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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e o melhor amigo

rabiscado pela Gaffe, em 02.04.19

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Por vezes, as raparigas espertas, devem admitir que um homem que lhes oferece um colorido e gigantesco ramo de flores, em vez de um anel de diamantes com um poderosíssimo apelo aristocrático, o faz ignorando que preferimos Marilyn quando nos diz platinada que os homens passam, os diamantes ficam e que trauteamos muito mais depressa Diamonds are a girl's best friend do que You Don't Bring Me Flowers mesmo debaixo do nariz da Straisand.

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Gavetas:

A Gaffe não aceita

rabiscado pela Gaffe, em 02.04.19

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Um dos verbos que devia ser abolido do dicionário da alma de alguns é o aceitar.

 

Torna-se obsceno quando é usado na primeira pessoa quando a pessoa é a primeira a usar o que aceitou como arma de arremesso.  

É vulgar - nunca deixando de ser repugnante -, ouvirmos a tentativa de cuspir um insulto com o que horas antes se jurou aceitar com a pia benevolência dos que são caritativos e olham a humanidade com a brandura dos mansos que deles é o reino dos céus.

É nojenta a facilidade com que aceitar o outro se funde a crença na ilusória, com a mentirosa, certeza de que somos bons e que jamais nos imiscuiremos, ou combateremos, o que no outro é diferente.   

 

Aceitar o outro, tem por vezes implícito um minúsculo julgamento feito nos confins da alma de quem aceita.
Quando aceitam não estão a reorganizar o pensamento de forma a que este se adapte ao que não consegue ou que revela dificuldade em compreender ou reconhecer como forma de consciência independente e diversa daquela que possui.


Sentam-se nos seus pequeninos tronos e, magnanimamente, aceitam o outro.

Não o entendem segundo diferentes arquitecturas interiores e recusam ou subtilmente condenam cada acto cometido, porque não é assimilado pelas suas organizações internas, mas, e como são criaturas superiores, aceitam.


O seu irrisório tribunal interno não arrisca declaradamente o perdão, por beata modéstia, mas inclui no aceitar uma parcela de indulgência, envernizada, mascarada de respeito pelo outro.
Aceitar
, dentro deles, traz no bolso um calado sentimento de superioridade, uma velada e inconsciente vontade de domínio, uma escondida certeza de que, o que são, se torna a regra mais conveniente para o equilíbrio planetário.
Julgam o outro quando o aceitam e não abdicam dessa miserável e ínfima sensação de superioridade. Ao aceitar, recusam, recuam e, em última análise, assinam no esconso da alma a moção de censura ou a negação.


Ao aceitar as formas externas ao traçado arquitectónico que reconhecem como seu, são como as anafadas senhoras, de agenda apopléctica e reservado lugar em todas as comissões de avaliação e em todos os plenários ou jurados. Depilam as sobrancelhas para as desenhar depois com traços negros, escondem estampas pornográficas nas páginas batidas do missal e aceitam, soberanamente, superiormente, o outro que também tem direito à vida.


Não consigo compreender estes gauleses... mas aceito-os - diz o Imperador, olhando de soslaio o Axtérix.

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A Gaffe ao jantar

rabiscado pela Gaffe, em 01.04.19

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A partir do mar, subimos a rua do Padrão.
O meu rapagão cabisbaixo e amuado por não ter cedido ao seu desejo de jantar íntimo e eu pronto a flutar na música suave e na luminosiadade macia de um dos meus restaurantes favoritos. 
Encosto o meu ombro ao dele e aperto-lhe a mão. 
Ninguém na Praça de Liège. Ninguém nos caminhos do Passeio Alegre. Ninguém nos telhados do Hotel BoaVista. Ninguém nas ruas e nos becos.


Sobretudo ninguém na rua do Padrão. 

 

Sopa de mexilhões com açafrão e “croutons” de alho. 
Ovos com salmão fumado e caviar.

 

O rapagão tem os olhos pousados na toalha. Se os levantar, sei que milhares de pestanas negras farão sombra na ternura desse olhar. Está perdido, porque usa jeans demasiado gastos e puídos - e logo num dos meus restaurantes de eleição!
Tem uma boca carnuda, com lábios macios e quentes, ligeiramente salgados, e dentes perfeitos. 

 

Pato fumado fumado com ovos de codorniz. 
Caesar com salmão fumado.

 

O meu rapagão tem um imenso corpo moreno, quase chocolate brando, que gosto de fazer ondular. Tem peitorais longos, largos e fortes e que são de ferro se eu lhes tocar. Tem um traço de pêlo, uma estradinha, uma serpente, que nasce no umbigo e desce até me dizer onde começa o paraíso.

 

Robalo com algas e molho holandês. 
“Magret” de pato salpicado com vinagrete morno de hortelã.

 

A minha perna toca na dele. Olha para mim e tenta afastar-se, embaraçado. Durante todo o jantar procurou manter-se discreto, despercebido. Empurro a minha perna de modo a que ela encaixe no meio das pernas dele. O meu rapagão aperta os joelhos, aprisionando-me. Sorri, malicioso. 

 

“Tarte tatin” quente com natas batidas. 
Bolo de chocolate amanteigado.

 

A minha mão desce. Debaixo da mesa, no abrigo branco da toalha, toco-lhe na coxa. 
Pousado o guardanapo, o rapagão agarra-me nos dedos, domina-os e obriga-me a fechá-los ... em redor da conta. 

 

Bebemos àgua. 

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A Gaffe enganada

rabiscado pela Gaffe, em 01.04.19

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A Gaffe acha horroroso o dia 01 de Abril, porque nunca sabe se o que lhe dizem muito compenetrados e muito convincentes é uma daquelas partidinhas amorosas com que as pessoas gostam de comemorar o dia dos enganos.

 

Saltam-lhe os nervos quando no fim de após uma troca de impressões acerca de determinado assunto que veio à baila por dá-cá-aquela-palha – e a Gaffe leva muito a sério os assuntos relacionados com palha, como comprova este blog -, lhe declaram com uma risada alarve que hoje é o dia dos enganos e que esta rapariga foi capaz de uma performance muito superior à campeã de patinagem artística. Apetece imenso partir os dentes da frente ao bem-humorado e original interlocutor com a lâmina dos patins. Só não o faz, porque os patins não chegam para tanto imbecil e é feio ensanguentar o gelo com que recebe a notícia do engano invariavelmente bem sucedido.

 

Exactamente por ser propensa a tombar em todo o langará, a Gaffe dúvida se o apontamento que leu hoje - por engano - no Jornal Económico é, ou não é, um exemplo de como se pode festejar este maldito dia.

 

O Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais informa que não vale a pena entregar a declaração do IRS nas duas primeiras semanas de Abril, pese embora nos seja possível logo no primeiro dia mês da Revolução encarregar um senhor muito capaz de o fazer por nós que somos parvas. Parece que existem sempre algumas alterações à aplicação informática que as recebe, acompanhadas de possíveis e prováveis bugs, que vão sendo testadas - as alterações -, e corrigidos - os bugs -, à medida que os contribuintes mais afogueados se queixam. Os massacrados serão, portanto, os que entregam as suas declarações electrónicas logo ali nas duas primeiras semanas e que ignoram que a corridinha não implica um reembolso - se houver lugar para tal -  mais rápido do que aquele que tem lugar relativamente aos contribuintes que não desataram a chispar no teclado dos impostos e que esperam que os testes em tempo real se realizem.

 

A Gaffe suspeita que esta é uma marota mentirinha do Governo.

 

A Gaffe sorri e acredita que desta vez não mordeu o anzol. Nenhum Secretario de Estado das Finanças - ou de outra coisa qualquer - vem a público esparramar o cretinismo com que carambola as pessoas. O método mais usado é o do calar e deixar andar, como se comprova com a regularização dos precários que provavelmente terá de contratar precários para os regularizar, escandaloso é o atraso. 

 

A Gaffe acredita também que os senhores que criam e que se encarregam do funcionamento das aplicações informáticas governamentais são de uma competência, de uma eficácia e de uma eficiência a toda a prova e a todos os honorários. Sendo que o elevadíssimo mérito destes qualificadíssimos profissionais está implícito, pois que com certeza figuram quase todos na árvore genealógica de um qualquer ministro, podemos concluir, em consequência, que o dia 01 de Abril também é festejado no Ministério das Finanças.    

  

Por outro lado, a Gaffe fica hesitante. Há significativas probabilidades de ser verdade o que o Secretário de Estado declarou. Por norma, os foguetes iluminam sempre durante alguns segundos e são imprescindíveis ao velho palco improvisado da banha-da-cobra.    

 

Ilustração - Alex Stevenson Diaz

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A Gaffe real

rabiscado pela Gaffe, em 29.03.19

 

A Gaffe, como está provado, não é especialmente católica. No entanto, não deixa de se espantar com o modo como Deus encara miseravelmente as monarquias, tendo em consideração as cabeças que escolhe para coroar.

Os outros regimes não escapam ao desprezo divino, mas os diferentes escolhidos que os encabeçam, dizem-se eleitos por outras artes.

 

Há no entanto, algumas - raras -, excepções a esta indiferença divina.

 

Há mulheres que são ocultas, latentes infantas, herdeiras dos reinos mais íntimos das almas dos homens e, mesmo sem diadema repleto de jóias solares, são capazes de urdir a mais imponente das insígnias reais: as coroas que ostentam são entrançadas com as próprias fibras.

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A Gaffe "homossexualista"

rabiscado pela Gaffe, em 28.03.19

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A Gaffe está mais uma vez ao lado, mas mesmo ali ao lado, da maravilhosa Joana Bento Rodrigues que a cada passo nos deslumbra, superando aquela coisa feia que a estátua da Liberdade tem na mão erguida.

 

Depois de nos ter metido no lugar que nos pertence desde tempos imemoriais e que tantas vezes somos - nós, mulheres! -, capazes de esquecer e desprezar, chega-nos agora revoltada, chocada, escandalizada, com a campanha de uma marca de roupa para crianças que se alia à moderna tendência homossexualista que grassa no Ocidente e que, mais cedo do que se pensa, vai desertificar o planeta.

 

A marca apresentou uma colecção de roupa infantil que tanto dá para um lado, como para outro. Este facto já é péssimo, mas tentar abolir a distinção dos sexos através da cor, cerceia a nossa capacidade de discernimento e contribui para esta espécie de daltonismo sexual que os homossexualistas defendem e promovem, ultrapassando mesmo as fronteiras e os limites traçados por Deus.

 

A Gaffe considera um HORROR.

Deixem as crianças em paz!

 

Acredita piamente - como Deus manda -  que esta contínua aniquilação de códigos ancestrais, levada a cabo por gente LGBT, ou LGBTI, ou LGBTI+, ou coisa que o valha -, é um perigo para a civilização, tal como a conhecemos e respeitamos, e não vai ser interrompida antes de destruir por completo a vantagem  que detinhamos sobre o homossexualismo - que nos foi dada por Nosso Senhor -, e que nos permitia imediatamente identificar - e saber lidar com isso - qualquer personagem que nos surgisse na frente.

 

Tentar anular os códigos sociais expressos nas cores, é trágico, mas é tarefa destes monstros que consideram primordial levar a civilização ao homossexualismo total.

 

A Gaffe teme que se intensifique a possibilidade de uma mulher usar um vestido vermelho intenso e justo, sem se perceber que anda a pedi-las. Não é de todo de espantar, pois que já é com alguma dificuldade que conseguimos discernir um toxicodependente de um gótico, ou de um emo, ou de uma pessoa de luto, através do preto que usa em look total e - a propósito - já é absolutamente incriminatório intuir - porque somos lógicos e racionais - que uma pessoa de cor mais escurinha é uma ameaça potencial à nossa segurança e que tem a pila grande, ou que uma pessoa mais amarelinha tem a porcaria dos genes dos olhos em bico entranhada no corpo e abre lojas com plásticos a cheirar a petróleo, mesmo ao lado da Prada.  

 

Uma mãe que sabe o que é ser mãe, que sabe estar, que se comporta como uma verdadeira mulher, sabe por instinto que se colocar nos ombros do filho um pólo azul discreto, o menino não mudará de sexo na idade maior e com certeza conhecerá por essa altura, no golf, meninos que usaram, pousados nas costas, pólos azuis discretos. Juntos podem perfeitamente fundar uma empresa e encomendar uma colecção que aproveita a onda homossexualista àquela gentalha que em criança ousou cores berrantes e que por isso agora é estilista.

Pelo menos, dá lucro.

 

Uma mãe que sabe o que é ser mãe, que sabe estar, que conhece o seu lugar, que se comporta como uma verdadeira mulher, sabe que se vestir a filha de princesa cor-de-rosa, a futura jovem tem mais hipóteses de casar com o menino do pólo e - se usar branco - ser amante dos amigos de pólo do marido e que será sempre mais que Ministra da Cultura.

  

É evidente que se uma mãe não merecer este santo estatuto, e vestir a sua criança de vermelho, ou preto, ou quiçá de branquinho, terá no futuro um comunista ao jantar, ou um drogado suicida, ou um homossexualista na Companhia Nacional de Bailado.  

 

O pai está a trabalhar. Não aborreçam. 

 

Já nos tentam roubar a possibilidade de reconhecer as boas pessoas pela cor da pele, não nos retirem agora a capacidade de distinguir através da cor da saia ou do pullover,  da menina e do menino, o que é de aproveitar do que não passa de manobra destruidora do lobby do homossexualismo.

 

Se Deus, na Sua infinita sabedoria, nos fez e nos vestiu de cores diferentes por alguma coisa foi.

 

Bravo, Joana Bento Rodrigues! Embora exista roupa unissexo há imensas décadas, não parece nada que a menina saiu agora mesmo debaixo de uma pedra.

A menina continue que não maça nada. 

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Redacção da semana: A Dona Mandona

rabiscado pela Gaffe, em 27.03.19

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Hoje vou falar da Dona Mandona que é uma senhora velha para aí com cem anos que gosta de mandar em tudo como o nome diz. A Dona Mandona é estrangeira mas comprou uma casa mais ou menos em Lisboa que a gente nunca sabe onde ela está por causa dos patarazis que são umas pessoas que perseguem e que atiram as princenzas contra os postes. A Dona Mandona é muito rica mais rica que o Dom Ricardo Salgado e que o amigo do senhor engenheiro juntos. As pessoas ricas podem comprar casas em Lisboa ou então arranjam um vistogolde que é assim como uma espécie de multibanco. As pessoas ricas metem o vistogolde no buraco do banco e sai uma casa prontinha e tudo. Se a Dona Mandona fosse pobre ia viver para a Jamaica que se quilhava. A Jamaica é um lugar que tem muito mas mesmo muito sol e é por isso que não vivem lá as pessoas que ficam sempre à sombra no fresquinho. A Dona Mandona é tão rica tão rica tão rica que nem vistogolde precisa. É sempre áviar como diz a minha tia Arminda que tem uma mercearia em Carrepeta de Anciães e é gorda. A gente gorda avia muito, não é como a Dona Mandona que só come umas coisas feitas pelo senhor cozinheiro Aguilez que faz um reclamo à cerveja da Noémia e que parecem caganitas de cabra mas em verde que a Dona Mandona é encológica. Uma pessoa rica pode ser muito encológica. Manda os pobres amanhar os pepinos e as couves e as outras coisas da terra que é sem corantes e sem plásticos e depois come e manda as cascas para os porcos as vacas as cabras e os cavalos comerem. Os bichos comem aquilo e depois fazem as necessidades que vão para o restaurante do senhor Aguilez mas aos pedacinhos muito pequenos que a vida está cara e o senhor Aguilez tem de viver como os outros. Chama-se renciclagem. Vou estudar em Estudo do Meio para depois fazer também lá em casa que lá só se come comida emplastificada que é mais barata com papel tócolante e nem o burro se safa com os restos que fica tudo a cheirar a peixe podre e os burros não são peixíbonos. Por acaso foi uma pena a Dona Mandona não saber que a minha avó tinha um burro. Como o senhor presidente da Câmara da Horta não deixou a Dona Mandona meter um clipe com um cavalo dentro duma casa antiga e muito valiosa a Dona Mandona assim como assim já cá tinha o bicho dentro. A casa da minha avó está podre como a que ela queria. É mais pequena pois que é mas é mais asseadinha. O cavalo é um burro pois que é mas a gente dá o que pode e a mais não é obrigada. O meu primo Zeca é que não deixava. Já quando soube que a Dona Mandona queria o cavalo dentro de casa disse logo a Mandona que meta o cavalo na garagem. O que ele disse rimava mas já levei muitas no focinho. Não sei é se o cavalo lá se segurava. Na garagem. Às tantas tinha de ser preso por cordas para não escorregar por ali fora. Não sei que sou pequenito e é melhor está calado. Benza-a Deus que lhe deu sorte como diz a minha prima Idalina que sabe a música laicavegan de cor e que diz que a Dona Mandona é uma rainha. Ela diz mas eu sei que não é. Se fosse estava no governo que eu aprendi em história que antigamente havia em Bréquesite uma rainha chamada Vitória que meteu a família toda a governar tudo o que havia. Aquilo era primos e primas tios e tias irmãos e irmãs todos metidos nos governos de todo o lado que aquilo até deu merda e um deles passou a hemotrólifo que é uma doença que dá quando se mete a família toda a governar. Agora não me venham dizer que não se pode meter burros e cavalos nos palácios que até pode se formos rainhas. Se a Dona Mandona não conseguiu é porque não é rainha. É da oposição. Vou meter aqui uma fotografia da ovelha a renciclar que vive em casa do meu primo para ver se a Dona Mandona a quer no clipe. A gente sabe que está na moda ter ovelhas ou cabras nas televisões. O meu primo Zeca até a leva quando vai a Sintra em trabalho. Diz que não gosta de dormir sozinho ao relento. Temos de ser uns prós outros. Eu gosto muito da Dona Mandona.  

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A Gaffe com saudades

rabiscado pela Gaffe, em 27.03.19

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Lembro-me, era eu minúscula, de ver a minha Jacinta a tricotar.

 

Usava agulhas grossas e a lã era Dralon 5, resistente e duradoira.

Matizava, torcia, entrançava e entrelaçava pontos que inventava com os que tinha herdado. Como um maestro de duas batutas, construía melodias mansas e mornas que usávamos durante os Invernos.

Lembro-me que as peças tricotadas mantinham um vago aroma de gardénia, quase nada, quase tudo, e que as cores que povoavam, este perfume e estas peças, eram quase sempre densas, sólidas, luminosas, quentes e imprevistas, como se um pedaço de Verão se tivesse perdido no entretecer da malha.

 

Se olho agora o que nas ruas encarna o glamour que é o retorno assumido a um tempo tricotado, sei que, se abrir as gavetas da velha arca de mogno liso ao canto do quarto em que foi urdida a minha infância, o vago aroma a gardénia voltará a tremer nas minhas eternas malhas Dralon 5.

 

Mas é Primavera e há um ninho nas árvores. 

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Gavetas:

A Gaffe do bajulador

rabiscado pela Gaffe, em 26.03.19

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Na imensa fila dos bajuladores mais abjectos, é sempre aquele que ocupa o lugar da frente, o primeiro a calcar e a esmagar o incensado quando o encontra caído.

 

Ilustração - Denis Zilber

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A Gaffe das fadas

rabiscado pela Gaffe, em 26.03.19

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Tentei há imenso tempo, uma aproximação presunçosa e mais ou menos freudiana às histórias de fadas.

Recupero o que na altura foi escrito, pois que nada se alterou e porque encontrei ilustrações extraordinárias que quero muito mostrar.

 

Na altura usei apenas O Capuchinho Vermelho e A Bela Adormecida que são, sem hipótese de contradição, duas obras com direito a figurar nas estantes da memória de todas as crianças. Não fiz, nem pretendo fazer por estar longe de ser capaz, uma análise exaustiva das obras. Aflorei apenas o aspecto que ilustra de certo modo o que sempre pensei acerca do assunto.

 

O primeiro conto fala de uma menina que, usando um capuz encarnado, deverá no seu passeio pelo bosque, passar a ter cuidado com o lobo que a espreita com intuitos devoradores. Numa primeira e quase imediata aproximação, descobrimos a cor do capuchinho que, segundo uma data considerável de analistas, representa a menarca, a primeira menstruação de uma jovem. A rapariga, fértil, deverá cuidar da sua segurança e do afastamento do possível agressor e/ou desflorador, aqui transformado em lobo cujas características estão desenhadas de modo a ser considerado fatal. A lição possível é dada de modo eficaz e o aviso subliminar fica registado. A menstruação, metaforicamente encapuzada, é sinal claro, vermelho, para que a jovem menina passe a observar os sinais de perigo vindos do bosque. Uma agressão não pode, ainda hoje, ser evitada usando o medo do lobo que espreita?

 

É também curiosa a quantidade de sangue que se derrama nestes dois contos - mas não exclusiva destes. O sangue metafórico do capuz e o sangue provindo da picada que adormece a Bela. Desta feita, no caso da Princesa catatónica, ser picada é ser desflorada. Há um elemento perfurador, o fuso, que penetra na carne da jovem que tinha atingido a idade em que se tornaria normal uma iniciação sexual. Como castigo, a adolescente adormece e terá de ser o Escolhido a tentar reanimá-la com um beijo após ultrapassar uma série de provas que demonstram que é o merecedor. O feitiço é imposto pela bruxa - interessante também esta dualidade entre bruxa/fada, fada madrinha/feiticeira, que está muito próxima da imagem da mãe, criatura benévola versus criatura malfazeja - e é quebrado por imposição - permissão? - de uma fada com a condição de ser um corajoso, garboso e aprovado jovem a reanimar a princesa picada e ensanguentada. Neste caso, o beijo poderá ser leve e pueril, ao contrário do da Branca de Neve que será obrigatoriamente mais profundo de forma a retirar da garganta o pedaço de maçã envenenada. Muitas vezes ignorada ou dispensada esta característica contribui de modo decisivo para a perenidade e a intemporalidade da história.

 

Estes dois exemplos, mostrados de forma simplificada e incompetente, dizem dos modos sublimados de abordar o sexo nas histórias para as crianças, transmitindo noções e conceitos que se enraízam no inconsciente colectivo e estão directamente relacionados com os chamados arquétipos da humanidade. Não são exageros de mentes sórdidas capazes de encontrar, de modo freudiano, o sexo nos anjos. Até porque são raros - se é que há alguns - os contos onde os querubins se tornam personagens dignas de eternidade oral ou escrita. Por não terem sexo, acabam não contáveis.

 

A minha aproximação, pecando por defeito, é necessariamente curta e restrita e está apoiada nos mais básicos alicerces do corpo construtor da clássica narrativa infantil susceptível de atravessar gerações sem modificações na sua estrutura essencial. Carece de maior desenvolvimento que não tem lugar aqui e deveria, logicamente, ser aliada a outras que com esta fornecem o estatuto de obra maior ao que é contado.

 

A violência, a morte, a crueldade, a disfunção - sobretudo no âmbito familiar - e o universo do fantasioso povoado por ogres, fadas, duendes e bruxas, são pilares quase totalmente ausentes na literatura infantil da actualidade que oferece à criança uma planície asséptica, afastada e purificada, repetindo e retratando um quotidiano aparentemente inocente, clarificado e isento de implícitas referências aos arquétipos edificadores e organizadores do inconsciente colectivo.

 

Com um público situado numa faixa etária ligeiramente mais elevada, J. K. Rowling recorre a estas implicações de forma quase exemplar em Harry Potter, provando que hoje, como no século que viu o Capuchinho ser atacado pela fera, ou nos reinos de Tolkien, recorrer às certeiras e velhíssimas fórmulas mágicas é garantia de aceitação, de reconhecimento imediato e projecção no futuro e não se está a falar, neste momento, de óptimas e inteligentes campanhas publicitárias.

 

Este palrar inútil e maçador serve apenas para vos mostrar o trabalho fabuloso de Daniel Egnéus e não dispensa a leitura do folheto informativo, por exemplo, aqui aqui.

 

 

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A Gaffe googlada

rabiscado pela Gaffe, em 25.03.19

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A Gaffe não quer de maneira nenhuma desiludir toda aquela gente marota que desemboca nestas Avenidas quando procura rabos nus de rapazes.

 

O Google é uma ferramenta sábia e absolutamente capaz de oferecer às buscas deste teor os resultados mais que previsíveis. Pese embora esta evidência, a Gaffe não compreende como se consegue chegar a este discreto e altamente pudico paradeiro usando a palavra nus!     

 

Seja como for, gente marota será sempre bem acolhida, aplaudida, abraçada e convidada para jantar. Esta rapariga reconhece que é uma alegria perceber que o bom-gosto nunca arredou o pé – e o rabo – deste recanto recatado e, para não desiludir, a Gaffe decide oferece uma nova imagem ao motor que tanta procura dirige a este vestidíssimo lugar à beira mooning plantado – logo ali, mais à frente.  

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Gavetas:

A Gaffe peticionária

rabiscado pela Gaffe, em 25.03.19

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Não faço ideia se Adolfo Mesquita Nunes é agora capaz de travar a planeada construção da última barragem a ser erguida em toda a Europa, que já há algum tempo desistiu destas traiçoeiras produtoras de energia renovável que se descobrem insustentáveis, pouco inteligentes e pouco eficientes, com a agravante de se tornarem desastrosas em termos ambientais e calamitosas para o património natural, cultural e humano.

 

A EDP e o governo querem construir no Tâmega mais uma barragem, a de Fridão.

 

Inútil, a não ser que se queira - também -, arrasar Amarante, pois que o mostrengo pousará o rabo sobre uma falha sísmica que, se irritada, dará dez minutinhos para que a cidade toda inteira fuja, antes de ser afogada por uma onda gigante.

   

A 18 de Abril será riscado o futuro do rio. Ou é arruinado, ou continua a correr.

Antes de ser demasiado tarde, faça o favor de não morrer mais uma vez.

 

eunaoassino.com

 

Actualização (16.04.2019) - a barragem não avança. Obrigada. 

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A Gaffe murada

rabiscado pela Gaffe, em 24.03.19

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O trágico é aplaudirmos os que prometem construir muros que nos protegerão do invasor, sem percebermos que o inimigo está cá dentro. 

 

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A Gaffe bacteriologicamente impura

rabiscado pela Gaffe, em 22.03.19

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A Gaffe nada entende de desporto. Retém apenas que é uma actividade que permite a visualização de traços distintivos e muito interessantes dos atletas e - embora digam que faz suar imenso -, que jamais se tornará perda de tempo observar Olímpia, Ολυμπία para os amigos, em todo o seu esplendor.

 

Sublinhado o facto, é de esperar que esta rapariga distinga os jogadores de futebol - por exemplo -, apenas pelas pernas e pelos rabos, e mesmo assim quando pertencem a equipas diferentes e em consequência estão a usar outfits desiguais enquanto correm e cospem no relvado.

 

É evidente que a Gaffe jamais consentiria que se aproximassem de si os amorosos grunhos que aos balcões das tascas e tabernas discutem durante horas intermináveis o ocorrido dentro do relvado e a erva dentro do ocorrido. As televisões encarregam-se desse assunto como uma dedicação, insistência e profundidade avassaladoras e, valha a verdade - honra lhes seja feita -, pagam a estes incansáveis palradores de balcão de bordel as opiniões que regam com tintol, navalha e palito ao canto da boca cheia de pastelinho de bacalhau.     

 

Convém neste momento referir que a Gaffe provavelmente irá cometer lapsos por todos os cantos, foras de jogo e penalties. Não adianta corrigir-lhos. A Gaffe está perfeitamente feliz e em paz com o mundo dos erros que comete nesta área - para além de ser esse o lado para onde dorme melhor.

    

A Gaffe é informada que um jogador de futebol de origem brasileira, mas naturalizado português, foi convidado a integrar a selecção nacional.

 

Um senhor chamado Rui Santos, debruçado ao balcão de um qualquer canal de televisão, insurge-se e borrifa e apita. O homem não devia ter sido convocado por não ser bacteriologicamente puro.  

De origem brasileira, o jogador – a Gaffe não quer saber o nome, evitem maçadas -, provavelmente tem nos intestinos bactérias a sambar que não coordenam com as fadistas.

 

A Gaffe não sabia quem era o excêntrico biólogo e admite que desconhecia que a ciência bebia shots de cachaça e vinho do Porto como quem come pipocas no cinema, mas a curiosidade apertou-lhe a lamela.

 

Foi ver, estúpida que é.

 

Pronto. Já viu e até ouviu um bocadinho.

Estúpida que é!

 

Não pensou esta rapariga tonta que tudo se relacionava com o ambiente. As bactérias que pululam as entranhas do pobre jogador foram contaminadas pela atmosfera corrompida do Brasil ou, quiçá, violadas pelo único presidente da República brasileira que ainda não foi preso - não se lhe ocorre agora o nome, vá lá a gente saber porquê!

 

Rui Santos é acérrimo defensor da pureza ambiental, interna ou externa, e é ao lado de Manuela Ferreira Leite que repreende a cachopada por tamanha irresponsabilidade: largam os gases irritantes da defesa ambiental e logo a seguir sujeitam as pessoas a chutos bacteriologicamente contaminados.

 

Felizmente a Gaffe terá Adolfo Mesquita Nunes - vereador na Câmara Municipal da Covilhã, ex-vice-presidente da Cristas e ainda coordenador do programa eleitoral do partido desta querida que já não poderá contar com ele para disputar a liderança do barzinho -, no Conselho de Administração da petrolífera Galp Energia, que será outra. Naturalmente.

 

Paula Amorim vai ver como elas mordem. As bactérias. Essas putas - puras, perdão.

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A Gaffe muito atenta

rabiscado pela Gaffe, em 20.03.19

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Insistem macios que a vida acontece. Cabeça a acenar um sim quase pio, olhos comovidos e coração despido, repetem que a vida acontece. A todo o momento, a vida acontece.

 

Acredita-se.

A vida acontece.

Seja.

 

Corremos demasiado depressa pela vida e a vida exige paciência.

A tragédia não é desacreditarmos que a vida possa acontecer a qualquer momento.

Trágico é perdermos demasiadas vezes o milésimo de instante em que a vida surge.

E esta banalidade são as outras letras. 

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