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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe artesanal

rabiscado pela Gaffe, em 12.07.19

GAFFE.png

Na mão dele havia o traço negro das gôndolas e um abandono, ao frio, de estandartes.

Na mão dela ficava o mapa do corpo que era o dele, reencontrado, e o lento arrasto da euforia dos trajectos.

Na mão dele havia um peregrino. Outrora as mãos peregrinavam e no encontro com as mãos dela ouviam-se rezas pagãs nas catedrais.

As mãos dele, divinas.

As mãos dela comédias, saltimbancos súbitos que assustavam prendendo pássaros aos dedos.

 

A mão dele agora no flanco dela, como o esboço morto de um poeta, deixou de ser tudo.

São mortas as baladas que ecoavam por entre os dedos brandos da mão dele.

Talvez a noite aquática das praças tenha desfeito o que ele entrançava na varanda dos seus dedos, ou talvez seja ela a ir-se embora.

 

Porque o fim do amor é artesanal.

 photo man_zps989a72a6.png

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7 rabiscos

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De Sarin a 13.07.2019 às 01:32

Senti o fim do amor como se altamente mecanizado: da sincronia à paragem num único mas longo ranger da roda.
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De Gaffe a 13.07.2019 às 18:02

Não sentiste que ficou, que sobrou - e resta sempre -, qualquer "coisa" não absolutamente fria, lógica, mecânica, matemática, mensurável, mas sim uma "coisa" um bocado tosca, moldada em barro por nós, artesanal?

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De Sarin a 14.07.2019 às 12:22

No fim da relação, sim, e a dúvida de como desfiar o tempo e rebordar os dias.

No fim do amor ficou apenas a marca de pó no chão, no mesmo lugar onde havia estado a engrenagem imensa :))

Guardo uma ou outra roda dentada como lembrança ;)
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De Gaffe a 15.07.2019 às 16:35

No fim do amor, encontro sempre uma qualquer maquineta desfeita enterrada no barro. a diluir-se, a desfazer-se em nada.
Nasce a indiferença, que é o contrário do amor.
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De Maria Araújo a 16.07.2019 às 15:12

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De C.C. a 17.07.2019 às 08:38

Belo, poético e ao mesmo tempo um texto que nos envolve numa reflexão que vai para lá do visível, do palpável...
Beijinho,
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De Gaffe a 17.07.2019 às 11:15

Como o amor. Como as mãos.
:)*

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