até é mais encológico que é uma coisa que há nos campinos da senhora dona Cristas do Belchior russo que é um bailado lindo onde há cisnes que são patos a modos que girafas e lagos azuis como o Dalúvio do país onde uma senhora canta dasandesovmusi vestida de cortinados e depois é apanhada por uns homens que fazem querriculos vitas para os políticos de merda e é expulsa do palácio onde mora o patrão que é manjor por andar a fazer sandes com os pedaços dos toiros que sobram no fim do baile. Os bailarinos do Belchior da senhora dona Cristas é que têm sorte porque andam vestidos de sambódrno mas de mamas tapadas que isto à noite faz frio porque se fosse deserto ainda apanhavam com a minha vizinha feita parva a perguntar-lhes quem são os terroristas da mãe quem são quem são os terroristas mais lindos quem são. Eu por acaso não sei dançar. Só jogo à macaca não desfazendo. 

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A Gaffe primaveril

rabiscado pela Gaffe, em 20.03.18

Primavera

Não adianta, meus caros, avisar os incautos, os náufragos em ilhas desertas, os agorafóbicos, os parvos e os eremitas, que começou a Primavera. Alguns não têm facebook e os blogs respectivos parecem hibernar.

 

A Gaffe decidiu que enquanto não receber as demonstrações da praxe, vai continuar impávida a mandar-vos todos molhar pilas e pipis nas barragens encharcadas e gelar as mamocas no frio do Árctico.

 

Que gente fastidiosa!

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Gavetas:

A Gaffe abnegada

rabiscado pela Gaffe, em 20.03.18

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Acho transcendente o amor abnegado.

 

Uma criatura engole as lâminas, se o seu grande amor quiser deixar crescer a barba. Uma criatura rasteja toda depenada, se o seu grande amor tiver decidido colar umas penas nas costas e fazer de conta que voa.

É bonito.

Não há grilhetas.

A alforria do amor da nossa vida é coisa dele e há que não quebrar os cristais da autonomia. Não ocupamos o espaço que é do outro, porque estamos cientes da total independência e da santa liberdade que não podemos conspurcar com pieguices nossas, com a mania que temos de arrancar com os dentes o coração de quem amamos e deixar o infeliz ali descarnado, com um buraco no peito, bem visível, para que toda a gente perceba que dali já não leva um pirolito.

 

Uma criatura deve ser abnegada, pois que as coisas boas são todas muito Saint-Exupéry.

É difícil contra-argumentar, a não ser se formos nobres ingleses numa caçada à raposa.

 

Ilustração - Mirko Hanák

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A Gaffe ao vento

rabiscado pela Gaffe, em 16.03.18

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Vamos todas almoçar que já não chove ao restaurantezinho que inaugurou há pouco, amoroso, mesmo ali a duzentos metros? Vamos, que já não chove! É tão fofo e tão bem frequentado! Come-se divinalmente e baratíssimo!

Vamos todas que já não chove e é giro e podemos falar dos outros!

 

E fomos todas ao restaurantezinho amoroso, que já não chove e é ali mesmo a duzentos metros.

 

Jamais conhecerei a razão que me leva a embarcar no Titanic, mesmo sabendo que a Céline Dion está lá dentro preparada para desatar aos gritos.

 

Quatro tresloucadas. Duas delas agarradas às saias, uma revoltada por se atribuírem nomes de pessoas pobres aos temporais - não há um Salvador, um Tomás, uma Benedita, uma Maria Antónia! -, e eu a tentar colar as solas dos sapatos ao chão com o cocó dos cães chiques que andam pelo ar - os cocós, pois que os cães, mesmo os chiques, não são parvos e recolheram aos seus aposentos, pese embora o restaurantezinho, a duzentos metros que já não chove, ter reserva de mesa para os ditos - cães e não cocó dos cães, pois que esse, percebi depois, era servido enfeitado com uma flor comestível.

Quatro enlouquecidas ao vento com medo de ficar sem soutiens, já que as calcinhas tinham sido estraçalhadas e, pelo que se adivinha, suspeito não ser necessário marcar a depilação tão cedo pois que o vento é de lâminas.

Quatro loucas aos gritinhos, uma para cada lado, a tentar mostrar o perfil ao lobo do vendaval que uiva e sopra nos capuchinhos vermelhos de fúria e no capachinho que passou a voar.

Quatro taradas a precisar de picaretas para espetar na corrente a tentar escalar e se possível de um míssil para, em cima dele, se atingir a porcaria do restaurantezinho a duzentos metros que já não chove.

 

Cheguei à porcaria do restaurantezinho a duzentos metros que já não chove, sozinha e como se tivesse saído de uma centrifugadora. 

 

Uma ficou pendurada no homem do leme, a outra com os dentes cravados num banco de jardim a tentar que o verniz das unhas dos pés não fosse arrancado e a terceira atracada a um poste disfarçado de matulão. Que ninguém me responsabilize pelo estado em que lhe ficou a pila.

 

Fofas!  

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Gavetas:

A Gaffe psicanalista

rabiscado pela Gaffe, em 16.03.18

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Freud tinha razão!

90% daquilo que os homens pensam é transformado cedo ou tarde em sexo.

O restante é sexo que transformam em ideia. 

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A Gaffe negra

rabiscado pela Gaffe, em 15.03.18

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A Gaffe considera de muitíssimo mau gosto toda a gente passar de repente a idolatrar Stephen Hawking quando só conhece uma ou duas músicas dele.

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A Gaffe doutorada

rabiscado pela Gaffe, em 15.03.18

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A Gaffe leu arrepiada que 90% do dinheiro que circula no planeta pertence a meia dúzias de famílias.

Extraordinário.

A Gaffe não entende como é que os pobres, com os restantes 10%, conseguem comprar tanta porcaria.

 

É um mistério que carece de estudo aprofundado que com certeza o Professor Doutor Passos Coelhos, na sua qualidade de catedrático, não deixará ao abandono, desde que, no intervalo, o Investigador Barreiras Duarte não se adiante e apresente os resultados obtidos pelas pesquisas que leva a cabo em Berkeley sobre o alto patrocínio de Deolinda Adão, uma querida que gosta imenso de visitas e que dá autógrafos em guardanapos, ou em papelinhos que embrulham um ou outro rebuçado, antes de o ter sentido azedo.

 

A Gaffe lamenta ter ficado um bocadinho irritada com Merkel quando a alemã, depois de estacionar o camião, declarou que Portugal tinha demasiado licenciados. Afinal, a senhora apenas confundiu os graus académicos que neste turístico recanto nascem como Relvas.

O país sofre é de excesso de doutorados, embora tal não constitua embaraço ou defeito. Somos naturalmente um povo sábio. Nascemos com um canudo e com ele vemos Braga. É evidente que as meninas, mesmo algumas de Braga, não trazem à nascença o canudo incorporado - pois que nesse caso seriam meninos -, mas basta que uma reze ao Senhor pedindo chuva, que liberte vapores de eucalipto, ou que seja coadjuvada por Hemingway e Picasso na nobre tarefa de equiparar as touradas à literatura, à música ou ao bailado, para se candidatar a Primeira-Ministra.

 

A Gaffe decide, nas próximas eleições, ir tomar chá com a Bobone e mandar votar por ela a criadagem já domesticada que compra coisas com aqueles 10% tão desperdiçados.

Afinal, meus queridos, é só fazer uma cruz num papelucho!  

 

Ilustração - Assaf Horowitz

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