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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe muitíssimo inconveniente

rabiscado pela Gaffe, em 14.03.18

Escape by Katia Chausheva.jpg

 

Não me retires do corpo o que é pecado.

Deixa-o religiosamente ficar.

Deixa-o beato.

 

Quero espoliar-me nua nos veludos cardinal, adivinhar incenso nos brancos das rendas já rasgadas, amarfanhar toalhas com bordados e gargalhar nas roxas faixas da Páscoa do teu corpo.

Quero amarrotar os panos da cinta do teu Cristo. Não ser pagã. Pecar como proscrita. Excomungada, nua, espoliada e bicho.

Quero báculos de prata e jóias raras, cálices de nádegas, hóstias de pele, pontas de dedos, paramentos.

Quero morder o corpo do Senhor, beber-lhe a baba e desfazer altares de missa em sol maior.

Quero pecar, esconjurada, renegada por santos sacrossantos e enredar batinas e ensarilhar os mantos, escaldar as preces dos bem-aventurados e depois nua, desfeita em cânticos, fazer jorrar na mesa a tua ceia.

 

Foto - Katia Chausheva

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Gavetas:

A Gaffe de Pessoa

rabiscado pela Gaffe, em 09.03.18

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Admito que uma das razões que me afasta irremediavelmente de um blog - já não menciono uma página do facebook, porque neste caso fico com rinite aguda e urticária - é a proficuidade com que sou bombardeada por saudações ao mês que se inicia, pela quantidade de santinhos que nos abençoam, pelas máximas atribuídas a gente morta - há imensas que são creditadas erradamente -, por passarinhos e gatinhos que pretendem motivar-nos e pelo sol poente encimado por uma qualquer patacoada relacionada com o mindfulness.

Desisto de imediato e viro a página.

 

Há no entanto uma pequena beliscadura que me deixa a sangrar de irritação nestas paisagens.

 

Como quem arranca um dente sem anestesia, há gente que estrafega uma frase alheia, isolando-a, torcendo-a e distorcendo-a de modo a que sirva os seus intentos. Normalmente bondosos. Se por estas bandas largas nos é fácil amortecer a dor, ou mesmo evitá-la, usando um clique milagroso, na vida, na real, não nos é permitido tal façanha. Somos de boas famílias e nadas em berço de oiro, portanto noblesse oblige.

 

É particularmente penoso ter de arriscar a minha saúde em nome da polidez e da civilidade com que é ouvido um amontoado de lugares comuns, de tolices hipócritas, de lantejoulas literárias coladas com saliva a pretensas boas intenções.

Nunca tive coragem para pulverizar conversetas deste teor e passo horrores a tentar entrar em piloto automático.

 

Esta deficiência arrasta consigo outras anomalias. A inveja, por exemplo.

 

Tenho imensa inveja da capacidade detida pela minha irmã de fazer explodir no meio de uma colecção de violinos, uma daquelas bombas que só deixam vivas as ervinhas - e os sapatos dos interlocutores para memória futura.

Morro de inveja quando no encadear de um discurso pio, doce, amoroso, terno, de bandeira branca desfraldada e empunhada pela senhora pia, doce, amorosa e terna, se ouve, fechando-o com chave doirada, a desgraçada e arrancada a ferros:

 

- O melhor do mundo são as crianças.

 

Com uma seriedade assustadora, com um sinistro brilhozinho nos olhos, com uma quietude muito pouco cristã e com lâminas nos dentes, a minha irmã fustiga:

 

- E o melhor das crianças são aqueles pespontos perfeitos nas carteiras Hermès.

 

Pode não ser bonito ouvir, mas aniquila instantaneamente o cor-de-rosa bebé.  

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A Gaffe dadora

rabiscado pela Gaffe, em 09.03.18

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Whatever you do

always give

100%

 

A não ser, meus queridos, que estejam a dar sangue.

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A Gaffe em rodopio

rabiscado pela Gaffe, em 08.03.18

rodopio

 

Fazes da minha cama o amanhecer.

Agora consigo vislumbrar a tua pele.
Agora entendo a migração das águas.
Tenho o teu corpo em sépia e em dourado, a transformar-me em onda nesta manhã de areias esmagadas.

Estás adormecido e o espanto de tu estares assim, nu e quieto, prolonga a luz nas sombras e acidula os objectos.

Não sei mesmo se sonho ou se acordada te vejo a dormir.

Os lugares onde me perco estão toldados e misturo as vozes de tempos diferentes. A minha realidade é um mar aberto. Separadas as metades, deixo de saber em que lugar fico.

Não sei se em ti habito e deixei de ter lugar em mim.

 

E rodopio.

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A Gaffe mal acorda

rabiscado pela Gaffe, em 05.03.18

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É usual ouvir amaldiçoar as Segundas-feiras. Há canções que dedicam acordes e palavras a castigar o primeiro dia da semana.

Confesso que nunca percebi a razão deste ódio ruidoso. Nunca senti a nostalgia a invadir-me no anoitecer de um Domingo, nunca me senti invadida pela depressão que por norma chega apensa a uma despedida dolorosa e nunca adormeci, na véspera de um início, revoltada com a quebra da tranquilidade e do laissez faire laissez passer dos dias de descanso.

Acordo sempre intragável, seja em que dia for.

Sou solidária com criaturas que cegam com a luz matinal. Apoio o não movimento. Dou a mão aos sonolentos caracóis que se arrastam até ao suicídio que é abrir as janelas e deixar o mundo entrar.

Sempre gostei e sempre acreditei nas pessoas que se parecem comigo.

Não é de todo necessário que sejam minhas sósias. Não é preciso que as situações caiam no exagero, pois é bizarro encontrar a Teresa Salgueiro na voz da Susana Travassos, mas é reconfortante perceber que não estamos sós neste planeta muito pouco azul por onde voam as cegonhas.

 

Posto isto - e sublinhando o facto de não ser premente que haja gente com particularidades iguais às minhas -, devo confessar que fiquei abismada, siderada, chocada, arrepiada e todos os superlativos que se consigam encontrar, quando, hoje de manhã, abro o pequeno aparelho que me coloca em contacto com o universo e dou de caras com uma criatura que traz o meu cabelo, caracol por caracol, curvinha por curvinha, corzinha por corzinha, colado à cabeça, tudo juntinho e com o mesmíssimo corte!

Um plágio.

Fiquei em estado comatoso quando reparo que é um homem!

Antes a Jessica Rabbit.

 

Não se faz!

Provocou-me o mesmo efeito que o erguer das persianas.

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A Gaffe do ramalhete

rabiscado pela Gaffe, em 21.02.18

Ramalhete

 

A Gaffe sempre considerou as atitudes dos homens que são considerados românticos a maior perda de tempo do planeta.

 

Não interessam os ramos de flores que lhe oferecem se o portador não provar que as fitas que apertam o ramalhete trazem nas pontas e nas horas um Bentley agarrado - e pode ser à cocaína, pois que dessa forma uma rapariga esperta sabe que jamais ocupará o lugar do morto. 

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A Gaffe ouve Paris

rabiscado pela Gaffe, em 20.02.18

Hernst Haas 1955.jpg

 

Perguntam-me qual o som que me traz Paris e eu emudeço.

Nunca tive o talento de saber ouvir música. Deveria portanto, para fazer brilhar a mais do que certa resposta dos que sofrem deste tipo de surdez maldita, referir Piaf, Ferré, Brel, Brassin, Trenet – sem o colaboracionismo -,  Montand, Bécaud ou outro qualquer nome capaz de se identificar de forma inabalável com a voz de Paris, com o correr do Sena, com a nostalgia das árvores dos parques nus de concertinas, com as escadas de Montmartre descidas pela boémia já passada, com as esplanadas dos cafés lendários que entardecem tristes, com a chuva sobre as pontes desoladas e com a luz doirada a invadir as ruas.

Não consigo.

A voz que me traz Paris não é a mais excelsa, não é a mais dotada, não é favorita dos eruditos que estudam e criticam as profundezas nobres de letras e colcheias, mas é a única que me traz a longuíssima saudade dos passeios frígidos, dos risos que guardei dentro do peito, das folhas a tombar no meu cabelo, dos olhos das mulheres que são o Sena, do correr da tarde que se espalha nas sombras que anoitecem nos trilhos dos vadios, no triste emudecer das aves esculpidas nas vielas onde há cafés pequenos voltados para o frio, na doçura das mantas que guardavam os segredos partilhados em surdina e nas mãos que se cruzavam quando o entrelaçar dos dedos tinha fim.

Paris, a voz que sinto ser desta cidade, é o som deste homem a rasgar o verso.

Basta um início para ouvir o som que eu ouço quando Paris chega.

 

Foto - Hernst Haas,1955

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A Gaffe floral

rabiscado pela Gaffe, em 09.02.18

 

Hoje estou floral, porque me apetece.

 

Há dias em que tudo é maçador e entediante. Dias em que nos aproximamos da compreensão do spleen queirosiano e desejamos as ruas vazias, sem bulício, as janelas calafetadas e todos os livros fechados.

Dias de não haver diários.

São dias sem gente ou com gente que não vamos ver.

Dias em que me apetece apenas a enternecedora tontura dos aromas entrançados de flores antigas, numa mudez, numa nudez, que é a mais perfeita forma de dormir sem gota de perfume.

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A Gaffe num lugar secreto

rabiscado pela Gaffe, em 08.02.18

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Nos corpos há lugares de eleição, assim como os há já renegados, malditos e proscritos.

Há pequenos vértices, esquinas escondidas, vão das escadas dos músculos e dos pêlos, vagos triângulos, circulares caminhos de repente, esconjuradas marcas, sinais de lume, estradas de paciência por onde passam dedos, nervosas praças e largas avenidas, ramificadas veias de suor, pilares erguidos a sustentar mais sonhos, punhais e violinos, tangos argentinos dançados nos salões onde só há valsas.

 

No teu corpo há um lugar secreto.

Quando as duas clavículas desistem e onde um sulco se constrói, onde espraiados os dedos se desviam e se escondem no curvar subtil do osso que começa. No cavo pequenino e com sabor a sal, a mel e a gota de suor do mais secreto.

 

No berço de todo o teu pescoço, há um lugar só meu, se tu quiseres.

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A Gaffe a festejar

rabiscado pela Gaffe, em 02.02.18

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Entrou como alteração climática.

Tenho de sair. Há demasiado tempo que não me divirto. A festa de aniversário reúne toda a gente que conheço.

- Enfim, quase toda a gente, porque a tua irmã também foi convidada.

Estou miserável.

- Não! Estás óptima. Nunca estiveste tão perfeita.

Tenho nos pés umas pantufas em forma de ratazanas, um pijama azul melado com um slogan a rosa desbotado - Where Are You Friday? - e o cabelo parece ter servido de ninho aos animais que trago calçados.

É admirável como se torna fácil reconhecer que a mentira pode ser também um pequenino oportunismo egoísta que se escapa inconsciente quando dela depende a nossa satisfação instantânea.

- Ninguém vai reparar que não te divertes desde que o coiso foi enfiar o braço até ao cotovelo no pipi das vacas do Minho, por causa daquilo dos ovos. Isto não soa nada bem, mas tu entendes o que quero dizer. O homem é estranho!

Suspiro.

- Meu amor, só as freiras esperam que o paraíso chegue, enfiadas numa cela doentia. Nós que somos saudáveis temos GPS.

 

Desisto.

 

Duche, vestido preto, colar pequenino, sapatos confortáveis e cabelo desgovernado que não tenho forças para legislar.

- Estás tão Meg Ryan … claro que antes da pobre ter mumificado!

Não faço ideia se devo, ou não, considerar elogiosa a aproximação. Só recordo a actriz na cena em que simula um orgasmo numa cafetaria qualquer e, para ser honesta, sempre achei que as minhas simulações eram melhores.

 

- Leva o casaco com capuz de vison, que de noite faz frio, como diz a velha. Dizes depois aos ecologistas parvos que lá vão estar que só mataste os netos dos bichinhos que estão agora protegidos, porque que não sabias que tinhas de aturar a porcaria dos vegan.

Inútil ver esclarecido o assunto.

 

Voamos.

A festa de aniversário de um amigo merece sempre as asas de um albatroz. Neste caso de um albatroz tresloucado e impaciente, capaz de transformar em lenço de Isadora Duncan as criaturas que se atrevem a pisar as passadeiras. Receei inúmeras vezes chegar ao local do encontro com gente no tejadilho do carro ou colada ao pára-brisas.

 

É extraordinário o impacto com aqueles que conhecemos, ainda que vagamente, mas que não encontramos há muito tempo.

Foi curioso ter verificado que a esmagadora maioria dos homens - trintões, já que a festa se compunha deles - usava barba. Um amontoado de barbas muitíssimo bem desenhadas, rasas, pequenas, grandes, gigantes, todas lustrosas, todas delineadas, todas perfumadas, todas hidratadas, todas design – diria a velha – todas hipster, todas aborrecidas e todas prontas a seduzir, esquecendo o facto de, pela quantidade, nos confundir os donos e nos obrigar a tentar identificar o barbudo através de outras características menos mediáticas. As calças, por exemplo, ou o que dentro delas nos chega aos olhos. Foi interessante encontrar as que provavelmente são usadas para evitar o laser, os cremes e as ceras depilatórias, pois que, de tão justas, quando arrancadas, sacam toda a pilosidade por onde passam e, no caso dos mais incautos, a piloca vem apensa. Conseguir um movimento largo dentro delas é um mistério quase do tamanho de um dólmen, pese embora não se tenha avistado nenhum megalítico esteio por entre a multidão.

Outra minudência observada reporta-se às camisas todas de um branco imaculado dos moçoilos, com o colarinho apertado a anunciar o esmagamento da jugular que ouve, já morta, jazz – do mais puro e do mais duro - e vai debitando considerações acerca das performances recentes da nova intelectualidade internacional.

 

As meninas baloiçam bugigangas caras pousadas em Chanel, escrupulosamente, impecavelmente, divinalmente penteadas, e riem-se imenso, imenso, imenso, imenso, saltitando de Sartre em Sartre até, se encontrar Simone perfeitamente maquilhada num charro mergulhado em vodka martini.

 

Faço avançar por entre a multidão as labaredas tresloucadas do meu cabelo, abrindo alas com a ameaça de incêndio e beijo o aniversariante que, esmagado de ternura e de presentes, tenta sobreviver aquele tsunami de imbecil e plastificada sofisticação.

 

Deuses! Só um drone - e eu dentro dele - me faria suportar uma pindérica imitação da maravilhosa fotografia de David Stewart.

 

Sinto-me velhíssima!

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A Gaffe dos cinco sentidos

rabiscado pela Gaffe, em 29.01.18

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 I

 

Tacteio a fina camada de pó no parapeito da janela. Tem a consistência do corpo despido no meio da cama, adormecido, ignorante, num abandono de poeira. Os dedos traçam na superfície da madeira duas estradas finas, convergentes, como riscaram na noite anterior ao pó do parapeito da janela, a minuciosa caminhada na pele do homem despido. Toco nos vidros com os dedos e deixo o rasto do remorso de não saber o nome das coisas adormecidas que as minhas mãos foram tocando, tacteando, fazendo arder as palmas de encontro a pele. Lá fora, uma mulher acaricia um cão.

II

 

Vejo a fina camada de poeira no parapeito do peito do homem. Olho o adormecido corpo que foi visto na noite anterior à poeira pousada nos meus dedos. No fundo dos olhos fechados do homem que dorme tenho a minha pele gravada como tatuagem ou como um lírio a rebentar de carne. Olhar um corpo nu, por descobrir o interior, cegueira para mim, faz do remorso, ou da tristeza, o olhar parado das varandas. O parapeito das janelas onde se vê o pó pousado à espera dos meus dedos. Lá fora, um cão olha para o mar e deixa que a dona o veja a olhar.

 

III

 

Ouço os meus dedos riscar o parapeito da janela. Ouço o respirar do homem que está nu na minha cama e desconheço as noites anteriores em que o respirar não foi comigo. Ouço na memória os gemidos da pele e o ruído do entrecruzar de corpos e a poeira a tombar na pele do parapeito da janela com o barulho das pedras lançadas ao mar pela mulher que ouve o cão ladrar. A surdez do homem a dormir na cama é como labareda de tristeza. Incendeia o mundo.

 

IV

 

O cheiro da pele do homem mistura-se com o mar que entra como bicho insidioso pelas frestas. Os vidros não impedem que ele chegue, como nada impediu o meu corpo de adormecer aquela nudez na minha cama. Mistura-se o mar com os lençóis e há poeira no dormir do aroma da pele suada que se mistura ao que vem do mar. O quarto cheira a corpos e a ondas e um peixe atravessa os vidros misturando o que lá fora passa e que o cá dentro está parado. A manhã da mulher com o cão cheira a maresia e a suor. O cão ergue o focinho e fareja o espaço e eu ergo a cabeça e sorvo os cheiros do corpo e do pesar, ambos suados.

 

V

 

O sabor dos dedos levados à boca com o pó do parapeito da janela é igual ao da carne suada que me raspou os lábios na noite anterior à do cão que lambe as mãos à dona, lá fora, onde a avenida acaba no palato das ondas. O travo da tristeza que me engole mal amanhece, esmaga-me na luz que é o chão onde mordi as ervas e os lírios macerados no corpo daquele homem no meu leito, feito almofariz, o corpo, o leito, de pedra ou de marfim ou só de jade. A manhã traz na boca a memória da carne mastigada e das gotas de água já bebida.

 

E eu adormeço.

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A Gaffe no primeiro beijo

rabiscado pela Gaffe, em 26.01.18

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De corpos imóveis se faz este beijo.

Nenhuma superfície de pele será tocada. A nudez não tem lugar a não ser a do silêncio e a da lentidão das bocas. O primeiro beijo é a um abeiramento, não é uma invasão. Exige a contenção das árvores que adivinham o momento de cortar a vida às folhas, a segurança das raízes que reconhecem o húmus e a estabilidade da seiva que corre de acordo com o batimento do Universo.

 

O primeiro beijo constrói-se primeiro nos olhos. É do olhar que parte a boca.

 

Abeira-te do que será beijado. Que o teu corpo iniba todo movimento de modo que a imobilidade seja comum aos dois. Percebe então a pele do que se prepara caminhando-lhe pelos caminhos do rosto. Aquece os teus olhos na curva do nariz do que vai ser beijado, no dealbar dos lábios, no início das pestanas e no sulco nasal onde poderás deixar as tuas íris. Sente-lhe o morno sopro das narinas e quando sentires sem ver o latejar da boca que te espera, aproxima a tua devagar. Não cegues. O primeiro beijo é sempre um beijo aberto para o visível. Nunca penetra nos jardins fechados e caóticos do negro em paroxismo. É um beijo de jardim geométrico e fatal.

 

Os teus lábios afloram o espaço que pertence aos lábios do beijado. Ao milimétrico espaço de um suspiro. A tua boca vai mimar o voo de um insecto que hesita no pousar, que ronda as duas pétalas e que receia a morte naquela flor carnívora.

 

Roda o teu rosto, mas mantém a boca o centro fixo do inclinar que oscila. Os teus olhos devem perceber as estrias dos lábios que te esperam e a tua língua antever as labaredas. Não toques. Procura os batimentos do peito no latejar dos olhos daquele que te quer. Permanece na busca das linhas húmidas da boca do outro.

 

Saberás do beijo quando no oscilar lento dos teus lábios encontras o desistir dos olhos do beijado.

 

Nunca percas a consciência da fragilidade do insecto. A força de um voo em fuga depende da envergadura das asas, por isso teme o encarnado que carnívoro vibra à tua espera. Lembra-te que quando a flor se abrir terá de estar rendida. Benévola será então na tua língua.

Quando adivinhares o pulsar do húmido que te chega aos lábios, a tua língua tocará no bolear da boca do beijado. É a pata de um insecto. Tem disso consciência.

 

Se aquele que beijares tremer e desistir da vida para ta entregar coberta de saliva, saberás então que aprendeste e todas as outras lições já podem começar.

 

Foto - Christer Strömholm- 1960

 

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A Gaffe mal acordada

rabiscado pela Gaffe, em 25.01.18

A Gaffe mal acordada

Acordei com a manhã fria e chuvosa nos olhos.

Considerem-me irritada sem qualquer razão que o justifique.

Tal significa que a primeira criatura que me afronte, seja qual for o sexo do desafio, acabará desfeita.

Há alvoradas em que os tigres fêmeas acordam com garras prontas a esfacelar inocentes e com os músculos tensos a esticar o ataque, farejando o sangue que corre escondido nas veias. Quando a manhã acorda um grande felino sem lhe aquecer as listas com o mel dos dedos, não há nada a fazer.

O dia terá de esconder as crias.

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A Gaffe ensurdecida

rabiscado pela Gaffe, em 01.12.17

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Fico parada a vê-lo mexer os lábios, a gesticular, a inclinar a cabeça, a esticar o pescoço, como uma galinha ao surpreender um verme, e observo-lhe as sobrancelhas espessas, subindo e descendo, neste vale de lágrimas; os olhos pequenos, que se semicerram quando há coisas transcendentes a dizer - o que implica um quase fixo arregalar do globo ocular; as mãos serigaitando na secretária sempre à procura de um objecto qualquer, para o fazer rodar por entre os dedos e surpreendo-me com o estranho silêncio que ouço. Um silêncio que me faz falta quando a rua vem rasgada introduzir-se nos meus dias.

Não penso em nada. Por vezes, aceno com a cabeça, por misericórdia, fazendo-o acreditar que estou rendida, mas a indiferença já me ensurdeceu.

 

A ausência total de som faz perdurar a sensação dolorosa de perda constante.

 

- A consciência da perda irremediável deverá acompanhar os processos posteriores aos factos evitando sequelas futuras. O luto é, portanto, essencial vivência, insubstituível processo de adaptação a novas condições de existência - diz de cátedra o velho catedrático. 

 

Fala debruçado sobre a secretária, fazendo girar uma caneta entre os dedos, enquanto me distraio com as bolinhas e pintinhas na gravata.

É de seda preta, de nó largo e perfeito. Estampados no corpo, surgem, espaçados, pequenos sóis amarelos e laranja, rodeados de pintas vagas com as mesmas cores. É uma gravata obsessiva, porque as marcas de fogo tornavam-se nos pontos para onde tudo naquela sala converge. A partir dos focos espirala-se o resto. Percebi então que, daquele modo, todas as palavras que diz, umas atrás das outras, aceleradas pela força que as puxa para o centro, largam uma cauda vaga e cintilante, de cometa, que as torna de certo modo galácticas, susceptíveis mesmo de, pelo fascínio, arrebanhar a minha credulidade.

No entanto, ele não gosta de amarelo. Estas considerações  cósmicas não são portanto frequentes e tudo tem o sabor desolado que fica  em quem mastiga pó ou terra seca.

 

O homem acomoda sempre a barriga no tampo da secretária. A gravata, a alameda entre o pescoço e o cinto, fica deste modo lancetada. Por vezes perco-me a tentar adivinhar se o padrão escondido é a reprodução daquele que vejo ou se muda de ideias e difere. Há gravatas que, ao terminar, alteram o constante até ali e, num rasgo original, apresentam motivos contrastantes. As dele raramente sobressaltam. Fiéis até à morte, repetem os motivos.

Não são os meus lutos que filtram a luz numa demência de afogados, que fazem a casa absorver os entardeceres, que prolongam sombras, que acidulam objectos.

Como pode o homem que fala explicar-me a luz absorvida? Como pode ele entender a contaminação das vozes? Como pode ele olhar para os perfis das gentes que eu amei e que partiram, em sépia e em dourado, e que se transformam em pólen nas tardes laranjas esmagadas? Como posso falar-lhe daquele espaço dentro desse espaço, a flutuar?

Não sei contar-lhe.

Não sei mesmo se é memória deles o que trago dentro ou se os lugares onde me perco estão toldados e misturo as vozes de tempos diferentes.

A minha realidade é um fruto aberto. Separadas as metades, deixo de saber em que lugar fico. É no meio de espaços distintos que me perco e deixo de saber onde sou eu. Em que lugar se ouviu o tombar da água na cisterna? Rolará neste chão, ou arrasto-o como uma cauda onírica e medonha? É este o silêncio agarrado à memória que dela tenho ou é apenas uma dor que emudece?

 

A memória calca pisos ásperos e no entanto é doce o perfume que, de tão forte, escorre para a boca, transformado em viscoso lago de sabor que tentamos expulsar roçando a língua contra o palato e cuspindo os grãos pequenos de aroma já com corpo.

 

- O luto é, portanto, essencial vivência, insubstituível processo de adaptação a novas condições de existência.

 

E eu ouço sussurros e murmúrios ondulando no sopro produzido pelos dedos da memória que proíbe a voz de seda preta, de nó apertado e perfeito na garganta.

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A Gaffe por ele

rabiscado pela Gaffe, em 30.11.17

Ata Kandó.jpg

 

Dormes e eu fico.
Na asa do nariz tomba a pena pluma da pestana.
Dormes e eu fico a velar a queda.
Depois já é manhã.

 

Foto - Ata Kandó

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