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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe dos Recursos Humanos

rabiscado pela Gaffe, em 26.10.16

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Quando ouço falar da Guerra dos Sexos encontro sempre aliada a esta questão o problema da beleza feminina como adversária ou auxiliar importante no campo de batalha. Embora, na realidade, não considere existir um conflito incontornável, assumo que a inteligência é quase sempre indirectamente maculada pelo facto de, por estereótipo, se considerar que uma mulher bonita tem o cérebro mirrado, talvez porque o sangue não o irrigue convenientemente, tão disperso está pelo comprimento das pernas deslumbrantes.

 

A beleza, sobretudo a feminina, é não raras vezes um entrave ao sucesso muitas vezes garantido ao homem sem que este dê provas de qualquer capacidade para o merecer, porque impulsiona e eleva as expectativas depositadas no feminino, colocando a fasquia de tal forma alta que a falha pode ser inevitável.

 

De uma mulher bonita espera-se que prove, com maior grau de exigência, a sua competência, eficácia e inteligência. Parte-se vulgarmente do princípio que a loira platinada, de corpo digno de figurar no catálogo da Vogue, vertiginosamente atraente e ondulante, não pode ter o cérebro povoado a não ser por futilidades e métodos de fisgar um milionário. A loira burra, com todo o seu esplendor e perfeição anatómica, é quase sempre objectificada, considerada um troféu ganho pelo macho ou, na melhor das hipóteses, a protegida do Presidente. Terá de dobrar o seu esforço para solidificar o lugar que ocupa e provar que pensa.

Parte deficitária.

 

Para ilustrar o dito - e reconhecendo que a juventude/velhice são premissas de importância capital  no conceito actual, e ocidental, de beleza - recorramos a duas ilustres senhoras de um tempo já ido para não melindrar ninguém:

De Carla Bruni não se esperava nada, a não ser que subisse os degraus do jacto privado com os rasos sapatinhos Prada, que miasse de quando em vez e que cruzasse os pezinhos como bailarina bem comportada na presença de Sua Majestade Isabel a segunda. Embora seja evidente a inteligência astuta e poderosa da modelo, terá de se esfolar dolorosamente ou apresentar ao mundo um renovador tratado de filosofia política para se tornar credível. De Manuela Ferreira Leite não nos espantamos que tropece na subida, sapatos pelo ar e saiote desfraldado, com todos os tratados comunitários e estudos económicos agarrados aos dentes, porque a inteligência não colide com a beleza e portanto não nos permitimos duvidar da sapiência da ilustríssima senhora.

 

Evidentemente que se pode e deve contornar este percalço estereotipado.

Uma mulher inteligente jamais abdicará do facto de ser considerada bonita. Usa-o.

 

Os homens podem desbravar caminho abdicando dos seus princípios ou de irrepreensíveis comportamentos éticos. O Presidente Executivo da Empresa pode ter sido um sacana, um pulha e um patife ou ter bebidos uns copos com as pessoas certas no seu percurso até à liderança e ser reconhecido pelos pares como aquela criatura invulgarmente inteligente que soube atingir o topo à custa de muitas feridas que lhe ensanguentaram as mãos. A Presidente Executiva da Empresa se for ao mesmo tempo um modelo de Dior é, muitas vezes, a cabra que dormiu com toda a gente.

 

Partindo deste pressuposto, a mulher inteligente reconhece que a Beleza não pode ser asfixiada em nome de um estereótipo com origem no entendimento masculino do universo. Usa - e tem obrigação de o fazer - o fascínio que é capaz de produzir com a mesma eficácia com que os homens se esventram com um Power Point elaboradíssimo que aniquila a concorrência.

 

A beleza feminina é uma arma poderosíssima ao serviço da inteligência. Ninguém mentalmente saudável  inutiliza, ou despreza como reprováveis, os dados favoráveis que possui e com que pode jogar na vida.

Se o vislumbre do soutien que protege a beleza insuperável consegue defender aquilo que consideramos justo bem melhor do que a catrefa inútil de gráficos coloridos que serão ignorados por completo, que se prenda então a papelada imprescindível à renda de uma alça.

 

Ganhamos nós, mulheres, e ganha a Empresa.

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A Gaffe dos genes

rabiscado pela Gaffe, em 21.10.16

F. Vicente.jpgGrande parte do poder de sedução de uma mulher, das ciladas que ergue em redor da vítima, do irreversível precipício no seu corpo, não está na importância, mas exactamente na pouca importância que atribui às coisas.

 

Um zoólogo que por aqui passou e deixou na Gaffe tenazes e animalescas recordações falou-lhe - não sei se lhe mentiu, mas se o fez foi por causa forte, - no erro genético que produziu as panteras de cor negra.
Não são de modo nenhum uniformes, da cor da noite por inteiro, e as manchas, essas mais negras ainda do que resto, são visíveis nos seus corpos maleáveis e esguios se lhes dedicarmos atenção e lhes respeitarmos o perigo. 
A genética que lhes apagou erradamente a cor ocre fez do animal um dos mais perigosos do reino.


A Gaffe suspeita que a mesma genética que apagou o ouro dos felinos, dissolveu nas mulheres a capacidade de atribuir demasiada importância aos homens que desejam ou àqueles que querem caçar, transformando-as em gatinhas mornas e preguiçosas que aguardam que a presa fique ao alcance das garras e que esperam que seja impossível deixar de acariciar.


E como gatas que somos damos pouca importância à durabilidade das coisas.

 

Ilustração - F. Vicente

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A Gaffe loira

rabiscado pela Gaffe, em 21.09.16
 

O estereótipo da loira burra, que terá o seu paradigma nas fantásticas encarnações cinematográficas de Marilyn Monroe, é a origem de imensas anedotas, na esmagadora maioria banais e sem grandes ambições.

 

É lamentável.

 

A loira burra, quando não roça o boçal ou o alarve, encaixada em qualquer casa que se deveria manter definitivamente entaipada e em segredo, é uma das mais encantadoras criaturas de que há memória.

A indiferença abissal com que olha o universo e a sua ingenuidade, terna e desprotegida, aliada à suposta ignorância que faz recair sobre aquilo que os outros, por desígnios divinos, consideram essencial conhecer ou saber, torna-a deliciosa e capaz de enfrentar os olhares engavetados e espartilhados, que a amesquinham e ridicularizam, com a superioridade indiferente e a indiferença superior que são atributos apenas dos sábios e dos loucos.

 

Subestima-se a loira burra.  

 

Não há nada mais delicioso do que a ver, por exemplo, chegar esbaforida e revolta ao hall do hotel, no Nilo, gritando que está a ser perseguida por um Lacoste ou ouvi-la declarar surpreendida que, naquela exótica paragem, viu o guia enfiar-se, durante a tarde escaldante, dentro de um saco cama da mesma marca.

 

Esta perversa inocência é muitas vezes ignorada no comportamento desta adorável figura. Valoriza-se a sua suposta estupidez e a sua abismal ignorância, fazendo-se por esquecer que, nesta inconsciência tão depreciada, existe uma miríade de pequenos mundos onde apenas alguns, dos mais libertos e arejados, conseguem vislumbrar condignamente.

Divertem-se juntos.

 

Para mal dos meus pecados, sou uma ruiva.

 

Ilustração - Redmer Hoekstra

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Gavetas:

A Gaffe garbosa

rabiscado pela Gaffe, em 22.07.16

There are many things in your heart you can never tell another person. They are you, your private joys and sorrows, and you can never tell them. You cheapen yourself, the inside of yourself, when you tell them.

Greta Garbo

 

Li há muito pouco tempo uma espécie de biografia de Greta Garbo.

Digo espécie porque é idiota pensar que alguém pode entender o que foi esta mulher e descrever com alguma exactidão o seu percurso, as suas vivências e aquela modalidade de Fado distante e gelado que sempre a acompanhou.

 

O interessante é que a dada altura é narrado o episódio em que a actriz revela um dos seus segredos. Em Ninotchka, de 1939, dirigida por Ernst Lubitsch, Garbo não consegue a expressão que o realizador exige para determinada cena. Repete-se até à exaustão o take e a actriz reconhece que não é capaz de reproduzir no rosto aquilo que Lubitsch acha necessário. Nenhuma expressão é a exacta.

Garbo desiste e decide não fazer qualquer expressão. Nenhum músculo se move. O rosto permanece imóvel, impávido, isento de qualquer poeira de emoção ou reprodução de sentimento e é então encontrado o registo certo. Parece que Lubitsch teve um orgasmo - não documentado.

 

Isto é fascinante. O rosto impávido de Garbo torna-se máscara onde é possível inscrever todas as emoções que transportamos e serve, como um espelho, cada uma das miríades de partículas de ausência, falha, perda, privação ou carência latente em cada um de nós.

Garbo é um Mito também por isto. Por se ter tornado o rosto que a alma que cada um de nós quer ver ao espelho.

 

Olho para Garbo e lembro-me da história que contavam.

 

O segredo do rosto de Garbo é - talvez seja, - simplesmente o facto dele, rosto, residir na plataforma das máscaras e como tal poder ser lido através de projecções.

 

Olhar para o seu rosto, sobretudo quando silencioso, é desbravar as infinitas possibilidades da dignidade e da dimensão humana.

 

A tentação da máscara - a máscara antiga, por exemplo - implica talvez não tanto o tema do oculto - caso das mascarilhas italianas, - como o de um arquétipo do rosto humano. Garbo dava a ver uma espécie de ideia platónica da criatura e é isso que explica que o seu rosto seja quase assexuado, sem todavia ser ambíguo.

 

O rosto de Garbo é a encarnação da Ideia.

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A Gaffe inquisitorial

rabiscado pela Gaffe, em 19.07.16

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Este é o calor de Espanha Inquisitorial.

 

Brota do chão o sol como das ânforas. Erguido a pique trepa sequioso à fronteira da água, ao bordo das paredes, para sulcar no curvar do espaço a mais pequena folha do loureiro. 

A poeira extenuada quieta abrasa. A cal escalda branca só de sede e aos degraus das horas trepam cães perdidos.

O lacrau na cal. A carne em carne-viva dos morangos. O lanho das laranjas labaredas.

As agulhas do sol picam os pássaros parados na água extenuada, quente, com peixes apunhalados pela luz de ferro que se espetou no corpo em cicatriz de espera.

O sol de Espanha dos inquisidores uiva à meia-noite.

 

Calor que arrasta mulheres antigas por pátios de laranja quente. Mulheres de Espanha e de veludos negros, veladas por mantilhas, tapadas pelo ouro dos massacres. Mulheres de rendas pretas e pesadas de olhos atados a incêndios. Cegas, lume a lume, lança a lança, atravessadas pela adaga das cruzes de marfim. Mulheres de sevilhana nas asas do cabelo a arder de seda contra a sombra, a entrançar nos dedos orações. Dedos fechados nas crinas do erotismo do sol erguido a prumo.

Mulheres deitadas na pele do Cristo nu. De punhos cerrados e almas sem penumbra a espiar a sombra dos sussurros.  

.
Voy a cerrar los ojos y tapear los oidos
Y verter outro mar sobre mis redes
Y enderezar un pino imaginário
Y desatar un viento que me arrastre 

 

O Calor é sempre inquisitorial.

 

Imagem - Carlo DolciMadonna (detalhe)

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Gavetas:

A Gaffe e uma jóia

rabiscado pela Gaffe, em 07.07.16

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Há alguns anos, vi e ouvi pasmada e rendida a gravação de um concerto de Carlos Paredes e de Luísa Amaro.

 

Sei que este cantinho não é o lugar para lamentar o facto de nos países pobres, e nos pobres países, o entorpecimento total em relação aos talentos que os povoaram se ter tornado uma constante só quebrada se causar proveito aos que os dominam.

Sendo este um cantinho de uma rapariga fútil, avesso a discussões incomodativas, pousemos os olhos, em consequência, num elemento cenográfico - creio que o único - do concerto.

Com uma iluminação perfeita e minimal, no pescoço vestido de negro de Luísa Amaro, chispava um belíssimo, largo e denso colar de diamantes. O resto era escuro. A guitarra de Paredes contracenava com o cintilar do adereço, sobrepondo-se ao seu fabuloso fulgor gelado.

 

Lembrei-me deste cenário, quando dei comigo avassalada por uma enormíssima quantidade de fotos do objecto da imagem que invadem a net e sobretudo os blogs da especialidade.

Não nego a possibilidade de o considerar um belíssimo adereço, mas recordo de imediato o colar de Luísa Amaro submetido e domado pelos sons das guitarras e da virtuosidade do mestre e percebo que, para transportar um objecto com o poder, a força, o peso e a carga que este - mas sobretudo o de Luísa Amaro - possui, não basta um cenário negro. É necessário que o saibamos fazer esquecer, diluído no pescoço de uma maior e mais impalpável autoridade.

 

Fiquemo-nos portanto pela tripla e discreta fiada de pérolas oferecida pela avó.

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A Gaffe sem glamour

rabiscado pela Gaffe, em 06.05.16

 

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Há mulheres que só com o perfume nos humilham. Provocam-nos um colapso nervoso ou desencadeiam uma depressão profunda quando passam por nós, que somos raparigas espertas, mas sem uns trocos jeitosos na carteira para poder lavar a alma com umas compras muito Jackie O.


Normalmente olham para nós como se tivessemos obrigação de lhe ter lido o CV antes de lhe fazer a vénia.


O que mais impressiona não é a maquilhagem. Uma mulher elegante deve parecer que não usa desde a adolescência tola um pingo de make-up  - sejamos internacionais, - um pincel de sombrear os olhos ou um bâton, mesmo daqueles que nos fazem empenhar o apartamento para os comprar, e no entanto estar empapada em blush e encharcada em rímel, com a balança em desequilíbrio por causa do peso do eyeliner.

 

Também não causa grande intriga o tailleur ou o colar, ambos verdadeiras jóias e ambos de arrasar o ordenado de uma miúda banal, mesmo daquelas que se estafam no trabalho. Uma mulher elegante pode ter a veleidade de empenhar seja o que for em nome de Dior.


O que causa espécie, como diria a minha avó, são as meias e os sapatos!

 

Há mulheres com pernas magníficas! Duas esculturas que quase lhes chegam à garganta e que terminam, nos lados que ficam perto do chão  - digo perto porque mulheres daquelas só flutuam - nuns sapatos pretos simples, bastante fechados, com uns tacões agulha, do tipo usado nas urgências para espetar adrenalina no coração dos mortos.
Fica uma rapariga a pensar que daria tudo, era capaz até de emprestar o homem dos seus sonhos, por ter um par igual. Não de sapatos, mas de pernas. Depois, já com mais calma, a rapariga simples repensa o caso e acaba por concluir que, e para aquilo funcionar sem gastar muito, teria de andar de gatas pelas lojas das meias, à procura de um par mais baratito e pedir à Nossa Senhora de Fátima  - padroeira dos equilíbrios, sobretudo em cima de oliveiras - ajuda para se poder manter segura naquelas duas torres gémeas, pretas de verniz.

 

A elegância genuína é cara. Não é contraditória a afirmação. É complementar.


Podemos nascer de diadema, com um allure de arrasar parola, snifar diamantes e espirrar caviar ou ter o charme indiscutivelmente francês de Jackie O, mas se não formos amantes dos Onassis ou de família que reine em qualquer lado, acabamos cheias de olheiras, a trabalhar à bruta e à maluca, para poder no fim do mês comprar umas chanatas - chiques, mas chanatas mesmo assim - e largar as meias que mais se parecem com arraiais minhotos de tantos foguetes.


Sejamos felizes, portanto! Há mulheres elegantes que só têm o érrima porque têm carteira.

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A Gaffe e a mãe dele

rabiscado pela Gaffe, em 05.05.16

Um dos maiores perigos que uma rapariga esperta corre, inicia-se quando o rapagão que pensava descartável lhe anuncia que gostaria de a apresentar à sua santa mãe.

O cérebro faz disparar o alerta vermelho, fazendo-a ouvir as sirenes das cooperações de bombeiros de todas as periferias e as cornetas dos regimentos e das fanfarras da União Europeia.

 

- Vais ver. A minha mãe é uma óptima companhia!

 

Uma iguana é melhor companhia do que a mãe dele. Aliás, se pensarmos bem, tudo o que termina em ana  - como ratazana, princesa Diana ou mesmo, com algum esforço, o Dolce e o Gabanna - é preferível a ter como parceira esta santa idolatrada.

 

- Vais ver. A minha mãe tem um excelente gosto!

 

Se já não conseguíamos entrar na Bershka com receio de sairmos com os tímpanos desfeitos e transformadas em trapos iguais ao que nos impingem lá dentro, agora, sendo a senhora surda, seremos arrastadas para um vórtice de decibéis inimagináveis somando ao catrapum-pum-pum-catrapum-pum-pum da loja, os gritos das empregadas que tentam dizer-lhe o preço das peças muito giras que restaram dos saldos.

A mãe dele não vai nunca entender, com preços tão em conta em peças tão modernas, porque é que olhamos de soslaio a montra, mesmo em frente, onde resplandece um casaco Galliano, extravagante, exuberante, extraordinário e com um preço a merecer os mesmo adjectivos, embora tentemos desesperadamente fazer-lhe entender que o costureiro é tão querido como ela, sobretudo bêbado e posto a falar num café qualquer de Paris.  

 

- Vais ver. A minha mãe vai ensinar-te a receita do cozido à portuguesa que é do outro mundo quando sai das mãos dela!

 

Este é o instante em que sabemos, sem a menor réstia de incerteza, que a partir dali, o homem, se o aguentarmos depois deste deslize, jamais enfardará cozido à portuguesa ao nosso lado. Se sentir saudades deste exemplar gastronómico, sabe onde o procurar: no outro mundo, ou seja, em casa da mãe dele.

 

- Vais ver. A minha mãe é uma mulher muito aberta! Vai adorar-te.

 

Embora parte do dito mereça o nosso acordo - a referência à abertura da senhora não é metáfora, porque a idade não perdoa e faz aumentar a tendência para se abrir, ou para dificultar fechar, tudo o que deveria permanecer discreto, como a boca, -  vai adorar-te sugere não ser má ideia sermos acompanhadas por um exorcista. Não nos podemos esquecer que há mulheres que mesmo depois de dobrada a menopausa, continuam a viver como se todos os dias fossem os dias difíceis. Normalmente gostam de vampiros.  

 

- Vais ver. A minha mãe tem um sentido de humor fabuloso.

 

 Esta tenta proteger-nos. É amoroso da parte do rapaz que admite, com o mais disfarçado dos receios, ouvir a mãe calcinar as nossas irrisórias idiossincrasias com alusões subtis à toxicodependência, ao tráfico de órgãos e aos comunistas.

 

Não temos hipóteses, raparigas. A mãe dele jamais será a nossa avó - embora nos pareça sempre ter idade para isso.

 

Nesta figura com estilo, existe um único consolo: possibilita-nos, sempre que o homem nos contradiz, nos contraria, nos irrita, nos resiste, nos abespinha, nos aborrece e nos refuta, não baixa a tampa da sanita ou nos diz que o sushi que lhe preparamos sabe a pastilha de Xau para máquina de lavar loiça e se parece com uma, podermos pensar em surdina:

 

A culpa é da mãe dele.  

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A Gaffe de soutien

rabiscado pela Gaffe, em 02.05.16

A Gaffe foi comprar lingerie e saiu esbaforida, furiosa, desgrenhada e capaz de estrangular com o fio dental que lhe foi mostrado a menina do sorriso cor-de-rosa que a atendeu e a informou os únicos soutiens que pululavam por ali partiam da copa 38. Encontrar os dignos de tocar nas suas maminhas que cabem perfeitas, como os corações do poema de O’Neill, nas palmas das mãos de um valente rapagão, foi tarefa inglória.  

   

É certo e sabido que uma rapariga com um par de maminhas de proporções avantajadas tem um péssimo gosto em relação a sapatos. Não conseguindo ver os pés em condições as escolhas do calçado não são as mais perfeitas.

As divas dos anos 40 e 50, com os seus soutiens de barbas de baleia espetados e ameaçadores, não contam, porque o corrupio dos aderecistas seleccionava o que as estrelas podiam calçar evitando a pata-choca e os grandes planos do rosto da divina Garbo impediam que percebêssemos as parcas dimensões das suas maminhas ou que soubéssemos que Rainha Cristina ou Ninotchka foram filmados com a belíssima actriz de chinelos de quarto a arrastar, contradizendo o postulado anterior.

 

As maminhas são duas peças essenciais na engrenagem publicitária - são-no noutras engrenagens, mas sejamos controladas. Quem tem maminhas significativas, ou seja, do tamanho de melões de Almeirim cultivados em estufa, aparece em excelente forma física na capa de qualquer revista cor-de-rosa. Quem não as tem é porque não pede, porque, como toda a gente sabe, quem não pede, não mama.

 

Uma rapariga desunha-se por um par das ditas capaz de fazer figura num concurso da TVI apresentado pela Teresa Guilherme ou numa qualquer geringonça da concorrência que normalmente catapulta a dona para outros voos mais chorudos e com mais presenças.

Se a mãe natureza foi madrasta, deus é pai, mesmo que deus tenha nestes casos de vestir uma bata cirúrgica e desatar a rabiscar com um marcador a plana estepe do peito desejoso de montanhas.

É curioso ver a quantidade de raparigas - e uma enormíssima percentagem de homens, alguns nem sempre pelos motivos óbvios - que lutam por um par de maminhas XXL para depois o apertar, esmagar, espartilhar, exibir, esconder, cobrir, atirar à cara dos transeuntes mais desprevenidos, esmagar com soutiens exíguos, desvendar, velar, transformar em aríete, arremessar ao ex que nunca o viu tão agressivo ou fazer passarinhar, bamboleando, pelas ruas da amargura das rivais mais comedidas.

Parece não haver nada tão atraente como duas esferas imensas, parecidas com a famosa bola .NIVEA. das nossas férias vintage, onde se apensa o resto de uma rapariga.

 

Esta ambição mamária descontrolada acaba por fazer esquecer a gravidade. Deixamos de ter a noção de que existe o chão - daí o erro nos sapatos, - e de perceber que o tempo é cúmplice desta força maldita. Vamos envelhecendo com dois mamutes presos ao peito sem entender que a nossa vida sexual vai ficando limitada. Não conseguimos encontrar o paraíso sem ser deitadas num… espírito de missão, porque, se arriscamos outras modalidades, nos cai tudo, tudo nos é puxado para baixo, asfixiando o pobre que sob nós se afoga em dois pesados assuntos pendentes e não adianta recorrer a firmezas oriundas de bisturis, de preenchimentos ou de infiltrações, o peso do resto fará com que fiquemos parecidas com dois abcessos que cresceram numa casca de carvalho encarquilhado.

 

Rapazes, é tempo de reconhecerem que a ecologia mamária é velejadora do Green Peace ou temo que nós, raparigas average, comecemos também a desejar ver inflacionadas as vossas rubricas mais pendentes. 

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A Gaffe a voar

rabiscado pela Gaffe, em 27.04.16

Todas as mulheres são pássaros.

Nem todas capazes de voos profundos ou de longo curso, mas todas com capacidade para escapar abrindo as asas.

O ditado que refere que mais vale um pássaro na mão do que dois em pleno voo, esquece, por ser apertado pelas margens do estereótipo, que há mulheres que voam parecendo estar presas nas mãos de quem as aperta.

Nem todos os homens sabem disso.

 

Imagem - Hiro (Getty Museum)

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A Gaffe feminina

rabiscado pela Gaffe, em 18.04.16

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O facto de me tentarem exigir um esforço adicional para atingir determinadas metas, de subtilmente procurarem provas do meu mérito ou atribuírem os louros que esporadicamente recolho ao facto de ser mulher, deixa-me descaradamente insensível ou é olhado com relativo humor.

 

Na mesma linha, os meus fracassos são observados com lupa e as hipérboles surgem constantes - embora não haja dano, porque ninguém como eu para empolar as minhas lamentáveis falhas.

 

Tudo, porque sou feminina.

 

Ser-se feminina ao contrário do pensado, pode não ser vantagem séria. O facto de se ser mulher serve muitas vezes de desculpa e de álibi ao fracasso do macho e há sempre a possibilidade de encontrar no caminho a irónica exigência de apresentação de capacidades acrescidas para reter o que é nosso, por direito ou por esforço, mas que é visto sempre atenuado ou esbatido, visto como sucedâneo muito provável daquilo que somos fisicamente.

 

Nunca tal me fez agitar mais do que o devido.

Nunca permiti que me exigissem fosse o que fosse para além daquilo que forçoso seria de esperar.

 

O estratagema usado pelos meus rapagões, rivais na profissão, apenas me desperta a consciência do corpo e, se o ser feminina é uma poderosa arma - de que me esqueço nos campos de batalha onde pensar é ordem de serviço, - quem a dispara é sempre o acusador.

 

Às vezes, possuir a arma da feminilidade não significa necessariamente que a usemos, mas é provável que o façamos no meio de sacanas, quando o inimigo nos lembra que ela existe.

 

Na foto - Virna Lisi

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A Gaffe até aos tornozelos

rabiscado pela Gaffe, em 30.03.16

É de importância capital o que nós raparigas fazemos com as pernas.

Esquecemos frequentemente que são, por muito incompreensível que para nós seja, uma das armas que dispomos para reforçar vitórias.

São punhais, são serpentes e são rios por onde poetas e flaneurs fazem desfilar todas as palavras, traçando todas as rotas, deixando-se ferir por doces lâminas de carne e envenenar pelo néctar suave que desliza invisível rumo aos tornozelos.

As nossas pernas, minhas caras, são muito mais do que dois instrumentos que nos levam simples e directamente do ponto A para o ponto B. Neste percurso, cabem labirintos e o erro de os ignorar ou desbravar pode atingir-nos de forma fatal fazendo-nos perder dois magníficos trunfos.

 

No jogo, os homens conquistam usando artimanhas tontas, acreditando que o poder de uma gravata Gucci ou de um Armani perfeito, os torna eficazes. A guerra pelo poder no masculino é feita sobretudo com homens vestidos. A nudez masculina, quando usada na guerrilha, jamais acorrentará uma vitória ao tempo. Os homens lutam vestidos e nem sempre é segura a almejada conquista. As mulheres podem - devem - usar todos os recursos que um machismo idiota lhe entregou de mão beijada.

As pernas de uma mulher - mesmo quando vagamente cobertas por redes de seda - são, nos campos das batalhas pelo poder, dois dos mais possantes e incompreensíveis mísseis de que há memória. Sempre detectados pelos radares, mas nunca recusados pelo inimigo.

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Gavetas:

A Gaffe vaidosa

rabiscado pela Gaffe, em 24.03.16

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Uma rapariga pode saber que é, nos olhos de quem a ama, a mais esplendorosa das deusas do Olimpo, mas quase sempre requer uma segunda opinião.

 

Este pequeno defeito, esta minúscula incerteza, esta dúvida constante, esta necessidade de afirmação e de segurança, confunde-se largas e amiúdes vezes com Vaidade exacerbada.


- Não passam de fenomenais vaidades! – Murmuram tristes, com olhos quase resignados.  


Mas o que é a vaidade senão o tique das mulheres que temem a sua própria nudez?

 

Ilustração - Frederic Varady

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A Gaffe femininista

rabiscado pela Gaffe, em 08.03.16

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O desprezo votado por alguma imprensa misógina obrigou o feminismo a ser relegado como emanação ultrapassada e retrógrada de um passado fantoche em que se queimavam soutiens e se exigia o direito de voto para as pobres criaturas a quem só muito recentemente a Igreja Santa reconheceu possuírem alma.

A reinvenção e a reestruturação de um universo menos patriarcal, em que se verifique uma organização de comunidades, sistemas políticos, espirituais, sociais e societais, são absolutamente necessárias.

A visão hierárquica masculina e os seus consequentes sistemas de organização esmagadoramente patriarcais, entraram em colapso e, por muito que se apele ao que de feminino o homem retém, serão as mulheres a adquirir as competências, as capacidades e as aptidões, para de forma vigorosa encetarem a mudança.

 

São as mulheres a derradeira esperança. O grande recurso intocado do mundo, a metade da população que pode reformular a equação humana.

 

Rapazes, saiam da frente.

 

Ilustração - Jon Whitcomb

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Gavetas:

A Gaffe paradisíaca

rabiscado pela Gaffe, em 05.03.16

 

Chega até mim, pela mão daquele que em segredo me agrada ousar pensar ser o meu secreto admirador, uma espécie de fim-de-semana repleto de paraísos.
Tenho de verificar se todos usam as jóias certas, que não sendo as britânicas, me ficam bem se as colocar no corpo.


Não é fácil pesquisar nos relances destes corpos, pecados comprometidos com o paraíso, mas há sempre indícios e pistas e rastos de um suor estranho, de um discreto arranhão, de um olhar suspeito e de um perfume a pousar no corpo errado.
Sou perspicaz e muito atenta a todos os sinais de brilhos escondidos e, confesso, agradam-me sempre estas procuras, porque são morosas, meticulosas, lentas e sobretudo porque me dão prazer. Um prazer medonho que alaga as velas e desfaz as ondas.
Procuro. Merece sempre a pena sermos aprendizes.
Há ensinamentos que são como a maçã: trazem a serpente como cúmplice e um paraíso que se oferece ao nosso.

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