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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe dos génios

rabiscado pela Gaffe, em 18.01.18

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Às vezes, a vida parece uma pulseira. Uma fiada de miúdas contas que se prendem ao pulso com um imperceptível estalido do fecho minúsculo. Nada mais do que isto. Tudo é pequeno, simples, capaz de se explicar como uma conta de nada. Num dia morremos, no seguinte acordamos sem morte por perto. Num dia a nossa espantosa incompreensão adquire grandezas incomensuráveis, no dia a seguir encontramo-nos na frente das razões diminutas que clarificam e transformam em planície todas as nossas inventadas montanhas.

Apercebemo-nos da luminosidade invisível das coisas pequenas, compreendemos que no mais breve momento, no mais ínfimo gesto, ou na mais despercebida queda de uma pétala, o elo que nos liga ao entendimento do inexplicável está preso a nós que não o vemos. Vedamos tantas vezes o acesso à claridade do banal, acreditamos tanto que nos destinaram a olhar apenas os palácios e que somente o que é maior é importante, que perdemos ou negamos a capacidade de entender que o Tudo tem o centro gerador na ausência de matéria, no Nada que existe em cada passo dado, e que esta ligação que nos escapa, produz a tranquilidade, a pacífica ordem do entendimento e a claridade oriunda do que nunca deixou de nos pertencer e que, embora cegos, nos faz andar pelos trilhos estreitos que escolhemos.

 

Estas minhas últimas semanas foram escuras, incompreensíveis, quase doentes. Corri e parei em todo o lado, com pedras de desentendimento pousadas nos olhos para evitar as lágrimas. Foram dias, uns atrás dos outros, em que tentei escapar aos muros que na minha frente, grandes, ameaçavam crescer de forma bruta. Tentei enganar-me, dissertando de modo patético, certamente hipócrita, sobre assuntos que nunca me foram importantes - sempre me foi indiferente a compra e venda, exploração e abuso, de crianças em blogs ou em rubricas televisivas -, tentei desviar os leitos dos rios, usando os diques da indignação e da revolta contra assédios, mesmo suspeitando dos que estão minados pela mesquinhez do despique e esbracejei com A Mística de Putin de Anna Arutunyan, em discussões acaloradas à lareira.

 

Fui quase tudo, por não entender nada.

 

Ontem à noite as minhas tão elaboradas artimanhas, desabaram. Inesperadamente.

A vida, criatura ínvia, traidora e pervertida, mas capaz de benéficas e benévolas entregas, fez com que uma paragem breve e de maior sossêgo se tornasse o toque da banalidade que faltava para que eu chorasse de emoção e de entendimento.

 

Vi - e é imprescindível que vejam -, preparada para encetar batalhas e defender bandeiras que não me pertencem ou que nunca me importaram -, um documentário sobre o extraordinário pianista David Helfgott.

 

Conhecia-lhe o som, um dos melhores do planeta, mas desconhecia o homem.

 

Australiano, com pais polacos, foge aos dezassete anos para aprender piano em Londres. Aos vinte e sete tem um esgotamento nervoso e é internado, em asilo psiquiátrico, durante onze anos. Durante onze anos Helfgott não tocou e não contou. É resgatado por Gillian, que pede em casamento no dia a seguir ao primeiro encontro, e torna-se um dos mais inacreditáveis e geniais interpretes de todos os tempos, capaz com uma facilidade espantosa, e sempre sem pauta, de encarnar o som de, por exemplo, Rachmaninoff, tão limitativo e quase impossível a pianistas mais débeis, menos hábeis e sobretudo menos longos, embora igualmente geniais.

 

Não sou psiquiatra. Acompanho com modéstia a perplexidade dos vários que o observaram que não arriscam qualquer diagnóstico - Asperger? -, tendo em conta o percurso de Helfgott e a sua queda em asilo, mas sei que não me é, de forma alguma, estranho o comportamento deste génio capaz de gerir música com a ordem, a organização, o pensamento matemático, o rigor, a coesão e a concentração que ela exige, e que longe do piano é - usando as normativas em vigor - caótico, sem o mínimo controlo das emoções, sem a percepção do espaço alheio, sem a menor capacidade de elaborar jogos corteses, sem réstia de entendimento de regras sociais estipuladas, sem nenhum conceito sólido relativo a elementos básicos e quotidianos que o confrontam - fala em dinheiro, apenas porque se apercebe que é importante para os outros -, sem atribuir a mínima importância às fórmulas que regem o comum, sem nenhum conceito - ou preconceito - capaz de o tornar vaga pertença do mundo que o rodeia.

David Helfgott é irresponsável, terno, doce, tímido, brando, afável, empático, egoísta como uma criança, gosta de chá e de banhos, de roubar o que lhe agrada - só porque encontrou ali e gostou tanto -, de beijar maestros e de afagar as mãos que o aplaudem, de descer do palco a sorrir e pronto a estender os braços, de abraçar a orquestra inteira antes do início, de a abraçar no fim, de cantarolar concertos e de interpelar desconhecidos apenas para os estreitar e afirmar que o melhor está para vir, que basta ter confiança.

 

David Helfgott talvez seja só inexplicável quando nos sagra ao piano.

 

Desabei em lágrimas. Imbecil que sou.

 

As contas da minha banalidade quotidiana tocaram-se e fecharam a pulseira em redor do meu pulso. O meu entendimento foi desperto e apercebi-me de súbito do extraordinário ser que eu conheço e que causou as minhas últimas semanas de angústia e medo já ultrapassados.

Oposto a David Helfgott na entrega sem limites a tudo o que se move, este meu rapaz é hirto, mau, gelado, socialmente isolado, insuportável, barricado, associal, distante e incapaz de tocar ou ser tocado, mudo, intransigente, implacável, inflexível, medonho quando irado, nunca terno, mas genial, inexplicavelmente genial, numa só batalha igualmente capaz de nos sagrar a vida.

Nunca abraçou ninguém e nunca disse que o melhor está para vir - não tem confiança -, mas percebi, na irrisória banalidade deste meu tempo de sossêgo, que o melhor chega sempre que ele chega.

 

A vida é tão pequena e simples como os génios.                                                         

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A Gaffe dominatrix

rabiscado pela Gaffe, em 16.01.18

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A Gaffe foi espreitar a novíssima coqueluche da SIC e ficou estarrecida com a celeuma que o programa causou, arrepiando a UNICEF, as CPCJ, as Comissões de Trabalhadores, a Ordem dos Psicólogos, e praticamente o facebook inteiro - com excepção de uma ou outra dominatrix.

Congratula-se no entanto ao saber que foi aplicada a tradicional parolice portuguesa, justificando a existência desta coisa com o facto de se verificar que é um formato adoptado por quinze países ... no estrangeiro.  

 

A Gaffe admite que as únicas crianças que suporta têm mais de dezoito anos e usam barba, não a incomodando que chorem, façam birra e chamem pela mamã nos momentos de maior aflição, pois que fornecem as coordenadas para devolução. Talvez por isso não possa cavalgar a onda de protesto que se ergueu na Nazaré digital. No entanto, faz notar que SuperNanny plagia com um desplante inaudito um adorável e utilíssimo programa onde César Millan transforma cães irritantes, desobedientes e pessimamente educados, em exemplos de civilidade e de civismo, usando pequenos truques, pequenas regras e pequenas trelas, treinando muito, recompensando imenso o comportamento assertivo dos bichinhos e fornecendo aos donos as aptidões necessárias a uma urbana supervisão do animalzinho e a um bom e são convívio com o próximo.

 

Ninguém atira Cesar Millan às feras, mesmo depois de um dos seus maravilhosos resultados ter atacado e assassinado um porco domesticado!

 

É de sublinhar também que a senhora que treina crianças no programa da SIC, refere que não ali está como psicóloga. Uma informação inútil, por tão evidente. É visível que a entertainer Teresa Paula Marques está ali no papel de dominatrix de um filme suspeito - e que sensual interpretação! nada sexualmente desviante, mas muito convincente -, ou, em alternativa, a provar que os exorcistas não estão de todo ultrapassados e que os serviços que prestam seriam de utilidade extrema, ou de extrema-unção, perante o aparecimento silencioso, a um canto de um quarto, de um espectro vestido de negro, com um ar de secretária perversa num filme manhoso, de braços cruzados e sobrancelha reprovadora erguida, acompanhado por um séquito de demónios de microfone em riste, holofote rígido e operador de câmera de horrores que regista os transes de uma cachopa possuída por Belzebu. 

 

Num tempo que já lá vai - ou não tão perdido assim - era uso e costume corrigir o comportamento anormal dos petizes com a ameaça da polícia que ali vem e prende, com um rapto perpetrado por ciganos, ou mesmo com a certeza da ausência do Pai Natal benévolo e bonacheirão - ligeiramente pedófilo -, que se transformava em monstro maldoso e maldito escondido debaixo da cama das nossas infâncias, pronto a saltar-nos em cima mal o sono dominasse - quando crescemos, esta hipótese é encarada de modo distinto, consoante a quadra que vivemos, o sono que temos, a forma física do monstro em causa e o espírito que nos invade em diferentes alturas.

 

É de lamentar o abandono destes estratagemas, usados no aconchego do lar, sem inglês ver, tendo em consideração os belos resultados que se obtinham e a consciência da proficuidade da repetição capaz de resultar em casos absolutamente diversos e em lares absolutamente díspares, e que Teresa Paula Marques substitui por uma cambada de técnicos de som, de luz, de câmera, de acção, e por umas mimosas estratégias colados no frigorífico por uma criança insuportável, pese embora a convicção - que se diria entranhada - da beleza e da tranquilidade dos resultados que são sempre conquistados seja em que cenário for, seja em que circunstâncias for, seja com quem for, seja em que fragilidade ou disfunção familiar tal aconteça.

 

Se caso, depois do treino, a criança voltar morder o porco, a culpa é do Millan. Se a criança não morder o porco, então o adestramento operado por Teresa Paula Marques foi um sucesso e é possível nesse caso, sem arreliar a UNICEF e apoquentar as CPCJ, escancarar as portas todas, todas as pernas, todos os braços, todas as janelas e todas as frinchas, destelhar a casa e destampar os tachos, mostrando ao mundo em blog os laços cor-de-rosa da perfeição rentável.

 

A Gaffe apercebe-se que o conceito de privacidade - e de intimidade - sofre mutações significativas. Se a velha Roma desaguou na Idade Média foi também porque o público se tornou privado, e o privado foi encarado em público. Sobrevoa-se, agora digitalmente, a privacidade das gentes, paira-se sobre a superfície da intimidade dos outros, com breves e leves e convencidas asas que se abrem e fecham num direito adquirido que ignora a fragilidade quase doente – doentia? -, de uma nova espécie de ilusório enclausurar, encerrar, proteger o que é privado, que paradoxalmente divulga - em post ou em formatos vários e se possível rentáveis -, um conceito alternativo de tragédia e de comédia, de sucesso e de insucesso, de fracasso ou de vitória, de decência ou desvergonha, que irmana e igualiza os responsáveis pelas criaturas dignas de figurar na capa do catálogo de Deus e pelas outras que carecem de exorcismos.

 

A privacidade torna-se apenas um botão num blog que o torna inacessível a estranhos, o clicar no facebook destinando-o em exclusivo a amigos, o Instagram que escolhe o ângulo onde a língua não tem aftas, o nude que é enviado apenas aos protagonistas do fim-de-semana passado. A intimidade transforma-se numa película transparente que se rompe apenas quando alguém morde o porco de Millan.

O direito ao olhar público e do público sobre este novo conceito de interior individual, íntimo e particular, torna-se direito adquirido, instintivo, motivador e empolgante, capaz de facilitar naqueles que o exercem o surgimento das latentes capacidades de julgar - condenar ou ilibar -, o que é voluntariamente revelado ou conspurcado e, em simultâneo, favorecer a divulgação de um resumo do que deveria ser calado na vida destes novos juízes, já que, como nos diz um amigo tonto, a nossa intimidade é a consolidação da dos outros.

 

A Gaffe lamenta o abandono do cigano raptor, do polícia psicopata, ou do educativo Pai Natal que castiga - eram imagens que nos assombravam até à morte, contrariamente as que são produzidas no programa, que não deixam rasto, nem trilho, nem marca, não é? -, sobretudo quando os vê substituídos por uma dominatrix de infâncias tresloucadas. 

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A Gaffe espiralada

rabiscado pela Gaffe, em 11.01.18

TimesUpLogo_Large.pngRita, querida, a Gaffe consegue estar consigo.

Tal como a menina, a Gaffe considera um escândalo que no elenco das apresentadoras do Festival da Eurovisão não surja uma mulher negra. Uma indecência que poderia facilmente ser evitada - provando-se em simultâneo que este país é para todos -  se Filomena Cautela fosse substituída pela Carmen, a de Bizet, Sílvia Alberto por um anão, e a outra senhora que se lhe varre o nome, pela Ministra da Justiça que, como todos sabemos, tem um poder de comunicação deveras invejável. De rejeitar a Oprah, pois que o desconhecimento da Lei, não a invalida, e esta mulher, pese embora a cor, várias vezes se espapaçou no pescoço escroque de Weinstein. O facto de não ter tido oportunidade de espreitar o bicho no escurinho podre do seu cinema privado e nojento, não a iliba - Não sabia? Soubesse. Catarina Furtado sobrevive a tudo, como fica provado depois de a vermos enfiada num vestido Nuno Baltazar - preto, comme il faut -, dois ou três números abaixo do aconselhável e com as mamocas encaixadas nas narinas.

 

É evidente que, apesar de mais composto e ligeiramente mais abrangente, o palco ficaria ainda com muita coisa de fora - de realçar as mamocas referidas e a piloca do James Franco -, mas pelo menos era capaz de não ofender o feminino, não boicotar tão descaradamente a diversidade planetária, e recordar que estamos todas ali, de pin ao peito, também a lamentar - porque somos bondosas - as pilocas dos pobrezinhos que, como a de James Franco, não conseguem organizar um festival privado sem o recurso ao mumificado deneuviano e diluviano - com uma pitadinha breve de marquês de Sade – conceito de importunar.

 

É contudo agradável perceber-se que, esta espiral hollywoodesca de revelações catastróficas, derrubou o mito que encharcava a mulher bonita de estupidez, considerando que beleza é antónimo de inteligência, que uma bela mulher nunca sabe para onde vai e para o que vai. Ficou claro desta vez que a beleza sabe sempre o que faz, o que quer e onde se mete, fornecendo-se apenas às matronas e aos mostrengos a ingenuidade e a inocência de quem, com angelical imbecilidade, apanha a pila do predador dando conta disso só depois.

 

A Gaffe suspeita que há extremos que não se tocam. Um segmento de recta não verga, não se torna pulseira, a não ser que a forcemos, que a dobremos, que a contrariemos, que a obriguemos, e mesmo nestes casos corre o risco de quebrar. Confundir, ou fazer colidir, sedução com assédio e liberdade sexual com o direito que a pila de James Franco tem de importunar - embora neste caso específico, o assunto mereça reavaliação -, é o mesmo que considerar luminosamente esclarecida, humanitariamente salvaguardada a diversidade feminina, espetando uma negra a perdigotar twelve points num festival de cançonetas onde é comum mamocas aos pinchos e rabiosques a pedi-las.

 

Mas é giro, Rita, mas é giro.

 

Por isso a Gaffe consegue estar consigo, pese embora o tenebroso e sombrio pecado que esta rapariga acarreta e que a faz desejar ardentemente que Deus e a menina desconheçam.

Deus que ignore o quanto esta rapariga gosta de homens, pois, se Deus descobre esta sua faceta obsessiva, terá o mesmo destino da primeira violadora conhecida e, como toda a gente de boas famílias sabe, não foi dada a possibilidade a Eva de se justificar com os preparos de Adão, que andava a pedi-las, de pila enroscada nas macieiras. Foi logo ali expulsa do Antero - de Quental, ou do quintal, para o caso tanto faz -, salomonicamente acompanhada pelo rapagão, porque nestes casos nunca se sabe quem começa, e porque na altura foi difícil encontrar a isenção e a independência de Joana Marques Vidal, logo ali a seguir ao arquivamento do caso dos submarinos e do processo Tecnoforma.

 

Semelhante à de Deus, a ignorância da Rita em relação à esta sombra da Gaffe, é abençoada pois permitirá também que a menina não se mate, cavalgando e subindo ao cume do seu ego e atirando-se depois para o vazio do que diz.      

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A Gaffe com um sonho de menino

rabiscado pela Gaffe, em 28.11.17

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Há homens que nos apetece muito enfiar na mala de um carro e deixar numa esquina de um sítio qualquer. Num lugar pardo, abrir a porta e com toda a força dar-lhe um empurrão. Depois acelerar, fugir, deixá-los ali ao frio e à fome.

Encontrá-los meses depois desfeitos em cançonetas, com um passarito ao lado, aos pulinhos, debicando as mais doces e as mais inúteis, envenenado de uma forma lenta, necrófago minúsculo, paradoxo de penas lambuzadas.

 

Há homens assim e passaritos também.

 

Surge um deles embrulhado na oferta de vinte mil euros às vítimas dos incêndios se em contrapartida lhe forem retiradas as acusações de plágio que lhe pesam no repertório, evitando desta forma o julgamento. Questionado acerca da insidiosa, enviesada e sacana proposta, declara que a solidariedade sempre foi sua marca distintiva, que sempre fez o bem quando em causa estavam os mais necessitados.

 

- Fiz e farei-o de novo - afirma com garra.

 

Um homem que fala assim, não plagia.

 

Ilustração - Peter de Sève

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A Gaffe patroa

rabiscado pela Gaffe, em 16.11.17

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Felizmente que neste planeta a estorricar de gente parola e pobre, ainda sopra a brisa do irrepreensível bom gosto e da mais refinada sofisticação.

A Gaffe exulta ao saber que por entre a imundície criada pela falta dos candelabros da educação e de berço das pessoas pobres, cintila o mais refinado dos diamantes brancos, capaz de encolher de humilhação o agora vendido por Isabel dos Santos.
A Gaffe congratula-se ao reconhecer que ao lado de Gustavo Santos - o guru das pessoas sem posses -, a figura que adquire uma dimensão de superior importância é Paula Bobone - a Anna Piaggi que o país merece.

A Gaffe admite que sempre viu Bonone como uma espécie de tola.

Enganou-se.

A Gaffe lê o que consta do anúncio da sua obra de regresso:

 

Com o passar do tempo, e até aos dias de hoje, tudo mudou e sobrevieram outras realidades. O pessoal doméstico passou a apresentar contornos totalmente diferentes e a sua ligação às casas passou a ser uma profissão.

Hoje, cabe à dona de casa imprimir o toque do seu estilo, cuja elegância deve ser marcante.

"Domesticália" é a arte de receber, de sentar e de servir. Uma narrativa interessante sobre o funcionamento da profissão dos empregados domésticos, que certamente irá valorizar e contribuir para o respeito destes profissionais.

 

Não é fabuloso?

Há gente que devia ser canonizada.

A Gaffe só espera que as imbecis que posaram para a fotografia da capa, não se atrevam a dar um empurrãozito no balde para onde a Bobone trepa mesmo quando não tem uma corda ao pescoço. Há gente pobre - pessoal doméstico, na sua maioria -, que não sabe ler e, como é evidente, vai ignorar as páginas da bíblia.

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A Gaffe aos papéis

rabiscado pela Gaffe, em 09.11.17

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 - Estavam à espera de quê?! Que eu o tivesse enfiado no BES?

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A Gaffe de Outubro

rabiscado pela Gaffe, em 30.10.17

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A Gaffe decidiu escolher as figuras que mais se destacaram no mês que agora finda, procurando dar um cunho levemente ibérico à selecção encontrada, pois que de união este Outubro foi profícuo.

 

Escolhe como primeira anotação, e como não podia deixar de ser, o senhor engenheiro, não pelas razões óbvias, mais que abanadas e mais que esfregadas nas páginas do quotidiano de toda a população do planeta, mas pelo facto da Ordem dos Engenheiros ter deixado pendente a informação de não inscrição do senhor engenheiro nas suas vetustas listas. A Ordem dos Engenheiros durante trinta anos desconheceu - ou se conheceu, decidiu que era desagradável incomodar o senhor engenheiro com manigâncias destas -, que o senhor engenheiro não era senhor engenheiro e que o senhor engenheiro tinha passado pelos intervalos da Ordem sem que a Ordem do lapso desse notícia - pois que a não tinha! -, acrescentando porventura  que o senhor engenheiro não merecia afronta tamanha.

A Ordem dos Engenheiros é exemplar na luta contra o preconceito, há que sublinhar. A Ordem dos Engenheiros é indiferente a títulos académicos e preza apenas, isso sim, a personalidade, o carácter, a lisura, a honestidade, o sentido de ética e o respeito pela verdade de quem não tendo uma licenciatura, vive como se a tivesse, assinado mesmo na tenra juventude projectos abomináveis na terrinha.

A Ordem dos Engenheiros considerou durante trinta anos que o senhor engenheiro era senhor engenheiro por usocapião. Convinha, no entanto, inquirir as outras Ordens, pois que pendentes podem estar outras situações de igual amabilidade das Instituições para com os campeões.

 

Esta mimosa advertência leva directamente à escolha do segundo rosto do mês e, mais uma vez, não pelos motivos óbvios - o homem não tem culpa de ser contemporâneo de João Evangelista -, mas pela segunda assinatura no vómito do acórdão.

A senhora juíza Maria Luísa Arantes é uma maravilhosa ilustração daquilo a que os britânicos chamam bitchness. Depreendendo-se que a senhora juíza leu com a atenção exigida – não podia ter sido de outra forma, pois que a senhora juíza está inscrita na Ordem -, é fácil concluir que a senhora juíza coadjuva e subscreve as ilações e as sábias citações do companheiro de Ordem. É portanto uma mulher que também considera que a Lei de 1886 deve ser invocada para suspender a pena a um par de bandalhos que agrediram uma mulher no aconchego do lar, traído ou não.

É irónico ter sido uma mulher a comprovar que quando estão em causa os direitos da mulher, um dos seus maiores detractores, uma das suas mais ínvias e esconsas ameaças, é o facto de entre elas estar o inimigo. Maria Luísa Arantes é tanto ou mais responsável pela suspensão de pena a dois energúmenos que espancaram uma mulher como o senhor de 1886. Convém não esquecer que a violência doméstica exercida sobre uma mulher foi justificada por uma mulher que - temos todos a certeza - leu atentamente o acórdão criminoso, pois que de forma contrária a Ordem não permitiria que se mantivesse magistrada.

A justiça portuguesa não é de modo nenhum um dos pilares da democracia portuguesa, enquanto, no povo que se queixa, existir a angústia de saber quem é o juiz do seu caso, como se dependesse dos humores, das crenças, dos valores morais, dos preconceitos, das manias, das frustrações, das inclinações, da flatulência e do desgosto de cada um dos senhores juízes a sentença proferida. A rua não pode coagir ou forçar a Ordem instalada a alterar comportamentos dos senhores juízes que reivindicam tempo para repensar atitudes. O tempo deles, dos inscritos na Ordem, é tremendamente diferente do tempo dos que se queixaram e entretanto são os afectos e os desafectos que ditam sentenças.

 

Os afectos movem presidentes. A Gaffe escolhe o presidente dos afectos como terceira figura do seu repertório e admite que abraços e beijos conduzem a uma dúvida daninha que vai roendo a imagem que esta rapariga esperta guarda do senhor presidente.

O povo que o senhor presidente beija e abraça e diz defender, responde positivamente à carência de popularidade do senhor presidente, mas não é um povo carente. É um povo desesperado, espoliado, só, isolado, queimado, na miséria, sem apoio e com uma estrutura administrativa cravejada de burocracia - um povo que vê, por exemplo, a ajuda à reconstrução da sua casa travada por falta de licenciamento daquilo que agora não existe, mesmo tendo sido o IMI ao longo de trinta anos cobrado religiosamente -, mas que encontra dentro da desgraça o velhíssimo espírito português - ou alma lusa, como vos aprouver e seja lá o que isso for -, com força para plantar todos os pinhais de caravelas de coragem.

O senhor presidente dos afectos com tanto afecto demonstrado corre o risco de escapar ao escrutínio político a que, também ele, deve estar sujeito e acabar beijado pela mulher-aranha. A mesma mulher que andou a fechar a boca à escabrosa falta de empatia e de sensibilidade de um governo a queixar-se de falta de férias com uma ministra a arder em lume brando e um anafado desenvencilhem-se.

 

É evidente que desenvencilhar é o que terá de fazer o catalão com um penteado que o faz parecer um estranho cogumelo - independentista é claro. Madrid está mais do que habituada a impor monarquias a um povo inteiro e não se comove agora com uma república imposta à sovela. O charme de Filipe VI não funciona neste caso como funcionou a intrigante inteligência do papá em caso anterior. Sem rei, mas com um roqueiro, a república da Catalunha durará enquanto a ambição manipuladora de um oportunista for rainha e existir um inepto, intransigente e ultrapassado primeiro-ministro com tiques de parvo que usam, num caso e no outro, nos prós e nos contra, a voz de um povo que genuinamente inocente acredita que o defendem e que se encerrará o jugo de Madrid, ou a insolência catalã, com a rapidez com que se fecham este mês e este post que duram há tanto tempo.

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A Gaffe sentencia

rabiscado pela Gaffe, em 25.10.17

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O preconceito, sendo a mais básica forma de raciocínio, tem, não raro, como afluentes foleiros, aforismos, tantas vezes ditados populares, frases feitas e expressões várias que trazem dentro a maleita mais ou menos disfarçada.

 

Embora do preconceito sofrido pelo feminino reze a história - sobretudo a bíblica - não é agradável, nem muito esperto, desfraldar revoltas, rasgar vestes ou criar plataformas digitais - onde no primeiro intervalo da indignação se vendem cosméticos e se apela ao consumo de valor acrescentado. É francamente tonto reagir queimando em praça pública - ou seja, no facebook - o infractor que revela ao mundo a sua imbecilidade. Há preconceitos que são uns queridos e apoiam a mulher como nunca a falta deles o fez. Basta que os saibamos manipular e usar conforme as nossas conveniências.

 

A Gaffe, por exemplo, está habituadíssima a ser, como ruiva que é, classificada como predadora sexual, exigente e insaciável. Um mimo que se reporta ao conluio com Satanás, pacto assinado durante os picos da Idade Média e que actualmente tem uma variante - a assanhada.

É evidente que não é simpático ter a maçada de sabermos que a nossa cabeleira ruiva tem conotações sexuais, mas, por outro lado, o preconceito que a despenteia é ao mesmo tempo um repelente de pilas pindéricas. Nenhum homenzinho se atreve a assediar uma ruiva. Sabe que sai da liça completamente esfarrapado, humilhado, com o enxoval em pantanas e a chamar pela mãe. Neste caso, o preconceito é útil e acaba mesmo por nos assegurar uns valentes machos alpha que, desde que se mantenham calados, passam incólumes.

 

Convém não esquecer que o preconceito é na esmagadora maioria das vezes manipulável.

 

Uma rapariga esperta sabe que sendo o preconceito um raciocínio esmagado, espalmado e plano, tem sempre um vértice, uma pontinha, um biquinho, uma arestazinha, capaz de nos entregar a possibilidade de infringir ao detentor do dito uns cortes parecidos com os do papel. Raras são as situações que cortam tanto um menino como aquelas em que o ouvimos declarar, por exemplo, que a cozinha é o lugar das mulheres, ou que a mulher quer-se como a sardinha – este é francamente uma porcaria! Imaginamo-lo de imediato - com alguma comiseração, é certo -, a cuspir os dentes num prato vazio e a tentar mastigar os que vão caindo, com uma espinha enfiada no rabo, só para mostrar que é capaz de grande ousadias e de brutas aventuras todas masculinas. Apetece imenso pedir ao petiz que vá num instantinho à pesca. Sabemos que só assim surgirão hipóteses do pobre ter um encontro amoroso, com promessa de envolvimento sexual. Terá de se apressar - pois que é dito que se vai proibir em breve a apanha das suas eventuais namoradas -, e nessa pressa, uma rapariga vai andando livre de aromas são-joaninos.

 

É evidente que nem todos os preconceitos são fáceis de manobrar. Existem os que se disfarçam de Velhos Testamentos, de sentenças bíblicas ou mesmo de leis anquilosadas que se aproximam imenso da vida dos que as proclamam hoje. São preconceitos que simulam o raciocínio, mas que se transformam em crime.

 

Os preconceitos dos pequenos homens dão imensa vontade de citar as mulheres do Douro e com elas murmurar à moda antiga que homem pequenino - ou velhaco, ou assassino.

 

Imagem - Julio Ruelas -1907

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A Gaffe e uma mulher cumpridora

rabiscado pela Gaffe, em 19.10.17

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Devo dizer que sou uma pessoa de fé, esperarei sempre que chova e esperarei sempre que a chuva nos minimize alguns destes danos. Como é evidente, quanto mais depressa vier, mais minimiza, quanto mais tarde, menos minimiza. Se não vier de todo, não perderei a minha fé mas teremos obviamente de actuar em conformidade.

 

  Assunção Cristasministra do Ambiente, do Mar, da Agricultura e do Ordenamento do Território - 2012

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A Gaffe da Ministra

rabiscado pela Gaffe, em 17.10.17

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Os preparativos do baptizado estavam aprontados e a madrinha rejubilava.

O padre da Freguesia, homem dos seus trinta e poucos anos, serrano, robusto e bonacheirão, recusou terminantemente a indigitação da felizarda.

A agora lavada em lágrimas desolada mulher não podia ser a bafejada, porque era divorciada

.- É impura - afirma inflexível o jovem padre.

 

Estamos em Outubro de 2017.

 

Estes absurdos civilizacionais, estas anomalias temporais, estas aberrações culturais, não se confinam a uma área restrita. Estão assustadoramente dispersos por todos os cantos e esquinas em vias de abandono de um país que levou à letra a expressão que lhe agradava e que o dizia um jardim à beira-mar plantado. O que não cabe nesta parola representação, ou se abandona, ou é paisagem. O resto vai-se transformando - mais rápido do que seria seguro e passível de controlar -, em parques temáticos, ocos quando a noite deixa por alguns instantes de se prolongar, visitáveis por multidões que exigem apenas um aglomerado brutal de prestadores de serviços, excluindo, por inúteis, o pensamento crítico, a racionalização do uso do espaço urbano, o uso cultural que dele é feito, as manifestações de inteligência interveniente e a proliferação da ideia abstracta. As cidades entram em gestão. São comandadas por empresários que gerem a urbe exclusivamente como destino turístico. Veneza ou Barcelona, Zadar ou Atenas, Porto ou Dubrovnik - entre outras tantas -, são asfixiadas por milhões de turistas que não se vão dizendo, por ser incomportável - e inconveniente referir em panfleto - os números astronómicos a encontrar no interior de cidades que os não aguentam, cidades grávidas de lixo, cidades que não estão pensadas para os albergar de modo orientado.

 

Como se um coração fosse arrancado a um corpo, forçado a mimar uma existência, bater só por bater, para inglês ver, por se entender que a um corpo inteiro, todo, basta um órgão só a latejar. O resto transforma-se em nada.

 

É neste abandono que há mulheres impuras e se fazem queimadas, de mulheres e de restolho.

É deste abandono que é feita a tragédia.

É neste abandono que arde a tragédia.

 

A necessidade de decapitar um indivíduo, culpabilizando-o pelos cenários dantescos que foram erguidos em fogo, agora - três incêndios por minuto - e há quatro meses, reflecte provavelmente o medo de nos sentirmos responsáveis, o ilibar da nossa consciência, a desculpabilização, a crença na nossa inocência, a convicção de estarmos unidos e de sermos piedosos e humanamente impolutos, capazes de aliar a nossa urbanidade imprescindivelmente turística, o nosso citadino movimento de ancas, à terra mais extrema, onde pasta a solidão azeda, onde uiva a noite mais cerrada, onde a lama não é cosmética e onde morrem velhos sem ninguém saber.

Acarreta ao mesmo tempo a possibilidade de, ao fustigarmos alguém no adro da Igreja, amedrontarmos os outros que, acreditamos, coadjuvaram o maldito. Basta chicotear um indivíduo na frente do povo, para que a multidão que assiste não repita o erro cometido pelo suposto infractor. As ditaduras acreditam neste pressuposto e às vezes nós, tão democratas, não nos importamos nada de o fazer.

 

Ficamos sossegados. Tranquiliza-nos exigir cabeças. Satisfaz-nos ver sacrificado alguém em prol do nosso apaziguamento. Podemos então fazer biscoitos e bolinhos de maçã para acompanhar o chá e acomodar a nossa cosmopolita indignação. 

 

É medonha esta espécie miúda de vingança tresloucada que continua a possibilitar que se exija apenas a culpabilização demissão de uma senhora que nos aparecer sempre como se estivesse em vias de expelir um cálculo renal - sai de quando em vez, quando ela fala -, para que, pelo menos, sintamos que foram punidos os responsáveis e os mortos assim homenageados, mesmo reconhecendo que o trágico resultou de um somatório de circunstâncias naturais impensáveis, extremas e incontroláveis, aliadas a outras velhas, velhíssimas, e sabidas causas, que se arrastaram, se alimentaram e se abençoaram durante décadas, aniquilando os modos de vida das gentes, desolando terras, povoando-as de indiferença, vergando-as a interesses financeiros esconsos ou inscritos em papel de gabinete, ignorando planos de desenvolvimento sustentável das florestas e de reestruturação florestal, e permitindo que a incompetência, a falta de inteligência, a vigarice, os submarinos, a trumpolinice, a privatização dos meios de combate a incêndios, a corrupção daninha, magra ou de grande vulto, o mastodonte da burocracia que atrasa escandalosamente a ajuda a qualquer vítima, a escabrosa manipulação dos planos municipais de ordenamento do território, a correria quase psicótica nos corredores das licenciaturas da Protecção Civil, os 230 milhões anuais arrecadados pelos sucessivos governos que tributam as exportações de celulose - e mais que não se diz, porque há vergonha, há lamento e há uma senhora outrora responsável pela agricultura, mar, ambiente e ordenamento do território, que decide apresentar uma moção de censura ao governo, tentando que se esqueça o que não fez e o que assinou - Lei do Eucalipto Livre -, e um primeiro-ministro a avisar que isto é assim - se tivessem abatido e se tivessem governado durante muito mais que dois anos e quatro meses de mais que certas inoperância, ineficácia e incompetência aliada a uma manifesta falta de tempo para acudir a este lixo acumulado durante décadas, tirar férias ou ir ao cabeleireiro. 

 

Entretanto, ainda há mulheres impuras nos buracos deste jardim à beira-mar plantado, premiado internacionalmente como depósito de turistas.

 

Ilustração - Eliza Ivanova

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A Gaffe de Laurent

rabiscado pela Gaffe, em 20.09.17

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Vi pela primeira vez Laurent Filipe num programa de talentos. Era um dos elementos do júri. Não me despertou interesse. Percebi que era músico, mas aquela espécie de pedantismo mesquinho e paternalismo cretino extinguiu qualquer vontade de conhecer as suas melodias.

Suponho o programazinho lhe deu visibilidade. Acontece por vezes neste tipo de concursos.

Esqueci-o. Esqueço depressa os falsos snobs.

Vi-o ontem.

A breve entrevista na RTP2 servia para publicitar o seu concerto.

Continua a não me provocar qualquer entusiasmo ou interesse. Permanece nele aquele tipo de afectação melada e enjoativa que adivinhei no primeiro encontro.

Apesar de tudo, a entrevista corria bem. Laurent Filipe convidada os espectadores a ouvi-lo. Nada que não se esperasse. De repente, como se metido à sovela, mimando uma ironia que soou demasiado falsete, Laurent Filipe esbardalha-se:

 

- Já me perguntaram se convidei a Madonna. Sim, convidei. Vamos ver se ela aceita – e, sem ter a veleidade de o transcrever com rigor, acaba – às tantas o público que vier ao meu concerto, vê a Madonna.

 

Laurent Filipe prefere ter um concerto seu, repleto, a babar a hipotética aparição de Madonna do que apenas seis cadeiras ocupadas com a música que faz. Acena - vestido com um allure de falso parisiense e mascarando a intenção com uma ironia que não convence -, com uma cenoura vedeta internacional que eventualmente poderá estar ao alcance dos olhos do maralhal parolo que lhe comprou os lugares que restavam, depois do músico ter convencido os amigos a marcar presença.

 

Esta macacada pacóvia atinge demasiados espaços do apelidado universo cultural português reduzindo-os - incluindo o público e os obreiros culturais que deles fazem parte - a uma amorfa cambada de cretinos parolos, sem critérios que não sejam os dominados pelo livrinho de autógrafos e pelo poster ranhoso colado a força de saliva na parede da mediocridade.

 

Prefiro Salvador Sobral e os seus gases.   

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A Gaffe de Anabela

rabiscado pela Gaffe, em 04.09.17

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Anabela Mota Ribeiro informa, com o seu habitual fastio de Greta Garbo dos chineses, que nesta edição da Feira do Livro do Porto, haverá pela primeira vez as Spoken Words.

A primeira Spoken Words dedicar-se-á à demanda de Saramago para uma melhor compreensão da sua obra.

 

Convém que os bichinhos ouçam com muita atenção, agradeçam e admirem, porque Anabela Mota Ribeiro teve a maçada de descer da estratosfera onde convive com o pensamento abstracto, com os mais complexos conceitos e com as mais eruditas vozes de peso cultural inominável, num tu-cá-tu-lá de capelinha, para comunicar aos gentios, aos terráqueos, aos pobrezinhos e aos mais desfavorecidos, que se realizarão as Spoken Words, pela primeira vez, na Feira do Livro do Porto, e que, pese embora o aborrecimento que lhe causa ter de avisar o populacho, a divulgadora generosamente permite que a ouçamos a fechar vogais num timbre onde o spleen espreita muito chique e com sotaque capaz de humilhar Sua Majestade inglesa.

 

Não sei o que são Spoken Words. Não são debates, pois que existe a palavra para os nomear; não são mesas-redondas, pois que a expressão está viva quando existe o círculo; não são conferências, visto assim se chamarem quando surgem e não são defesas de teses cultíssimas que tudo parece já mui doutorado.

 

Spoken Words provavelmente é apenas uma expressão pacóvia ouvida quando não se consegue disfarçar a parolice e se usa um estrangeirismo giro para substituir o que em português se entende como muito visto, já muito normal e sem nada de novo a esbardalhar.  

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A Gaffe trendy

rabiscado pela Gaffe, em 19.07.17

André Ventura

is the new black

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A Gaffe no Mali

rabiscado pela Gaffe, em 19.07.17

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É curioso verificar que o único filme que aqui sugeri, referenciando-o como de interesse significativo, tenha sido um da realizadora libanesa Nadine Labaki, e que, neste momento, encontre num realizador da Mauritânia uma idêntica importância.

 

Ao contrário do primeiro - E Agora, Onde Vamos? -,Timbuktu não permite sorrisos, embora, e de um modo estranho, acabe por nos confrontar com realidades similares que se confinam ao esmagamento de toda a liberdade por força de opressões que se ligam alegadamente aos deuses.

É curioso também como as duas abordagens a este facto podem ser ao mesmo tempo díspares e convergentes, acabando, as duas, por revelar como é ínvia a existência de formas opostas de se sentir a mesma divindade e como essa alternância pode significar destruição de uma destas visões.

 

Do realizador Abderrahmane Sissako, o filme é uma belíssima longa-metragem que se torna imperdoável não ver.

 

Tem Timbuktu, Património Mundial da UNESCO desde 1968, no Mali, como uma das personagens mais marcantes e é o deserto que constrói a coloração do filme, apenas rasgada pela terra ocre e queimada, saturada e tantas vezes luminosa, dos tecidos e dos adornos das mulheres.

 

Em 2012, a cidade é ocupada por um grupo islâmico fundamentalista liderado por Iyad Ag Ghaly.

 

Timbuktu é invadida por leis, por medos, por proibições, pela desumanidade que trespassa a vida de cada um dos seus habitantes, tragicamente, dolorosamente, comoventemente.

É nesta construção opaca e implacável de inibições e de desmandos, de opressão, de repressão, de crueldade insana e irracional, de desmantelamento da arte de sonhar, que se inclui a proibição da música, da dança, do riso, do canto e da visão dos corpos, dos rostos e das mãos. É nesta brutalidade que esfacela à força a vida de Timbuktu, que, por entre este massacre, se vai erguendo a extraordinária floração daquilo que foi interdito.

 

A mulher que estoura em canto enquanto é chicoteada por ser apanhada a cantar.

A outra que prefere a morte a amanhar o peixe com as mãos vestidas.

O jihadista que se transforma em pássaro, dançando às escondidas, porque foi bailarino.

O jogo de futebol que é jogado sem bola, ou com a bola que inventamos quando há esconderijos de sonho por demolir.

 

Ao lado, ou mesmo em cima de nós, uma banda sonora magnífica, dolorosa, desértica, ou então impulsiva, quente, colorida e feliz, tantas vezes interrompida, emudecida, pois que é proibida toda a melodia.

 

Timbuktu é sem sombra de dúvida - como poderia, se sol a pique invade aquele povo? - um filme fabuloso.

 

Acaba por nos fazer sentir gazelas. 

 

 

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A Gaffe editora

rabiscado pela Gaffe, em 17.07.17

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A Gaffe decide-se pela edição e torna-se detentora de uma revista cujo primeiro número aparece neste exacto momento e em primeiríssima mão.

 

A capa é em inglês apenas por duas razões:

 - A necessidade de a internacionalizar a muito curto prazo;

- O facto de ser parolo. Todos sabemos que neste recanto à beira-mar plantado o parolo vende que é um disparate - que o diga, por exemplo, Miguel Araújo que de acordo com Fátima Campos Ferreira passa a vida a cantar em inglês.

 

A Gaffe encontrou sérias dificuldades na escolha do tema de abertura a destacar na produção da capa. O ideal seria aproveitar um assunto disponível, fácil, logo ali à mão, capaz de criar controvérsia, originar discussões monumentais e todas imbecis nas redes sociais, com insultos execráveis logo ao lado de dissertações patéticas acerca do focado.  

 

Chegou a pensar na fotografia de Gentil Martins com uma pequena transcrição das suas opiniões, eivadas de preconceitos, acerca dos homossexuais - opiniões esbardalhadas em ambiente oficial e não no aconchego do lar em amena cavaqueira com um amigalhaço -, mas este querido e admirável cirurgião, que não tem lido muito a documentação oriunda da OMS - DSM e CID-10 é que nem cheiro -que lhe é entregue, já nem uma vedeta americana reconhece nos passeios por Lisboa. Pertence ao início da era pré-Madonna em que, como se sabe, a comunidade gay se confinava ao armário dos medicamentos e não saía muito, nem abundava nas Semanas de Moda e na Moda Lisboa.

Apesar de se poder tornar numa capa jeitosa, não renderia o ambicionado.

 

A verdade é que não é de todo imediato encontrar livre um nicho susceptível de ser aproveitado para gerar dividendos e nos pagar as férias na Grécia – Antiga o mais possível, que é na Antiguidade que há muita Mykonos à solta - e em simultâneo capaz de nos catapultar para o palanque das heroínas que empunham as bandeiras de causas esmagadas pelas opressões sociais e de nos entronizar como defensoras de determinados grupos ou específicas minorias. A revista CRISTINA açambarcou esta vertente, aproveitando dois homens que se beijam e duas mulheres nos mesmos preparos, para esbardalhar na capa como se fossem surpresas. É evidente que a Gaffe ficou sem hipóteses imediatas de ganhar uns valentes trocados e ser santificada ao mesmo tempo.

 

Pelo sim, pelo não, decide manter as âncoras no mesmo oceano e abordar o tema tão adverso a Gentil Martins, mas com uma pitada de suspense, que não fica mal, e uma ou duas insinuação de cariz mais intelectual que vão despertar a curiosidade aos eventuais compradores mais cerebrais. Depois, meus caros, o tema desta forma abordado e aproveitado é bem capaz de transformar a Gaffe em ícone das minorias e em simultâneo aumentar-lhe significativamente a conta bancária.

 

A revista não tem conteúdo. Não tem nada dentro. Só tem a capa. A Gaffe garante que esse o único ponto comum entre a GAFFE Magazine e a revista CRISTINA.  

 

As assinaturas estão ao vosso dispor.

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