Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe à espera

rabiscado pela Gaffe, em 02.05.18
 
Tinhas-te enganado no bairro, na rua e inevitavelmente no número da porta, por isso a chuva havia destruído os dois croissants com amendoim e amêndoa, Boulangerie La Môle, Rue de Tourene, empapando o saco retro, pardo, com um cozinheiro balofo e sorridente desenhado a azul. Os braços do homem desfaziam-se, alastrando pelo papel pingado e o traço do sorriso resvalava numa gota azul que escorria rápida, sobrevivendo ao empapado embrulho.
 

Senti o teu perfume muito antes de te sentir os passos, de sentir a tua luva a deslizar no corrimão. O teu perfume altera-se quando a tua pele o toca, por isso, mesmo cega, te reconheço entre milhares.

Trazias o sobretudo bege, aquele que tu gostas e dura há tanto tempo, manchado pela chuva. Nos ombros os desenhos da água do céu escuro de Paris, como se dos olhos tivessem tombado os arabescos tristes. Sorrias quando me mostraste o teu guarda-chuva desdentado pela força do vento e te sentaste no chão mesmo ao meu lado.

 

- Vim esperar contigo. Podemos esperar aqui, os dois, o tempo que quiseres.

 

Abraçaste-me e foi então que comecei a chorar, aninhada em ti. Chorei mais do que a chuva. Encharquei-te o peito de soluços e ganidos.

Ficamos quanto tempo? Quantas horas durou o meu corpo a desfazer-se em água?

Quanto tempo levei a decidir matar o tempo de esperar?

Foi ali que aprendi contigo que a espera só se torna vã no momento exacto em que a nossa alma assim o decide, mesmo sem sabermos porque o fez.

 

Há dois mendigos eternos - tu e eu, ali - que esperam por Godot. Há um povo perdido a aguardar um rei sifiliticamente mágico que perdeu no sol. Há um poeta a sonhar ser amado como um dia amou.

Não há esperas inúteis até ao momento em que as transformamos, mesmo sem saber, em vazio incómodo.

Um povo, dois mendigos e um poeta só podem ter razão.

A espera continua a vida, mistura-se com ela até ser viva. Integra a nossa alma até ser pedaço dela, indivisível, inalienável. Não adia o tempo de viver, porque é já ele.

 

Gostava de me atravessar na porta por onde o tempo passa. Impedir que se escoe, que desapareça. Talvez então eu conseguisse fazer a morte parar, ficar à espera. Talvez então encontrasse um modo de entregar a alguém o tempo que é meu e de que mais me orgulho: as horas empapadas em que eu esperei. Esse tempo exacto. Esse intervalo nítido que finda no instante em que me levantaste porque sentiste a minha espera desistir, abandonar-me a vida.

 

Paris?!

Paris espera sempre, porque nada como o fio ténue de uma espera para nos segurar ao lugar de onde partimos.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)


10 rabiscos

Sem imagem de perfil

De Carlos Berkeley Cotter a 02.05.2018 às 16:14

Muito obrigado pela delícia com que nos (me) presenteou.
Lindo.
Imagem de perfil

De Gaffe a 02.05.2018 às 16:45

Sou eu que agradeço ter a sua presença sempre gentil.
Imagem de perfil

De Fleuma a 02.05.2018 às 17:34

Apenas a única razão para regressar ao sapo.

Estas avenidas.

Um poiso para a alma sentir.

Beijo.
Imagem de perfil

De Gaffe a 02.05.2018 às 18:13

Eu poiso na sombra para me inquietar.

Beijo
Imagem de perfil

De Fleuma a 02.05.2018 às 18:32

Apenas para inquietar?

Imagem de perfil

De Gaffe a 02.05.2018 às 18:43

Sobretudo.

Lembro-me da "arquitectura do inquieto", tão querida à minha irmã. É, nas minhas pobres e definições, aquela que nos faz em casa, no interior, mas que em simultâneo nos impulsiona para o que nos é estranho, ou exterior, provocando-nos a capacidade de nos maravilharmos com o que em nós não é apercebido.

A inquietude é uma magnífica arquitecta do que dentro de nós pede desenho.
Imagem de perfil

De Fleuma a 02.05.2018 às 19:38

Desenho, em seu caso, traçado nas palavras. Presumo.


Fascina-me muito mais a "arquitectura do inquieto" nas palavras.

Imagem de perfil

De Gaffe a 02.05.2018 às 20:36

Não sei.
Talvez todas as inquietudes sejam rectas convergentes.
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 14.05.2018 às 18:33

" Foi ali que aprendi contigo que a espera só se torna vã no momento exacto em que a nossa alma assim o decide, mesmo sem sabermos porque o fez."

Uma expressão que me levou atrás no tempo, à época que o meu amor era grande demais mas nada se definia.
Imagem de perfil

De Gaffe a 14.05.2018 às 21:00

Não faz mal. Creio que vivemos todas (e todos) o mesmo, mais cedo ou mais tarde.

Comentar post



foto do autor