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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe a envelhecer

rabiscado pela Gaffe, em 02.12.16

A Gaffe estabeleceu que o seu envelhecimento seria de cinco em cinco anos, ou seja, fez 20, 25, 30, fará 35, 40 e por aí fora, se chegar a idade tão provecta.

As idades intermédias não contam. São períodos de aprendizagem que apenas se solidifica se entre eles deixarmos intervalos de tempo razoáveis.

 

Posto isto, fica claro que a Gaffe não tem a idade certa para se tornar uma eremita - coisa em que se transformará aos 85 -, mas também já não consegue andar por aí a abanar pevides por entre a multidão.

 

Está naquilo a que se poderá chamar limbo, que, segundo a Igreja Católica Apostólica Romana, é um lugar fora dos limites do Céu onde se vive a plena felicidade natural, mas privado da visão beatífica de Deus. O Céu estará, de acordo com esta linha de pensamento e com a de Judy Garland, algures no início e no fim do arco-íris. O entremeado é o limbo e não dá direito a ida ao cinema nem à visão de faces beatíficas.

 

Isto de envelhecer aos soluços tem que se lhe diga. O tempo custa a passar e sobe-nos à garganta a sensação do vácuo existencial - critica um amigo - sempre que nos perguntam a idade. No entanto, aprendemos, nos intervalos da chuva, a perceber que o que é aborrecido não é passar a vida a soluçar, é arranjarmos uma embalagem de lenços de papel em condições, para limpar o muco e as lágrimas - de choro e de riso - que nos encharcam o chão que vamos pisando.

 

A nossa vidinha nunca é tão boa, nem tão má como pensamos. Vivemos nos intervalos.

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10 rabiscos

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De Pequeno caso sério a 02.12.2016 às 18:55

..."arranjarmos uma embalagem de lenços de papel em condições, para limpar o muco e as lágrimas - de choro e de riso "...

Espero ter sido a causadora de algumas das lágrimas de riso .
Mesmo sem te conhecer pessoalmente aposto que a passagem do tempo não tem feito grandes estragos em ti. Pelo menos, não por fora.

Gostei dessa ideia de só contabilizar a coisa de 5 em 5 anos. À custa de uma ideia parecida no outro dia menti sem querer ao dizer que tinha 40 anos. Tudo porque um dia meti na Real cornadura que só fazia 40 e que a partir daí deixaría de os contar.
Acho que isto faz de mim uma daquelas pessoas que acreditam tanto nas mentiras que dizem que passam a ser verdade.
Como a outra pessoa não estranhou eu ter só 40 anos, vou encarar a coisa como um...elogio e ficar caladinha.
;)
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De Gaffe a 02.12.2016 às 20:28

A genética é-me favorável.

Tu jamais terás mais do que 40. Mesmo caquéticas, seremos duas mimosas adolescentes a infernizar a vidas aos "utentes" do lar onde nos vão internar por exaustão e colapso nervoso dos cuidadores.
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De Pequeno caso sério a 02.12.2016 às 21:44

:)

Tu acreditas que mesmo com 43 anos as vizinhas da minha mãe continuam a tratar-me por ______inha ? Umas "quiduxas", pois são?

A minha filha a-d-o-r-a este tipo de comentários.
No outro dia fomos ao médico e o médico falou primeiro comigo e depois , a meio da conversa, perguntou-me se era a mãe.Fiz um esforço para não me rir pois consegui ver pelo canto do olho a cara que ela fez. Quando saímos do consultório a primeira coisa que ela me disse foi: "parece que é parvo...humf...se és minha mãe...havias de ser o quê... minha avó,não...ou PIOR minha irmã?! 'Atão não se vê logo que és minha mãe?! Por favor!!!"

Tenho pelos utentes do lar onde estaremos, o mesmo sentimento que pelos meus futuros cuidadores: pena. Muita pena.

:))))
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De Gaffe a 02.12.2016 às 22:01

:)))
Acontecia o mesmo com a minha mãe e a minha avó que parecia vinte anos mais nova do que realmente era e praticamente da idade da filha. Não era agradável presenciar a reacção da mamã...
:)))
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De Maria Araújo a 02.12.2016 às 19:28


O envelhecimento de cinco em cinco anos é por demais rápido, também.
Viva-se a vida da melhor forma, e que se dane a idade.

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De Gaffe a 02.12.2016 às 20:24

E "para a frente é o caminho"!!!!
:)
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De Rapunzel a 03.12.2016 às 11:23

Infelizmente, nunca tive a brilhante ideia de envelhecer de 5 em 5 anos. Ainda tentei que o meu filho nascesse a 29 de Fevereiro, e assim, faria anos de 4 em 4. É, e sempre foi uma criança difícil, nasceu a 26 de Fevereiro.
O dia em que fiz 30 anos foi um verdadeiro pavor. Parecia que algo me estava a fugir, não sabia o quê, mas foi uma sensação de angústia terrível. Na altura, um cavalheiro garantiu-me que a década dos 30 era a melhor da vida. Acreditei. Vamos então contabilizar:
- Trabalhei, como uma cadela, para provar o meu valor e assegurar o respeito que hoje tenho no meu local de trabalho;
- Comprei casa e passei, pelo período obsessivo, de gastar cada euro em mobiliário italiano;
- Casei, fui muito feliz, mas também conheci as agruras da vida em comum, como por exemplo, a excruciante partilha do mesmo armário para sapatos;
- Fui mãe. Bem.. Basicamente posso dizer, com segurança, que durante 3 anos não dormi. E quase enlouqueci. Chegava a preferir fazer noites a trabalhar do que a dormir em casa;
- Vi a família crescer e amadurecer, sem qualquer amor pelo meu sofisticado mobiliário italiano. A cada nova mossa ou nódoa, era-lhes atribuído o nome poético de "marcas de uma vida". Bastou trabalhar um sábado, durante o dia, para o meu rebento, sob cuidado do pai, "marcar para a vida" um plasma novo com a ajuda de uma concha da praia;
- Divorciei-me. Aprendi que por muito amor que tenhamos ao nosso marido este deve ser, sempre, inferior ao nosso amor próprio. Arrependo-me até hoje de não ter seguido um dos conselhos da minha mamã: Nunca se compram duas camisolas para o marido, compras uma para ele e outra para ti. Palavras sábias, hoje já sei;
No meio de todo este conto de fadas, pensei sempre primeiro nos outros e depois em mim.
Conclusão: Década dos 30 = Farrapo humano.
Fiz 40 anos. Surpreendentemente, tive um dia tranquilo, luminoso e feliz. Sem receios.
Fiz 41 e 42 anos. Concluo, que sou muito mais feliz aos 40 do que aos 30. Continuo a trabalhar, como uma cadela, mas já não tenho que provar nada a ninguém. Hoje, o meu filho deixa-me dormir, que vitória! Tenho dúvidas entre duas camisolas?!? Não tem problema, são as duas para mim. Uma casa de revista? A casa é para nós vivermos, e não devemos ser nós a viver para a casa. Farrapo humano??? Onde isso já lá vai... O meu cabelo é macio e sedoso, a minha pele está bem tratada, tento fazer uma alimentação saudável e maioritariamente vegetariana, vou três vezes por semana ao ginásio, não há prazer ao meu alcance que não me ofereça.
Mais importante de tudo, os 40 mudam a nossa cabeça, a nossa maturidade e segurança pessoal, a forma de ver e viver a vida. Hoje, saboreio os 40 como algo muito precioso e raro, que só podemos saborear uma vez por dia, para poder, sempre, sentir o sabor delicioso que é.
Aprendi, também, outra coisa. Esta, muito mais difícil. Antes, o meu filho vinha primeiro que tudo. Agora o meu filho está em primeiro lugar comigo. E só assim conseguimos ser os dois felizes.
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De Gaffe a 04.12.2016 às 19:08

Resumindo: uma vencedora.
:)*
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De Rapunzel a 04.12.2016 às 21:20

Não sei se sou vencedora... Não queria ser pretensiosa com o comentário acima. Perdi imensos combates e fui muitas vezes ao tapete. Sei que houve alturas em que não me queria levantar. Precisei de pedir ajuda a uma amiga psiquiatra, a quem sou e serei sempre grata. Nas alturas piores tive um grande empurrão farmacológico. Acho que fui privilegiada por ter tido o "insight" de reconhecer que estava a ficar amarga e azeda, a certeza de saber que não queria ser uma pessoa assim e a coragem de pedir ajuda.
E sei que apesar de não conhecer a Gaffe, pessoalmente, que a prezo imenso e à sua opinião. Já a leio há muitos anos e é sempre um enorme prazer. Por isso mesmo, muito obrigada.
:))
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De Gaffe a 04.12.2016 às 23:25

:)
O facto de ter perdido algumas batalhas é prova que vence as suas guerras.

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