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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe a bater portas

rabiscado pela Gaffe, em 08.02.16

O título do post não é dos melhores, concordo. Permite visualizar uma tresloucada a esbardalhar-se contra diques e represas, mas depois do Madrugada Suja do meu querido Miguel Sousa Tavares todos os títulos são permitidos, mesmo parecendo que vão ofender as toxicodependentes.

Depois, confessemos, todas nós, raparigas intempestivas e com sangue na guelra, já saímos disparadas e furibundas, escacando a madeira dos lambrins, de um qualquer compartimento onde as portas são apenas um minúsculo obstáculo a transpor e a rebentar pela nossa indignação incendiada.

 

A última vez que uma porta sem metáforas bateu com a parca força desta rapariga ruiva foi perante a demoníaca recusa da minha avó em me comprar uns tamancos com uma tenebrosa rampa de cortiça. Tinha-os visto na sapataria do senhor Francisco, que vendia também palmilhas ortopédicas e almofadas para calos. Já lá vão uns anitos repletos de saudade.

 

Abençoada seja a minha avó!

 

Nessa ruidosa altura, tive de retroceder e voltar a abrir a porta batida, porque me tinha esquecido da carteira pindérica e ranhosa, mas com um inestimável valor afectivo já que tinha sido comprada com as entranhas do porquinho dos meus quinze anos.

Acabamos as duas as gargalhadas, abraçadas e a desfazer com a tesoura da troça, pedaço a pedaço, tira a tira, centímetro a centímetro, as socas, os tamancos, os obuses, os torpedos, que tanto queria calçar.

 

Bater portas é relaxante, catártico e não produz hematomas. Após a nossa saída empenachada e divinal, há sempre a possibilidade - mesmo que a porta seja fechada por nós com um vaudevilliano aloquete -, de ficarmos com a chave para regressarmos emplumadas, sobretudo se nos trocarem os tamancos de cortiça por uns Jimmy Choo de alta estirpe.

Bater com portas é um exercício bastante eficaz que, embora deselegante, não deixa de ser altamente rentável, fazendo-nos pensar que nenhum ginásio, por muito que tente, nos entregará a silhueta que sempre desejamos e que nos é dada de modo rápido por esta prática tão subvalorizada. Depois, o que se produz durante a operação é só ruído e uma data de mosquitos estropiados com a deslocação do ar.

 

Por tudo isto, meus caros, aconselho vivamente o bater com portas como método e arma de persuasão ou de ressurreição. Temos apenas de ter o cuidado de salvaguardar os dedos ou arriscamos ficar com as falanges do outro lado do assunto.

 

Imagem - Nikita Kovalev

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Gavetas:


4 rabiscos

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De Maria Araújo a 08.02.2016 às 11:56


É deselegante, fico transtornada se o faço, mas concordo que é relaxante...e tento não voltar atrás.
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De Gaffe a 08.02.2016 às 11:58

Experimentei e recomendo.
Se batermos a porta com um ar de Dietrich ou de Garbo entediadas, aquilo escapa.
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De Maria Araújo a 08.02.2016 às 20:13


Não sei se consigo equiparar-me a Dietrich ou Garbo.

Bom carnaval, Gaffe.
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De Gaffe a 09.02.2016 às 15:53

Mas há que tentar!
Obrigada. Um belo Carnaval para si também.

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