Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe tempestuosa

rabiscado pela Gaffe, em 13.03.18

YD

 

Meus queridos, tenham sempre presente que a velocidade com que nós dizemos:

 

- Está tudo bem!

 

É directamente proporcional à severidade da tempestade de horrores que está prestes a começar.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe contabilista

rabiscado pela Gaffe, em 12.03.18

b..jpg

 

Somos por natureza quantificadores e por, muito que o neguemos, os números e a sua placidez, ou palidez ordenada, vão-se tornando facilitadores dos julgamentos que fazemos de nós e dos outros. Tornam-se traves mestras sem as quais nenhum edifício interior pode sobreviver e mesmo que pintemos os muros que somos com motivos florais, acabamos a contabilizar o número de pétalas que colorimos, para oferecer alguma harmonia mesmo ao terror.

 

Medimos o bebé, contamos os tostões, contabilizamos acidentes, medimos a tensão arterial, calculamos o défice, numeramos as casas, somamos desgostos, subtraímos esperanças, multiplicamos terrores, dividimos solidariedades por grupos contados pelos dedos, somos corajosos ao som do um-dois-três e fugimos quando não há ninguém a ver, porque às vezes somos zero.

 

Não incomoda este matematizar da vida, pois que é intrínseco a ela.

Não nos apercebemos da quase instintiva força que tenta escapar ao Caos, empurrando o que somos para os trilhos da Ordem que supomos encontrar na tentativa inata de quantificarmos o Universo.

Somos ordenados dentro desta confiança tranquilizadora, porque mesma a dor, a mais estrepitante, aquela a que atribuímos o número um, numa escala que vai do coração à morte, pode ser passível de baixar de nível à medida que o tempo passa e se acumula.

Medimos o que somos sobretudo com as escalas dos outros.

Somos pequenos, invariavelmente pequenos e contamos cada milímetro que nos fazem sonhar com maior altura. Inflacionamos o que obtemos, pois que tão pouco amor e tão curta a vida. Atiramos a primeira pedra àquele que finalizou em último a corrida dos metros que nunca foram dele e gastamos as métricas de todos os versos, porque temos dez dedos apenas para numerar as sílabas.

O meu amor é maior que o dele. A tua dor é menor que a minha. A felicidade é sempre pequena. A fracção de segundos é sempre uma vida e acabamos debaixo de sete palmos de terra, porque afinal os homens não se medem aos palmos, nem se medem às palmas.

 

Talvez os homens se calculem apenas na ausência da ordem dos compassos dos outros, quando sozinhos olham a própria cegueira e se apercebem que o Nada é bem melhor que o Zero.            

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe silenciada

rabiscado pela Gaffe, em 06.03.18

gunsandbooks.jpg

 

Olham-se e continuam a trespassar com os dedos o corpo um do outro e a fingir que é amor a dor dessa vertigem.
De olhos sem sentidos, a disparar palavras sobre a carne.

É trágico quando o que faz falta ao nosso silêncio, para que o silêncio do outro seja completo, é que até a solidão se torne muda.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe imperiosa

rabiscado pela Gaffe, em 27.02.18

Nefertiti.jpg

 

Todas as mulheres possuem um desenvolvidíssimo espírito científico, pese embora apenas algumas o usem para tentar dissecar a alma alheia. Por norma os instrumentos usados não incluem a inteligência, posto que para a operação fica aquém do esperado e, no máximo, o que se obtém é a pele do observado, que fica sempre bem no soalho de madeira.

 

Há no entanto casos em que é possível tentar chegar a resultados interessantes, se o analisado for um conceito.

As mulheres são peritas em elaborar pareceres, a formular noções e a construir máximas que os homens gostam de usar depois. São Piçarras e Tonys das nossas melodias e chegam aos festivais já vencedores. Deixamos, porque não importa o resultado do júri. O que nos dá gozo é a certeza do engano dos jurados que se revelam ainda mais tontos do que na realidade são.

 

Os conceitos que nós, mulheres, fazemos florir são como papoilas. Surgem às centenas, em campos magníficos e dão ramalhetes perfeitos, porque efémeros. É lógico que cada uma de nós escolhe a papoila que mais condiz com o seu tom de pele, com a cor do blush, com a cor do dia do decote, ou com a forma que lhe parece próxima da perfeição sonhada.

 

Malgré tout, é sempre uma papoila que é escolhida.

 

Esta inteligentíssima, - apesar de modesta que sou, devo assumir -,  introdução, chega a propósito dos conceitos de elegância feminina que provocaram um olhar bucólico sobre este campo plano e tão singelo onde pulula, aqui e ali, o escarlate das florinhas.

Há que pegar no bisturi.

 

A elegância - a Elegância -, pode ser analisada com objectividade científica. É possível arrancá-la do somatório dos distintos conceitos que são construídos por cada uma de nós e tornados de certo modo distintos uns dos outros. Há a elegância da mulher magra e alta, esguia como a haste de um lírio. Há a elegância da que veste sem ser vestida por Valentino. Há a elegância construída pela fleuma gélida perante incêndios de barracão. Há a elegância da maturidade que constrói castelos de reserva e discrição e há outras que não se dizem por exaustão.

Por norma, alia-se, mesmo inconscientemente, a elegância de uma mulher à sua biografia. No entanto, a Elegância pode ser isolada, pode ser objectivada, pode ser detectada sem as interferências usuais e sem as premissas que habitualmente nos levam a resultados viciados.

Uma mulher pode ser Elegante independentemente do mundo que a olha, para além de si, para além da sua história ou da sua voz. Neste pressuposto, pode ser Elegante uma psicopata, uma assassina, uma inócua dona de casa, uma apaixonada pelo funk, uma vendedora do Bolhão - estas são quase todas, quando calmas! -, ou uma candidata a Prémio Nobel da Paz.

 

A Elegância é um palimpsesto. Talvez exista uma facilidade relativa em separar camadas, desagregar substratos, definindo-os como eleitos na subjectivização do conceito, mas no final - e afinal -, o somatório torna-se indistinto, quase invisível, quase mistério, porque, diz o aviador, o que realmente importa não se vê.

 

A Elegância não é portanto uma projecção do olhar do Outro. É o reconhecimento do Outro da existência imperiosa e única de alguém.

 

Sentimos a Elegância, somos Elegantes, porque somos, nós também, palimpsestos, mas nesse aglomerar, nesse sedimentar de histórias que são nossas - apenas nossas e sem domínio algum sobre o olhar dos outros - existe um elemento essencial que atravessa cada substrato, solidificando o todo.

 

A inteligência.

 

Nenhuma mulher é Elegante se não for inteligente e logicamente madura (aos dezoito anos escolhemos sempre o perfume errado).  

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe das duas moedas

rabiscado pela Gaffe, em 22.02.18

 

carros.jpg

 

Deparamo-nos por vezes com imagens que nos surpreendem, porque acabam por ilustrar uma das partículas de que somos feitas.

Esta é sem dúvida uma delas.

O homem do carro estacionado provavelmente procura desbravar os mistérios femininos com cuidados quase florais e tenta, inútil e sem qualquer sucesso, domar os bichos que somos, enquanto que - sem esforço desmesurado -, o garanhão bruto e tatuado, sem pouso certo e sem nada que se possa rentabilizar, fica fora de nós, aguado e a desejar o objecto que acredita ser o que nos convence.

 

Ouço dizer as más-línguas que o carro que um homem escolhe é o reflexo invertido da sua piloca, que um bólide gigantesco significará, portanto, uma pilita frouxa, quase impotente e humilhantemente pequena.

A não existir um completo erro nesta afirmação. Os homens que se deslocam em carros inimagináveis e quase absurdos de tão poderosos, com preços descomunais, são todos ineptos sexualmente. O carro compensará, desta forma, os exíguos apêndices que trazem entre as pernas.

 

Penso, no entanto, que esta espécie de compensação não se prende com tamanhos ou desempenhos de índole sexual.

A questão é mais oblíqua, mais insidiosa.

Suspeito que a potência do carro se liga normalmente à insegurança do dono, na cama em que é deitado. Quanto maior for a cilindrada e o aparato do popó, mais frágil, inseguro, hesitante, manobrável e irresoluto é quem o compra.

 

Não gosto de carros, mas reconheço que é proveitoso uma rapariga não seleccionar os rapagões sem primeiro conhecer os volantes que controlam. Alguns dos melhores, andam a pé.

 

É tudo uma questão de deslocações financeiras e de mecânica do prazer.  

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe e o Príncipe Sapo

rabiscado pela Gaffe, em 09.02.18

cav1.jpg

 

No regresso aos dias nostálgicos e entristecidos, a Gaffe retorna ao seu quotidiano mais banal e insípido, continuando a sonhar ver surgir a famigerada luz ao fundo do túnel.

 

Nós, raparigas espertas, alteramos significativamente este conceito de luminosidade. O reluzir do pavio acesso, na negrura do caminho, pode significar, não raras vezes, o reflexo de um raio de sol que se distrai no metal polido da armadura de um príncipe.

 

Todas as mulheres o esperam. Todas as mulheres aguardam, mesmo que secretamente, que surja o cavaleiro que as tomará nos braços de Cantigas de Amigo e as arrebatará, transformando em veludo e rosas as pedrinhas nos Louboutin, nos Jimmy Choo, ou nas miseráveis sabrinas que os substituem nos tempos que correm.

 

O sonhado cavaleiro, para além de garboso, de divinal beleza, servo submisso, valente protector e de galante fraseado, deverá amar-nos desmesuradamente, com consciência da precária certeza de nos ter. Para nos seduzir, será obrigado a rasgar a alma nos espinhos que nos rodeiam e afogar a montada nos fossos que cercam o castelo onde adormecemos frágeis, mas com um olho aberto.

 

Embora nem todos os sapos tragam príncipes dentro, acredito que todos os homens trazem príncipes. Alguns, com o tempo, tornam-se sapos e essa metamorfose é irreversível.

 

Sabemos, por instinto, que os sapos só nos seduzem se nos obedecerem, mimarem, bajularem, atormentarem com presentes, venerarem, acariciarem o malfadado gato que adoramos, glorificarem as nossas pequenas idiossincrasias, canonizarem as nossas exigências, incensarem as nossas compras mais idiotas, afagarem os nossos desânimos e as nossas frustrações e correrem atrás do táxi quando decidimos ir embora.

Só o acatar destas condições permite a um sapo aspirar a seduzir-nos.

 

Temos tendência para revelar o lado mais negro, mais mesquinho, mais medíocre e mais torpe das nossas almas, quando o sapo não é o nosso príncipe, porque sabemos que, se para nos seduzir ele terá de cumprir na perfeição todas as situações enumeradas  - e muitas mais de que não se fala por pudor -, enquanto que nós, para o arrebatar, temos apenas de lhe aparecer todas nuas.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe juíza

rabiscado pela Gaffe, em 31.01.18

1.91.jpg

 

Os tímidos são a mais encantadora forma de uma mulher sentir que domina. Pode não ser real este controlo, mas a nudez de um tímido fá-lo sentir um réu e nada há de mais assustador do que ver julgada a nudez tendo como juízes os olhos de uma mulher.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe matadora

rabiscado pela Gaffe, em 30.01.18

ruven_afanador_tristan_godefroy_torero_150.jpg

 

Não sou uma predadora inconsciente, capaz de lacerar a carne de cordeiros plácidos com uma ingenuidade a raiar o doentio apenas pelo prazer de sentir o cheiro a sangue e a morte próxima de mim sem me tocar, mas recuso-se a suportar a falsa inocência dos silêncios e o medíocre álibi daqueles que procuram o impoluto e a virginal auréola das vítimas sempre que se jorram no chão que sabem ser só meu.

 

Dos que enredo, caço, mordo e dilacero, nunca guardei uma escusa. Nunca armadilhei vontades. Nunca foram eles incautos, castos, lançados numa arena ou precipício.

Nunca violei. Sempre obtive uma espécie de consentimento informado quase tacitamente burocrático.

Nunca apedrejei consciências. Trato-as como iguais no seu desejo.

 

Aqueles que não morrem no meu reino - e é tão pequena a morte que lhes dou -, expressam a vontade de viver em códigos legíveis e não lhes toco nunca.

Os que sucumbem angélicos? Ninguém sucumbe sem sombras na consciência ao âmago do maior desejo. Cumprem-no, mascarando-o primeiro de indesejo, de subtil ou de externa violência, de culpa que é das feras imperiais, para que depois do já cumprido soltem as asas de pomba maculada.

 

Entre o predador e a vítima há sempre um pacto, paradoxo fatal e labiríntico, um elo mítico que faz de um soberano o súbdito que obedece ao que lhe exigem e daquele que se imola no chão de terra quente o imperador escuso daquilo que deseja. Iguais, de força igual, no assassino confronto ou no embate mais benevolente.

 

Nas pequenas mortes nas savanas dos corpos, ou nas  arenas da minha vida, não há uma hierarquia de consciências.

 

Imagem - Ruven Afanador

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe refulgente

rabiscado pela Gaffe, em 23.01.18

421.jpg

É interessante perceber que por vezes a condição humana entra por esgotos ou estanca nas vielas mais obscuras, pensando que, por ter na mão um candeeiro, tem o direito de sentir que é uma estrela.  

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe oferecida

rabiscado pela Gaffe, em 09.01.18

473.jpg

 

Estes primeiros e intermináveis dias do ano foram sábios.

 

Vivi-os a confirmar a facilidade com que damos tudo por quem faz parte da nossa vida, por quem amamos, a quem habita a nossa alma. Sabia que por amor se torna instintiva a dádiva. Não é necessário desenrolar papiros, digitar teses académicas ou fazer rimar amor com qualquer outra dor, para nos apercebermos que a entrega de tudo o que temos se faz no instante em que nos reconhecemos no outro.

 

Não sabia ser possível que por amor se consegue dar o que não se tem.

 

Vivi estes primeiros e intermináveis dias do ano junto de um Amigo.

Um imenso Amigo que, por circunstâncias que são reservadas, viu pretensamente em perigo a vida de quem constitui uma das suas escassas ligações ao mundo e uma das suas raras ligações com os sentidos.

 

Urge dizer, para que se entenda, que este magnífico homem foi tocado pelo prenúncio do autismo que, por circunstâncias aleatórias, insondáveis, inesperadas, o aproximou da genialidade, aproximando-o ao mesmo tempo de Asperger.

O facto amputou-lhe as previsíveis apetências sociais, dificultando ou mesmo impedindo a descodificação de signos sociais, a leitura de emoções alheias, a capacidade de interagir fora de um círculo de um rigor próximo do científico, isento de metáforas - embora seja capaz de nos paralisar quando revela as ligações que produz dentro da alma -, restringindo-lhe os universos de emoções que em nós tropeçam a cada instante e diminuindo-lhe significativamente a capacidade de resistir a agitações, sensações, perturbações e desordens que, nele labirintos, o deixam preso a um solidão vinda de dentro e que não tem lugar no mundo habituado a solidões presas em redes sociais.

 

O que consegue depois, e fora disto, é ilimitado.

 

Por circunstâncias aqui irrelevantes, este genial gigante viu ameaçada a vida de quem sente que ama - sentir que se ama e amar, não são aqui a mesma coisa, sendo que o sentir é a consciência do facto e por inerência, um acto racional que mistura a raiz com o paradoxo, a verdade que se conhece, o real passível de ser experimentado, a razão sobreposta à emoção sem a aniquilar ou secundarizar.

 

A brutalidade, a rispidez, a antipatia quase ofensiva, a distância inquebrável e intransponível que o separa dos outros, a indiferença ou a severidade com que olha o que o rodeia, a impossível admissão do toque físico ainda que social e inócuo e a aspereza com que interage com o desconhecido, abriram-lhe na alma um poderoso buraco negro onde nada existe que não seja defensivo.

 

Estive ao lado do meu Amigo estes primeiros e intermináveis dias do ano e aprendi que é possível que por amor se dê o que não se tem.

Aprendi com ele, ao vê-lo - mesmo sendo ele a antítese do visto - que por amor se amortece o som da voz; se agarra, se amacia, se protege e se afaga  a mão de quem se ama durante o tenebroso período de tempo que dura uma ressonância magnética; se é capaz de seguir com uma doçura infinda a agulha que vai recolher pedaços de pavor; se consegue ouvir com dedicação extrema as definições clínicas, os relatos de casos idênticos e os relatórios que se não entende; que se encontra a leveza de uma conversa banal, inadmissível outrora; que se é capaz de beijar com um sorriso transparente o médico que afasta o terror adivinhado e que se está de súbito apto a apertar num abraço os que nos devolvem a alma.

 

Nestes primeiros e intermináveis dias do ano, aprendi que se é esperado e certo que por amor se dê tudo o que se tem, é por amor que entregamos de mãos todas abertas o inalcançável deslumbre do que em nós está ausente.  

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe para 2018

rabiscado pela Gaffe, em 29.12.17

352.jpg

 

Foi o desprendimento de David, de Miguel Ângelo, que me avassalou.

Foi a tranquilidade subtil do segurar lasso da funda desarmada, a ausência de fúria no movimento sem sonoridade, os flancos num desequilíbrio de sensualidade quase provocadora, o peso pousado numa perna que obriga o corpo - peso pluma - inteiro a desenhar um arco delicado de serenidade inesperada e a quietude pacífica, imprevista, dos músculos perfeitos, que me fizeram crer que o guerreiro se centrava apenas no olhar.

Em David, apenas o olhar contém violência. Tudo o resto é a escultura de uma batalha que findou, a impassibilidade do vencedor, a certeza da inutilidade do combate.

 

Talvez David retenha por isso uma estranha espécie de feminilidade discreta, quase imperceptível, que atrai porque o satura de impenetrabilidade, como se fosse um segredo, ou um mistério.

 

Creio que é num labirinto de hesitações, de dúvidas e de incertezas que acabamos por desejar desesperadamente tombar. Necessitamos dos vórtices, dos vendavais, da voragem das angústias e dos medos, do talento para derrubar espectros e erguer quimeras, da velocidade doida com que cobiçamos os mais ínfimos mecanismos, as minúsculas roldanas, os mais escusados apetrechos que permitem a trepidação que nos entrega a aparência de estarmos realmente vivos.

Não sabemos parar. Não conseguimos parar.

 

Talvez por isso David nos deslumbre. Não espera nada.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe por iluminar

rabiscado pela Gaffe, em 19.12.17

Merriman.jpg

 

George Steiner é indiscutivelmente um dos maiores pensadores do planeta e é também, e não menos importante, um dos meus ídolos.

Numa palestra longínqua, contou uma lenda, porque gosta de lendas e porque desejava clarear o seu raciocínio - já tão claro! -, com uma analogia simples que procurasse ilustrar o seu labirinto aberto com palavras.

 

Num palácio com duzentas janelas, todas as noites o príncipe ordenava que uma vela se acendesse em cada uma. Dessa forma, a sua princesa deixaria de ter medo da noite no jardim por onde deambulava à procura da lua coberta por véus de névoa escura. Bastaria à sua princesa a certeza das duzentas janelas que velavam o seu vaguear. Pelas noites dos tempos, nas janelas do palácio uma vela ardia.

Em todas, menos numa.

Das duzentas janelas do palácio, uma ficava por iluminar. A primeira vela a ser acesa extinguia-se enquanto o camareiro se ocupava da última. Era essa precisa janela o medo da princesa.

 

Não sei - pecado meu e má fortuna -, a razão exacta que levou Steiner a referir a lenda, mas a grandeza do sábio permite que humildemente arraste para o meu minúsculo nada o que com certeza tem dimensões não mensuráveis.

 

De todas as janelas nocturnas que avistamos - ainda que brandamente clareadas -, que seguram e afastam os nossos medos, a única que conta é a que se apaga e por muito que tentemos iluminar duzentas, haverá sempre aquela que se extingue no momento em que acreditamos ter brilhante a última que fará a noite dos que adoramos, se transformar em dia.

 

Ilustração - D. Merriman

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe branquela

rabiscado pela Gaffe, em 04.12.17

Fernando Vicente

Com o intuito de me insultar, e tendo sido esgotado o stock de pilhérias mais ou menos graciosas, chamaram-me branquela.

Reportavam-se, como parece evidente, ao meu tom de pele, embora seja plausível que se tenham referido à minha capacidade de ser imaculada. É sempre aceitável hesitar perante os ditos de uma criatura cujas oscilações mentais fazem sombra a Faucault.

 

Confesso que me surpreendi. Não porque me tenha sido revelada como inevitável a coloração da pele das ruivas, não porque me tenha alguma vez provocado desgosto não poder encarnar a escaldante personagem de Bizet -  nem sequer é uma das minhas óperas favoritas -, mas por ter dado conta do extraordinário equívoco que é a imagem que acreditamos ser a nossa e que tentamos a todo o custo transmitir aos que nos olham.

 

O virote que foi disparado, supostamente para me diminuir, partiu da besta - arma, e não qualidade do seu possuidor -, de uma criatura acérrima defensora da diversidade planetária, da harmonia racial, da comunhão de cores, da dos pretos, dos amarelos, dos vermelhos - com algumas reservas de índole política -, da multiplicidade e da publicidade da Benetton, mas que foi capaz, num pequenino acesso de raiva, de recuperar a herança medieva, permitir que o ar cheire a chamusco e transformar numa acendalha o tom de pele de alguém que está a ano-luz de conhecer.

 

É extraordinário como este retrocesso revelador é detectável também quando a mesma criatura se ouve e se deixa ouvir aos gritos, levantando as bandeiras da defesa dos direitos dos homossexuais e, em segundos, se torna capaz de cuspir a palavra gay com a velocidade do insulto que procura a cara de alguém, mesmo que a orientação sexual da suposta vítima lhe seja desconhecida, ou, unindo-se à multidão de mulheres espoliadas, sacando do peito palavras de ordem irritantemente feministas, desliza no charco do estavam a pedi-las perante as sucessivas revelações de assédio que vitimiza um grupo de mulheres até ali incensado, ou ainda aplaudindo, galhofeira e cúmplice, o misógino macho que comenta os larilas e ridiculariza a indignação - sentida como exagerada - que coadjuva a condenação do estupro.

 

A camada de cimento que se deseja visível - e coberta de luzinhas de Natal, de maviosas intenções, de brilhos de conceitos sem preconceitos, de humanas qualidades, de impolutos desígnios, maravilhosos anelos de concórdia e de bondosas e tão justas motivações -, pesa sobre uma bolha de mediocridade inacreditável que é capaz, não raras vezes, de perfurar as paredes que a pretendem esconder e fazer com que um nódulo seja visível. É quando sobrevém esta pontual contaminação da superfície pelo que se esconde, que nos é permitida a visão total destas criaturas e é nesse instante que nos apercebemos que a mistura entre as duas náuseas, não é detectável pela criatura onde a reacção ocorre que, numa espécie de duplicidade patológica, a ignora por completo.

 

Suspeito que mais corruptores do que os grandes monstros do grande preconceito que nos ensinaram a reconhecer, são estas minúsculos seres pintados de arco-íris, mas que acreditam, no escurinho das luras e das covas e buracos que vão foçando na vida, que a cor de pele de uma ruiva é um insulto.                  

 

Ilustração - Fernando Vicente

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe errada

rabiscado pela Gaffe, em 29.11.17

Erro

 

A propósito do deslize cantante referido no post anterior, em que se anota a flexibilidade oportuna do acto de se ser solidário quando aliada ao jogo onde a carta do politicamente correcto vale mais que o Ás, recebi um comentário anónimo - que me apraz não permitir que se deposite nestas avenidas, tendo em conta que de cocós por apanhar já anda o mundo exausto -, exercendo sobre as minhas débeis e diáfanas vestes, uma violência digna de carrasco de Revolução Francesa - ou bolchevique, que não sou esquisita.

 

O douto conjunto de parágrafos recebidos informa-me que os erros são humanos.

Nada a opor.

Errar é humano. Às vezes até é divertido. Volta Tony, que estás perdoado.

 

No entanto, a versada anónima - refere-se no feminino - reporta-se aos erros semânticos, morfológicos e sintácticos que, como declara sapiente, são comuns aos grandes génios da literatura universal, apanágio do cânone literário, acervo da Grande Biblioteca e comuns, banais, vulgares em cada página que folheamos, não raros em Camilo, Eça, Nobre ou Pessoa, passando por Saramago ou Agustina e lobrigando os outros com o tamanho do que avistam.

 

Aqui - e sem qualquer remoque à condição da comentadora - é que a porca torce o rabo.

 

É evidente que toda a gente sabe que os manuscritos de Pessoa estão pejados de erros ortográficos, que existem incongruências na obra de Agustina, que Saramago desobedece a normas gramaticais, ou que Lindley Cintra tem uma apoplexia na frente dos erros de Lobo Antunes e de outros tantos génios literários.

O que os distingue é exactamente esta última palavrita. A genialidade. Os autores referidos - e outros que se omitem por preguiça -, usam as palavras usadas, gastas, velhas, carcomidas, quotidianas, banais e corriqueiras, na construção de frases nunca ouvidas, nunca lidas, maravilhando-nos com a força descomunal com que conseguem mudar-nos a vida. Operam milagres com a palavra. A arrogância, a teimosia, a inflexibilidade do ne varietur, a displicência com que o erro é acolhido, a insolência com que brindam a falha cometida, o desprezo com que embebem toda a correcção, são diluídos pelo demonstrado e comprovado conhecimento profundo da língua, das suas potencialidades semânticas, do seu acervo vocabular, das suas produções passadas e sobretudo da consciência da grandeza da obra que nos entregam. Não deixam de ser erros, não deixam de ser desvios ou transgressões à norma gramatical em vigor, mas, nestes casos, para lá da língua, existem constelações, galáxias, universos inteiros de personagens, de espaços, de tempos e de acções que de tão densos e incontáveis e perfeitos lhes entregam a possibilidade de ruptura com a regra e que nos exigem a humildade de nos calarmos perante o que não sabemos.

As opções linguísticas, as voluntárias escolhas de fonemas e de grafemas, as infracções às regras, ou as transgressões metalinguísticas ou paralinguísticas destes génios, não nos permitem a ousadia e a falta de vergonha de nos ilibarmos dos erros que vamos grafando, não nos justificam as calinadas, não nos autorizam a espalhar cocós naquilo que tentamos rabiscar. Não nos ilibam. Não nos abrigam.

 

Sei que provavelmente vou causar um desgosto imenso a todo o planeta, mas sinto-me na obrigação de dizer que não sou perfeita.

Dou erros.

Comprovo-o, para acalmar os que duvidam:

Uma mulher qualquer, há tempos que já lá vão, num blog entretanto falecido, transcreveu na integra um rabisco meu assinalando a vermelho - como mandam as regras do bom mestre-escola -, os erros que tinha cometido.

Apesar de não consubstanciarem descalabros, pois que se relacionavam com concordâncias mal efectuadas – do rapariga, ou do estações -, não deixavam de ser erros. Humildemente, pacatamente, envergonhadamente, corrigi. Não tive a coragem e a hombridade do meu querido amigo que ao se dar conta, semanas passadas, que tinha escrito iminência no título de um post, apagou irreversivelmente o blog, mas temi pela minha sanidade intelectual e corei de embaraço. Não me justifiquei com a sombra da ilusão patética de ser livre de amarras como Saramago, ou de ter o privilégio de adaptar grafias como Lobo Antunes. Tenho consciência da minha irrisória pequenez e sei, com a certeza da morte, que é vil e mesquinho o que vou debitando, unindo palavras. Não tive a desvergonha imbecil de me aproximar dos pés dos génios, clamando e reivindicando a liberdade criativa, a disrrupção linguística, a transgressão ortográfica, que os seus desmesurados talentos ousam permitir.

 

Limitemo-nos a cuidar com desvelo e atenção, o melhor que soubermos, do quintalzito que nos coube em sorte, porque declarar - do alto de um post muito baixinho - que os nossos erros ortográficos se abrigam debaixo do mesmo telhado daquela liberdade que é apanágio da genialidade literária, é o mesmo que ter um burrito a zurrar até ensurdecer, apenas porque ouviu nas torres do palácio, no meio das orquestras, um Dó menor a mais.

 

Meu caro anónimo, o Memorial do Convento não é um post.*

 

Pode não se validar o contrário.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe de M&M

rabiscado pela Gaffe, em 24.11.17

 

Uma mulher pode parecer escandalosamente ingénua e sensual ao mesmo tempo, basta que também pareça que acabou de sair de uma batalha. Então, como diria Mae West - uma rapariga esperta e experiente -, será excessivamente boa e ser-se boa em demasia é maravilhoso.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)


foto do autor