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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe blasfema

rabiscado pela Gaffe, em 07.02.17

1.jpg

 

Ao contrário do apartamento da minha irmã, isento de qualquer tipo de memória, aqui todos os objectos são seleccionados pela carga emocional que transportam.
Gosto especialmente da cigarreira antiga de prata com um medalhão romântico na tampa onde deveria estar gravado o monograma do dono.
É um objecto lindíssimo, pousado na mesa, sozinho.
Quando o toquei pela primeira vez senti o sobressalto da minha irmã, mas não o entendi.
- Pousa-a.
Não pousei.
A minha irmã levantou-se, abriu uma gaveta e cravou-me nos olhos uma fotografia envelhecida.
Na mão direita do homem fotografado brilhava a cigarreira de prata antiga com um medalhão romântico na tampa.
Então entendi que naquela caixa sem monograma e sem dono agora, a morte também tinha deixado as impressões.

 

As casas também guardam os seus intocáveis e há objectos que quando ficam sem dono se tornam os donos da gente que fica. 

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:


13 rabiscos

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De Maria Mocha a 07.02.2017 às 10:58

Puxa! Que belo pedaço de literatura!
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De Maria Mocha a 07.02.2017 às 11:09

Adorei! Até vim reler.
Esta frase ficou-me a ecoar na cabeça: "As casas também guardam os seus intocáveis e há objectos que quando ficam sem dono se tornam os donos da gente que fica."
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De Gaffe a 07.02.2017 às 11:24

:)
É uma experiência brutal procurar descobrir os objectos que são nossos donos.
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De Bruno a 07.02.2017 às 13:08

Realmente, é um grande texto e com uma forte carga...
Adorei.
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De Gaffe a 07.02.2017 às 13:42

A carga está no sucedido, não no texto.
Mas obrigada.
:)*
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De Cecília a 07.02.2017 às 14:24

nunca pensei olhar para uma foto e racionalizar " fantasmagórico" e " rené magritte" na mesma frase.

as casas devem ser decoradas com partes de nós. só assim nos abraçam e abraçamos quando nelas entramos. mas chega a ser terrível o ruído das ausências que certos objetos emitem.

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De Gaffe a 07.02.2017 às 15:19

Ou o barulho imenso do silêncio que produzem.
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De Cecília a 07.02.2017 às 15:21

sim, silêncios barulhentos é uma expressão que uso muito. não me quis repetir perante mim mesma :)
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De Maria Araújo a 07.02.2017 às 20:26


Há heranças que marcam.
O último parágrafo diz tudo.
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De Gaffe a 07.02.2017 às 22:05

E ficamos pertença delas.
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De T. a 07.02.2017 às 21:10

Sem dúvida nenhuma!!! Tenho aqui na minha nova casa um objeto assim!
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De Gaffe a 07.02.2017 às 22:04

As casas velhas como o tempo guardam muitos por cada ano que passa.
:)
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De T. a 07.02.2017 às 22:08

muitooos

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