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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe alcoolizada

rabiscado pela Gaffe, em 09.02.16

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A primeira - e última - vez que se embebedou, a Gaffe acordou num Carnaval sem saber onde estava, numa cama muito aprazível, mas de todo desconhecida, sem saber quem a tinha despido, quem a havia deitado e o que realmente se havia passado, embora o estado em que despertou anunciasse um enorme vazio nocturno, sem ponta por onde se pegasse.

Lembra-se que, sem duche, se vestiu à pressa e que procurou a saída sem sequer investigar o seu passado. Nunca soube quem a tinha albergado. Nunca quis saber, não descobrisse ela tenebrosos rastos de pecado.

Tinha na cabeça todas as bailarinas do Crazy Horse desde os anos sessenta a desfilarem em simultâneo levantando as pernas e gesticulando de sorriso escancarado, com luzes coloridas por tudo quanto era canto, o que no seu caso é fantasmagórico, já que prefere, baile por baile, dança por dança, os Riverdance.

Jurou a pés juntos  - não muito juntos, porque não se equilibrava convenientemente - que não tinha bebido em exagero.

Era verdade.

Acabou por descobrir pouco tempo depois que um minúsculo dedal de vodka a faz estalar completamente, assanhando todos os instintos, acordando tigres brancos da Sibéria, mas que se ultrapassa esta medida, se procura mais na caixa de costura, entra de imediato no limiar do nada.

Um dedal e basta! Depois não escapa o gato nem o periquito.

 

Este pouco dignificante resultado é similar àquele em que nos atrevemos a beberricar o dedal do amor.

O primeiro travo é sempre incendiário e entrega o enganador conforto da anestesia ou a euforia de nos vermos invadidos por fogo de artifício. Tornamo-nos únicos, o universo reduz-se a dois umbigos e todos os planetas rodopiam em redor de quem se tornou a nossa gravidade.

Tal como no caso do primeiro dedal, se o do amor é bebido até ao fim acaba-se conduzido, no lugar do morto, com a esperança de chegarmos sãos e salvos ao destino com que sempre sonhamos. Geralmente espera-nos a ressaca com uma voz tonitruante que nos grita na manhã de enjoos que não devíamos ter bebido tudo. Esquecemo-nos que desatamos a tentar modificar a criatura por quem nos apaixonamos, procurando que se molde ao que esperamos, mesmo sabendo que não foi por esse ideal que desatou a bater descontrolado o nosso coração. O resultado é descobrirmos que adormecemos com um desconhecido e no amor não basta sabermos o nome de quem acorda connosco na cama. Convém conhecermos mais qualquer coisinha.

 

Não beber seria a solução. Evitava-se, nas manhãs de ressaca, tranformar Balanchine ou Pina Bausch em bailaricos de província, os Lagos dos Cisnes em charcos de parrecos, o Circe du Soleil em strip-tease manhoso de festa de solteiro ou despertar a sentir que engolimos todo o stock de solidão disponível.

No entanto, este beber um dedal de amor é nosso apanágio, a nossa inevitável condição.

 

Sendo assim, fatal como o fado amaliano, o ideal é ter quem nos ensine o modo de o fazer - e de o cantar - e que nos prove que é apenas e só nos dedais de vodka que se pode adormecer sem dar importância a quem temos ao lado.

 

Ilustração - Andres Alvarez

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18 rabiscos

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De Maria Araújo a 09.02.2016 às 15:10

Nunca me embebedei de vodka ou qualquer outra bebida alcoólica, mas o dedal do amor, sim, embora soubesse quem tinha ao lado.
Foi uma bebedeira duradoira, mas não para sempre.


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De Gaffe a 09.02.2016 às 15:53

:)
Nenhuma bebedeira o é.
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De Quarentona a 09.02.2016 às 17:03

Vodka é tramada! ;))))
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De Gaffe a 09.02.2016 às 17:34

Às vezes sabe tão bem...
;)
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De Anónimo a 10.02.2016 às 10:01

Comentário apagado.
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De Gaffe a 10.02.2016 às 11:12

Devia!
Devemos experimentar uma coisa de cada vez, mas todas as que estiverem ao nosso alcance.
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De Ana Rita 🌼 a 10.02.2016 às 11:05

Também já bebi desse tal dedal de vodka e daquele outro dedal do amor!
Nenhum deles durou uma vida, mas os dois deixaram marcas para toda ela...

Adorei o post Gaffe!
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De Gaffe a 10.02.2016 às 11:11

Deixam sempre. importa é o modo como ultrapassamos a ressaca.
:)
Obrigada.
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De Ana Rita 🌼 a 10.02.2016 às 11:20

A vodka cura mais depressa... mas um cliché "o tempo cura tudo"
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De Gaffe a 10.02.2016 às 11:29

às vezes o tempo tem razão.
;)
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De Ana Rita 🌼 a 10.02.2016 às 11:48

Ou temos pessoas tão más há nossa volta que não toleram a felicidade dos outros e ...acabam por estragar algo bom!
Mas também penso...se a "pessoa" em causa gostasse não se deixaria levar por mentiras e intrigas... não gosta realmente!
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De Gaffe a 10.02.2016 às 11:52

Há realmente gente que não consegue olhar a felicidade. Dos outros e mesmo a própria.
Depois há sempre quem siga esses tontos.
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De Ana Rita 🌼 a 10.02.2016 às 11:57

É a vida... e temos que aprender a conviver com o passado e estar em paz com ele e com quem deixámos para trás.
Mas sim, há pessoas que não são felizes e espalham as más energias à sua volta...foi o meu caso!
Mas pronto... hoje estou bem e feliz!
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De Gaffe a 10.02.2016 às 12:05

Claro que sim.
Tudo está bem quando acaba bem.
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De Ana Rita 🌼 a 10.02.2016 às 12:10

Sim.
Também não poderia desmotivar-me logo ao primeiro dedal!
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De Mam'Zelle a 10.02.2016 às 18:05

Nunca me embebedei. Nem com um dedal nem com o outro.
Da vodka estou safa. Não gosto. Ponto.
Do amor. Bem, desse não me quero safar. Mas vou fazendo por conhecer, um pouco mais para além do nome, quem se deita ao meu lado na cama. :)
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De Gaffe a 11.02.2016 às 09:40

Devias.
Nunca devemos afastar de nós "uma ciência que se desconhece".
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De LadyVih a 12.02.2016 às 14:23

O que é isso do dedal? Não conheço...
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De Gaffe a 12.02.2016 às 14:44

Um instrumento que ajuda a costurar. Mete-se no dedo e impede que nos piquemos ou então a pequenina medida que nos dá volta à cabeça.
;)

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