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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe ao jantar

rabiscado pela Gaffe, em 01.04.19

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A partir do mar, subimos a rua do Padrão.
O meu rapagão cabisbaixo e amuado por não ter cedido ao seu desejo de jantar íntimo e eu pronto a flutar na música suave e na luminosiadade macia de um dos meus restaurantes favoritos. 
Encosto o meu ombro ao dele e aperto-lhe a mão. 
Ninguém na Praça de Liège. Ninguém nos caminhos do Passeio Alegre. Ninguém nos telhados do Hotel BoaVista. Ninguém nas ruas e nos becos.


Sobretudo ninguém na rua do Padrão. 

 

Sopa de mexilhões com açafrão e “croutons” de alho. 
Ovos com salmão fumado e caviar.

 

O rapagão tem os olhos pousados na toalha. Se os levantar, sei que milhares de pestanas negras farão sombra na ternura desse olhar. Está perdido, porque usa jeans demasiado gastos e puídos - e logo num dos meus restaurantes de eleição!
Tem uma boca carnuda, com lábios macios e quentes, ligeiramente salgados, e dentes perfeitos. 

 

Pato fumado fumado com ovos de codorniz. 
Caesar com salmão fumado.

 

O meu rapagão tem um imenso corpo moreno, quase chocolate brando, que gosto de fazer ondular. Tem peitorais longos, largos e fortes e que são de ferro se eu lhes tocar. Tem um traço de pêlo, uma estradinha, uma serpente, que nasce no umbigo e desce até me dizer onde começa o paraíso.

 

Robalo com algas e molho holandês. 
“Magret” de pato salpicado com vinagrete morno de hortelã.

 

A minha perna toca na dele. Olha para mim e tenta afastar-se, embaraçado. Durante todo o jantar procurou manter-se discreto, despercebido. Empurro a minha perna de modo a que ela encaixe no meio das pernas dele. O meu rapagão aperta os joelhos, aprisionando-me. Sorri, malicioso. 

 

“Tarte tatin” quente com natas batidas. 
Bolo de chocolate amanteigado.

 

A minha mão desce. Debaixo da mesa, no abrigo branco da toalha, toco-lhe na coxa. 
Pousado o guardanapo, o rapagão agarra-me nos dedos, domina-os e obriga-me a fechá-los ... em redor da conta. 

 

Bebemos àgua. 

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28 rabiscos

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De Maria Araújo a 02.04.2019 às 14:26

Fez-me chorar com este belíssimo texto.

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De Gaffe a 02.04.2019 às 14:57

Espero que de riso!
Não causou qualquer dano. Foi divertido, acredite.
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De Maria Araújo a 02.04.2019 às 15:28

De riso, não.
De emoção.
Talvez por que me fez recordar o que vivi.
E o seu jeito de escrever.
Sou uma romântica incurável.
Na sua situação, rir-me-ia, com certeza.
E olhe que sou malandra.
Beijinhos
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De Gaffe a 02.04.2019 às 16:45

Infelizmente, não sou muito romântica.
Digamos que sou uma romântica de luto.
:)
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De Maria Araújo a 02.04.2019 às 17:50

Oh!
Mas sabe animar o rapagão.
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De Gaffe a 02.04.2019 às 17:54

Ele diz que sim. Eu não tenho a certeza.
:)
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De Gaffe a 02.04.2019 às 20:02

Sei.
São ambos gentis.
:)*

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