Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no lado sinistro do Natal

rabiscado pela Gaffe, em 22.12.14

Natal.jpgO mais assustador da época de Natal não é a visita dos vizinhos que custe o que custar acham por bem vir desejar-nos Boas Festas, mesmo quando não sabiamos que o pecado morava ao lado. São uns queridos, embora nos façam duvidar se é aconselhável trazer com eles o cão e as crianças. O que arrepia é a quantidade vezes que a Gaffe lê e ouve:

- Um desfile de Pais Natal nus em solidariedade com a TAP;

- Concentração de Pais Natal junto à cadeia de Évora;

- Manifestação de Pais Natal em protesto contra a exploração das renas;

- … Pais Natal por todo o lado.

Meus queridos, Pais Natal não existe, pese embora o que nos é dado deles ler na televisão.

O único Pai Natal admissível é o velhote simpático e bonacheirão que pertence ao imaginário infantil com a bênção da Coca-Cola. Pais Natal é apenas o que se poderá chamar uma calinada do arco-da-velha. Se nos referimos aos aglomerados de rapazes enfiados numa fatiota vermelha de fibra ranhosa, comprada numa loja chinesa, com pedaços de algodão a descolar na cara e barrete de forcado, convém chamar-lhes pais natais e sobretudo não esbardalhar cópias nas janelas.    

Uma das mais arrepiantes imagens do Natal é esta última. Pais natais que se cravam nas varandas como se tivessem sido cuspidos do trenó numa curva mais apertada e estatelado contra os ferros forjados das nossas noites de Inverno, ou então versões do Chucky que procuram assolar os nossos sonhos natalícios durante semanas a fio. São pais natais secos, mirrados, desossados e torcidos, anões que oscilam ao vento e pingam encharcados numa eterna incapacidade de dobrar o parapeito. Não são bonitos, arrepiam e assustam. São substituídos, às vezes, por quadrados de pano vermelho com o Menino Jesus estampado. É igualmente sinistro, mas pelo menos deixamos de nos sentir assustadas sabendo que há uma coisa antropomórfica a tentar entrar no nosso quarto.

Pendurar na varanda um bacalhau seria igualmente imbecil, mas preferível. Teríamos um demolhar mais ecológico.

Outro apontamento a repensar nesta época é a mania de se atirar com um único fio raquítico de luzinhas de Natal para cima de uma árvore digna e frondosa e pensar que ficou gira. A pobre acaba a parecer que usa fio dental comprado numa qualquer sex-shop manhosa. O crime só tem compincha quando se preenche o arbusto da entrada com a colecção completa de luzinhas dos OVNIS que o dono da casa costuma avistar. É um piscar incessante e nervoso capaz de provocar ataques epilépticos a qualquer transeunte menos prevenido e absolutamente stressante para a ramagem que não vê chegar o fim da tortura, porque existem ainda os escuteiros.

Os presépios dos escuteiros crescem desalmadamente. Qualquer jardinzito público viçoso é pasto para estas criaturas capazes de transformar nesta época um relvado bem tratado numa pasta empapada e enlameada onde enterram muitos paus, com muitos nós e muita tela, muitos troncos, muita palha e muita corda. O presépio fica sempre parecido com uma tenda dos Sioux depois de uma carga de pioneiros americanos e o jardim com as hostes de Custer após a tareia de Touro Sentado. É aconselhável que durante o Natal não se permita que estes rapazes saiam dos bosques onde vão acender lareiras e cozinhar coisas simples. Em alternativa poderemos sempre obrigá-los a cantar o Jingle bells enfiados na neve até que os bells deles deixem de tocar.

A estes pequenos contratempos natalícios, a Gaffe acrescenta que, cedo ou tarde, se vai esbardalhar contra os miúdos do coro de Santo Amaro de Oeiras

 

A toooodos um bom NataaaaAAAAALLLL

A toooodos um bom NataaaaaAAAaaaL

 

mas acredita que, depois de ter enfrentado o referido, os encarará com uma atitude já muito Lexotan.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe acredita

rabiscado pela Gaffe, em 18.12.14

today.jpgPorque o dia começa a tremer de frio; porque o nosso pijama tem laços de miosótis bordados na gola; porque há pão com manteiga e chá quente na mesa do pequeno-almoço; porque podemos ouvir Frank Sinatra e I’ll be home for Christmas; porque o cão se sentou ao nosso lado e adormeceu encostado às nossas pernas; porque na jarra de vidro fosco há azevinho; porque uma bola de vidro tombou da árvore de Natal e rolou até parar aos nossos pés; porque o ar nos cheira a fresco como se tivesse sido lavado com um sabonete antigo; porque nos apetecia que nevasse, mas sabemos que tomba do céu o silêncio matinal das ruas; porque a manta de lã da Covilhã adormeceu amarrotada no sofá da véspera; porque sentimos que tudo nos fala de azul, enquanto lá fora a rua começa a misturar as cores; porque o gato na janela da frente nos olha sonolento com a placidez dos monarcas; porque as coisas mais pequenas são aquelas que nos tornam gente grande.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe estrelada

rabiscado pela Gaffe, em 16.12.14

Salvo raríssimas excepções, uma rapariga esperta jamais interage com material capaz de lhe dar um choque.

A Gaffe desconhece o nome destes aparelhos e sabe que jamais conseguiria encaixar com tanta perícia uma lâmpada nos objectos que necessitam de fios coloridos para funcionar, mas depreende que para os rapazes que gostam de bricolage este piscar equivale a uma avenida inteira de luzinhas e transforma-os no orgulho da família mais chegada.

2.jpg

4.jpg5.jpg

3.jpg

6.jpg

 photo 1_zpsegzcatsj.gif

7.jpg

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe dos esquecidos

rabiscado pela Gaffe, em 12.12.14

4.jpg5.jpg

1.jpg

2.jpg

3.jpg

 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe preocupada

rabiscado pela Gaffe, em 04.12.14

Santa.jpg

 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe autorizada

rabiscado pela Gaffe, em 03.12.14

Casa Cartier.jpgSe a Maison Cartier já nos aparece neste estado, podemos então esbardalhar por todos os lados todas as luzinhas de Natal que nos aprouver sem deixarmos de ser BCBJ.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe da árvore de Natal

rabiscado pela Gaffe, em 02.12.14

São amorosas as propostas de árvores de Natal que surgem por tudo quanto é lado!

Elas são de tábuas, de vidros, de canudos de papel higiénico, de novelos de lã, de garrafas vazias de whisky (neste caso é compreensível o desarranjo), de papelinhos, de luzinhas suspensas, de retratos de família, de rolhas, de espuma, de embalagens de gel de banho, de livros coloridos, de cestos de fruta, de pauzinhos secos, de peluches e de tudo o que nos queiramos lembrar.

Um universo de criatividade sempre disponível no Natal.

Normalmente é um aborrecimento reproduzir na sala estas propostas. Nunca ficam tão radiosas como as das fotografias e enchemos os dedos de cola que custa imenso a sair e dificulta o trabalho à manicure. Quem não for talhado para a bricolage é brindado com um pesadelo natalício.

Meus caros, aquilo que nos mata de trabalho deve vir já feito. É por alguma razão que os chineses vendem árvores de plástico já decoradas!

É uma maçada desatarmos a recolher coisinhas para construir o que se pode perfeitamente comprar já completo num armazém qualquer. Poupamos imenso tempo que depois podemos gastar a escolher os presentes.

As árvores de Natal originais, muito recicladas, muito in, que a nossa vontade de inovação apanha fotografadas, são como os cigarros que se preparam a uma esquina deprimente da vida. Existem já prontos, empacotados, matam da mesma forma, só que são mais baratos.

Uma árvore de Natal tem de ser o tradicional e gigantesco trambolho verde vestido de luzinhas, bolinhas, fitinhas, estrelinhas, anjinhos e tralha a brilhar, capaz de fazer tropeçar a travessa das rabanadas que se esqueceu que o gigantone se tinha erguido há uns dias pelas mãos calejadas do Natal das nossas memórias.      

A árvore de Natal tem de ser verde, gorda, farfalhuda, grande, maternal, profusamente enfeitada com insignificâncias que cintilam, quente, refulgente, envelhecida e ficar espapaçada na sala a ocupar o lugar da poltrona da avó.

O resto é mariquice, mas se não concordam comigo, meus queridos, podem sempre experimentar a proposta que vos deixo.

árvore de Natal.jpgFoto de Geof Kern

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe e um Natal escuro

rabiscado pela Gaffe, em 26.12.13

Dentro dos olhos fechados ardem luzes.

As luzes que as mulheres de luto teimam em pendurar na árvore, porque é Natal fora dos seus olhos.

É Natal nas árvores, nas balaustradas, nas coroas de azevinho que cresceu desenfreado e tem de ser cortado para que sem freio cresça uma outra vez e uma outra vez se enfeite em coroa com as luzes que as mulheres de luto teimam em suspender nos olhos abertos mesmo quando há sono.

Ficam sempre atentas às luzes dentro das pálpebras que fecham.

 

Deixai o escuro cerrar pelos olhos dentro, deixai a noite inteira e negra e negra e negra, porque é despudorada a luz cá fora e não sabeis adormecer com sono e não se apagam dentro as labaredas.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe e o eterno desejo

rabiscado pela Gaffe, em 24.12.13

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe à espera do Natal

rabiscado pela Gaffe, em 23.12.13
(Norman Rockwell)

O quartel general é, este ano, em casa da minha avó onde chegamos ontem à noite.

O Natal já escacou o sentido estético da minha prima colocando nas portas deprimentes coroas de bolas de plástico vermelho e laçarotes escarlates que prendem azevinho falso.
A rapariga chegou ao início da manhã de ontem, no seu melhor estilo hollywoodesco, juntamente com a mãe que ganhou o privilégio de reconhecer apenas o Natal que bem entende e se recusa a olhar para os arranjos.
O restante exército depois, pela calada da tarde.

O meu querido irmão, o meu reforço principal, tarda a aparecer!
De Paris aqui há um penoso e tortuoso caminho a palmilhar, aviões comboios, autocarros, triciclos, carrinhos de choque, bicicletas, tartarugas, trotinetes, camiões, patins e sabem os deuses o que mais terá de ser apanhado para aqui chegar, sobretudo para quem se recusa a conduzir.
Encaixo a minha mais ingénua, cândida, amável e pacífica figura, mas sinto-me como se tivesse encarnado uma das mais psicóticas figuras de Almodóvar e começo a ficar com a alma assustadoramente parecida com o realizador.

E eles começam a chegar!
Toda a tarde de ontem se ouviu bater portas de carros e como um bando de pardais à solta se viu esvoaçar a mais diversificada comandita de exemplares que se vão reunindo para o debicar das iguarias do Natal no Douro.
E há de tudo!
Yuppies ressequidos e recessos, damas de copas com espada à cinta, dois adolescentes que resplandecem ruivos, boémios a tresandar a whisky e a tabaco, artistas plásticos de plástico e vinil, cantoras de ópera de barrocos palcos, velhos tão velhos que a velhice é velha, doentes de Molière e saudáveis que tossem mesmo as lágrimas, arrastados sotaques e pronúncias, meninas tontas a espirrar hormonas, lunáticos repletos de luar nos olhos, um Chihuahua  à beira de um ataque de nervos, soutiens de farpas, barbatanas de baleia, um homem que ri que ninguém conhece, uma dona Elvira e um calhambeque, um frade, um mendigo e dois magnatas e mais o que não digo porque já me perco!


E a minha prima a acordar as hostes com um estrondoso e rodopiado karaoke! Mariah Carey de pijama à solta esbaforido e uma jarra minúscula de cristal por microfone:

 ... And all I want for X-mas is...YOU!

O Natal é também esta espera que faz tilintar todos os sininhos que de súbito se descobre haver no coração e em cada um deles perceber que existe no Natal que chega a magnífica hipótese de voltarmos a nascer e a certeza límpida e impoluta de que podemos em cada renascer encontrar por todo o lado aqueles pedacinhos frágeis de Felicidade que se unem e que se chamam Vida.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe e o Pai Natal

rabiscado pela Gaffe, em 22.12.13

Dior - Vogue, Dezembro de 1954

Que o Pai Natal esteja sempre vosso dispor.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe e um Natal publicitário

rabiscado pela Gaffe, em 19.12.13
.

Lembro-me de ter visto, era eu muito, muito pequenina, um anúncio publicitário que fez definitivamente do Volvo o meu carro favorito.

A imagem mostrava o poderoso animal, cinza metalizado, extraordinariamente bem iluminado, com as cinco portas abertas. Aproximavam-se dele dezenas de bebés, apenas de fralda, a gatinhar. Invadiam-no em poucos segundos. Volante, bancos, mala, capot, o interior e o exterior do portento ficavam completamente povoados de bebés que brincavam, riam, exploravam, tocavam e dormiam sem qualquer constrangimento ou receio enquanto o slogan se fazia ler:

Como o primeiro colo.

Esta irrepreensível imagem publicitária, aliada a um slogan inteligentíssimo, funcionou quase de imediato, atingindo o objectivo de modo certeiro. O Volvo é ainda o carro que quero que me dê colo.

Creio que a publicidade é uma das mais exigentes, difíceis e complexas formas de comunicação. Implica, entre centenas de outras qualidades, estudo, conhecimento, inteligência, criatividade, poder de síntese muitas vezes aliado a uma polissemia cuidadosa, capacidade de captar e operar no inconsciente do público sem o violentar e de criar ou recriar imaginários que terão como finalidade o almejado despertar do desejo de consumo ou mesmo apelar a causas mais dignificantes.     

Quando cumpre todas estas condições, é digna de figurar na nossa memória, ainda que na mais superficial. Quando não o faz, normalmente dispara sobre o próprio pé. 

O Natal é sem dúvida uma das épocas a que as marcas dedicam grande e criativa atenção. Algumas produzem imagens interessantíssimas, originais, inteligentes e dignas de menção.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe a contar

rabiscado pela Gaffe, em 18.12.13

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe com árvores de Natal

rabiscado pela Gaffe, em 18.12.13
.

Por muito desconcertante que seja, a Gaffe ainda não decidiu decorar a sua árvore de Natal!

Passa saltitando por uma multidão de inspirações, de ideias, de sugestões, de recomendações, de fotografias, de opiniões e de luzinhas a catrapiscar de ternurazinha muito natalícia, mas continua a oscilar de hesitação, suspeitando que vai acabar por escolher o maravilhoso pinheirinho tradicional repleto de luz, fitas de cetim verde e vermelho, bolas vidro colorido e uma estrela no cimo a liderar os sonhos.

.
Ver mais. )

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe e O presépio

rabiscado pela Gaffe, em 13.12.13

   (O Natal sem avô)

Levou três anos a ser recuperado.

A minha avó, com luvas brancas de feltro, retira dos invólucros as pequenas figuras. Escolheu o móvel japonês lacado com incrustações de madre-pérola, para pousar as relíquias.

Despojou-o. A superfície negra, lustrosa, polida, acolhe as texturas resgatadas das imagens.

Quase três séculos depois, as três figuras abrem-se no esplendor do início.

- Queres ajuda, avó? – Tenho tanto medo de tocar no tempo!

- Quero que retires da caixa mais pequena os querubins.

Os querubins adormecidos. De asas fechadas a ouro folheadas. Um e outro. Medo a medo. Nas minhas mãos o tempo adormentado, entregue devagar a outro tempo.

Inamovível, intocável, imperecível a Senhora inclina o rosto de marfim para a criança que sustém ao colo. Senhora de marfim e talha de ouro. Senhora de José, ao lado, no lado que os protege.

Eu fico muda.

- Pousa-os, minha querida. Pousa os teus anjos aos pés de quem quiseres.

 

Aos teus pés, avô.

O dormir do Tempo e o dormir da Morte aos pés do meu avô fecharam asas.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:


foto do autor