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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe à entrada da casa

rabiscado pela Gaffe, em 28.11.18

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Sei que a vi à entrada da casa, junto ao portão de ferro forjado. Havia uma alameda de vinhas despidas e um caminho de pedra calcada que teria de percorrer até chegar. Ao longe, e o longe era profundo, a minha avó parecia mais pequena do que realmente era. De casaco cinzento, comprido e tubular e lenço enrolado no pescoço. Um lenço amarelo tostado, de seda, liso e limpo, que, emergindo do antracite do conjunto, a fazia parecer um archote. Permaneci quieta por momentos e depois comecei a andar com passinhos decididos.

 

Aproximava-se. Aproximava-me. 

 

Primeiro foram os seus olhos. Cinzentos, agudos e aguçados, pareciam andar mais depressa do que eu. Chegaram de repente e apanharam-me desprevenida. O olhar da minha avó tinha dentro a minúcia de um exame que sabia que reprovaria. Era quase um olhar predador e eu julguei ser a caça. Antes da minha avó ter chegado completa - e era eu que andava -, já me tinha escondido dentro de mim.

 

No entanto, o seu amor absoluto foi-me entregue todo.

 

A sua capacidade para domar ou dominar todas as situações tornaram-na imprescindível e as suas certezas, os seus aforismos, as suas certeiras observações e as provas irrefutáveis da sua competência, fizeram com que a idolatrasse. Deslizava pela casa fora, muitas vezes dura, pronunciando apenas as palavras necessárias que inevitavelmente traduziam ordens, quase sempre meiga como a alvura do seu cabelo de ondas presas por travessões de tartaruga.  

 

Há dois dias, no lugar da minha avó, à entrada da casa, ao fundo da alameda agora abafada por mimosas, eu, de antracite e lenço de seda liso e limpo, amarelo queimado, vi-o chegar.

 

Aproximava-se o meu Amigo.

 

Primeiro os seus olhos, negros, densos, maciços e aguados, pesados de uma tristeza infinda que ninguém explica, como se sentissem sempre saudade dos archotes de outrora, de um tempo findo numa outra Era. Um olhar de sombras que nunca sabemos se são das pestanas ou das árvores que lhe crescem nas palavras.

Um olhar que o esconde dentro.

 

A sua capacidade para domar ou dominar é ínfima. Fragiliza-o, entrega-lhe uma ternura que advém da mais profunda compreensão do mundo e da pureza indiscritível dos eleitos, dos que deslizam pelo mundo com a alvura impossível dos cabelos negros como corvos.

 

À entrada da casa, existimos suspensos no tempo que passa a pensar. 

Eu, lá longe. Ele, agora. 

 

Heathcliff is me!    

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Gavetas:


15 rabiscos

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De Corvo a 29.11.2018 às 09:59

Ora aqui está uma descrição, pungente e poética que me merece uma profunda reflexão pelo dramatismo que exala.
"Primeiro os seus olhos, negros, densos, maciços e aguados, pesados de uma tristeza infinda que ninguém explica, como se sentissem sempre saudade dos archotes de outrora, de um tempo findo numa outra Era."
Enigma empírico, interroga-se sobressaltando-se a menina. Que dor, mágoa ou tragédia a negritude daqueles olhos gritam?
No entanto, quantos milhares de olhos negros, castanhos, verdes ou azuis, não transportam também a "saudade dos archotes de outrora"
Pergunte-lhe se não é do Benfica.
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De Gaffe a 29.11.2018 às 12:05

Provavelmente milhares, milhões de olhos negros, castanhos, verdes ou azuis.
Mas são estes os que me importam.

Não é do Benfica. O que é o Benfica?!

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