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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe a observar

rabiscado pela Gaffe, em 16.07.16
 

As constantes oscilações de humor desta rapariga são vastas vezes da responsabilidade da sua incómoda capacidade de observação.

A Gaffe observa o palpitar de tudo, escuta os batimentos dos corações dos objectos, perscruta com afinco o respirar da vida, cata com minúcia o pêlo daquilo que acontece e pesquisa à procura de faíscas escondidas nas tempestades e nas bonanças que ao seu lado pairam.

 

A observação prolongada, constante e obsessiva da vida, fornece ao observador a capacidade imediata e quase involuntária de descobrir em quase tudo pequenas migalhas, diminutas pepitas de ouro, pedacinhos de chumbo ou fragmentos de névoa, que, para os distraídos, não são mais do que absolutamente nada, mas que adquirem sob as lentes do nosso microscópio interior, valor imenso e importância clara e primordial.

 

Desses pequeninos encontros se vão erguendo histórias internas impossíveis de separar da nossa alma que se estrutura e constrói a cada passo e se reorganiza a cada momento com réstias daquilo que nos é dado olhar.

 

Quando a observação é extrema e somos dela dependentes mórbidos ou reincidentes, inveterados viciados, veteranos dessa guerra ou dessa paz, humildes servidores ou donos seguros do olhar lançado sobre as vidas, acabamos empurrados e levados, impulsionados e envolvidos, puxados e amarrotados, dominados ou a dominar, mesmo sem o querer, o observado. Somos parte integrante do que olhamos, quer quando o observado fica a milhares de vidas longe daquela que é a nossa, quer quando o que vemos está nas nossas mãos.


Inevitável é esta estranha forma de globalizar a alma e que ninguém pergunte por quem os sinos dobram. Todos os sinos dobram quando a vida é tida por inteiro, quando em nós existem e ficam retidos os traços da vida dos outros, quando em nós o olhar é muito mais que o ver.

 

Assim, a Gaffe oscila e deambula pelas emoções sem medo ou desgraça. Sabe que o baloiço é empurrado sempre pelas diversas mãos do, por demais amado, sentir do mundo a sentir. 

O resto é apenas a Gaffe de asas abertas.

 

Foto - Jiyen Lee

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:


6 rabiscos

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De Maria Araújo a 16.07.2016 às 12:38


Gaffe de asas abertas a sentir esse mundo, cruel e ao mesmo tempo belo.
A imagem é lindíssima.
Bom fim-de-semana.
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De Gaffe a 16.07.2016 às 19:19

Obrigada.
Um belo fim-de-semana para si também.
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De PR a 16.07.2016 às 13:22

É isso.
É por isso que não podes voltar a olhar para o carvão. Ficas com olhos manchados.
Promete-me, ruiva. Promete-me que não voltas ao fundo do escuro. Não voltes, por favor.
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De Gaffe a 16.07.2016 às 19:21

Prometo. Prometo nunca mais.

(Prometo, a ti também, minha querida)
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De Corvo a 17.07.2016 às 11:37

Nada de promessas sem certeza de causas.
Está uma canícula estuporada, sol a mais na mioleira, os miolinhos metade derretem e a outra metade dilata, nada que dois ou três dias de chapéu não resolva. A tolinha arrefece e os miolinhos voltam ao lugar.
Agora vou à missa e comungar para atrair a graça divina protectora, que de boa precisão vou necessitar.
:)

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De Gaffe a 17.07.2016 às 21:35

Cumpro sempre o que prometo, meu caro Corvo.

Reze pelos meus pecados. Confesso que com o calor não tenho muita paciência para desabafos dessa ordem.
:)

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