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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de férias

rabiscado pela Gaffe, em 01.08.15

A Gaffe decide, no tempo que lhe é permitido repousar das inúmeras tarefas que uma rapariga esperta sempre tem nos braços, retornar à sua cidade e fazer de conta que de lá nunca saiu, retomando as velhas e fiéis amizades doidivanas e percorrendo os caminhos de Montmartre à procura das partículas de alegria que rolaram pelas escadas gastas por vidas e prazeres tão juvenis.

 

Promete passar por aqui para vos ver, mas vai guardar todos os mimos e todos os comentários que lhe deixarem para quando regressar se poder deliciar com tudo ao mesmo tempo.

 

Parte triste, porque tem já imensas saudades deste cantinho onde as palavras tontas permanecem por ler - custe o que custar ao seu narcisismo quase pueril -, mas volta num instante com força renovada e Dom Pérignon para festejar convosco. 

 

Até já!

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A Gaffe com um plano B

rabiscado pela Gaffe, em 28.07.15

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Esta rapariga tem de admitir que atingiu o nível de exaustão que faz com que acordar lhe dê vontade de chorar. Não se espantaria se arrastada pelos corredores largasse o cérebro transformado em baba ou se caminhasses como um macaco drogado apenas porque já não aguenta levantar os braços.

 

Três pesados dias me separam das férias. Três dolorosos dias em que corro o risco de desabar em lágrimas no meio de uma irritação e impaciência injustificadas. Três medonhos dias em que terei de encontrar forças para articular palavras de modo a que ninguém perceba que não foi ouvida.

 

Deixei os planos de férias ao cuidado do rapagão. Vou para onde me levar o coração. Neste caso, o dele. Nunca é boa ideia gerirmo-nos pelas batidas de corações alheios e, apesar de arrasada, consegui engendrar um plano B.

Recuso-me terminantemente a ser enfiada no meio da selva, toda caqui e de chapéu de lona, à procura da tribo Tiruné-tupiraná para estudar os métodos de cultivo do tribibiré ou em busca da raiz do fungagueiré, mesmo que tenha propriedades alucinogénicas. Geralmente estas tribos têm um cabeleireiro miserável e desactualizado, os SPA resumem-se a umas terrinas repletas de argilas alaranjadas que vão secando durante a semana e a maquilhagem é sempre igual à das meninas dos festivais de Verão na Caparica. Depois, as mulheres têm todas as mamas caídas, trazem gente pequena as costas e usam fio dental de folhas de árvores que arranham imenso. Os homens são todos baixinhos, andam aos saltos, têm sempre umas pilas grandes, pintadas ou enfiadas num corno e disparam setas impregnadas em curare. Curare por curare, prefiro o parisiense que é injectado em pequenas doses produzindo imunidade e já ninguém tem pachorra para discutir as vantagens e as desvantagens do tamanho das pilas. Cansada com estou, é-me indiferente que haja espaço para reproduzir Guerra e Paz ou apenas para rubricar o apelido do autor sem riscar os outros papiros.

Não adianta argumentarem com a explosão orgíaca de cores. Em Madrid, no La Chueca, toda a gente é arco-íris e ninguém me assusta com as coisas que se enfiam na boca.

 

O plano B inclui uma brutal e insuspeita alergia ao tirimbimdum e à dança tupiraué, uma passagem para Paris e alojamento no Ritz-Carlton no quarto de onde a Princesa saiu para se esbardalhar contra o muro.  

 

Haja respeito!

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Gavetas:

A Gaffe em Boerum Hill Inn

rabiscado pela Gaffe, em 30.08.14

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Em Boerum Hill Inn, na esquina de Bergen com a Heyt, sobre o balcão que brilha coberto por um espelho, existe o jazz ouvido pelos homens de Manhattan.

Jazz arrastado e engolido num sorvo pelos solitários das secretarias de Midtown com apartamentos luxuosos com vista para a ausência, rasgada janela do desassossego.  
São homens espalhados pelo chão. De pé, como se estivessem deitados. Com olhos que fervem no escuro e arrepio nos gestos que são tiques. A flor da pele nervosa, à flor da pele e a amargura retesada da impaciência na solidão de gravata solta e dedos presos no turbilhão do jazz.  
Ficam quase sempre sozinhos.  


Mas é em Boerum Hill Inn onde se ouve jazz que eu vejo duas mãos entrelaçadas. As do homem envolvem as da rapariga como se fosse pão e houvesse fome, como se não houvesse mais corpo a recolher na concha do sossego. Deixam-se mesclar como nada houvesse ali a não ser jazz.  
O homem usa uma cadeira de rodas. A rapariga encosta a perna à inutilidade magra do joelho do amante. É poderosamente nova, quase adolescente, e contrasta com a máscula dureza madura do que lhe afoga os dedos. Olham-se como se um fosse um cão e o outro o dono.  


Em Boerum Hill Inn, na esquina de Bergen com a Heyt, eu desejei ser um deles, um qualquer, porque o lugar a que chamo a casa está distante.

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Gavetas:

A Gaffe em Times Square

rabiscado pela Gaffe, em 23.08.14

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Times Square é um bicho com tentáculos destemidos pronto a lancetar o mais incauto. O seu bafo cheira a sexo e ao indefinido aroma do perigoso. As incontáveis cores de Times Square são aquelas que ostentam os cartazes porno, os olhos dos drogados encardidos e os anéis de fancaria traficada. Há mulheres baças e homens desbotados contra a carnificina colorida do tempo que se afasta da noção do espaço que se encurta, que se afunila, que vai desembocar nas goelas de néon e vidro, de apelo e de asfixia. Morre-se em Times Square, como num rio de ruído e não há mão nenhuma que nos atire a esperança enquanto o nosso corpo vai caindo.

 

Morre-se em Times Square de multidão.  


Morre-se público no centro daquilo que se quis privado, interno, intransmissível, porque a alma está a descoberto, como uma ferida aberta e já sem cura.  


Mas é em Times Square que ouço o que me chega da outra Praça longe. Mistura de saudade e jazz pelo passeio. A cor mansa de um homem que toca saxofone, a pacífica figura que elimina as outras, o som que eu não vejo, mas que é meu, íntimo, privado, como a lonjura que fica na minha alma e esta desolada hora em que me sento no parapeito da janela e vejo o homem que ri a recolher o milho que não deu aos pombos e que armadilha as fotos que eu não quero. A luz serena do homem a deslizar comigo em Times Square. A apagar o néon da maior tristeza. O néon do medo de ficar sozinha, presa nas avenidas a suar de gente.  


Em Times Square existe agora uma outra Praça. Um homem a mendigar, jazz e a melancolia raiada nos meus olhos, rajada nos meus dedos, a escapar nas ruas por entre a melodia morna, amada e mansa, minha, a esconder-me a alma, a proteger-me daqueles que já passam. São cofres de bonança que ouve jazz e faz-se a noite, definitiva agora, húmida de estrelas de saudade, no centro de Times Square iluminado.  


Debruçada no som do saxofone afloro o que de mim é mais privado.

 

Imagem - Jörg Schmeisser

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Gavetas:

A Gaffe em NY

rabiscado pela Gaffe, em 20.08.14

A minha irmã apodera-se dos espaços. Move-se de igual forma em todo o lado. A mesma indiferença, o mesmo enfado, a mesma incapacidade de reconhecer as diversas pulsações de cada cidade que rasga e domina como se as tivesse moldado ao batimento do seu próprio coração.  

Espero-a em West Village, entre a 7ª e a 8ª Avenida, no café que reproduz do modo mais fiel um canto e um outro canto e um recanto de Paris e onde acabei por pertencer, como era inevitável. Sei que virá igual em todo o lado. Afastará a madeixa do cabelo que tomba indomado, amansando o olhar, quando me olhar, e avançará para mim como avança nas ruas de Paris, Londres, de Madrid ou Sidney ou mesmo nas ruelas órfãs de nome que rompem e se rasgam sobre o Douro. Todas as artérias partem dela. Nenhuma é exterior ao seu enfado, misto de cansaço e de desprezo como se tudo lhe pertencesse há muito tempo, que tudo é já dela desde sempre. Ignora o latejar do mundo, porque é seu. Igual em toda a parte.  


Não sou assim.  


Tenho nas ruas que atravesso agora o medo de tombar, de me perder em mim por entre a gente. Deram-me um estranho aparelho que se prende à cabeça e que me tapa os ouvidos com almofadas de som, redondas, grandes e que é normal usar aqui e frequente. Controlo-o através de roldanas minúsculas detectáveis no hemisfério esquerdo. Fazem lembrar o Inverno no Alaska e os protectores de frio para as orelhas. Dentro, tenho Bach, Mozart e Brahms e muitas vezes avança Rachmaninov no meio de mim, separando-me das ruas. A ausência de fios impede que me arranquem e me roubem de ímpeto o som que me protege e que me faz ausente. Dentro dele, suporto as Avenidas, encaixadas no avançar das sinfonias.  


O meu apartamento é exíguo. Tem, no exterior, umas escadas de incêndio com um pequeno espaço acessível através de uma janela. Sento-me ali nas tardes e nas noites que são manhãs eternas e mordo a maçã que me deu a velha ensandecida em Times Square, na 7ª Avenida que intersecta a Broadway. Vejo em frente um dos rapazes que lavam as janelas pendurados e seguros por cordas (são tantos e tantas vidas e vidros encharcados!). Dentro das multidões que atravesso, estes insectos musculados de capacete e camisas ao xadrez, presos por fios a baloiçar no perigo, são os mais belos risos e riscos que eu apanho nas teias do meu inglês que é um sem-abrigo e que descobre que o meu francês, aqui, é aristocrata.  


Sinto Saudade da nobre velhice das cidades.  
NY é um jovem estilhaço. Um vidro que explodiu e que pulverizado cintila, cega, apunhala, desmesuradamente esboroado, um paradoxo absurdo a esbracejar na lama e na poesia. Não tenho a Renascença a esmagar as pedras com os olhos e falta-me a lonjura gelada das catedrais do medo, inquisidoras negras de veludo roxo e ouro a derrubar de peso, a rastejar fogueiras. Falta-me a velhice das cidades. Falta-me o Tempo.  
Se existisse a noite em NY, seria a noite do mais desgostoso dos sozinhos. Mas a manhã é aberta como a janela de acesso à escada de incêndio. Sento-me nas manhãs e vejo insectos pendurados pelos fios, com patas de camurça e água e perigo. Nas manhãs me deito e nunca durmo e nunca sonho porque no céu há insectos e no chão de NY há excrementos. Há obesos que trituram embrulhos com nódoas que os tornam transparentes e deixam ver os obscenos conteúdos gordurosos. Há mulheres esquálidas e loucas que empurram a vida em carros de alumínio com a ferocidade que está no medo de perder o que não existe. Há a densidade absurda do ruído que serve de humidade, o congestionamento das almas desmanchadas. Há cadáveres de beijos em Central Park e corpos que se estendem à procura deles para os velar ou incendiar com eles as luzes dos barcos a passar sob Bow Bridge. Há o meu corpo, depois, a atravessar desejos dos que erguem outras pontes sobre o lume de fósforos a arder dentro dos dedos.  
A sedução é inútil. NY entrega em cada vão de escada, em cada umbral, em cada pedaço da rua mais estreita, em cada olhar ou gesto, em cada riso aberto ou por fazer e só adivinhado, em cada pedra, fonte, pedaço de corrida em Central Park, em cada elevador, em cada arranha o céu pousado a ondular na relva, o corpo que quisermos. Basta sorrir. Basta que o olhar não se desvie. A sedução não é feita de inteligência. Não tem os labirintos que sempre me atraíram. Seduzir, aqui, não faz sentido, porque só há um sentido a ter em conta. O que se encontra a cada passo dado, o que aponta o nosso corpo desejado, o que nos chega disparado à toa. Sentir à toa.  


Não sou desta cidade. Não a ignoro. Se dela fosse, não tinha a consciência do espaço que me dá, por entre os outros. Não havia a angústia de a ver em mim, a empurrar para dentro as luzes e os ruídos que se cravam nos tijolos de ferrugem e nas almas de metal e de néon. Não sentia, externo a mim, este pulsante vórtice, o turbilhão de rostos, as ondas dos gestos recortados mudos, em orquestra no meu cérebro murado por andamentos escritos por rotas de colcheias. Não esperava a minha irmã no Tartine - et voilà Paris! - e não me deslumbrava por não entender a despaixão, o desenfadado andar desta mulher que afasta a madeixa do cabelo, porque não quer o olhar mais manso e que desconhece o nome da alma das cidades, mas que as ilumina a cada espaço com a labareda insidiosa de um isqueiro. 

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Gavetas:

A Gaffe faz um intervalo

rabiscado pela Gaffe, em 15.08.14

Hoje é dia de partir.

É dia de embalar palavras, de as embrulhar, de as guardar em caixas de papel amarrotado ou de as soltar no ar como se fossem pássaros.

Hoje há um até já pousado no meu ombro a espreitar o fim do que eu escrevo e no entanto suspeito que estou tão habituada a não chegar a nada que parto a toda a hora.

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Gavetas:

A Gaffe a ver navios

rabiscado pela Gaffe, em 05.08.14

O Creoula é um velho bacalhoeiro que já com a sua missão cumprida e pronto para gozar a reforma, foi adoptado pela Marinha Portuguesa e transformado num belíssima embarcação para treino de civis.

Foram assinados protocolos com Instituições de ensino, nomeadamente as universidades portuguesa e espanhola, permitindo que estudantes realizem cursos de Verão com duração variável.

O Creoula, com um priminho a bordo, está atracado desde ontem na Ribeira do Porto.

Um cenário agradabilíssimo, repleto de sol e de sabor a férias. Vale a pena entrar no Creoula e namoriscar com os garbosos marinheiros tisnados e marotos.

Ainda vão a tempo de o ver zarpar, hoje ao fim da manhã!

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A Gaffe a pensar em férias

rabiscado pela Gaffe, em 02.08.14

 

NY, 1958 - Paul Slade

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Gavetas:

A Gaffe na gôndola

rabiscado pela Gaffe, em 08.06.14

Pela 1ª Via, saio do Rialto, labirinto espinhoso, de finas e estreitas ruas quase em penumbra corrompido, esgadanhado em ocre e em laranja enferrujado. Casario encaixado em sombras súbitas onde os riscos de luz parecem prostitutas nos vértices das esquinas.

Saio do Rialto pela 1ª Via e entro no equilíbrio dramático da Piazza di San Marco, diante da boca do Grande Canal.

A luz é doirada e há poalha húmida a pousar nas pedras. A Praça é de murmúrios. A harmonia de fio-de-prumo impede o vozear das gentes.

A minha irmã fala-me da deslumbrante cadência da mescla arquitectónica da Praça. Discute o Simbolismo, o Magmatismo e o Genius Loci e aponta-me as colunas de Nicolo Barattiero, na Piazzetta, erguidas por ordem de Sebastiano Ziani, o Doge de que não sei contar a história e que ela sabe.

Não a ouço.

Vejo-a pela primeira vez a sorrir sem hesitar, dócil numa cidade que a conquista passo a passo. Parece um pássaro na Praça de outra parte e isso agrada-me.

Sentamo-nos numa das pequenas esplanadas da Piazzetta, abrigadas da manhã e do miúdo vento ainda sem corpo, mas que lhe toldaria o cabelo, se não preso. Os olhos pardos engolem a cor das pedras e da água, como se Veneza compulsiva não conseguisse deixar que o seu reflexo ficasse impune no olhar de quem a vê.

Na Piazza di San Marco, numa manhã de cor doirada, a minha irmã sorri, desfaz o lenço que traz ao pescoço e da carteira Kelly, cinzenta quase negra, retira o vermelho sangue do perfume e crava no punho quase o nome dela, Rush. Agora tem Veneza no seu pulso, que a cidade já lhe tomou o resto.

É através desta mulher que eu obedeço à vontade de La Serenissima. Visto Dior em preto, cintado e justo fato de colecção recente e trago gola subida de Cerruti.

Não sofro. É-me indiferente esta vassalagem mansa ao incontornável allure desta cidade. Veneza e a minha irmã, suseranas senhoras da minha vontade.

 

- Ficas muito bonita quando me deixas escolher o que vestes.

- Estou só mascarada. Mas se te agrado, aqui me tens na gôndola do inútil.

Sorri mais uma vez. Mistura os dedos nas pérolas antigas do colar e sussurra demorada:

- As gôndolas inúteis são as que nunca nos atravessam o corpo, minha querida.

Depois afasta-se de mim e aponta com os olhos já de lâmina o homem que deseja e que nos segue desde o início desta manhã na Praça.

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Gavetas:

A Gaffe apaixonada

rabiscado pela Gaffe, em 08.06.14

The only way to care for Venice as she deserves it, is to give her a chance to touch you often – to linger and remain and return.

Henry James

 Em Veneza cresce a pele das folhas recém-nascidas e a candura da água por onde se filtra a luz que vem de fora.

 

A minha vida lateja porque trago o seu coração dentro do peito, intacto, por romper, sem dano ou prejuízo. O seu coração impune em vez do meu, a bater no meu corpo, sem temor.

 

Vou respirar por ti, prometo.

Meu Amor de pele de luz e folhas a nascer.

Fotografia de P. Karie e Chirinos

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Gavetas:

A Gaffe numa frase-feita

rabiscado pela Gaffe, em 07.06.14

A nossa vida é um lugar-comum, uma frase-feita numa praça em Veneza.

A luz do entardecer humedece a cor do meu cabelo e o chão de pedra cinza entra-me nos olhos.

Construímos a vida com os estilhaços da vida dos outros. Sem eles, longe deles, resta uma praça em Veneza e um cliché.

- Posso aiutarla?

Acendem-se os primeiros candeeiros. Se me levantar, caminharei para o centro da Praça e serei previsível. Há vento no azul da Praça e é previsto que o tempo não melhore.

- Posso aiutarla, signorina?

A nossa vida mora dentro das horas dos outros. Sem esse tempo, ficam as garras e a magnitude do perigo que provocamos com a indiferença dos bichos que matam por ser deles a sina de matar.

- Posso aiutarla? - Insiste no vento do azul da Praça que o tempo não melhora. Gostava que se calasse ou ter a minha vida aqui, comigo feita, mas são pedaços que tenho e é dos outros o que comigo trago. Eu tenho dentro apenas o instinto de os unir.

- Posso aiutarla?

Não vale a pena olhar. Aceno com a cabeça e ele vai embora. A mesma Praça, o mesmo hotel e eu sem vida.

 

É previsto que o tempo não melhore.

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Gavetas:

A Gaffe e a cidade

rabiscado pela Gaffe, em 06.06.14

A mulher de cabelo preto e mamas fartas abre a janela e vomita a colcha vermelha com flores bordadas a laranja. Tem lábios escarlate e o peitilho do avental cor de açafrão. Sorri. Vejo-lhe os dentes brancos e a luz dos olhos derrubada no parapeito de pedra.  
Esta é a cidade que traz mulheres fartas, roliças, avultadas, de cabelos negros e lábios ferozes, à solta nas ruas. Exibe-as, como se exibem rosas ou rezas vendidas ou como se delas dependesse o pão que passa quente nas mãos dos rapazes de branco em frente do Palazzo.

Esta é a cidade em que abro os braços. Em que um rapaz me persegue pela tarde e que sorri quando eu o olho e que me foge sempre que sorrio e que me surge depois numa outra rua, de mãos nos bolsos a exibir o impudico olhar esverdeado.

Esta é a cidade onde palmilho ruas e onde em cada rua sou perdida e onde em cada esquina o meu corpo é lavado com a água do olhar garrido das mulheres e a alfazema que é o cheiro dos rapazes, presos por pestanas ao meu dardejar.

Esta é a cidade onde desço a noite pela luz soturna que se beija à toa no vão duma porta.

Esta é a cidade onde uma mulher de cabelo preto, de lábios carmim bordado a laranja e um rapaz que morre abandonado no vão duma porta, vermelho por dentro, nos atiram as colchas das frases dos olhos e nos falam do deslumbramento e da ferida que é saberem-se belos.

 

Mascaramo-nos para ter Veneza aos pés. Somos pequenos príncipes e tímidas princesas e o nosso perfume de rastos pelas ruas engana esta cidade que não sabe que até os vagabundos usam o perfume subtil da ilusão.

Ilustração de Daniel Merriam

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Gavetas:

A Gaffe siderada

rabiscado pela Gaffe, em 06.06.14

A porta que permite acesso ao quarto da minha irmã abre-se com estrondo.

A mulher estala no meu quarto dentro das miseráveis cinco horas da manhã, depois de uma noite que me arrasou o corpo e me esgotou por completo a capacidade de me manter acordada. Traz duas caixas cor de creme com o logo da Cerruti. Atira-as para cima da cama de modo a que me atinjam a cabeça e me despertem com a sensação de ter sido alvo de atentado terrorista. Afasta os pesados cortinados de veludo e deixa que uma luzinha enevoada e baça se permita invadir, sorrateira e tímida, o meu sono desfeito. Senta-se depois na poltrona. Usa um vestido azul negrume que a torna mais esguia. A gola alta laçada valoriza o pescoço quase demasiado alto e o cabelo preso numa arquitectura complexa consente que os olhos pardos descubram os mais subtis cambiantes de cinzas azuladas.

- Está na hora de te preparar. Levanta-te. Quero que vistas o que trago.

Sonolento espanto o meu, sentada num despertar de trombeta e de farrapos.

É cedo demais!

Arranca-me da cama e empurra o meu corpo extenuado.

- Não, minha querida. Veneza tem a cor do ocre envelhecido. É laranja e branca, suja e corroída. Só nas primeiras horas, à luz recém-nascida, tem a cor precisa, anilada e cinza. Tens de ver a cor dos príncipes perfeitos.

Convence-me. Quero ver às cinco da manhã as cinzas aniladas da cidade.

Ergo-me no exacto instante em que a minha irmã desata a abrir as caixas. É-me indiferente o que trás lá dentro. Seja o que for, é aquilo que precisa para compor a imagem de mulher que passa pelas ruas de todas as cidades como se todas as ruas de todas as cidades fossem sempre aquela que passa a vida inteira a atravessar.

Volto molhada com a toalha na cabeça.

- Agora tens de te vestir.

Tento apanhar os jeans. Impede.

Não! Veneza é o lugar mais subtil do mundo. Não é como Paris que nos deixa esvoaçar à toa. Veneza é protegida por leões. Não se vai deixar morrer de amor por ti se tu não fores exacta.

Não entendo.

Tapa-me o espelho do meu quarto, fazendo-o rodar contra a parede.

- Veneza é uma cidade de reflexos e tu serás como ela quer e te deseja. Nenhuma cidade foi tão igual a ti.

 Arranca-me a toalha. Estou molhada, tonta e espantada.  

Enfia-me uma blusa de malha fina azul nocturno, canelada, de gola subida, justa, mangas compridas a ocultar-me as mãos. Empurra-me e obriga-me a vestir uma saia escura, antracite e lanhos de um azul quase imperceptível. É estreita, tubular, exemplar, perfeita. Da segunda caixa retira uns sapatos clássicos, picotados, de couro imaculado, conservadores e preconceituosos. Masculinos.

Deixo-me vestir. Veneza é amante de mascarada onírica. Diverte-me a labuta ensandecida da mulher na ansiosa espera do resultado, que será tonto e desconexo, da união de uma vagabunda a luas de reflexo.

Penteia-me o cabelo ainda molhado. Retoca-me. Maquilha-me. Diverte-me.

Roda depois o espelho sobre o eixo que o sustenta preso ao tripé doirado de barroco.

Na luz difusa da manhã que entra, o que vejo emudece a minha alma pasma. Escura e ruiva e anil esguia, a reflectida é estranha a mim. Não reconheço a figura emoldurada em ouro, demorada de enigmas, de subtilezas e de secretos sinais plena e repleta, anil e preta e ruiva como os caixões das gôndolas. Nada sobrou de mim e assombrada deixo-me levar, muda de espanto, ao perceber que no espelho existe uma criatura que pertence à espécie de que a minha irmã é o exemplar perfeito.

 

Ora, mia cara principessa, La Serenissima... è la nostra.

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Gavetas:

A Gaffe numa canção

rabiscado pela Gaffe, em 05.06.14

Não amo estes amantes de Veneza. Não sei de noivas brancas no rendilhado dos bicos que se arrastam ao som de melodias pagas de antemão. Mas sei dos gondoleiros maliciosos, de fácil compra e troca de favores ou sei de apenas um, que se curvou em vénia desenhada ao meu passar na ponte onde passava a gôndola.


- Bella principessa, non vi piace questo povero uomo?

 

Depois sorri à espera de não ser percebido. Um sorriso à venda já sem venda que sei trocar palavras.

Não amo os amantes de mãos dadas a Veneza.

Percorro as ruelas da cidade e vejo em que em cada vértice de luz as promessas de corpos encostados, mas há a densidade dos azuis das sombras e entra-me na alma a humidade do interior das pedras desoladas.

 

Que c´est triste Venise
Au temps des amours morts
Que c´est triste Venise
Quand on ne s´aime plus

On cherche encore des mots
Mais l´ennui les emporte
On voudrais bien pleurer
Mais on ne le peut plus

Que c´est triste Venise
Lorsque les barcarolles
Ne viennent souligner
Que des silences creux

Et que le cœur se serre
En voyant les gondoles
Abriter le bonheur
Des couples amoureux

 

Não gosto dos casais enamorados que vejo a flutuar nas praças nupciais. Parecem-me saídos de caixas coloridas de cartão. Não entendem a subtil presença da cidade e o esconso perigo das ruas moribundas. Amam-se e basta, como se esse amor afugentasse os sinistros murmúrios das esquinas, os lanhos de luz por entre as pedras ou as retalhadas e frias manhãs dos pátios sem abrigos. Amam-se como se a cidade os protegesse, quando Veneza é uma mulher apenas a trair ou um rapaz com olhos de vitral quebrado. Amam-se como se não houvesse nenhum tiro no escuro, nenhum velho a passar seguido pela morte, nenhuma ponte podre, nenhuma janela aberta como ferida, nenhum tempo passado a corroer as vigas de um Palazzo.

 

Veneza é arma branca, corroída, e não o idílio de um lençol estendido.

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Gavetas:

A Gaffe corroída

rabiscado pela Gaffe, em 05.06.14

Veneza é uma cidade corroída.

A corrupção é muitas vezes obra de um deus cansado ou enfurecido e, quando assim o é, a corrupção seduz as pobres gentes.

La Serenissima invade o imaginário dos ausentes, mas incute também naqueles que a povoam a sanha do sonhado.

Veneza espera que pertençamos ao devaneio das pontes, dos canais, dos ângulos escuros das vielas por onde lâminas de luz são projectadas e das gôndolas negras como caixões de fado.

Veneza é triste como dois amantes que nunca se encontraram, mas que se deitam juntos e que não sabem que o amor é muito mais que o ocre da cidade.

Seduz-se Veneza pelo enigma. Não basta ser um homem nas escadas do Palazzo, é preciso que o homem traga histórias por contar, raras e densas, presas nos olhos ou percebidas no modo como alonga a alma pelas pedras. Veneza exige aos homens narrativas.

Veneza gosta apenas das mulheres.

Foto do meu querido Biskamp

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