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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe a abanar

rabiscado pela Gaffe, em 07.03.17

A Gaffe a abanar.gif

Mais cedo ou mais tarde, abanamos e sucumbimos à gravidade.

 

Se numa praia paradisíaca levantamos a mão para protegermos os olhos e existe uma brisa que nos refresca a tez, a idade faz com que o nosso braço pareça a bandeira vermelha desfraldada ao vento.

Se decidirmos escolher uma posição sexual diferente da do missionário, a idade faz com que os preocupemos em seleccionar aquela em que o parceiro nunca fica num ângulo inferior ao nosso, porque arriscamos a que o pobre nos veja tudo a cair.

A encorpada e gloriosa águia que tatuamos na coxa da nossa juventude, parece agora um frango encarquilhado pelas estrias e depenado pela casca de laranja que nos resta depois de sugado o sumo e mesmo os gomos aparentam desidratação.

 

Já não cruzamos a perna com a desenvoltura de outrora, chicoteando o ar e matando de inveja as acrobatas do Cirque du Soleil. A idade permite apenas que encostemos uma coxa à outra, a perninha esquerda a sustentar a amiga periclitante, com o rabo enfiado na poltrona e o joelho que tentamos levantar encostado às mamas.

Já não flutuamos pelas avenidas, de vestido quadrinho Vichy, muito Bardot, a fazer esvoaçar a nossa agilidade e silhueta. A idade faz-nos abanar por todo o lado. Faz com que pensemos que estamos cravadas numa daquelas cadeiras vibratórias ligadas a uma velocidade relaxada ou que temos incrustado e avariado o único sexo que ainda vamos tendo e que funciona a pilhas.     

 

Por muito que afirmemos que é mentira, a idade transforma, quer o nosso lazer, quer a nossa vida sexual, em preocupação.

 

As preocupações envelhecem.

 

Raparigas entradotas, ergam-se e libertem-se!

 

Retirem do baú os vossos biquínis exíguos, repletos de lantejoulas e, mesmo que desapareçam metidos nas estrias, ousem enfrentar as ondas com eles encaixados, porque o Verão, até o nosso, não pára de se repetir.

Desfilem de Vichy pelas avenidas. Afinal é vossa a glória de ter feito do padrão a coqueluche e ninguém como vos sabe vesti-lo.

Arrasem guarda-fatos e usem o que de mais estranho lá se encontra. A vossa vida é uma extraordinária colecção de cores, um inacreditável jogo de texturas, um impressionante acervo de formatos. A história de quem sóis conta-se toda assim, ao mesmo tempo.

Seduzi todos os homens que quiserdes! Afinal, a vossa experiência é uma mais-valia e sabeis perfeitamente que é uma monumental perda de tempo esperar que seja o romance a estender-nos na cama. Os percalços que porventura encontrará a vossa sedução podem ser minimizados se escolherdes um seminarista de província, ingénuo e angelical. Mrs. Robinson sempre foi uma das mulheres mais desejadas por todos os adolescentes espigados.

 

Podemos abanar no fim da refeição, mas é na mesa do jantar que foi servido que devemos saborear comme il faut a sobremesa.

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6 rabiscos

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De Pequeno caso sério a 07.03.2017 às 19:27

Eu "abanadeira" me confesso.

Envelhecer é uma porra. Quando uma ' ssoa começa a saber umas coisas o "corpitcho" começa a ceder. Enfim...não se pode ter tudo.
A nossa sorte é que do lado oposto a idade também se faz notar. Costumo brincar muitas vezes com o meu marido por causa da barriguita que se instalou (nele). Ele devolve - me a "brincadeira" dizendo que o meu traseiro também já teve melhores dias. Um fofo este marido, pois é?

De qualquer das formas assumo os meus godilhões e a minha flacidez como uma coisa normal que faz parte do processo. Nada que uns bons truques não ajudem a disfarçar.
Já dizia o outro : "A necessidade aguça o engenho!"
; )
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De Gaffe a 07.03.2017 às 19:48

E não é uma catástrofe.
A minha avó era uma das senhoras mais elegantes, mais bonitas, mais sedutoras e mais fascinantes, que conheci.
A velhice nela era como que um perfume. Usava-a, mas nunca exagerava.
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De Corvo a 07.03.2017 às 20:45

Olhe, Gaffe.
A sua avó era uma das raras privilegiadas mulheres para quem a idade não tem poder.
Como falou nela, falo-lhe na minha indelével mulher, outra privilegiada.
Depois dos quarenta e cinco, eu com quarenta e oito e até ao seu desaparecimento aos sessenta e quatro, quem não nos conhecesse não acreditava que fosse minha mulher e sim que fosse minha filha.
As filhas nossas, adolescentes também ela bonitas e elegantes, nunca conseguiram entrar nos vestidos da mãe.
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De Gaffe a 07.03.2017 às 20:49

Tão bonito de se ler!

Creio, meu caro Corvo, que a sua Mulher foi, também consigo e por sua causa, uma privilegiada.
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De Corvo a 07.03.2017 às 22:15

Acho que não foi muito infeliz.
Por vezes dizia-me:
Às vezes és insuportável e só me apetece matar-te, mas pode-se contar contigo. Dás segurança a uma mulher e não és vingativo, não te vales das vezes que tiveste razão.
E tinha razão. Nunca me vali das vingançazinhas mesquinhas e ela levava isso em consideração.
Enfim; tanta pena e desespero deixou. Eu sim! Fui o homem mais feliz e realizado até Deus me dizer que ela já não era minha
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De Gaffe a 07.03.2017 às 23:14

Tentaram ensinar-me a não me comover. Toda a minha vida foi moldada de modo a evitar a comoção.
Nunca aprendi.
Sei que não me importo.

Comoveu-me. É extraordinário perceber que ainda se mantém apaixonado! Eis o Amor a vencer o fim.

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