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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe a valsar

rabiscado pela Gaffe, em 13.07.15

Paris

 

O tempo que aqui permaneci, longe de casa, foi o de aprender a atenuar a mágoa.

Aprendemos a envolver a mágoa em algodão, pousá-la com cuidado numa caixa, fechar a tampa e colocar depois o relicário numa das estantes mais escuras da alma dolorida. 
Não acredito que desapareça da memória o local onde a pousamos. Por muita poeira que sobre ela tombe, se a levantamos para lhe sentir o peso, fica no chão do peito a marca que ela deixa.
Ocupamos a alma com caixinhas destas e mesmo sabendo que ficam para sempre as marcas impolutas no polido e no limpo das estantes, continuamos a manter a colecção.
Assusta-nos perder a dor, tanto como a de a sofrermos. Custa-nos quase tanto abandoná-la como nos custou a penar. A memória do que nos foi doloroso surge quase como paradoxal prolongamento do prazer que obtivemos um dia. 


A dor engana tanto como o seu oposto e acreditamos que, na caixa onde repousa em algodão, ao tocar o monstro que ainda nos fere, conseguimos em simultâneo despertar a ténue recordação do seu reverso. Por isso mantemos pela noite dentro a dor que sentimos outrora. Invoca e retém o que lhe deu origem ou o que de feliz a antecedeu.


É a memória da Alma.


Se tocarmos a dor, encontramos um lugar de partida - há sempre partidas e chegadas quando Pandora move o braço! -  do suave milagre do beijo que se deu ainda cedo, no tempo permitido do começo. Se abrirmos a dor encontramos a ingenuidade, a inocência do mais completo acreditar ou do mais perfeito crer no amor. Se movermos a caixa de algodão, um fio da memória tange e há guitarras. No entanto, tudo é apenas um reflexo daquilo que fixamos no luzir de um voo breve e leve.


A memória da Alma é bipolar.

 

 photo man_zps989a72a6.png


4 rabiscos

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De PR a 13.07.2015 às 11:27

Smile O voluptuous cool-breathed earth!
Earth of the slumbering and liquid trees!
Earth of departed sunset! Earth of the mountains misty-top!
Earth of vitreous pour of the full moon just tinged with blue!
Earth of shine and dark mottling the tide of the river!
Earth of the limpid gray of clouds brighter and clearer for my sake!
Far-swooping elbowed earth! Rich apple-blossomed earth!
Smile, for your lover comes!

Whitman
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De Maria Araújo a 14.07.2015 às 20:25


Nunca tinha pensado nisto "A memória da Alma é bipolar".
A imagem é deliciosa.
O post é simultaneamente doce e compadecido.
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De Gaffe a 14.07.2015 às 21:44

Um bocadinho dorido, também.
:)
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De Maria Araújo a 14.07.2015 às 22:04


Acredite que a palavra que tinha escrito era "dorido".
Não quis reforçar a dor, escrevi a outra.

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