Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe a partir pedra

rabiscado pela Gaffe, em 18.11.15

Fab.gif

 Estive há dias na apresentação de uma obra literária.

O autor não é um dos meus favoritos, embora o leia com prazer e deslumbre, mas é sempre uma experiência fantástica poder estar junto de um criador, ouvindo-o dissertar sobre tudo e sobre o nada.

Na mesa engalanada para a ocasião, à direita do autor, encontrava-se um cavalheiro sisudo, professoral e a prometer um discurso intrincado e inacessível aos menos literários e literatos. O lado esquerdo era ocupado por Maria do Rosário Pedreira.

 

Não discuto – como o ousaria fazer?! – a qualidade literária da autora, reconhecida como grande poeta pelo centro de todas as atenções daquela noite, mas posso divagar sobre o ocorrido.   

 

Depois de apanhar a palavra, Maria do Rosário Pedreira esteve cerca de trinta minutos a falar. A falar dela. A falar apenas dela. A falar só dela.

Ficamos a conhecer o seu percurso profissional. Ficamos cientes do reconhecimento unânime do seu mérito. Ficamos a par das suas hesitações existenciais, logo sanadas pelos intelectos que sempre a cultivaram. Ficamos convencidos da sua inteligência e das suas qualidades de grande impulsionadora da criatividade literária e ficamos vergados perante o seu antigo gosto pelo ensino – atenuado agora, é certo - e pela sua competência nos processos de descoberta de um autor. Ficamos tristes com a sua tristeza que surge do facto de reconhecer que os originais que lhe chegam às sabedoras mãos carecem do fulgor de outrora.

Ficamos esclarecidos. Ficamos comovidos. Ficamos impressionados.

Maria do Rosário Pedreira dedicou somente o último minuto da sua intervenção ao autor que, com a benevolência que apenas os amigos conseguem ter, a ouvia com uma atenção imerecida e, mesmo nesta altura, apenas se congratulou por ser a sua editora e por ter o mérito de sempre o ter lido e o orgulho de o ter apoiado.

Bateram palmas a Maria do Rosário Pedreira.

Ficamos todos a suspeitar que Maria do Rosário Pedreira devia ter sido a homenageada.     

 

Decidi sair. Fiquei sem ouvir o senhor que se seguia - pela idade, prometia um currículo bem mais extenso do que o da senhora - e perdi a vontade de ouvir o autor.

 

Há momentos em que basta o sopro de um ego para apagar as velinhas do jantar.

 photo man_zps989a72a6.png


16 rabiscos

Imagem de perfil

De Corvo a 18.11.2015 às 16:37

Pois, também conheço gente igual, ou parecida.
Quando alguém utilizando o pronome pessoal "eu" na primeira pessoa desata a desfiar um chorrilho de sagradas virtudes, normalmente saio, vou beber um copo, fumar um cigarro, descontraio o miolinho e depois volto. Sei que tenho pela frente mais um ou dois minutos de vaidade verbal a aturar, mas com um esforçozinho um tipo paciente, aguenta.
Imagem de perfil

De Gaffe a 18.11.2015 às 16:49

"Aguenta, aguenta".
;)
Imagem de perfil

De Psicogata a 18.11.2015 às 16:42

É deveras triste quando alguém quer ser o protagonista num palco onde é personagem secundária.
Imagem de perfil

De Gaffe a 18.11.2015 às 16:48

Não sei se foi o que aconteceu, mas fiquei a perceber que é um tédio quando personagens, secundárias ou não, exibem o ego, sem o cenário adequado.
Imagem de perfil

De Psicogata a 18.11.2015 às 16:52

Sim, entedia e cansa.
Imagem de perfil

De RAA a 18.11.2015 às 16:45

Parece, contudo, que MRP é uma grande editora, isto é, melhora os textos que lhe chegam à mão e tem algum faro.

Quanto à sua poesia, ela é estimável -- o que já significa alguma coisa.

O seu post, contudo, e os olhinhos, são mortais :|
Imagem de perfil

De Gaffe a 18.11.2015 às 16:54

Como referi, meu caro RAA, jamais seria capaz de colocar em causa a qualidade editorial de MRP e acredito piamente no seu faro mais do que provado.
Apenas lanço os meus olhitos miseráveis a um acontecimento menos feliz protagonizado por uma senhora que respeito.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 18.11.2015 às 16:49

Comentário apagado.
Imagem de perfil

De Gaffe a 18.11.2015 às 17:04

São fabulosas, as duas!
Sou capaz de passar horas com Edina e com Patsy sem me cansar um segundo. MARAVILHOSAS!

Nem todas as apresentações de obras são um tédio. Algumas são muito interessantes. Sobretudo quando deixam o autor falar.
:)
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 18.11.2015 às 17:08

Comentário apagado.
Imagem de perfil

De Gaffe a 18.11.2015 às 17:13

Sorte!

Como já disse algures, eu caminho a passos largos para ser uma sósia da Patsy... em ruivo.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 18.11.2015 às 17:17

Comentário apagado.
Imagem de perfil

De Gaffe a 18.11.2015 às 17:20

Sim. Esse é o nome completo da personagem. Tinha de ser assim! Faz todo o sentido.
:))))
Imagem de perfil

De nervosomiudinho.blogs.sapo.pt a 18.11.2015 às 16:54

Gostava tanto da eddie e da patsy! ( não tem nada a ver com o post mas via essa série)
Imagem de perfil

De Gaffe a 18.11.2015 às 17:02

São estupendas.
Adoro as duas. Não consigo dizer qual delas é a mais fabulosa.

(Eu acho que vou ficar como a Patsy mais cedo ou mais tarde.)
Imagem de perfil

De nervosomiudinho.blogs.sapo.pt a 18.11.2015 às 19:37

ahahah, eu também, talvez!
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 18.11.2015 às 18:53


Maria do Rosário Pedreira, confesso, não me recordo de ouvir falar, não conheço.
Ano passado, fui à apresentação de um livro e só não saí do auditório por consideração a quem me convidou.
Primeiro, os apresentadores estavaam atrasados cerca de uma hora, hora de jantar. Chegaram e ainda estiveram mais vinte minutos a cumprimentar os VIPs, uma falta de consideração pelos convidados.
Num pequeno auditório bom para uma soneca, a apresentação foi uma verdadeira seca, porque o senhor que apresentava o livro gabava-se de mais de ser amigo do autor, que faleceu há algum anos.
A irmã do autor, que falara em primeiro lugar não se cansava de enaltecer a obra do irmão, do orgulho que tinha por ele, da doença... Do livro falou-se pouco.
Decidi não o comprar, não estava para ser agradável a quem não conheço.
Imagem de perfil

De Gaffe a 19.11.2015 às 09:19

Mas nem sempre é dessa forma.
É muito complexo organizar a apresentação de uma obra. É necessário cuidar de imensos pormenores e ter muito cuidado com deslizes do ego e com imbecilidades que encaixam na falsa modéstia.
Depois, existem os "cenários"...
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 19.11.2015 às 10:50

De acordo e reconheço o trabalho.
Já fui a apresentações que gostei.

Comentar post





  Pesquisar no Blog

Gui