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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe apartada de si

rabiscado pela Gaffe, em 26.04.19

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A primeira vez que entrei em Notre Dame foi pela mão da minha mãe.

 

A hora era parda e chuvosa. A Catedral respirava lenta através das sombras das pedras e dos ruídos quase impercetíveis das madeiras. Não me lembro se havia mais alguém. Notre Dame sempre me deixou sem gente à volta. Sempre me deixou entregue a mim, sozinha, perante a consciência aguda da minha própria alma.

 

Falou-me devagarinho de Maurice de Sully, de Raymond du Temple, de Jean-Baptiste-Antoine Lassus e de Eugène Viollet-le-Duc, o princípio e o fim.

Falou-me de Alexandre III e de Manifestis Probatum que ergueu Portugal.

Falou-me do rei santo, Luís IX, e da sua Saint-Chapelle que resguarda a coroa divina.

Falou-me de Henri de Beaufort que impõe aos franceses um rei de dez anos, seu sobrinho-neto e sexto Henrique em Inglaterra.

 

Falou-me dos veludos negros de Maria Stuart arrastados pela Catedral em nome de Francisco II, de Marguerite de Valois, de Eugenie de Montijo, de Isabel de França que se ajoelharam perante Deus e perante os reis e imperadores seus maridos.

Falou-me de Napoleão e fez-me ver depois, mais tarde, Le Sacre de Napoléon de Jacques-Louis David e a humilhação de Pio VII.

Falou-me de Victor Hugo, mas não me falou de Quasimodo. Deixou que o lesse.

Falou-me de Leclerc e de De Gaulle.

Falou-me de Hitler.

 

Falou de Liberdade.

 

Todas as vezes que voltávamos, a minha mãe lia-me Notre Dame e fez-me perceber de forma lenta que a Catedral continha mais do que a majestade dos labirintos de luz e de pedra - de luz na pedra -, que guardava mais do que o balançar do tempo nas cordas da eternidade breve entregue ao homem, que urdia mais do que a transcendência humana.

 

Notre Dame, a Nossa Mãe, em paradoxo, aproximava-se em simultâneo da indizível fragilidade da minha mãe e da sua incomensurável capacidade de nos dar guarida, de nos fazer sentir parte do tempo que passa e do tempo que vem, de nos fazer sentir, como se olhássemos o espelho, sendo ao mesmo tempo o próprio espelho.

 

Freud e Jung falaram dos arquétipos. Elementos quase divinos que latejam nos escombros de todos os homens. Contaram-nos da Mãe, da Árvore, do Lenho, da Cruz que é a Árvore despida, crua, só, onde é cravado o Homem que serve como base a toda a Catedral. Cristã ou não cristã. Mater. Materna.

Suponho que Notre Dame é representação de um arquétipo. A palpável Imagem, a percetível Ideia, a tangível identidade humana.

 

Não sei.

 

Talvez seja esta minha humilhante ignorância a origem da náusea que me assola quando vejo Notre Dame abraçada por um quasimodo de brincar que chora a queda de um desenho da Disney.

Talvez seja esta minha aviltante insciência que me indigna quando me deparo a cada passo com a raiva das gentes que salivam contra os mecenas – e é de mecenato que se trata, sobretudo quando se prescinde dos benefícios fiscais que origina - que decidiram entregar o que é só deles - só deles, sem que ninguém pergunte como - à tentativa de reerguer a prova da existência de uma identidade humana, depois de, por exemplo, terem sido responsáveis pela vida de dois Centros de Investigação, de projecção internacional, em Neurologia e Neurociência, ou pela rede de esgotos de várias cidades do Nordeste de um Brasil miseravelmente esquecido.  

Talvez seja a minha doida leviandade que me descontrola quando me convidam para galas solidárias com outros mundos, em que serão sorteados um tablet, um telemóvel e um prémio surpresa, ou um qualquer outro nobelzinho capaz de ilibar consciências dinamitadas.

Talvez seja a minha imbecil arrogância a responsável pela minha surpresa perante a amoralidade, perante a imoralidade, com que as tragédias que os inscritos nas galas declaram dignas de apoio milionário - numa espécie de inovador mecenato cabaz-de-Natal - se transformam em recursos nepotistas de escroques que são eleitos presidentes de Câmaras e nelas se mantêm ilesos e intocáveis.

 

Talvez seja também por isto, ou talvez não.

Não sei.

 

Sei que foi pela mão da minha mãe que entrei pela primeira vez em Notre Dame e que foi a minha mãe que me ensinou que a Identidade Humana tem a fragilidade com que se cumpre o eterno.

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