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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe a lamber envelopes

rabiscado pela Gaffe, em 10.01.19

Hong Jang Hyun.jpg

A repartição dos correios está praticamente a explodir de gente.

Uma fila medonha de criaturas resignadas de retângulo de papelinho amarelo na mão olhando de quando em vez o número que lhes saiu em sorte. Tentam passar o peso do corpo de uma perna para a outra, mascando o tédio ou a impaciência enquanto vão erguendo a sobrancelha quando um olhar se cruza com o do vizinho.

 

À medida que o tempo se arrasta, manobrado com a lentidão dos vermes pela única funcionária, senhora oxigenada de lábios sumidos e sombra azul celeste nas pálpebras cansadas, as conversas baixas vão erguendo um burburinho morno e sonolento.

 

Ao meu lado, uma jovem mãe, moçoila robusta e de boas cores, de avantajadas e roliças curvas e mamocas redondas a asfixiar dentro da blusa justa, é puxada pela criança que tenta atingir a pequena estante onde estão pousadas bugigangas e alguns livros coloridos.

 

A menina é irritante, inquieta, irrequieta, impaciente. Não tem mais do que seis anos e é minúscula. Parece um rato desgrenhado e feio. É provável que se pareça com o pai, pois que a mãe tem a beleza alourada e florida das minhotas e uma sensualidade contida pela força das mansidões aprendidas ou impostas.

Não consegue estar sossegada. Procura tocar nos livros e nos tarecos de plástico em forma de bichinhos, com uma pequenina corrente para pendurar. A mãe agarra-a. Exige que pare, que esteja quieta.

 

A miúda desobedece.

 

Puxa-lhe a saia, agarra-lhe nas mãos, torce-lhe os dedos, cola-se-lhe às pernas. A mãe começa a desesperar, empurrando-lhe a insistência com um solavanco e um beliscão no braço. A criança continua mesmo assim. Quer desesperadamente um livro com dois ursinhos na capa. A mãe recusa. A menina ataca. A mãe nega. A menina teima. A mãe rejeita-a. O ratinho morde.

 

Creio ser só eu a observar a cena. Os meus restantes companheiros de infortúnio encetaram entretanto as conversas de ocasião com que esperam iludir a espera.

 

Dura há já algum tempo a embirração.

A criança dispara com um berro de repente a derradeira bala.

 

- Não dás? Não dás? Então vou dizer a toda a gente que lambes a pila ao pai.

 

Faz-se silêncio. Aquele que é o melhor. O absoluto.

Sinto que algures ocupando o espaço paira um búfalo morto e que toda a gente está ali para apresentar condolências à família.   

 

Ficou no chão um papelinho amarelo com o número que antecede o meu.

 

Já não tenho ninguém à minha frente.

 

Fotografia - Hong Jang Hyun

 photo man_zps989a72a6.png

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45 rabiscos

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De Rui Pereira a 10.01.2019 às 11:19

A sério?!

"Ratinho" minúsculo com a boca bem grande!
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De Gaffe a 10.01.2019 às 11:30

A sério.

(Está a referir-se à criança, suponho.)
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De naomedeemouvidos a 10.01.2019 às 13:09

Apesar de tudo, podia ter sido bem pior. Imagine-se que a ameaça não terminava em "ao pai"...
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De Gaffe a 10.01.2019 às 13:47

Ah!
Verdade!
Não tinha pensado nisso.

(mas que era de longe muitíssimo mais divertido ... )
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De naomedeemouvidos a 10.01.2019 às 14:45

(Principalmente, para a miúda, que ainda se arriscava a levar todo o stock da loja...)
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De Gaffe a 10.01.2019 às 14:56

Um estratagema que só se aprende mais tarde.
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De claudia a 10.01.2019 às 15:02

Lamber pilas ou não, faz quem quer (e quem pode, que aparelhos dentários podem causar problemas aos inexperientes). Agora com crianças a ver...não obrigada!
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De Gaffe a 10.01.2019 às 16:03

Lamber - é detestável a palavra -, é optativo.

Suspeito que a criança viu o que não estava programado ver. Não acredito que tenha sido tudo uma questão de exibicionismo a raiar o crime.

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De claudia a 10.01.2019 às 16:25

Pais desprevenidos, é o que é!!! Sou mãe de dois, não sei o que me espera um dia, e espero não passar pelo mesmo. Mas atenção: não quero os meus filhos a pensar que saíram de uma couve, daí já ter lido "A mamã pôs um ovo" ao mais velho - o título é enganador :)
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De Gaffe a 10.01.2019 às 16:34

O facto de ter filhos informados, não implica que a informação seja dada "ao vivo".
Acredito piamente que o que aconteceu aqui tenha sido um descuido, um desleixo, um deslize, uma distracção provoca pelo calor da batalha, mas o curioso é que parece estar implícito que a criança foi instruída para não contar a ninguém o que presenciou. É evidente que mais cedo ou mais tarde a miúda vai abrir a boca (neste contexto, soa mal).
O que fazer perante estes ocorrências?
É uma questão interessante e que me iria divertir imenso se me dessem a conhecer as respostas ...
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De Corvo a 10.01.2019 às 18:35

Ora bem. Uma vez que a menina está interessada, - através das respostas solicitadas, - a solucionar o enigma; eu sei.
Quer dizer, não sei: ou por outra; sei e não sei.
Não sei porque as crianças são imprevisíveis e estranhamente muito propensas ao "toupeirismo"
E sei: passo a explicar:
Uma vez que as pestinhas nunca dão sossego, e para pais displicentemente irresponsáveis como os descritos, a explicação é simples. Vaselina! muita vaselina. Carradas de vaselina.
Depois é só encharcar, tipo lodaçal, a maçaneta da porta do quarto que por muita vocação exploradora que por lá exista acabam por desistir
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De Gaffe a 10.01.2019 às 18:53

Escolha a hipótese a)
- descuido dos adultos.
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De Corvo a 10.01.2019 às 19:52

Então e uma vez que vamos falar a sério, contradigo-o liminarmente.
Descuido dos adultos não! Irresponsabilidade sim!
Irresponsabilidade de quem não pensa que tudo que lhes é permitido antes do crescimento familiar, não é propriamente o mesmo depois da família crescer
A paixão não inocenta o crime, o amor não justifica a irresponsabilidade.
Não podia estar mais de acordo com a sua leitora, senhora Cláudia.
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De Gaffe a 10.01.2019 às 21:07

Ai, meu querido Corvo,
Um esquecimento, ou um descuido, acontece a todos. Não seja implacável.
Seria bastante mais interessante ter feito os possíveis - não sei como -para minorar o efeito da cena. Internar a miúda num asilo, ou encharcar-lhe a visão com xanax.

Também fez falta dois estalos no pirralho.
Não sei como se apercebeu do poder que a visão da cena lhe dava.
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De Candy a 10.01.2019 às 21:55

Foi mesmo isso que pensei...
"... o poder que a visão da cena lhe dava." Como é que ela percebeu?
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De Gaffe a 10.01.2019 às 22:05

Provavelmente entregaram-lho.

Creio que bastava para isso o embaraço dos adultos. Uma criança pode ser demoníaca. Ou ruiva.
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De Sarin a 14.01.2019 às 16:21

Significam as suas palavras, caro corvo, que o casal ao ter filhos deve ignorar tais jogos? Porque uma criança que dorme profundamente pode acordar silenciosamente e silenciosamente abrir portas que cuidadosamente se fecharam - mas sem chave, pois o estado de alerta é, ainda assim, permanente.
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De amarquesademarvila a 10.01.2019 às 15:42


Nem sei o que diga... detesto miúdos mal educados e insuportáveis... e essa, pelo andar da carruagem vai chegar muito longe na insuportabilidade... a chantagear dessa maneira e a mãe a obedecer...
Por outro lado... eeerrrrr... quer dizer... ao menos a senhora podia ter arranjado um dono de pila bonito, a ver pela criança que lhe calhou em sorte...
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De Gaffe a 10.01.2019 às 16:05

A mãe não obedeceu. Foi por não ter obedecido que se revelou o que a senhora se divertia com a pila do pai da criança.

Há que colocar a pila no seu devido lugar.
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De Corvo a 10.01.2019 às 17:34

Ó Gaffe.
Provavelmente estava.
:)
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De Gaffe a 10.01.2019 às 18:54

Não, se estava ao alcance da criança.
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De Corvo a 10.01.2019 às 17:32

É deveras significativo, estranhamente significativo, queria dizer; que uma criança dessa idade já tenha desenvolvido a preceito a arte da "toupeirice"
Auguro-lhe um radioso futuro. Mais uns anitos em cima e contratada para as relações externas do Benfica.
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De Gaffe a 10.01.2019 às 18:57

Não acredito.
A miúda deve ter apanhado a cena mesmo antes do fechar da cortina.

Suspeito é que não lhe foi bem explicada e confesso que também não sei como deveria.
Enfim, a criança apanhou a mãe com a boca na botija (volta a soar tão mal!)
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De Pedro Vorph a 10.01.2019 às 19:17



Excelente postal. A criança terá lido, muito provavelmente, os clássicos de Lester Burnham:


https://youtu.be/hJVXg1AHQTY
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De Gaffe a 10.01.2019 às 21:13

Admito que a miúda vai no bom caminho...

(Tenho de começar a ler Burnham.)
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De Maria Araújo a 10.01.2019 às 19:26

Saiu-me um "ah!".
Sinceramente, nem sei o que escrever.
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De Gaffe a 10.01.2019 às 21:10

Pois que lhe saiu muito bem.
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De Soliplass a 10.01.2019 às 22:06

Era prodígio, esta menina, para dar uns seminários de retórica e comunicação aos nossos sócrates, e portas, e relvas e frasquilhos; uma afirmação de alta probabilidade tem muito maior efeito em qualquer auditório.
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De Gaffe a 10.01.2019 às 23:22

Oh!
Não me parece que disso necessitem. Tornaram-se imunes ao crivo da evidência.

Fazem parecido no aconchego da sombra de advogados e das esquinas da lei. Só que não se ouve, rentabilizando assim muito mais do que esta narrada retórica infantil.
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De Anónimo a 10.01.2019 às 22:55

Vou refrear o meu comentário para não criar embaraços nem expectativas a nenhum dos protagonistas, a nenhum dos seus leitores e muito menos ao seu espaço de discussão e debate, ou seja, a si.
Por isso vou parafrasear MST há muito, muito tempo, a propósito do Clube dos Poetas Mortos.
Parafrasear e modernizar o assunto, claro.
A autora conseguiu definir num ritmo discursivo de meia-dúzia de parágrafos aquilo que os sociólogos levariam anos a produzir e a programar para parir uma tese sem pernas para andar.
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De Gaffe a 10.01.2019 às 23:15

Não sei se deva corar de vaidade ou se fugir embaraçada.
:)
MST são iniciais de Miguel Sousa Tavares, segundo penso.
Lamentavelmente esta rapariga não dá credibilidade a um homem que diz "treuuuze" e "quaisqueres".

Mesmo assim, foi um amor. Obrigada.
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De Gaffe a 11.01.2019 às 01:02

Ah!

Relativamente a outros assuntos mais identificáveis, devo dizer-lhe que sei, que sempre soube. Reconheço num ápice a textura de um texto.
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De Anónimo a 12.01.2019 às 09:40

MST diz que VPV só conhece dois países: Oxford e o Gambrinus.
Tem razão.
A textura do corpo do texto é essencialmente espiritual.
Creio que vai preferencialmente ao seu encontro nesse sentido.

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