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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe assassina

rabiscado pela Gaffe, em 10.07.17

assassina

 

A arma mais eficaz contra o medo é um horário de trabalho que às quatro da manhã de um Sábado nos deixa de gatas à procura da saída e do carro que nos aconselham a deixar estacionado na garagem e nunca nas imediações, porque há imenso assaltos.

 

Saio a arrastar os pés, desgrenhada, pindérica, esgotada e a sentir os joelhos na nuca. Procuro não adormecer no elevador, fazendo de conta que ando à procura das chaves na carteira que parece pesar duas toneladas e evito tombar para o lado encostando-me à parede enquanto o maldito desce sem parar.

 

Saio muito devagarinho para não me desfazer e de chave em alerta máximo ouço o carro a dar sinal de si num PIIIIIIII que me arrasaria os nervos se ainda os sentisse.

 

Caminho já curva, com as mãos a arrastar no chão e de língua de fora.

 

Ao longe, três carros depois do meu, atrás de um pilar, enfiado na penumbra, adivinho um vulto, parado, quieto, um bocadinho sinistro. Consigo perceber que é um homem, de mãos nos bolsos e careca. Nunca hei-de perceber como soube que o mafarrico era careca.

Tão segura a garagem!

Vou no mínimo, ser assaltada. No máximo apunhalada. Comigo não há estádios intermédios. Imagino o perito forense debruçado sobre o meu cadáver - coberto por um lençol imaculado, caracóis escapando rubros, misturados com o sangue que brilha à luz dos focos da ciência e sapato Manolo Blahnik abandonado perto do meu corpo - banhado em lágrimas:

- Quem foi o monstro capaz de fazer isto a um anjo tão lindo como este?! 

 

Naquele instante o que interessou foi enfrentar o demo que não sabia que o anjo lindo prestes a assassinar tinha saído de um inferno monumental onde se manteve de pé horas a fio, enfrentado multidões ensandecidas de criaturas traumatizadas; tratando da saúde a umas outras tantas; corrido corredores sem fim à procura de apoio de urgência – já que aqui toda a gente pertence à Disney! -; esbardalhando raspanetes a torto e a direito por dar conta que lhe faltava material – quase esmagando o que estava apenso a um belíssimo rapagão que inocente se meteu à sua frente -; enfrentando dois polícias que lhe vieram trazer um tarado teimando em deixá-lo ao seu cuidado - Nem pensar, meus caros. Se tiver de ficar com alguém, prefiro um de vós. Saudável, musculado, sóbrio, com um hálito dentro dos limites estipulados pela Lei e com o apito em condições -; espetando bisturis em tudo o que se movia sem autorização e apanhando dois esgrouviados nus a correr pelas salas de espera do piso onde tudo acontecia sem que ninguém - sublinha-se ninguém - se apercebesse que o que traziam ao léu, a dar-a-dar, não merecerá uma capa da Cristina.

 

Posto isto, será bom de ver o que esperava o careca maldoso, atrás do pilar com ar de assassino de ruivas cansadas.

 

Verifiquei a biqueira de um dos sapatos e o salto do outro. Tudo em ordem. Não me tinha esquecido de os calçar. Lamentei a sorte do meu substituto que, mal chegado, teria de acudir aos tintins de um rufia saído de um filme negro sem categoria, e já pronta e desperta, sem réstia de medo ou cansaço, desafiei a morte certa como uma ruiva o deve fazer: em frente, que já se faz tarde e isto não chega aos netos.

 

A sorte do imbecil careca foi a bocarra do elevador se ter abreto para expelir uma data de dois matulões - valiam por muitos - a quem tinha dado uma hora antes um raspanete digno de um império. Não me reconheceram por estar à paisana – dou graças, porque de contrário suspeito que os meus sapatos não davam conta de três pares de tintins -, mas afastaram por sugestão o careca mal-encarado.

 

Se me voltam a aconselhar o estacionamento na garagem, transformo-me em sniper.  

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:


8 rabiscos

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De Maria Araújo a 14.07.2017 às 19:59

Preocupam-me estas histórias de tarados, sem escrúpulos, prontos a apanhar qualquer uma que lhes apareça no caminho.
E essas garagens assustam-me.
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De Gaffe a 14.07.2017 às 23:02

Há garagens assustadoras, é verdade
No entanto, os tarados mais perigosos andam por vezes à superfície.
:)
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De Maria Araújo a 15.07.2017 às 15:27


Ambos os lugares assustam.
Na rua, podemos correr, na garagem ela encosta-nos à parede e estamos feitas.
O melhor e espero que sim, é que nunca aconteça nada.
Bom fim-de-semana.
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De Gaffe a 16.07.2017 às 08:44

Sejamos optimistas. Temos tempo para wntrar em pânico depois.
:)
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De Maria Araújo a 16.07.2017 às 08:51

Somos optimistas, mas alerta.
Bom domingo.
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De Gaffe a 16.07.2017 às 11:00

Trágico é o assalto ao que é propriedade da humanidade que os sacanas vão planeando sem que nos apercebamos.

Estou em estado de choque. O Douro provavelmente vai ser cortado, retalhado e massacrado sem que ninguem se inflame.
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De Maria Araújo a 16.07.2017 às 13:09

Quando li este comentário fiquei assim: ????????
O que se passa?
Encontrei no seu post e estou sem palavras, isto é, afirmo:
"somos um país de porcos oportunistas que não olham a nada para satisfazerem os seus interesses".



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De Gaffe a 16.07.2017 às 16:29

Somos um país de merda.

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