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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe da RTP2

rabiscado pela Gaffe, em 14.01.15

RTP2.jpgTenho perdido os episódios da minha série favorita,  How to Get Away with Murder, porque a renovada programação do canal 2 da RTP me surpreende positivamente.

O Jornal 2, liderado por João Fernando Ramos, Daniel Catalão e Fátima Araújo é conciso, rigoroso, com um alinhamento seguro e importante e sobretudo sem piscadelas de olho desagradáveis ao telespectador.   

Assumo com agrado que fico presa a Borgen. De origem dinamarquesa, a série narra as peripécias políticas dos bastidores esconsos do poder, as suas manipulações, desvios, intrigas, lutas enviesadas, rupturas, compromissos escuros e relações com a comunicação social, sem descurar, embora sem importante incidência, as repercussões das situações na vida privada dos protagonistas. Permite uma visão calma, inteligente e arguta dos corredores que fabricam a forma de viver social de cada um de nós. Excelente!

 

Logo depois, temos Agora. Renovado e mais atraente. Literatura e Palcos.

Continuo com a mesma opinião que tinha acerca de Filomena Cautela, mas Pedro Lamares compensa o facto da parceira ainda não me convencer. Embora mais dinâmico e muito mais completo Palcos Agora, talvez porque não consiga encontrar interesse na apresentadora, é menos acolhido por mim do que Literatura Agora, onde, e cito, a palavra escrita está em primeiríssimo lugar. Cada episódio tem dois momentos de elogio à obra literária, com excertos de poesia e de prosa escolhidos e ditos por Pedro Lamares e Filipa Leal. A eles se juntam reportagens com a ambiciosa pretensão de abarcar o vasto universo da literatura: quem a escreve, quem a diz, quem a serve, quem a traduz e quem a guarda. A literatura na música, no cinema, no quotidiano e como inspiração para os mais variados criadores. Ao longo de cada emissão, tempo ainda para abordar alguns dos grandes temas da literatura, bem como a história e as estórias de livrarias, bibliotecas e outros tantos espaços com livros dentro.

Está conseguido.

 

O povo que ainda canta de Tiago Pereira é um documentário magnífico que não se resume a um desenrolar de testemunhos cantados de música popular portuguesa, porque consegue em simultâneo ser um belíssimo trabalho cinematográfico.

 

Cosmos desiludiu-me um pouco, mas não deixa de ser um óptimo trabalho. Seguindo as pisadas de Carl Sagan, Neil deGrasse Tyson, famoso astrofísico norte-americano, é o novo protagonista desta odisseia no espaço. É excelente sobretudo porque atinge todos os públicos, incluindo o infantil.  

 

A noite vai entradota para uma rapariga que já tomba de sono, mas o Contentor 13 não deixa de ser um incentivo ao despertar do ouvido tendo em conta os seus interiores literários.

 

Surpreendente a RTP2 ao revelar que pelo menos um canal compreendeu o que é ser serviço público.

 

Não vale a pena fazer zapping. Afinal já temos televisão. 

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Gavetas:

A Gaffe de Reininho

rabiscado pela Gaffe, em 15.07.14

Tenho o prazer de conhecer Rui Reininho há já alguns anos, talvez por isso seja suspeita quando me levanto e o aplaudo, mesmo perante as atitudes que se reprovam e que Reininho eleva a um patamar de provocação muitas vezes inútil. Gosto de Reininho mesmo condenável.

Reininho é um dos homens mais fascinantes que conheço, porque a sua inteligência está misturada com um humor ousado que tem faltado àquela verdade que nos é atirada pelos dias que passam. É um corajoso patife, um anacrónico enfant terrible que não consegue deixar de nos fazer sonhar com o que poderíamos viver se lhe roubássemos os olhos e que nos desarma sempre, porque o seu spleen quase queirosiano nos chega mesclado de um optimismo que sabe que pode chorar depois.

Rui Reininho sabe manobrar audiências assim como sempre conseguiu manipular a sua imagem. Ultrapassa com facilidade os riscos com que é limitada a normalidade e permite, e autoriza tacitamente, que esta transgressão seja visível, usando-a para apoiar a construção da lenda (ia escrever mito!) em que se quer tornar.   

Reininho é um sacana fabuloso. Delicado como um cavalheiro vitoriano, cínico como um dandy de outras eras, meigo como um ursinho de peluche e incontrolável como a tempestade.

 

Só depois de muita hesitação se pode responsabilizar a RTP por nos ter permitido ver Rui Reininho a trocar as botas pelas perdigotas – ou coisa que o valha. Há sempre a possibilidade de cumplicidades esconsas entre as câmares e o GNR. Também não me convence o tão proclamado desrespeito pelos concorrentes ou pelos espectadores que são processados de forma esbardalhada. Caso nos preocupássemos com tal acabavam todos os concursos.

 

Depois, ter Micael Carreira por perto justifica a bebedeira.

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A Gaffe detective

rabiscado pela Gaffe, em 04.07.14

Uma das minhas séries favoritas passa na FOX e não é significativamente diferente de todas as outras. A fórmula que a torna atraente é mais que conhecida, porque é a usada em todas as séries com argumentos similares ou dentro do género em que esta se inclui.

Elementary traz-nos uma versão de Sherlock Holmes que, agora em NY, é coadjuvado por um Watson no feminino, muitíssimo bem encarnado por Lucy Liu que percebe de forma inteligente a primazia do elemento masculino da parelha, embora use umas pestanas que parecem dois toldos de esplanadas góticas que poderiam fazer sombra no seu discernimento.

Jonny Lee Miller é um Holmes tatuado e de barba de três dias que nos faz perder parte do argumento quando aparece em tronco nu. Um belíssimo, nervoso, agitado, angustiado, ressacado Holmes que arrasta um allure desleixado acentuado pelo contraste com a elegância e o cuidado com que as restantes personagens se vestem. É um dos poucos homens em que as tatuagens dispersas pelo corpo não desviam a atenção do torso nem transformam o resto (e que resto!) apenas num suporte, num expositor, de marcas de tinta.  

Percebe-se porque vicia qualquer rapariga esperta e a faz ficar presa à dose cavalar de episódios que são injectados à Quinta-feira.

Numa dessas tranches, Holmes divaga sobre a evolução da linguagem elogiando a capacidade dos adolescentes para minimizarem, minimalizarem, às vezes de modo ininteligível, as SMS e todas as outras frases que vão deixando quase cifradas em suportes digitais. Não perdendo apesar de tudo a capacidade de comunicar, a rapidez aumenta, a síntese é um facto e a eficácia torna-se evidente.

 

É curiosa esta apologia de um comportamento tipicamente adolescente, sobretudo quando a adolescência, conceito que surge apenas nos finais do século XIX, se vai estendendo cada vez mais no tempo, arrastando e invadindo o espaço temporal que convencionalmente dá início ao estado adulto.

 

As minhas fontes fidedignas insinuam o aparecimento em 2015 – Primavera/Verão – do conceito de teen-adult regido pelo lema boyest for the boys. O homem vai adquirindo alguns tiques adolescentes que vão contaminar a sua imagem. Os cortes de cabelo tornam-se menos duros e menos militaristas, dando lugar a caracóis domados e estrategicamente colocados de forma a entregar ao dono um tom colegial, as barbas desaparecem dando lugar a rostos escanhoados, quanto mais imberbes melhor, eivados de olhares mansos de timidez ruborizada, e a mistura de peças do agrado dos jovens rebeldes com a agrura e secura do guarda-roupa dos executivos torna-se um must .

Esta prevista miscelânea contraria a linha dura e agreste do actual barbudo másculo e indomável e vai tornar as nossas avenidas numa espécie de recreio de escola secundária repleta de homens grandinhos que ainda não entenderam a disciplina do bom-gosto.  

 

Talvez por isso compreenda Holmes quando aclama a evolução da linguagem sagrando a adolescência como uma nova e definitiva espécie de estado adulto.

Holmes percebe que quanto mais moços ficarem os homens, mais raros se tornam os exemplares que atraem as Watson deste mundo.

Mais fica para ele!

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A Gaffe felliniana

rabiscado pela Gaffe, em 14.05.14

António Damásio deve ser lido com calma e de preferência espaçada e espapaçadamente. Não adianta a Gaffe querer abarcar a multidão com uma rede de caçar borboletas.

 

Largou portanto o Livro da Consciência e dedicou-se a actividades mais lúdicas, como ver televisão (não há melhor actividade para se perder a consciência).

Entra o Jornal da Noite e bate-lhe na testa aquilo a que se poderia chamar a realidade surreal, caso não se goste do surrealismo e caso a realidade conseguisse ser inteligível no interior do pesadelo.

Apanha o retorno da pensão de aposentação de Cavaco Silva no valor de 2.200€ e o de Assunção Esteves que vê o regresso de mais 860€ à sua velhice. Verifica que a senhora continua na mesma, de cabelo à la garçonne bastante esgrouviada, com problemas de dicção que a fazem soltar umas frases suspeitas e que o senhor continua igual, com problemas de dicção que o fazem soltar umas frases suspeitas. 

 

A Gaffe vê depois aparecer o advogado de Duarte Lima. Um senhor a esbracejar de indignação, todo convincente e convencido da inocência do amigo de há trinta anos. O seu cliente finalmente livre! Bonito de se ver. Enquanto se ouve o rol das vigarices, trafulhices, crimes, aldrabices, trapaças, burlas, intrujices e fraudes que alegadamente terá cometido, Duarte Lima  aparece a tocar piano ou órgão (que é um piano bipolar), embalado nos braços da melodia, com um sorriso seráfico e de olhos fechados, todo comovido.

 

Logo a seguir surge um sindicalista de pulôver (pull-over para secretários de Estado) de malha com borboto, dentes podres e com uma madeixa de cabelo que começa numa orelha e vai por ali adiante a tapar-lhe a careca, com um sorriso da cor dos dentes (roxo, portanto) a avisar a malta, porque já faz falta, que o retrocesso civilizacional vai ser de cerca de quarenta anos. A Gaffe fica a pensar que se a figura do tipo não estará a tentar mostrar-lhe o futuro.

Desliga tudo. Prefere ficar às escuras.

 

A Gaffe não sabe se está enfiada numa fita de Fellini, mas que deixa de ter uma percepção nítida do que se está a passar, isso é ponto assente.

 

Não há nada como um chá de tília e uma almofada de penas para a ajudar a adormecer mergulhada na irreflexão e na falta de paciência para a Consciência do António. 

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A Gaffe de Manuel Forjaz

rabiscado pela Gaffe, em 30.01.14

Vi ontem com alguma curiosidade o novo programa de José Alberto Carvalho, 28 minutos e 7 segundos, que tem como parceiro de aventura Manuel Forjaz.

Manuel Forjaz é um cinquentão absolutamente sedutor. Um homem elegante, repleto de charme, muitíssimo bonito, dono de um certo glamour vintage, uma capacidade de comunicação invejável capaz de cilindrar o jornalista que nitidamente o venera, óptimo gosto, culto, com dois filhos de desorientar uma freira, economista na UCP, pós graduado em Estudos Africanos no ISCTE, estudos em Social Entrepreneurship (INSEAD) e Liderança (Harvard Kennedy School of Government), Director na ANJE entre 1997 e 2004, Marketing, Head of Sales Unilever, 88-94, Director Geral da Bertrand, CEO da Medipress (Grupo Impresa), investigador no CEA, professor universitário de Mestrados no ISCTE, ISEG e dos Mestrados da Nova, fundador dos Pais Protectores, Ideólogo/inspirador do Pé de Fé – IES - e primeiro host do TEDxOporto, homo faber.

Um portento como se vê.

Para além de fisicamente arrasador é inteligente. Duas qualidades que, quando juntas, se tornam um perigo para qualquer rapariga desprevenida.

Como será evidente, não passeia por estas avenidas e não me verá a ser politicamente incorrecta, à sua semelhança.

Manuel Forjaz sofre de cancro do pulmão há cinco anos.

É exactamente esta característica secundária que motiva indirectamente o programa. Manuel Forjaz é um exemplo de sobrevivência, de coragem e de destemor (não são necessariamente a mesma coisa) e representa a mais gloriosa forma de se lidar com uma das mais tenebrosas doenças de que há memória.

 

No entanto não o consegui ouvir até ao fim nem vou fazer parte dos seus mais de 20.000 fãs no FB.

Reconheço-lhe o saudável desprezo e a arrogância eficaz com que lida com a doença e a vontade orgulhosa e quase heróica de sorver a vida com aquele marinheiro que se vê a afogar, atado e atirado a um mar que deixa de súbito de conhecer, mas ouvia-o como quem abre um livro de auto-ajuda e se cansa com a avalanche de frases feitas, de sonhados conceitos, ideais floreados, clichés, paisagens interiores retocadas e construídas pelo privilégio, motivações, justificações, razões e enlevos, conselhos e sugestões já gastos (e tantas vezes inúteis) de tanto se usarem em situações limite e passíveis de irreversibilidade.

Perante a coragem, sentido crítico, clareza, brilhantismo e ausência total de qualquer indício de desespero, depressão, abatimento (incluindo o físico) e de outros tantos sintomas que chegam apensos à doença e dela se tornam também características, senti-lhe, como criatura maldosa que sou, um laivo, uma réstia, um traço esbatido de exibicionismo que me pareceu ligeiramente ofensivo.

A glória física que Forjaz exibe não é comum, assim como não é comum o privilégio que consiste na possibilidade de se recorrer a médicos de topo (uma das ferramentas indicadas por Forjaz que coadjuvam, na linha da frente, a luta contra o cancro) cuja primeira consulta custa 600€. A manutenção da lucidez e da fria inteligência, a pujança aparente, a permanência da beleza física, a elegância cuidada, a sofisticação conservada, a dignidade preservada, a postura serena e impávida perante a maior adversidade, a consciência nítida da finitude e a exigência de nobreza neste assumir da inevitabilidade e da morte, não são comuns à esmagadora maioria de doentes oncológicos.

A brutal decadência física e o medo, o mais asfixiante e castrador dos medos, tomam tantas vezes o lugar de tudo e fazem desistir porque transformam a vida toda, todos os minutos e todos os segundos, em despedidas.

Forjaz dominou o medo e, por privilégio concedido pelos deuses, evitou a decadência. Usa as ferramentas que vai aconselhando, mas esquece-se que são poucos aqueles a quem o cancro deixa mãos para as segurar.    

Não tenho a veleidade de supor que o testemunho de Forjaz é contraproducente (não creio que seja), mas não consigo deixar de pensar que talvez não atinja os objectivos que, tenho a certeza, são bem intencionados nesta desempoeirada exposição. 

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A Gaffe de Filomena Cautela

rabiscado pela Gaffe, em 15.01.14

Tenho imensas saudades do diário Câmara Clara, dos jornalistas Inês Fonseca Santos, mesmo escorrida, Luís Caetano, mesmo bamboleante, e Paula Moura Pinheiro, mesmo luzidia. Do programa já aqui falei e parece-me aborrecido voltar ao assunto.

Tenho AgOra a actriz Filomena Cautela.

Acontece que há actores que não conseguem sobreviver sem um bom encenador. Filomena Cautela é um desses casos. Todos os gestos se repetem, tudo é previsível, o estender de mãos é repisado, o modo de oferecer produto é mais que duplo, os apertados gestos reeditados e o teleponto adivinhado ao longe. A actriz, com uma modelação vocal publicitária, faz um esforço inútil com uma simpatia de cordel, pouco persuasiva, para mostrar o que não a convence, o que não conhece de forma segura, mas que tem de ler no monitor. Há dias em que se aproxima de uma fraca e constrangida operadora de televendas.

Sinto falta de Inês Fonseca Santos e de luís Caetano. São dois jornalistas competentes que se mostravam claramente conhecedores daquilo que anunciavam e promoviam.

Diz-se por aí que cada macaco deve permanecer no seu galho. Filomena Cautela não sabe sequer usar estas lianas.

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A Gaffe de Manuela Moura Guedes

rabiscado pela Gaffe, em 24.09.13

Não tenho paciência para assistir durante muito tempo a concurso onde  se esbardenha  gente que não faz ideia de quem fala na obra de Nietzsche ou de quem não sabe que Lewis Carroll estaria hoje envolvido no processo Casa Pia, mas confesso que fui espreitar o regresso de Manuela Moura Guedes.

Moura Guedes sempre foi uma das minhas mulheres favoritas e uma jornalista capaz de enfrentar toiros bravos com emotividade, coragem e sem qualquer medo de se enfurecer quando era gritante o escândalo que se procurava camuflar. Reflectia nesses instantes de desgoverno e de irritação impetuosa aquilo que o espectador sentia impotente aos pulos na poltrona.

Não tem de Judite de Sousa a pose de diva intocável e omnipotente nem os olhos de carneirinho divino e cândido, o que lhe dá primazia nas minhas preferências, e, apesar de nem sempre ter aplaudido as suas escolhas editorais, merece-me o respeito a que todo o profissional empenhado e competente tem direito.

Durante os breves instantes em que assisti ao concurso que agora apresenta, Manuela Moura Guedes pareceu-me eficaz, simpática, elegante, correcta, balançando entre o papel de mazinha da fita, capaz de provocar hesitação no sábio mais renitente e convencido e a cúmplice benevolente dos que tremiam perante uma constrangedora ignorância posta a nu.

Não causa qualquer dano, não belisca qualquer dignidade, mesmo a mais hipócrita, e não provoca aquela mesquinha satisfação, apanágio dos medíocres que, pela calada das esquinas mais esconsas, sentem quando o rival parece já vencido e que se esquecem que não é conveniente bater em alguém que tombou momentaneamente, porque, para além de outras razões mais evidentes, o tombado se pode levantar e ser maior do que o agressor.

Manuela Moura Guedes está perfeita. Sem exageros tontos de cómicos de bairro, sem exuberantes descargas de vedeta parva, sem a alarve gargalhada dos mais rechonchudos rapazes de barbicha telegénica, sem a descompostura histriónica das noites a dançar e sem a tresloucada e doentia presença de quem obriga o pobre concorrente a comer sapos.

Foi um prazer revê-la. 

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A Gaffe de João Moleira

rabiscado pela Gaffe, em 13.09.13

De acordo com a minha santa avó, a frase é dos carecas que elas gostam mais tem a mesma função das madeixas pindéricas e ralas que partem das nucas masculinas e que tentam chegar às sobrancelhas dos que acreditam que não estão a ficar calvos embora todas as evidências provem que vão ficando com a cabeça parecida com uma lustrosa bola de bilhar.

Para além deste parco consolo, suspeito que a frase retém uma grosseira conotação sexual que me abstenho de dissecar, por demasiado óbvia e porque acabei de tomar o pequeno-almoço. Uma rapariga esperta evita redundâncias e procura sempre manter os cereais no seu lugar.   

Não é de todo verdade que sejam os carecas os alvos privilegiados das nossas imediatas atenções. Não é lícito afirmar que a leonina, desmanchada, poderosa, ensandecida e farta cabeleira de Sansão é sempre ameaçada no seu poder de sedução pela tesoura daliliana da imagem de um careca.

A não ser que o calvo, ou candidato a tal, seja o João Moleira.

A verdade é que João Moleira é agora a Edição da Manhã que nos faz esquecer todos os editoriais, textos, artigos, reportagens, parágrafos, itens, escritos, notícias, novidades, notas, alíneas e mesmo o sol que vai fazer lá fora. Deixamos de o ouvir logo que o vemos.

Um belíssimo, avassalador e irresistível careca, um calvo portento, um perigo para todas as outras cabeludas redacções.

José Rodrigues dos Santos (por muito olho maroto que nos pisque como se tivéssemos, sem ninguém saber, qualquer coisa marcada para o jantar), José Alberto Carvalho (por muito botão aberto na camisa para que acreditemos forçadas na sensualidade tímida da alvura de uma pele) ou Rodrigo Guedes de Carvalho (por muito carrancudo que apareça para provar que se nos distraímos somos levadas ao chão com um golpe de judo), são esmagados pelo sorriso, brutamontes de carnalidade, de João Moleira que nos prova constantemente que matar - ou mesmo desperdiçar -  o mensageiro é (quase) sempre um erro.  

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A Gaffe e uma Odisseia

rabiscado pela Gaffe, em 04.02.13

Nunca fui grande fã de Bruno Nogueira.

Aprecio o humor que se equilibra no fio da lâmina, mas sinto demasiadas vezes o humorista a resvalar para a esquina pouca clara em que se torna fácil provocar o riso através do uso matreiro do mais sombrio e pérfido que se esconde em nós. Quando nos atiram à cara, descarnado, aquilo que não ousamos sentir, ver ou ouvir por pudor, vergonha ou qualquer outra razão mais ou menos freudiana, reagimos da forma mais segura, escudando-nos no riso que nos torna cúmplice do descarado que revela o que não admitimos assumir sozinhos e nos iliba, transferindo para o lugar do outro, o peso daquilo que não temos coragem de arrastar às claras.

Embora acredite que este possa ser um dos fundamentos ou uma das bases do humor, o uso arrogante desta característica torna o seu utilizador num pedante com tendência para se pensar intocado por aquilo que usa como instrumento capaz de provocar o riso e Bruno Nogueira sempre me pareceu ter um ego do tamanho de uma ténia descomunal.

Esta dimensão egocêntrica de Bruno Nogueira – desta vez sem a rede da genialidade de João Quadros – parece estar na origem de Odisseia.

Nesta viagem o humorista é acompanhado por actores topo de gama - Gonçalo Waddington, Nuno Lopes e Rita Blanco, são exemplo da qualidade ímpar dos protagonistas. Cabe a este elenco fabuloso suportar e aguentar com a mestria e com o talento indiscutíveis que possuem, uma série que deixa perplexo qualquer espectador comum, relativamente esclarecido e mais ou menos exigente, ou seja, qualquer criaturinha desprevenida e suficientemente desperta e esperta como eu e eu espero, com sinceridade e algum entusiasmo, que tudo o que percebo ali aumente e melhore.

O que é a Odisseia?

Uma série de humor ou uma reflexão existencialista? Um experiência interseccionista muito ao gosto pessoano ou um raquítico labirinto onde todas as vias são becos sem saída? a colecção de private jokes de três amigos (Tiago Guedes será o outro mosqueteiro) ou um pretensioso exercício de pedantismo intelectual? Um produto destinado a fazer sorrir e erguer a sobrancelha irónica de alguns eleitos ou a manifestação, dispendiosa, de um grupo de compinchas que se convenceu que era capaz de revolucionar o modo de fazer séries de humor? Um aglomerado de surrealismos enfiados à sovela – ser-se dalinianamente surreal, fica sempre bem a qualquer humorista que se quer demarcar de Fernando Rocha - ou um parque de diversões onde é possível brincar como se quer, fazer o que se quer, cuspir para o chão, deixar de fora uma extensa cambadas de idiotas que não entende o jogo que se inventa e, depois da rapsódia de malabarismos giros, ser-se bem pago?

Segundo entendi é tudo isto e tudo mais que se quiser. Não pescamos nada, logo tudo é peixe.

Há, no segundo episódio de Odisseia, um cena em que os dois amigos, Bruno e Gonçalo, dentro da autocaravana, alçam a perna e disparam em todas as direcções (com o Bruno a encontrar antológicas posições de ataque, com a banda sonora e com a mímica dos dois actores, é permitido ao espectador adivinhar o quê) atingindo-se mutuamente. Apesar de não ser tão original como lhes pareceu, a cena é obviamente metafórica. O que Bruno Nogueira e Gonçalo Waddington apresentam nesta pequena e fedorenta nuance de Odisseia, é a metáfora daquilo que estão a fornecer ao público.

Depois digam que não é revolucionariamente inteligente aquela coisa.

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A Gaffe e o comando

rabiscado pela Gaffe, em 19.12.12

Segundo as informações matutinas que recebo, os senhores interessados na privatização da RTP, são três nababos, associados, como seria de prever, detentores de fortunas colossais estrategicamente fechadas em offshores no Panamá, e que, em simultâneo, pertencem à administração de 10.000 empresas.

Uma rapariga por muito esperta que seja, não sendo Christine Lagarde, deixa com muita facilidade de entender este tipo de engenharia financeira.

O que me pesa é muito mais prosaico. É caseirinho perante as toneladas de lixo tóxico que envolvem estas operações.

 

Acompanhei o fim de Câmara Clara e acabei mais mirrada e reduzida.

Durante o tempo que não sei contar aprendi a gostar dos olhos de lâmina azul e do cabelo lustroso de Paula Moura Pinheiro, que me fizeram deslumbrar com poetas, ensaístas, filósofos, escritores, pintores, escultores, bailarinos, músicos e muito mais que não se diz aqui por ser extenso.

O serviço público prestado por Câmara Clara foi exemplar.

Uma direcção de programas que se dá ao luxo de considerar secundária e dispensável a divulgação cultural feita desta forma, não augura nada que se aproxime, ainda que vagamente, da preocupação em manter digna e perene a única sólida esperança de salvaguardar o que se inunda, a cada dia que passa, neste recanto plantado à beira de um mar já inútil.

Restam-me agora reportagens melodramáticas com músicas de fundo agonizantes, apresentadas pelo guarda-roupa duvidoso de Sandra Felgueiras, que, por entre sorrisos descontextualizados, modela a voz, carregando nas sílabas que lhe parecem mais distintas, encurtando assim a distância que a aproxima de uma espécie de Ana Malhoa do jornalismo.

Fica-me a Montblanc de José Rodrigues dos Santos, numa ambição de batuta, a dirigir uma orquestra de notícias onde às tristezas de Ronaldo ou às desavenças de uma Lucy com novos implantes de ciclones nas mamas, se anuncia a quebrada partitura que dá conta do contingente, mas não certo, duvidoso, mas possível, entretanto já afastado parece que por certo, encerramento da Casa das Histórias de Paula Rego.

Sobra-me a sucessão interminável de novelas onde todos os cenários são parecidos, onde todos os argumentos são idênticos, onde todos os protagonistas se repetem, numa espécie de reprodução audiovisual da série Uma Aventura de Isabel Alçada e Ana Magalhães.

Sobeja-me a imundície de uma Casa onde se fecham as mais absurdas, disparatadas, néscias e patéticas criaturas que se encontraram em castings suspeitos.

Perdura a imensidão das chamadas séries de culto onde se decapitam mortos-vivos; onde se perde gente numa nuvem; onde há cirurgiãs de pestanas postiças e unhas nacaradas, que derramam lágrimas de trágicos amores no peito aberto de gente que chega à história com todos os órgãos decepados; onde os polícias são giros e elas boazonas, capazes de, com um só disparo, castrar o mosquito contaminado com o vírus tenebroso criado pelo mais óbvio dos vilões.

Abundam-me concursos esburacados, onde tudo é alarve para coadjuvar as gargalhadas imbecilizadas dos apresentadores; onde se desencantam dos confins do nada, três ou quatro histriónicos papalvos cuja função predefinida é escarrar nos participantes mais imprudentes e patetas ou beijocar à força mentecaptos de casacos estampados como papéis de parede dos anos 60.  

Fico-me com documentários onde crocodilos dilaceram gnus, ininterruptamente; onde Indiana Jones aos berros de alegria agarram em serpentes e tarântulas espremendo para lamelas todos os venenos que, por sorte, ainda não ingeri de tanto os ver.

Fica-me o poder de rapinar o comando, que não é meu, nem faço questão que o seja, e a possibilidade de recusar o que me enfiam, goela abaixo, e que me faz compreender que, desta forma, é lógica a entrega da RTP aos senhores dos paraísos fiscais no Panamá.

Não têm qualquer importância as câmaras onde os sábios entram luminosos.

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A Gaffe de Catarina Molder

rabiscado pela Gaffe, em 09.10.12

Aparentemente, tenho-me afastado da linha editorial deste blog. No entanto, amassadas as coisas, acabo por concluir que este distanciamento não é, de todo, significativo.

Se admitirmos que toda a publicidade envolvida por um galmour desmesurado, que borbulha em nosso redor tem como principal objectivo o fazer-nos sentir mal, inseguras, desleixadas, obesas, raquíticas, com pontas espigadas, andrajosas, miseráveis, obsoletas e velhas bruxas sem palácio, rapidamente percebemos que a Gaffe vai atirando uns palititos à fogueira do desejo consumista. Podem ser pedacinhos insignificantes, mas são um contributo para o atiçar da vontade de nos vermos reflectidas no esplendor que passa nos anúncios. Rendemo-nos à estratégia publicitária que nos faz sentir uns trapos e acabamos a comprar os milagres que farão das nossas olheiras, duas meias-luas românticas em noites de paraíso.

Os rapazes iniciam este percurso consumista, mas dir-se-ia correrem muito mais depressa do que nós.

Uma das farpas minúsculas que atiro a este fogareiro, apanhei-a quando, espalhada no sofá a debicar chocolates, me deparei com um programa na RTP2, em horário aristocrata.

Super Diva - Ópera Para Todos é um debruçar interessante sobre as potencialidades da ópera. Reúne diversas rubricas onde se fala do libreto, das árias famosas, de curiosidades, de pequenas referencias ao autor da obra em causa, a cargo das narinas de Ruy Vieira Nery, terminando-se com a interpretação de uma das árias por um grupo pop ou rock actual.

Espantou-me uma certa simplicidade didáctica quase infantil e muitas vezes infantilóide, que o programa escolhe para atingir o público do canal 2, que não me parece assim tão débil e tão básico. Se retirássemos o nariz descomunal de Vieira Nery, que sorve com os seus dois buracos negros, toda a matéria em redor, com excepção de um busto assustador, ao lado, petrificado pelo espanto, o programa poderia e deveria passar numa tarde qualquer tendo crianças como público-alvo.

O que se passa então com Super Diva,com todas as características de um programa infantil,que lhe entrega estatuto digno de figurar no horário nobre de um canal que se deseja restrito, nesse mesmo horário, a nichos relativamente bem identificados e bem mais adultos?

Há uma hipótese que me parece plausível:

A presença da soprano Catarina Molder.

Compreende-se que não se queira mostrar a apresentadora às crianças. A senhora é sinistra. Aparece de olhos arregalados, esbugalhados, escancarados, e unhacas sanguíneas, pronta a devorar, literalmente, quem com ela contracena interpretando árias em cenários deslocados e encenações surreais.

Catarina Molder faz passar uma imagem de psicótica, de neurótica esgazeada, esvoaçando, esbaforida, como um pássaro bisnau por entre o visível constrangimento de alguns dos convidados.

Catarina Molder arrepia, lembrando uma personagem Disney, uma Cruella de Vil suburbana e mentalmente desgrenhada, depois de um esgotamento cerebral.

Crsitina Molder torna-se devoradora da atenção que nos merece Tosca ou Carmen, mesmo maltratadas, ou qualquer outra ópera ali focada, apresentando-se com um guarda-roupa digno de um Chapitô decadente, sem querer de forma alguma ofender a colorida Escola da querida Teté. Uma mistela inenarrável oriunda dos idos 80 mais manhosos. Não é humanamente compreensível a total ausência de bom senso, de bom gosto, de cuidado e de inteligência, na escolha do que a Molder enfia sem critério, apertando-se, espartilhando-se em rendas e lamés duvidosos, sufocando num entusiasmo, muito louvável, mas que peca por um exagero que acaba por parecer forçado.      

Cristina Molder é, portanto, adversa à publicidade. Resiste-lhe heroicamente. Tem a coragem de não sofrer com os exemplos de glamour que nos são impingidos, nos fazem sentir maltrapilhas e ultrapassados monos, e nos impelem a comprar. Assume o tenebroso, o incontornável,  o péssimo gosto, como bandeira que ergue contra o apelo desenfreado ao consumismo fútil.

Valha-nos isso.

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A Gaffe e mana do Bambi

rabiscado pela Gaffe, em 02.10.12

Vi numa RTP rendida a uns olhos de corça inocente e bambinesca, várias vezes e em grande plano, Adriana Xavier, a menina que se pendurou nos braços do garboso polícia de choque, na manifestação de 15 de Setembro.

Tenho de admitir, embora contrariada, que a rapariga é um deslumbre. Linda de morrer, diria a minha santa avó que, acabo por concluir, tem um gosto duvidoso.

Não vou, por pudor e para não parecer uma cabra invejosa, referir a ventania que me parece varrer o deserto na cabecinha da pequena, nem sequer as suas ancas potentes e avantajadas, que pronunciam um grosseiramente apelidado coxame de presunto.

Parafraseando o Presidente da Junta - Não vou por aí.

Identifico na menina algumas das características detectadas pelos estudiosos, apensas àquilo que se reconhece como beleza feminina intemporal.

Segundo os peritos, o reconhecimento masculino da beleza de uma mulher está intimamente ligado a pormenores que são apanágio dos bebés.

Exactamente!

Os rapazes consideram atractivo e capaz de originar encanto e fascínio, o salivar inconveniente e o instinto de protecção embevecida, características que as mais pequenas, inocentes e frágeis criaturas - os bebés deste mundo - apresentam sem esforço algum.

O rosto redondo, a pele macia e sedosa, a boca pequena de sorriso inocente, de uma castidade a toda a prova, os olhos grandes e pestanudos, claros de preferência (mesmo que esta claridade seja apenas consequência de uma alimentação compreensivelmente restrita) e a simetria nestas invejáveis especificidades.

Adriana Xavier possui o rosto que detém todas as linhas com que se cosem os rostos dos bebés.  Redondo, quase irritantemente redondo, com olhos gigantes e cândidos que dominam o conjunto, com pestanas que tocam na testa, com boca minúscula, por onde solta balbucios idênticos, e com um narizinho pequeno e arrebitado, de boneca de porcelana antiga.

É evidente que lhe serão fornecidas algumas hipóteses de fazer brilhar estas particularidades. Facilmente a veremos desfilar na próxima edição do Portugal Fashion ou como inquilina de uma qualquer Casa dos Segredos.

Como em qualquer outra situação que se nos depare, a manifestação pública de uma boa rapariga, se for fotografada em condições, produz milagres, mesmo quando os milagres trazem um certo aromazinho de pecado.

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