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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe amorosa

rabiscado pela Gaffe, em 17.03.16

Dos verbos mais gastos que usamos, aquele que parece ser o corroído é o gostar.

 

Colhemo-lo por todos os cantos e esquinas da vida. Surge espontâneo e bravo como pequenas violetas selvagens, perfumadas e aguerridas. Fornece-nos o minúsculo conforto que nos protege quando à volta se multiplicam os cardos. Entrega-nos a sensação de pertença e de pequenas cumplicidades essenciais à solidão que tanto nos arrasa. Ensina-nos a sorrir devagarinho. Solta-nos o coração, deixando-o sem fronteiras férreas que o limitam e sussurra-nos promessas de voos simples, mas felizes.

 

É um verbo tranquilo e seguro, sobretudo quando conjugado no presente. É quase um verbo infantil. Um verbo de brincar. Um verbo que deveria ser conjugado apenas por crianças, porque apenas elas o deixam cristalino, perene e sentido do modo exacto e acreditado eterno.   

 

Gostar é o carrossel colorido de uma infância, o doce de avelã da nossa avó, a pulseira de cordel atada à esperança, o sol a bater brando numa manhã de janelas acordadas, o aroma da terra molhada depois da canícula, as histórias de fadas e de monstros no colo da ama ou a carteirinha que não dá com tudo e que abriga apenas um sonho minúsculo.

Gostar é a almofada onde se pode encostar o nosso mais pequeno coração  - e temos tantos!

É um verbo deslumbrante, mas exíguo. Rola na nossa mão como um berlinde.

 

O globo inteiro e sem medida está no verbo amar

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6 rabiscos

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De josef a 17.03.2016 às 10:04

o desejo que tudo inclui.
escrita e sensibilidade radiantes.
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De Gaffe a 17.03.2016 às 10:09

Tão bonito o que diz!
Gosto!

Obrigada.
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De Fatia Mor a 17.03.2016 às 10:47

Não sei se é um problema de excesso de utilização ou de fraqueza de língua. Temos pouco por onde optar, num vocabulário obtuso. Gostar é usado para tudo que não seja amado, adorado ou odiado. É um espectro demasiado longo...
Mas a última conclusão fez-me recordar o que uma tia minha, freira de vocação, dizia sempre que eu pretende hiperbolizar o sentimento dizendo que amava ou adorava alguma coisa... Só se ama ou adora Deus.
Sempre discordei profundamente da afirmação dela. Mas agora entendo que talvez nem sempre conheça o amor como ele deve ser conhecido.
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De Gaffe a 17.03.2016 às 11:48

AH! Mas a língua portuguesa "é traiçoeira" e repleta de tesouros.
Não temos um vocabulário limitado ao nosso dispor. É imensa a riqueza do português.
:)
A tia é freira. Compreende-se. Eu tenho um tio-avô franciscano que diz o mesmo.
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De Maria Araújo a 17.03.2016 às 15:04


" Ensina-nos a sorrir devagarinho."

Quando gosto de verdade, sorrio devagarinho, como no momento que escrevo estas palavras.
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De Gaffe a 17.03.2016 às 15:54

E o meu sorriso é agora igual ao seu.
:)

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