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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe a caminho dos noventa

rabiscado pela Gaffe, em 05.08.19

Reflexão de uma futura cinquentona após desafio da imsilva.

A Gaffe a caminho dos 90

Há imensas maneiras de uma mulher ultrapassar os cinquenta e chegar aos noventa exactamente comme il faut, ou seja, como a extraordinária Senhora que se diverte aqui.  

 

A Gaffe, embora tenha escolhido a forma mais ácida de o fazer, descontrolando a vida e esfacelando os nervos aos incautos que ainda a conseguem tratar com desvelo e sem receio de se verem trucidados pelo seu mau humor, sabe que pelo menos duas delas são divertidas: a mediterrânica e a nórdica.

 

A primeira faz de nós pragmáticas cinquentonas espertas, vestidas com inenarráveis peças coloridas encontradas nos mais díspares bazares do Norte de África por onde viajamos à procura de calor e de aventuras absolutamente indignas de uma senhora madura.

- Usamos e abusamos da nossa condição de futuro fóssil vivo para usarmos tudo o que à nossa volta reluz, é confortável, caro e sobretudo dos outros.

- Jamais fingimos que somos simpáticas e amorosas apenas para que não nos risquem o carro, porque o carro que usamos é o do hotel, ou o do cavalheiro que se esqueceu das chaves na mesa onde tomou connosco o chá das cinco.

- Nunca ouvimos os conselhos que nos dão, porque sabemos que não passam de confissões encapotadas. Repletas de confidências parvas estão as nossas Memórias que prometemos escrever, jamais tendo intenção de as começar.

- Deixamos de temer os violadores, porque sabemos que depois dos cinquenta, se houver uma vaga tentativa, muito provavelmente é o paspalho que deixa de saber onde perdeu a pila, ou quem foi que lha arrancou. 

- Esquecemo-nos sempre que a porta do balneário masculino não é a mesma que dá para a capela e não é com a mesma devoção que nos benzemos quando naqueles banhos entramos sem bater.

- Já lemos quase tudo o que valia a pena ler e agora agarramos com unhas e alguns dentes postiços as obras de Margarida Rebelo Pinto para termos a certeza que, apesar de tudo, há gente muitíssimo mais parva do que nós.

- Recusamos o convite do primeiro aniversário do sobrinho-neto, porque receamos encontrar o seu avô, por quem já ardemos nas areias de um Verão passado, e que acabou por nos mostrar que tinha um pavio curto. 

- Não morremos. Abandonamos o Hotel sem pagar a conta.

 

O envelhecer nórdico é ligeiramente diferente. O calor vai aumentando com a idade, percorrendo um caminho inverso ao esperado.

- Aparecemos, fleumáticas, de biquíni exíguo em Saint-Tropez - único lugar em condições de que nos lembramos -, ameaçando a vitalidade do turismo com um topless onde a gravidade fez das suas e que nos confirma que a idade nos impede de fazer sexo numa posição que implique ficarmos num ângulo superior ao do homem, porque arriscamos que ele nos veja tudo a desabar.

- Não nos preocupamos com o facto de ninguém nos entender, porque recusamos entender quem quer que seja.

- Consideramos que o nosso Chihuahua imbecil é bem mais capaz de encriptar o seu desejo de se enroscar numa doberman do que o Marcelo a sua ambição de se recandidatar.

- Comemos tudo o que nos vier à mão, desde que a mão que nos traz o prato seja a de um culturista, porque os nosso olhos já não são o que eram e é preciso que nos ampliem as coisas e porque já preferimos que nos avivem a memória de um modo convincente e insuflado. Uma coisa em grande, porque pode não haver amanhã.

- Odiamos os radicais, sobretudo os livres, e bebemos toda a espécie de mistelas detox desde que venham misturadas com gin tónico ou vodka num copo decorado com um raminho muito ecológico de cannabis.

- Tornamo-nos fiéis a um perfume e infiéis ao Regimento de Infantaria n.º 9 a quem prometemos a exclusividade das nossas noites mais ardentes, mas que trocamos pela corporação de bombeiros de Setúbal muitíssimo mais habituada a lidar com fogos, mesmo os das lamparinas em que nos tornaremos dentro em breve.

- Continuamos a usar as mesmas bugigangas que se baloiçaram em Woodstock, mas com o ar vintage que lhes deu o uso e abuso das suas propriedades.

- Não morremos. Abandonamos o Hotel a reclamar do serviço de quartos.

 

Os cinquenta anos da Gaffe encontrarão esta rapariga de cabelo cor de ferrugem - que deixou de ser ruivo para acompanhar o tempo -, talvez mais rezingona e capaz de destruir a paciência aos santos e a vontade de reincidir nas amostras de carinho aos recepcionistas, bagageiros, motoristas, copeiros, jardineiros e paquetes, mas com a irresistível mistura de mediterrâneo e nórdico capaz de esmagar qualquer arrojo, afronta e sombra daquelas que no Hotel das nossas vidas conhecerão apenas o porteiro.

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19 rabiscos

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De Maria Araújo a 07.08.2019 às 13:38

Estilos diferentes, mas muito bem visto... sobretudo a troca do Regimento de Infantaria nº9 pela do Bombeiros de Setúbal.
Ah! Rezingonas seremos todas.
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De Gaffe a 07.08.2019 às 13:50

Ficam mais à mão ... ...

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