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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe frutada

rabiscado pela Gaffe, em 16.05.18

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Um septo arrogante. A cor da carne, carmim e luzidia. Uma humidade polida. Uma rigidez que cede, branda, tocada pelos meus dentes. Uma polposa, bojuda, carnuda superfície limpa, deslizante. Um fulgor. Uma meninice erguida em desafio. Um suco, uma rajada, um sumo, um jacto, um ímpeto.

 

Ou nádegas minúsculas por onde roça a língua. 

 

Ah, Como eu gosto de cerejas!

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Gavetas:

A Gaffe já escrita

rabiscado pela Gaffe, em 15.05.18

MJ

 

O quarto ao lado do meu ficou deserto.  

Sobre a cama foi deixada a colcha tricotada a cores.  
As lâmpadas quebram lentamente os filamentos sem que ninguém as venha substituir.  
Através da porta de ligação chega um frio e um escuro inusuais. O silêncio torna os dias mais desprotegidos.  
O pó avança lento do quarto vazio quando a casa se fecha e adormece.  

 

Tantas vezes ali estive. Tantas vezes fiquei parada perante o brilho, de olhos a arder por não o ter, que acabava por olhar mais atentamente para as rotas de outras vidas que são como derivas nos mapas das estradas que se perdem.

Era nesses desvios que me fixava, nesses pontos de luz que me deitava.  

Entrava nestes trilhos devagar e às vezes saía de mansinho quando a vontade de chorar se começava a fazer ríspida na garganta.

Às vezes sorria.

 

As raízes do riso e do choro pertencem agora ao silêncio. Emaranhadas, acabarão por se tornar impossíveis de destrinçar. Ficarão de tal modo unidas que uma simbiose secreta impedirá o esquecimento mútuo.

É certo que de raízes pouco ou nada há no meu jardim deserto. Talvez um caule mais tortuoso, um ramo mais retorcido e agora pouco mais.  

A minha casa inteira entardece devagar. 

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A Gaffe mais coisa, menos coisa

rabiscado pela Gaffe, em 14.05.18

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Li algures uma tirada relacionada com o eurofestival que me deixou perplexa.

É da responsabilidade de Rodrigo Moita de Deus e tem - mais coisa, menos coisa - o título Em defesa das minorias e consiste nesta pérola:

 

- Vi um heterossexual no meio do eurofestival.

 

Mais coisa, menos coisa.

 

O difícil é tentar perceber se Rodrigo Moita de Deus se refere a si próprio, ou se avistou no evento mais um para além dele, pois que a terceira hipótese consubstanciaria a mais enviesada saída do armário que alguma vez existiu.

Não é de todo raro assistirmos aos refinadíssimos trocadilhos e floreados pretensamente humorísticos deste rapaz catapultado para o limbo dos opinion makers por erro de casting. Uma das suas antigas aventuras na área das gracinhas - potencialmente uma fabulosa admissão de culpa -, dá-nos conta da avaliação que faz da atracção sexual exercida pelos homens de direita que Rodrigo Moita de Deus considera muito mais poderosa do que a dos homens de esquerda, revelando desta forma que afinal é extremosamente marxista.

 

É evidente que não nos interessam as sexualidades do eurofestival. São todas divertidas - mais coisa, menos coisa.

O que causa alguma perturbação é termos de admitir que até nas mais tontas manifestações da tolice humana, há sempre um retorcido - e ainda por cima feio - capaz de encontrar forma de se mostrar engraçadinho atirando mijinhas pequeninas ao que não percebe, ou ao que percebe demasiado bem.

 

Mais coisa, menos coisa.  

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A Gaffe e as eurovisíveis

rabiscado pela Gaffe, em 11.05.18

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A Gaffe não atribui grande importância ao facto do inglês de Catarina Furtado ser desenrascated. Foi pena ter cometido o erro de pensar em português, traduzindo depois para a língua de Sua Majestade. No entanto, apesar de alegadamente - o que a Gaffe correu para conseguir encaixar esta palavra, dava um trilho paisagístico! – deslumbrante, apesar da sua poderosa presença e indiscutível beleza, a rapariga não foi esperta. Teve um ano para se preparar e descurou o que a condena agora, arriscando a parecer uma vamp com dificuldades de locomoção linguística. Não basta ser a namoradinha de Portugal, há que evitar encarnar a Miss que bamboleia as ancas para enganar o enrolar da língua.

 

Sílvia Alberto disfarçou o mesmo desatando a gritar sempre que lhe era entregue a tocha, como se a plateia fosse composta por surdos - há razões para se suspeitar que era.

 

Filomena Cautela - esfrangalhada aqui, provou que num registo diferente do ali tratado, se portava comme il faut, bastando a sua invulgar genica para aguentar o alarido medonho que explodia em fogo de artifício mal a interpretação se esbardalhava aos gritos.

 

Daniela Ruah, depois de assustar com um allure vagamente cavalar, convenceu. É competentíssima e estranhamente bonita.

 

A Gaffe não responde aos idiotas ingleses que se indignaram com a performance do Herman, porque tal permitiria que continuassem a falar.

   

As cançonetas apuradas possibilitam considerar a portuguesa uma das mais agradáveis, o que constitui um milagre e coloca Salvador Sobral no galho dos parvos iludidos.

 

A Gaffe acaba de comentar o Eurofestival.

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Gavetas:

A Gaffe ilusionista

rabiscado pela Gaffe, em 10.05.18

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Há tempos que já lá vão, recebi um recado de uma mulher banal que, numa entrada de mamute, se reportava à alegada homossexualidade do meu irmão. Nada de importante, quer para ele, quer para quem o rodeia, mesmo que a alusão espelhasse uma verdade, o que não é o caso.

 

A mulher era, fazia crer com insistência e bandeiras desfraldadas, uma inflamada defensora dos direitos de tudo o que se mexe - incluindo o sistema neurológico das plantas -, uma abnegada e inabalável paladina das diferenças, uma quixotesca matrona imbecil de utopias parolas, uma cuetisa de pechisbeque capaz de urdir trivialidades usando as rimas que encontrava em saldo.

 

O facto de me ter considerado uma infeliz que até tem um irmão gay, é extraordinário.

 

Habituamo-nos a espreitar pelo buraco das fechaduras precárias das redes sociais. Viciamo-nos nesse nauseabundo encharcar de pretensa vida alheia, acreditamos que detemos o poder medíocre - como todo o poder que é ilusório -, facultado pelo falseado conhecimento do que ao outro pertence, indignamo-nos quando nos falha a mesquinhice filtrada por likes, por twitters, ou por instagrams, e ficamos esfaimados, salivamos e esfregamos o rabo com as patas de trás, quando suspeitamos que de tudo sabemos, posto que é tudo o que ali está. Somos patéticos consumidores de ilusionismos. Somos, em simultâneo, artistas de um circo onde a arena é o vácuo e o próprio piso onde periclitamos. De tal me convenci, muito recentemente. Estou ainda em processo de adaptação.  

 

O desejado insulto da lamentável e iludida mulherzinha, que alia infelicidade a uma eventual ligação familiar com um homossexual, revela não só a sua incapacidade de discernir o que consubstancia as mais evidentes e as mais lógicas premissas que originam as mais simples e as mais comuns das felicidades, mas também nos dá como provado que se tentamos espreitar o que não se pode ver - valha-nos Saint-Exupéry -, acreditando que o intuído no circo é atestado de certezas e portanto passível de ser arremessado como uma pedra, denunciamos demasiadas vezes pedaços alarves da nossa verdadeira índole, deixando que os visados pela nossa torpe espreitadela olhem a descoberto o que queremos a todo o custo filtrar com cor-de-rosa.

 

Nas redes sociais, por mais estranho que possa parecer, revelamo-nos naquilo em que acreditamos, somos o que espreitamos sem ninguém saber e somos sobretudo os ossitos que arremessamos à vida dos outros e que judiciamos ter recolhido durante as incursões que fazemos ao nada que vemos. 

 

Somos como o emplastro. Espreitamo-nos, mas não nos vemos. Espreitamos e somos vistos. 

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A Gaffe doseada

rabiscado pela Gaffe, em 04.05.18

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Uma rapariga esperta sabe que em qualquer situação, a elegância é sempre um dom a manter. Pode eventualmente ser herdado, mas sucumbirá se dele não cuidarmos. Não há nesta área aquilo a que se costuma chamar abébias, embora a Gaffe nunca tenha entendido muito bem o sentido desta expressão.

 

Basta por vezes que uma rapariga se lembre do chinelo que lhe serviu uma vez para enxotar uma barata numa esquina esconsa da vida, para que se esmifre toda uma cultivada sofisticação e apurada elegância, assim como basta que de chinelos calçados tentemos imitar uma prima ballerina numa situação em que bastaria ter cuidado com a coluna.

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A Gaffe a balançar

rabiscado pela Gaffe, em 03.05.18

 

A minha mão passa despercebida, cambaleando sonâmbula no som que os pássaros soltam de ramo em ramo.

A minha mão é ruiva e nem a ferruginosa cor da minha mão permite a inacabada antítese da paisagem do meu corpo.

A minha mão ruiva não é mais do que o rasto que fica, como a ferida de um fruto que se acaba de morder. Um fruto vermelho, uma romã, uma cereja, ou a mordida feroz no coração da tarde ou no meu, que entardece no som despercebido da minha mão sonâmbula.

 

A minha mão ruiva é desigual a mão que digo amar e é nesse dizer do amor que sinto não sentindo que a minha mão balança na mão que digo amar, porque em mim o amor é sempre o oscilar das cores com que as aves fazem ninho.

Foto - Fernand Fonssagrives - NY, 1945

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A Gaffe com sotaque

rabiscado pela Gaffe, em 02.05.18

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- Como é possível que ajuizes alguém de modo tão negativo apenas porque tem sotaque?! - acuso muito indignada a superficialidade da minha irmã que recusou sem apelo nem agravo e sem dados de maior, a não ser o seu sotaque cerrado - fantochado de modo bastante cruel -, a candidatura de um jovem arquitecto portuense.

 

- Não. Erro teu, minha cara, eu faça julgamentos muito antes de eles abrirem a boca.

És tu que o condenas dessa forma ao pensares que fui capaz dessa tolice.

 

Imagem - Melchior-Paul von Deschwanden

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A Gaffe à espera

rabiscado pela Gaffe, em 02.05.18
 
Tinhas-te enganado no bairro, na rua e inevitavelmente no número da porta, por isso a chuva havia destruído os dois croissants com amendoim e amêndoa, Boulangerie La Môle, Rue de Tourene, empapando o saco retro, pardo, com um cozinheiro balofo e sorridente desenhado a azul. Os braços do homem desfaziam-se, alastrando pelo papel pingado e o traço do sorriso resvalava numa gota azul que escorria rápida, sobrevivendo ao empapado embrulho.
 

Senti o teu perfume muito antes de te sentir os passos, de sentir a tua luva a deslizar no corrimão. O teu perfume altera-se quando a tua pele o toca, por isso, mesmo cega, te reconheço entre milhares.

Trazias o sobretudo bege, aquele que tu gostas e dura há tanto tempo, manchado pela chuva. Nos ombros os desenhos da água do céu escuro de Paris, como se dos olhos tivessem tombado os arabescos tristes. Sorrias quando me mostraste o teu guarda-chuva desdentado pela força do vento e te sentaste no chão mesmo ao meu lado.

 

- Vim esperar contigo. Podemos esperar aqui, os dois, o tempo que quiseres.

 

Abraçaste-me e foi então que comecei a chorar, aninhada em ti. Chorei mais do que a chuva. Encharquei-te o peito de soluços e ganidos.

Ficamos quanto tempo? Quantas horas durou o meu corpo a desfazer-se em água?

Quanto tempo levei a decidir matar o tempo de esperar?

Foi ali que aprendi contigo que a espera só se torna vã no momento exacto em que a nossa alma assim o decide, mesmo sem sabermos porque o fez.

 

Há dois mendigos eternos - tu e eu, ali - que esperam por Godot. Há um povo perdido a aguardar um rei sifiliticamente mágico que perdeu no sol. Há um poeta a sonhar ser amado como um dia amou.

Não há esperas inúteis até ao momento em que as transformamos, mesmo sem saber, em vazio incómodo.

Um povo, dois mendigos e um poeta só podem ter razão.

A espera continua a vida, mistura-se com ela até ser viva. Integra a nossa alma até ser pedaço dela, indivisível, inalienável. Não adia o tempo de viver, porque é já ele.

 

Gostava de me atravessar na porta por onde o tempo passa. Impedir que se escoe, que desapareça. Talvez então eu conseguisse fazer a morte parar, ficar à espera. Talvez então encontrasse um modo de entregar a alguém o tempo que é meu e de que mais me orgulho: as horas empapadas em que eu esperei. Esse tempo exacto. Esse intervalo nítido que finda no instante em que me levantaste porque sentiste a minha espera desistir, abandonar-me a vida.

 

Paris?!

Paris espera sempre, porque nada como o fio ténue de uma espera para nos segurar ao lugar de onde partimos.

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A Gaffe ignorante

rabiscado pela Gaffe, em 26.04.18

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Passei cerca de duas horas no cabeleireiro.

 

Decidi cortar o cabelo. Queria-o curto e fácil de tratar. Só entrego operações deste tipo ao Miguel que conhece o modo como me consigo enfurecer quando há deslizes capilares.

O meu querido amigo estava ocupado com uma rapariguinha que reconheci.

 

Está noiva do J., um rapagão que por sua vez esteve outrora, no antigamente das estrelas, perdido de amor pela minha prima.

 

É mais bonita do que nas fotografias. Mamalhuda e com as ancas potentes e um futuro parideiro. Tem um sobrenome do tamanho da fortuna que herdará. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, na variante de Estudos Franceses e Ingleses. É tradutora/intérprete na empresa da família. Tem ascendência aristocrata e raiz em Ponte de Lima. Católica praticante. Não tem filiação política. É alérgica a morangos. Sofre de enxaquecas. Vai a Londres, aos saldos, e é insolente com tudo o que sente inferior ou subordinado. O J. é o seu primeiro namorado.

Há mais duas ou três informações que não ouvi, fornecidas pelo fastio da mulher que as obteve, sem as desejar, da indiscrição de quem não é capaz de se libertar do domínio patológico de uma antiga amante.

 

Tem uma revista na mão e tagarela com o Miguel.

Não consegue decidir! O penteado!

Folheia nervosa o casamenteiro volume.

- Não faço ideia! - volta-se para mim. - Gosto deste, mas ao mesmo tempo parece-me vulgar, não acha? - crava-me a página no colo.

- O ideal é não ouvir opiniões - sorrio eu, sincera.

- Isso é verdade. Sobretudo quando as pedimos a gente que não sabe do que gosta.

 

Olhei-a pelo espelho. Tem na boquinha um sorrisinho de desdém todo florido. Deve ser aquela a expressão do inocente que desconhece que ao seu lado está sentado um serial killer e resolve mordiscar a pouca sorte.

 

Era fácil fazer-lhe explodir a revisteca nos dedos. Bastava que lhe descrevesse num sussurro grosseiro o anel de noivado - que não está a usar - que mereceu o deferimento da outra mulher quando o desiludido rapazinho lhe confessou hesitante, dias antes, que era o mesmo que tinha usado para a conquistar - o devolvido aquando da recusa; bastava que deselegante a aconselhasse a não usar lubrificantes com sabor - irritam a piloca descoberta do pobre noivo sujeito a cirurgia para resolver uma fimose dolorosa -, mas o Miguel voltou-se para mim, pronto a receber as minhas instruções.

 

Sei do que gosto?

 

Toda a minha vida procurei, esgravatei, cavei, esquadrinhei, remexi e espiolhei tudo o que o que suspeitava não poder ter. O que compensasse este sentir-me ausente do saber.

 

Sei do que gosto. Devia fazer uma lista em Excel. A que surge de repente é caótica e avulsa.

 

Gosto de Brahms, do Sabat Mater de Dvorak. Gosto de Rimsky-Korsakov, de Rachmaninoff, e de Ravel. Gosto das Variações Goldberg nas mãos de Glenn Gould. Gosto de mulheres que cantam jazz. Gosto de Nina em Nina Simone, de Aretha Franklin, de Billie Holiday e de Shirley Horn. Gosto de smooth jazz na voz dos homens. Gosto de Callas em Tosca. Gosto de Anna Netrebko e de Maria Guleghina. Gosto de Puccini. Gosto de Wagner. Gosto de Nabucco de Verdi e de Werther de Massenet. Gosto de Literatura Russa e dos clássicos franceses. Gosto de Proust, de Balzac, de Maupasssant. Gosto de Collete.

Gosto de Pablo Neruda.

Gosto do Faulkner que existe em Lobo Antunes.

Gosto de Nureyev.

Gosto de Giacometti.

Gosto de Caravaggio e de Vermeer. Gosto de Rubens. Gosto de Velásquez. Gosto de Monet e de Manet.

Gosto de Vieira da Silva. Gosto de Miguel Ângelo, de Rodin e de Brancusi.

Gosto de Corbusier, de Siza, de Koolhaas e de Niemeyer.

Gosto de Dior e de Cartier.

 

Gosto de milhões de nadas que não digo e gosto de homens que não sabem disso, assim como não sabem do único perfume que escolhi para mim - o único que sei que é meu, o único que gosto por sentir que se torna de repente a minha pele -, e que ignoram o nome daquele que devem usar para me vencer.

 

Sei do que gosto.Tenho de saber.

 

O Miguel acabou.

Olho a rapariga ainda presa à revista.

 

Não gosto do penteado que escolheu.

 

Ilustração - Bill Mayer

 

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Gavetas:

A Gaffe num slogan

rabiscado pela Gaffe, em 25.04.18

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slogans que são manifestos perfeitos e que resumem de forma exemplar a indignação de quem os assume e os transforma em bandeira.

 

Não falo no Yes, we can, tornado pela desilusão em Yes! weekend! ou pela necessidade  de afirmação e resistência, no Yes, we camp, ou ainda pelo ameaçador America First 

 

Falo, por exemplo, daqueles que funcionaram quase como previsão sinistra do que, não sei se apenas metaforicamente, veio a acontecer, como o on mangera les riches, ouvido durante Maio de 1789 e Novembro de 1799, em Paris.

 

Refiro-me aos mais poéticos, inscritos nas ruas de Maio de 68, como o ouvido e inscrito nos muros parisienses je suis comme un oiseau mort quand toi tu dors, que apelava de forma belíssima à consciencialização política dos estudantes que hesitavam.

 

Nunca gostei de ouvir slogans que não fossem susceptíveis de se transformar em lança espetada num determinado tempo ou acção específica, resumindo e revelando um sentir determinado.

Por isso me apaixonei pelo que li, inscrito num cartaz que vi passar nas mãos de um velho, na brevíssima e contida reportagem sobre a desilusão portuguesa que cavalga ainda, mintam o que quiserem.

 

  DE CRAVOS A ESCRAVOS

 

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A Gaffe paisagista

rabiscado pela Gaffe, em 24.04.18

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Somos por vezes criaturas em que a altivez se foi metamorfoseando, eclodindo e revelando o que de mais escuro existe em nós, sobretudo quando, à nossa frente, temos os que por nós dariam tudo, sabendo que por eles nada trocaríamos.

Desembainhamos a crueldade e tornamos fácil agredir aqueles que nos querem, quando sabemos que esse desejo não tem reflexo em nós.

 

Impomos a sela de Pégaso como condição para aceitarmos que nos transportem as pérolas com que adornamos o pescoço da soberba e obrigamos a que todos os aromas que nos chegam do quotidiano mais comum, sejam submissos reflexos das nossas escolhas autistas.    

 

As janelas do amor que os outros nos dedicam, abrem-se tantas vezes para as nossas vielas putrefactas.

 

Dizemos depois que somos demasiado exigentes, urbanas, sofisticadas e cosmopolitas e que não temos tempo para dedicar à banalidade dos que passam olhando para dentro de nós à procura de chão.

Temos apenas céu.

 

Falamos da indiferença racional e da polida e culta e livre forma de viver e de sentir de mulheres que ultrapassaram as margens da timidez vagarosa que flutua no olhar dos que nos querem, porque a ousadia e a fúria do arrojo dos heróis e dos guerreiros condiz melhor com a velocidade a que nos movemos.

 

Tantas vezes somos mulheres a jacto.

 

Neste percurso de tocadas pelos deuses das avenidas largas e infinitas, de aço, de acrílico, de brilho de navalha, apenas amarfanhamos, comprimimos, sufocamos, o desejo de numa tarde banal e corriqueira, numa rua, numa qualquer ruela abandonada, termos o tempo lento a soprar na cara enquanto alguém nos leva para longe, de mansinho.   

 

Imagem - André Gonçalves

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A Gaffe e uma paixão

rabiscado pela Gaffe, em 23.04.18

 

 

Há homens que atravessam o tempo e se deixam atravessar por ele, sem piedade ou condescendência, mas sem macular a mais ínfima das partículas de que são compostos.

 

São, na sua maioria, homens de génio que rasgam os limites das impossibilidades quotidianas e refazem o universo, vertendo-o num copo com vinho que bebem no entardecer de uma esplanada qualquer, depois de terem restabelecido a ordem e a alma das coisas breves distorcidas pelos outros. 

 

Na foto -Samuel Beckett

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A Gaffe iluminada

rabiscado pela Gaffe, em 20.04.18

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O Gestor Local de Energia e do Carbono (GLEC) é um senhor competente, discreto, de fato preto e camisa branca, de gravata fininha e regimental, baixinho e pio. A primeira impressão que dele temos é a de um senhor que não permite folestrias - decidi recuperar o léxico duriense -, rigoroso, aborrecido e conservador. Dir-se-ia que nos temos de benzer antes de falar. Quando melhor o conhecemos, acabamos repletos de respeito pela sua tarefa e pela sabedoria, eficácia e competência com que a leva a cabo, pese embora as constantes tropelias irresponsáveis de quem o rodeia.

 

Uma das suas iniciativas mais minúsculas - se comparadas com o trabalho colossal que tem em mãos -, foi, não sei se por orientação superior, colocar autocolantes encimando os interruptores advertindo para a necessidade de se desligar as luzes quando saímos das divisões. São bonitos, com um design agradável e não ferem o contexto onde cumprem o seu dever.

 

O extraordinário é verificar que, após esta diligência, aumentou de forma absurda a quantidade de lâmpadas acesas em compartimentos vazios.

 

Não acredito que o objectivo desta contradição seja a de boicotar os resultados que o GLEC tem de apresentar semestralmente às autoridades competentes. Não quero crer que a vontade de vitória da tacanhez siga por caminhos tão ínvios, tão planeados, desenhados para a atingir a médio prazo. Sempre pensei que a pequenez dos mesquinhos se tornava visível por, num curtíssimo período de tempo, se agigantar e tomar forma aos nossos olhos ao ponto de se tornar doentia, obesa, mas contornável. 

 

Não encontro uma explicação satisfatória.

 

Suponho que existe latente em cada criatura a apetência para se tornar um bichinho maldoso, sem qualquer compensação que não seja a de satisfazer a ânsia de ver fracassar as mais pequenas, as mais irrisórias e as mais corriqueiras acções do outro, mesmo que indiretamente este soçobrar alheio o atinja negativamente depois. 

 

Transportamos um Chucky ridículo de subúrbio ranhoso que a cada passo sai do coma. Contentemo-nos com o facto de se satisfazer com beliscões.     

 

Ilustração - Jean-François Segura

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A Gaffe com um dói-dói

rabiscado pela Gaffe, em 19.04.18

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Desconheço a origem da sábia expressão, tida actualizada no Douro, os homens são uns paridos, mas confesso que neste caso o empirismo é convincente, dispensando em consequência comprovação científica.

 

Os homens são o que na gíria se chama mimelos e que na realidade é apenas uma característica da espécie e do género.

Esta particularidade adquirida pelos rapagões há tempos imemoriais, é vastas vezes usada como ardil de sedução. Nos confins do inconsciente mais oculto, os homens perceberam que um queixume, um ai, um arquear infeliz de sobrancelhas, um chorito, uma lágrima furtiva, um tombar sem forças, ou um golpezito de sorte, faz eclodir a enfermeira que todas temos cá dentro.

 

É evidente que nem todas obedecem de forma literal a este impulso. Perante um gemido masculino não é certo que uma mulher envergue de imediato a bata branca e o chapelinho com a cruz vermelha, despidas outras formas de se ser tarada, e se desatilhe em manobras de reanimação seja do que for.

Não!

Apesar de tudo, resta-nos o senso e a vontade de enfiar o termómetro nos sítios e com os fins a ele originalmente destinados. No entanto, a descoberta desta nossa debilidade, o reconhecimento da nossa propensão maldita, entrega aos meninos choramingões a possibilidade de se servirem da extraordinária disponibilidade feminina, da nossa abnegação, da nossa compaixão, da Madre Teresa que em nós lateja, para fins muito poucos lícitos.

 

Não adianta muito afirmarmos, empoladas pela soberba, com o nariz arrebitado de estoicismos, orgulhosas da nossa capacidade de sofrer em silêncio e com a vertigem da superioridade de quem aguenta - de pé, hirta e fixa -, os tacões agulha na presidência do conselho de administração da nossa vida, que os homens são uns paridos. É inútil, como toda a verdade encanecida e ultrapassada. Ao primeiro choro do nosso menino, espetamo-nos na net a ver se dói, doridas de pesar.

 

Somos compassivas, somos caridosas, somos empáticas, somos caritativas, somos misericordiosas e bondosas. Está dentro de nós estes destinos - embora todos muito selectivos.

Sabemos que os homens são uns paridos, mas, se valerem a pena, corremos a tratar-lhes do dói-dói.

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