Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe assim-assim

rabiscado pela Gaffe, em 25.02.14

A Gaffe ficou a tomar conta da casota de uma amiga.

Rega plantas, recolhe o correio e trata do peixe preto com olhos esbugalhados que tem passado os últimos dois dias, muito quieto, a boiar e com fastio. Deve ser do frio. Como não há muito que fazer e o apartamento (que não fica perto) está ao dispor, trazendo apenso o faz o que bem entenderes, a Gaffe decidiu pernoitar no buraquinho e usar o exército de cremes que a amiga recrutou para cuidar da beleza.

Uma máscara facial esverdeada que lhe calcificou as pálpebras e um banhinho de espuma relaxante com óleos miraculosos. A Gaffe suspeita que atirou uma quantidade exagerada para a banheira, porque o rabo escorregava sempre que se mexia e viu-se grega para se levantar sem deslizar e dar um tombo. Depois disto, comeu esparguete à la carbonara que comprou na esquina (nunca comprem nada nas esquinas. Tem sempre um péssimo gosto) e decidiu ver um desfile de moda na televisão.  
Deu consigo então a pensar que deve ser maçador ser-se considerada bonita por uma multidão de gente.  
Estas coisas são infernais, mas mais importantes do que se pode pensar, sobretudo quando falamos no feminino. Os homens arranjam, apesar de tudo, quase sempre escapatória.

Estas coisas são infernais, mas mais importantes do que se pode pensar.

Ora vejamos exemplos concretos, ultrapassados, para não ferir o respeito que devemos ao presente. Podemos escolher Carla Bruni como exemplar mais favorecido e a Gaffe deixa livre a escolha da representante do lado menos apadrinhado pela beleza. Há um leque vastíssimo de potenciais candidatas e basta que se dê um varridela no cá dentro para encontrar a eleita.  

O facto não se possuir uma beleza paparazziável, permite uma data de caricaturas desgraçadas que muitas vezes se baseiam nesse dado. É facílimo aborrecer a nossa eleita menos atraente (mesmo que não exista razão para isso) porque não marcha como Carla Bruni. A infeliz escolhida por não contribuir para o deleite dos sentidos é arrasada também por isso. Somos implacáveis. Disfarçamos e arranjamos meia dúzia de outras razões (válidas, a Gaffe até pode concordar) para a massacrar, mas a verdade é que também lhe batemos, mesmo inconscientemente, porque não é Vénus a sair da espuma dos dias.

Um estudo sério, feito há uns anos numa universidade americana, revelou que os seus estudantes de direito atribuíam penas severas a moçoilos normais, que vemos a torto e a direito passar na rua, e atenuavam de forma escandalosa as penas que imputavam a manequins escolhidinhos a dedo. O crime era o mesmo.  

À beleza é permitido uma série de asneiras. Estamos programados para perdoar mais depressa a uma criatura que obedece aos padrões de beleza vigentes (a Gaffe andava mortinha por dizer isto) e somos muito mais rigorosos e exigentes perante os trambolhos que cruzam as nossas vidinhas.

 

A verdade é que se perdoa muita incorrecção àquelas que tiveram a sorte ou o azar de nascer com a lua virada para o rabinho. O luar a banhar o dito é sempre considerado muito gracioso.

Claro que há desvantagens em se ser bonita. Lembremo-nos do episódio da Bruni a trepar pelas escadas do avião carcomida pelo medo do tiro que se ouviu no aeroporto. Se tivesse acontecido à sua antítese não exigíamos que a senhora desatasse a fugir aos saltinhos, toda elegante, a trocar os pés e a cruzar as pernas em X, como a Bruni fez. Bem podia descambar, largar as sabrinas no ar e até ir de gatas com a carteirinha nos dentes. Ninguém se espantava. Aquilo a que os especialistas chamam expectativa comportamental é muito mais elevada nas que são consideradas bonitas. Atinge-as com mais força e de forma imediata. Se resvalam, perdem o cheirinho a deusa de que tanto gostamos e fazem com que nos tornemos mauzinhos. Vingamo-nos da nossa condição de mais-ou-menos e não descansamos enquanto não esgotamos as imagens do deslize. Depois, temos a tendência para pensar que a beleza tem de provar que é mais do que apenas isso e é tão fácil, perante a primeira falha mais banal, vomitar o eu não te disse?

A tão falada expectativa comportamental está contra elas e com a fasquia elevada.

  
Comportamo-nos como maioria que somos. Nem bonitos, nem feios, mais assim-assim, e tratamos os outros, os realmente bonitos e os verdadeiramente feios, como a minoria que são.  

A Gaffe propõe para finalizar que se lute mais uma vez pelas minorias criando o Dia Internacional da Brasa e o Dia Internacional do Trambolho

 

Agora, enquanto pensam no assunto, a Gaffe vai tirar da cara a porcaria verde regeneradora da cútis que não conseguiu arrancar por completo ontem à noite.

 photo man_zps989a72a6.png





  Pesquisar no Blog

Gui