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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe branquela

rabiscado pela Gaffe, em 04.12.17

Fernando Vicente

Com o intuito de me insultar, e tendo sido esgotado o stock de pilhérias mais ou menos graciosas, chamaram-me branquela.

Reportavam-se, como parece evidente, ao meu tom de pele, embora seja plausível que se tenham referido à minha capacidade de ser imaculada. É sempre aceitável hesitar perante os ditos de uma criatura cujas oscilações mentais fazem sombra a Faucault.

 

Confesso que me surpreendi. Não porque me tenha sido revelada como inevitável a coloração da pele das ruivas, não porque me tenha alguma vez provocado desgosto não poder encarnar a escaldante personagem de Bizet -  nem sequer é uma das minhas óperas favoritas -, mas por ter dado conta do extraordinário equívoco que é a imagem que acreditamos ser a nossa e que tentamos a todo o custo transmitir aos que nos olham.

 

O virote que foi disparado, supostamente para me diminuir, partiu da besta - arma, e não qualidade do seu possuidor -, de uma criatura acérrima defensora da diversidade planetária, da harmonia racial, da comunhão de cores, da dos pretos, dos amarelos, dos vermelhos - com algumas reservas de índole política -, da multiplicidade e da publicidade da Benetton, mas que foi capaz, num pequenino acesso de raiva, de recuperar a herança medieva, permitir que o ar cheire a chamusco e transformar numa acendalha o tom de pele de alguém que está a ano-luz de conhecer.

 

É extraordinário como este retrocesso revelador é detectável também quando a mesma criatura se ouve e se deixa ouvir aos gritos, levantando as bandeiras da defesa dos direitos dos homossexuais e, em segundos, se torna capaz de cuspir a palavra gay com a velocidade do insulto que procura a cara de alguém, mesmo que a orientação sexual da suposta vítima lhe seja desconhecida, ou, unindo-se à multidão de mulheres espoliadas, sacando do peito palavras de ordem irritantemente feministas, desliza no charco do estavam a pedi-las perante as sucessivas revelações de assédio que vitimiza um grupo de mulheres até ali incensado, ou ainda aplaudindo, galhofeira e cúmplice, o misógino macho que comenta os larilas e ridiculariza a indignação - sentida como exagerada - que coadjuva a condenação do estupro.

 

A camada de cimento que se deseja visível - e coberta de luzinhas de Natal, de maviosas intenções, de brilhos de conceitos sem preconceitos, de humanas qualidades, de impolutos desígnios, maravilhosos anelos de concórdia e de bondosas e tão justas motivações -, pesa sobre uma bolha de mediocridade inacreditável que é capaz, não raras vezes, de perfurar as paredes que a pretendem esconder e fazer com que um nódulo seja visível. É quando sobrevém esta pontual contaminação da superfície pelo que se esconde, que nos é permitida a visão total destas criaturas e é nesse instante que nos apercebemos que a mistura entre as duas náuseas, não é detectável pela criatura onde a reacção ocorre que, numa espécie de duplicidade patológica, a ignora por completo.

 

Suspeito que mais corruptores do que os grandes monstros do grande preconceito que nos ensinaram a reconhecer, são estas minúsculos seres pintados de arco-íris, mas que acreditam, no escurinho das luras e das covas e buracos que vão foçando na vida, que a cor de pele de uma ruiva é um insulto.                  

 

Ilustração - Fernando Vicente

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9 rabiscos

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De Corvo a 04.12.2017 às 13:54

Acho que se referia mais ao Imaculada.
E cessa por aqui a veia
Não vá eu cair na mesma asneira
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De Gaffe a 04.12.2017 às 14:57

Estou muito inclinada a concordar consigo...

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