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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe castanha

rabiscado pela Gaffe, em 22.11.17

Ana C.

As mãos do velho Domingos que agora seguram o abanador de palha com que espevita as brasas que assam castanhas, são as mesmas que me guiaram no caminho das nogueiras, dos álamos, dos plátanos e dos áceres, com os pés molhados de folhas mortas e céu coberto por estilhaços de bronze, escarlate, doirado e castanho, para ver o carvalho plantado pela primeira mulher desta casa.

 

Lembro-me da textura de tronco de videira das mãos do Domingos, de sentir que era o Outono que me segurava os dedos, de ter a certeza que cheirava a pão e a frio, a mantas e a cães. Lembro-me dos sons do quebrar do chão como uma porta que range e temos medo. Lembro-me do trigo da luz nos braços de uma poeira extenuada. Lembro-me da lonjura do caminho e de ter sentido que a terra tinha recolhido o choro das árvores e de o enferrujar com o suor caído dos homens. Lembro-me de ter adivinhado no meio dos gritos queimados da luz por entre ramos, a negrura animalesca do carvalho na sombra pousada no caminho que estalava. Lembro-me de ter tido medo do retorcido casco, dos braços de cotovelos pousados na terra, do latejar do monstro que enfurecido emudecia o latir das folhas e da ardência que dos meus olhos tocava as margens das palavras. Lembro-me das labaredas cegas e negras que de lume a lume, de gume a lança, golpeavam o espaço com adagas de troncos que desciam pela entristecida solidão da árvore. Lembro-me das agulhas do sol amortecidas a picar os pássaros parados, da luz cansada de ferro que se espetava nos ninhos.

 

Um golpe no pulso da terra. Uma cicatriz de espera. A árvore a pesar como uma chaga.

 

Havia ferrugem nos cabelos. Roxos de frio.

 

As mãos do velho Domingos seguram agora o abanador de palha com que atiça o lume a assar castanhas, e eu queimo as feridas da memória com os dedos do silêncio até tudo parecer polido como os lagos impolutos da inocência.

 

O Outono é esta árvore e tem a alma em sépia.  

 

Foto - Ana Ciolaçu

 photo man_zps989a72a6.png

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Gavetas:


16 rabiscos

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De Genny a 22.11.2017 às 12:48

Bom dia, Gaffe!
Tão bonitas essas recordações.
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De Gaffe a 22.11.2017 às 13:42

:)
Todas as minhas memórias de infância são bonitas. Não encontro nenhuma com defeito. Fui uma criança talvez exageradamente feliz.
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De Carlos a 22.11.2017 às 13:32

Belo texto que tão bem exprime essas tuas memórias!
Parabéns pela forma como escreves!
Quanto à castanha, acreditas que este ano não provei uma sequer?
Eu gosto, principalmente quando são motivo de reunião entre amigos!
Por falar nisto, até dava um bom artigo!
Vá, beijinho grande.
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De Gaffe a 22.11.2017 às 13:45

Não sou grande fã de castanhas. Não me recorda da última vez que as comi., mas, por estranho que possa parecer, a minha cor favorita é ... ...

... ... o castanho.
:)*
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De Carlos a 23.11.2017 às 10:31

E não é que me inspirei?
Beijinho grande.
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De Gaffe a 23.11.2017 às 11:58

:)
Que bom!
Vou ler. Volto já.
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De Solteiro a 22.11.2017 às 15:00

O Outono vem para nos anunciar que é tempo de aceitar a morte. Que terminará um ano, em frio e chuva e a natureza, na sua natureza, aceita-o.

Morrem as folhas, morrem as plantas, limpa-se o planeta de corpo e alma e renasce no final do Inverno para dar vida, para ter mais vida.

Lindo texto, Gaffe.

Boa semana :)
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De Gaffe a 22.11.2017 às 16:18

Os meus outonos não anunciam a morte. São outonos de memórias, de silêncios e de tranquilidades. São parecidos com um velho a assar castanhas que outrora levou uma criança a ver uma árvore plantada por uma mulher que outrora foi ruiva como ela.

Obrigada.
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De Carlos Berkeley Cotter a 22.11.2017 às 16:54

Lindas memórias e belamente descritas.
Mais uma vez, parabéns e obrigado pelos momento de beleza que me proporciona.
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De Gaffe a 22.11.2017 às 16:55

Obrigada.
Quem deve agradecer sou eu.
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De Pequeno caso sério a 22.11.2017 às 18:15

Tão lindas as tuas memórias.
Comovente que retenhas ainda tantos detalhes que passam desapercebidos a uma criança.

Engraçado teres referido o sépia que é a minha tonalidade preferida. Numa parede do meu quarto tenho várias molduras de diferentes tamanhos com fotos de viagens onde fomos muito felizes. Curiosamente são todas...sépia.
; )

Gosto de castanhas mas não posso comê - las sob pena de parecer um balão...sem guita.
Um post tão bonito merecia um comentário à altura mas EU, no alto do meu glamour, tenho sempre de borrar a pintura. Nada a fazer. Quem nasce lagartixa (eu) nunca chegará a jacaré.

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De Gaffe a 22.11.2017 às 18:38

Suspeito que as memórias são reescritas todas as vezes que nos socorremos delas.

Gosto do castanho. Muito. Gosto de rons sépia. Muitíssimo.
Acho que sou sépia!

Não és nada lagartixa!!!
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De Gaffe a 22.11.2017 às 20:35

* gosto de tons.
Também de rons, mas suspeito que não sei o que são.
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De Maria Araújo a 22.11.2017 às 23:31

Vidas de Outono trazem bonitas memórias da infância.
Não fosse a fotografia em sépia, perdia o encanto.

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De Gaffe a 23.11.2017 às 11:59

São sempre sépia as fotografias da memória, não são?
:)*
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De Maria Araújo a 23.11.2017 às 23:10

Sim, as da memória são.
Quando lia este post, muitas fotografias passaram no álbum das memórias.

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