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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe a desenhar

rabiscado pela Gaffe, em 31.01.19

Princesa

Às vezes, sinto nas mãos a rispidez e a rugosidade que fica quando tocamos líquidos corrosivos.

 

Esta impressão existe desde muito cedo. Desde os dias em que me foram retirados os lápis coloridos com que pintava tudo.

Eram lápis de madeira morna.



Tocava-os. Cheirava-os. Mordia-os, às vezes.



As minhas horas deixaram de ser horas de ficar parada a ver surgir na cabeça universos paralelos e surreais porque com as cores e com os meus dedos - e já quase sem as nuvens que toldam as visões do que nunca foi a não ser em nós -, ficava suspensa nos mundos que surgiam já mais visíveis, já mais memorizáveis, nos papéis planetários, nos papéis galácticos que ia encontrando, guardando e defendendo da avidez de limpeza e arrumação da Jacinta.

 

Nunca desenhei bem.

 

Lembro-me do retrato da Bórgia, a cadela assassina, que tinha rabiscado entufada de orgulho. Todos diziam parecer um porco esquizofrénico. Gostava muito dele, mas reconhecia-lhe os defeitos.

 

Nunca desenhei uma princesa!

 

Nunca me foi importante desenhar bem, assim como nunca me foi importante escrever. São-me indiferentes os riscos que vou deixando soltos. É o silêncio em redor das palavras e dos traços que me deslumbra. Uma ausência de som, parecida com a impotência da morte, como se envolvendo o bater do coração de cada grafismo existisse o vácuo, o nulo, o nada, impossibilitados de parar o batimento.    

 

Lentamente, tornava-me de alabastro.

Sem sol, sem jogos, sem risos, sem ruído.    



Foram estes silêncios de desenho que ia construindo cada vez com mais frequência, os responsáveis pela desertificação dos meus planetas.

Com a ameaça de uma mudez e imobilidade incompreendidas, ficou decidido que me seriam arrancadas as naves de madeira com que viajava.

Tornava-se necessária a minha voz depois de detectado o meu silêncio.

 

Sempre desejei ser o que sou. O que faço hoje, o meu trabalho, a minha profissão, é de certa forma prolongar os meus pobres desenhos infantis. O silêncio é o mesmo. Só as telas são diferentes e o traço de um bisturi é sempre mais perfeito por não ter retrocesso.

Às vezes, volto ao retrato da Bórgia, mas retoco-o de modo a ficar mais realista.  



Nunca mais os vi. Os meus lápis. Acordei e já lá não estavam. Nunca perguntei por eles. Nunca soube quem os tinha retirado.

Creio que fiquei muda.

O que escrevo é a minha mudez sem lápis de cor. O que desenho, é uma memória dos meus silêncios pacificos da infância.


Às vezes, sinto as palmas das mãos a ficar secas.

Hoje queria muito desenhar uma princesa.

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Gavetas:


19 rabiscos

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De Luísa de Sousa a 31.01.2019 às 11:13

Oh ... que inspirador post, Gaffe! Beijinhos
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De Gaffe a 31.01.2019 às 11:15

:)
Obrigada.
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De naomedeemouvidos a 31.01.2019 às 13:52

Talvez essa princesa não se importe, por não saber desenhá-la. Afinal, as palavras também podem ser traços perfeitos. Acho que os seus são mais que perfeitos. Muitas vezes, são suficientes. Bastam-se, porque se sentem. Eu também não sei desenhar.
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De Gaffe a 31.01.2019 às 14:01

Não sei.

Mas aquietam-me.

(Obrigada)
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De P. P. a 31.01.2019 às 13:58

Quanto sentimento.
Bravo.
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De Gaffe a 31.01.2019 às 14:01

Sentir é também, de certa forma, uma imagem.
:)
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De P. P. a 31.01.2019 às 14:09

Sem dúvida.
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De miss daisy a 31.01.2019 às 16:52

Para quê lápis de cor? A Gaffe faz, das letras, arco-íris únicos ;)
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De Gaffe a 31.01.2019 às 20:23

Um segredo:
O arco-íris já existia antes de mim. Roubo-o e estilhaço-o.
:)

(Obrigada)
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De Pequeno caso sério a 31.01.2019 às 22:19

Abril está quase aí e este ano já sei o que te oferecer.
; )*


Não precisas saber desenhar de forma perfeita. O teu dom é outro. O de brincar de forma irrepreensível com as palavras que se curvam perante os teus dedos.



É tão bom gostarmos do que fazemos profissionalmente.
Tal como tu , também nunca imaginei ser outra coisa . Desde miúda tracei esse objetivo e trabalhei muito para o alcançar. Nada me foi gratuito . E ainda bem. Creio que foi isso que me fez quem sou com tudo de bom, mau e único. É isso que transporto todos os dias quando "entro em cena". É isso que imprimo em tudo o que faço e se com isso conseguir fazer a diferença na vida de uma pessoa que seja, então já valeu a pena.
Abençoadas que somos e nem nos demos conta.

Vendo as coisas desta forma , não sei se o tio Lúcifer continuará interessado em ter a nossa companhia...
Tu queres ver que afinal somos boas pessoas ?!

; )

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De Gaffe a 01.02.2019 às 11:21

Sempre que me revolto; sempre que me indigno com o que se me depara; sempre que de tão descontrolada me sinto com o que vejo; sempre que penso em desistir, porque acabo a pensar que nada vale a pena por aqui; sempre que penso que escolhi a profissão errada, porque é demasiado o que há para fazer e não consigo fazer tudo, acudir a tudo, salvar todos ...
Sempre que tal acontece, fico com a certeza de que estou no lugar certo, que é exactamente aqui que quero estar.
:)

Lúcifer, entende ... Não escapamos.
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De Maria Araújo a 01.02.2019 às 12:36

As suas palavras são desenhos da alma.
Adoro lê-la.
E sabe que nem sempre compreendo as suas palavras.
Mas imagino um coração grande.

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De Gaffe a 01.02.2019 às 13:47

Obrigada.

(É evidente que compreende. Estes entendimentos sentem-se)
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De Pedro Vorph a 02.02.2019 às 15:53

Lembrei-me, enquanto a lia, de Borges e Papini. O primeiro dizia que a verdade estava no espaço vazio entre as palavras. O segundo via o segredo da música numa sábia gestão do silêncio entre duas notas soltas.
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De Gaffe a 02.02.2019 às 16:46

Jamais pensaria ter Borges e Papini como meus discípulos.
:)
Suspeito que é uma verdade universal. Cedo ou tarde sentimos o mesmo. Alguns tomam consciência disso. Tenho a sorte - ou a tragédia - de ser uma das contempladas.
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De Pedro Vorph a 02.02.2019 às 19:49

A semântica, a harmonia, surge no ritmo do não dito.
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De Gaffe a 03.02.2019 às 00:04

No que fica por dizer, escondem-se sempre bastantes ritmos.
:)
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De Anónimo a 07.02.2019 às 22:53

a 1.ª pessoa, do singular, está sempre presente nas cenas que escreves.
revelador.
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De Gaffe a 08.02.2019 às 10:27

Sou uma rapariga educada. Não falo pelas outras pessoas e raramente nas outras pessoas.
Sorte a sua. Um anónimo nunca é uma pessoa!

Então vá.

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