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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe atapetada

rabiscado pela Gaffe, em 18.04.19

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Traz o avental com flores garridas na bainha. Um avental de peitilho branco, laçado nas costas de vestido negro. A luz sorrateira do amanhecer infiltra-se nas frinchas das janelas largas e enchem-na de sombras, prateando-lhe o cabelo preso num nó de trança enrolada.

A cozinha cheira a flores do avental garrido. A especiarias, a condimentos, a ervas aromáticas a enchidos, a fumo, a madeira, a lume, a forno quente, a pão e ao café que na cafeteira borbulha atingido pelo ferver da água.

 

 - Andam à procura dos caixilhos - matreira, a Jacinta. Vai mordendo o pão e bebericando o escaldar da malga de café – aflitinhos com os moldes do tapete de flores para o compasso. Dão cabo das plantas. Que procurem. Primeiro a marinada, depois a consoada – vai roendo, birrenta. - A menina não devia ter autorizado este desmando.

 

Perto da Jacinta há segurança. Há abrigo. Dentro da cozinha da Jacinta há santuário.

 

- Ajude, menina, que já fez asneiras que chegassem.

 

A cebola a cortar em rodelas - grossas, menina, podem ser grossas. Valha-me Deus, que isto não é no hospital -, os gomos intermináveis de alho a picar, as folhas de louro a quebrar estalidos, o pimentão aberto prenhe de perfume, a salsa - qual picar, qual quê! vai em rama que guarda o sabor -, o alecrim aos molhos que choram os meus olhos, o colorau cor quente e os limões cortados em meias-luas ácidas.

 

- A menina despeje o vinho no alguidar e deite-lhe um bocadinho daquele espumante que sobrou. Amolece a carne. Dá-lhe mais sabor. Não tanto, valha-me o Senhor dos Aflitos! Só um cheirinho! Agora deixe, que eu misturo tudo e ponho o anho. Chegue-me o paninho dali do armário para tapar a marinada. Vá, menina, que eu tenho de lhes dizer dos moldes que ainda me partem qualquer coisa.

 

Às vezes, tenho medo que me ralhe.

 

- Depois cortamos as tirinhas de toucinho e fazemos a grelha com os paus do loureiro para a boca do alguidar, está bem?

                                                           

Não estás zangada comigo, Jacinta?

- E como haveria eu de estar zangada? A culpa é da velhice resmungona que aqui anda. Vamos por isto no fresquinho e toca a dar-lhe os moldes para o tapete.

 

Os sacos de sarapilheira com as folhas e as folhas das camélias, as camélias toldadas e escurecidas que ficam bem no meio que disfarça, o jasmim, as campânulas amarelas, os lilases, as pétalas de rosas coloridas, margaridas – serão os malmequeres? -, hortênsias imaturas, e outras que não estão aqui que são precisas, o perfume das mãos que as separam em geometrias prévias de molde de madeira. A seiva, o espargir da água que lhes atrasa o apodrecer e a doçura curva das mulheres a espalhar no chão a Primavera.

 

 - Não entendo porque não usam Kilins - sai a minha prima da nuvem de perfume e o seu espanto é genuíno e espanta. - Não escorregam. Os nómadas fazem as cáfilas passar por cima deles, para os espalmar, suponho. Aqui, é o mesmo.

 

Atira e traça a voluptuosidade de pronúncia francesa carregada, arrasta e rola as sílabas que não consegue moldar em português, prende a seda do cabelo com a fita Cartier, depois de proteger as pérolas dos brincos, e descalça, que não tem calçado para pisar tapetes de folhas de camélias, desliza e evapora-se.

 

- Ensinas-me a fazer o arroz, Jacinta?

- Na manhã da Páscoa, menina. Venha ter comigo muito cedo. Depois vamos ajudar aquelas tolas.  

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Gavetas:


15 rabiscos

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De naomedeemouvidos a 18.04.2019 às 12:23

Acho que (também) me rendi à Jacinta. Quase que sou capaz de a ver. Quase, quase.

Não sou grande católica, mas, desejo-te o melhor da Páscoa que se aproxima. E abraço-te, outra vez.
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De Gaffe a 18.04.2019 às 13:08

A Jacinta é um esteio. Um monumento. Uma guarida. Sei que gostaria de ti.

Obrigada. Desejo-te o mesmo.
Acreditas que para mim são cada vez mais importantes estas comemorações? E nem sequer é por ter sido criada na tradição judaico-cristã. Uma das principais razões - talvez a única - é porque sinto que tenho obrigatoriamente de as transmitir à minha sobrinha. Ninguém mais o fará.
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De naomedeemouvidos a 18.04.2019 às 16:51

Entendo-te perfeitamente. Também fui criada rodeada de valores cristãos. Não sei bem quando me perdi (por acaso, imagino, mas não posso contar aqui). O meu marido é -sempre foi - um "descrente" irrecuperável e, no entanto, mais inteiro do que muitos empedernidos - e apodrecidos - devotos. Já o meu filho, tinha 10 anos quando perguntou se se podia baptizar, e baptizou-se. Mas também acredito que estas comemorações estão para lá das crenças religiosas. São história, são família. São vida. Se a tua sobrinha só puder contar contigo, terá bastante :)
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De Gaffe a 18.04.2019 às 18:24

Mais do que comemorações, são rituais. Fazem parte da minha história e devem fazer parte da dela. É muito importante para mim que ela os viva e as saiba transmitir aos descendentes. Creio que apenas eu tenho o dever de fazer cumprir este destino. Foi assim que mo disseram e tenho orgulho em ter sido a escolhida.
Vou tentar não desiludir. Morro de medo, mas aguento.
:)*
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De naomedeemouvidos a 18.04.2019 às 18:56

Olha! Por algum motivo, fico feliz por ambas. O medo vem com a “embalagem”, lamento :) Ou, se calhar, não, não lamento. Se não tivermos medo ao (tentar) educar uma criança , o resultado é seguramente pior... de certeza que estarás à altura:)
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De Gaffe a 18.04.2019 às 20:19

Não.
A educação da minha sobrinha está entregue ao pai e à sua outra tia.
Eu sou apenas um episódio na novela da vida da menina. Faço com que valham a pena as poucas deixas que me cabem.
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De naomedeemouvidos a 18.04.2019 às 22:49

Seguramente. Um beijo grande.
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De Pequeno caso sério a 18.04.2019 às 13:58

Parece que estou aí na cozinha convosco. Eu, tu, a Jacinta e uma mesa farta. Que bem havíamos de comer. Que feliz havia a Jacinta de ficar.
Que tenhas uma boa Páscoa, minha amiga. Perto dos teus, todos à volta da mesma mesa. Acredita, não há riqueza maior.
;)*
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De Gaffe a 18.04.2019 às 14:42

Acreditas que ninguém come como eu?! Como tanto!
Os outros debicam. Sou eu a felicidade da Jacinta.
:)
Há riquezas maiores, mas são tão caras!

:)))
Obrigada. O mesmo para ti.
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De Maria a 18.04.2019 às 17:08

Um deleite o seu texto, fabulosa deve ser a Jacinta. Uma Páscoa Santa para todos.
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De Gaffe a 18.04.2019 às 18:18

É muito resmungona e zanga-se imenso, mas é extraordinária.

Obrigada. O mesmo para si.
*
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De imsilva a 18.04.2019 às 19:31

Dá vontade de perguntar, a que horas passa essa novela e em que canal, quero ver os próximos capitulos.
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De Gaffe a 18.04.2019 às 20:17

:)
Não me parece que a conseguisse sintonizar.
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De Maria Araújo a 19.04.2019 às 11:15

Que quadro maravilhoso!
Que inveja não ser a Jacinta, a Gaffe, a prima, com toda a azáfama dos preparativos da Páscoa, nessa casa cheia de sentimentos, de calor, de cheiros, de cultura cristã.
Adoro a "esta" Páscoa" das aldeias.
Santa Páscoa para si e toda a família.


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De Gaffe a 21.04.2019 às 12:11

:)
Não são grandes preparativos. Tento apenas manter os rituais.

Un beijo.

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