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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe coleccionadora

rabiscado pela Gaffe, em 13.11.18

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No início das nossas adolescências, o meu avô perguntava-nos que colecção queríamos fazer.

Não se colocava a hipótese de não coleccionarmos o que quer que seja.

 

Sentava-se no cadeirão favorito, virado a Norte para ouvir o vento frio que uivava arrastado pelos socalcos, e tamborilando no braço de couro com os dedos finos e longuíssimos - um ruído seco, curto e confortável que nunca deixei de recordar -, inspeccionava as nossas escolhas, alterando alguns detalhes, aconselhando, guiando, e exaltando o coleccionismo como contributo para a selecção, estudo, organização, método, rigor, persistência e capacidade de preservação e mesmo de sobrevivência que, segundo o meu avô, deveriam pautar as nossas vidas futuras.  

Uma vez por mês, o meu avô fiscalizava o nosso trabalho. Ralhava-nos ou elogiava-nos, conforme o cuidado ou o desleixo do que tínhamos cuidado do obtido e fornecia-nos instrumentos que sustentavam e permitiam proteger o que tantas vezes nos desinteressava.  À medida que o tempo caminhava, estas vistorias iam rareando, até desaparecerem por completo, quando nos tornávamos maiorzinhos.  

 

A minha irmã escolheu coleccionar insectos.

Havia-os no jardim e foi fácil encontrar alguém que por ela os recolhia.

O meu avô sempre soube da pequena vigarice, mas, mesmo assim, tornava obrigatória a catalogação respectiva do espécime. Ofereceu-lhe a caixa de vidro onde era possível cravar os pobres bichos ainda vivos.

A minha irmã não se tornou uma entomóloga, mas adquiriu uma extraordinária mestria em alfinetar os outros.

 

O meu irmão, chegada a sua vez, escolheu coleccionar minerais.

A distinção entre estes e as rochas era difusa e muitas vezes complicada. O meu avô guiou-o e com a paciência dos sábios foi descobrindo com ele o sector onde, na biblioteca, morriam de tédio os volumes dedicados à mineralogia. A classificação e a catalogação eram igualmente obrigatórias e as caixas das amostras amontoam-se algures no sotão da casa.

O meu irmão não se tornou geólogo. É engenheiro físico o que significa que não sei o que faz. Suponho que é uma profissão que o obriga a viajar imenso e a apaixonar-se amiúde por nórdicas altíssimas, magras e ondulantes, sem qualquer rigidez ou característica mais rochosa do que as já esperadas.

 

Eu morria de medo.

Não sabia o que escolher. Não podia - e os deuses testemunham que não queria - repetir as preferências dos meus antecessores e nada havia que, ainda que vagamente, me interessasse, ou que estivesse logo ali à mão de semear.

 

O meu avô, tamborilando no braço de couro do cadeirão virado a Norte, na sala do vento Norte, com o Norte a uivar ameaças, declarou aberta a minha escolha e esperou quieto, atento, curioso, matreiro.

 

E eu escolhi.

Escolhi o que me pareceu tão fácil.

 

Palavras.

 

Escolhi coleccionar palavras.

 

Todas os meses - uma vez por mês -, o caderno grosso de capa preta que me ofereceu, era revisto.

Todos os dias dos meses guardava as palavras que nunca tinha ouvido antes, que nunca tinha lido antes, mas que me soavam a respirar, a sabores, a cheiros, a gente a chorar, a risos de gente, a sinos, a borboletas, a azul e a cor-de-laranja, a rosas bravias, a tristeza, a árvores de Outono, a folhas, a cães a ladrar, a cancelas a abrir, a veludo, a vidro, a estradas, a grutas, a linho, a trigo, a chuva, a saudade, a pombas, a rio, a mãe, a mel e todas as outras que desciam lentas para o meu coração.

 

O meu avô nunca me ajudou a decifrar o que cada uma tinha dentro. Sorria, fechava o caderno e segredava-me, muito perto do ouvido para que nada fugisse, que eu tinha a colecção mais difícil de todas.

 

Nunca preenchi o caderno grosso de capa preta.

Sempre soube que não valia a pena tentar.

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Gavetas:


18 rabiscos

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De naomedeemouvidos a 13.11.2018 às 12:26

Assim se explica. A forma como escreve. E adoro as fotografias.
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De Gaffe a 13.11.2018 às 13:31

Ah!
Mas eu não sei como escrevo.
Tenho apenas um segredo: não posso pensar muito. Nem antes, nem depois.

Sei apenas que gosto de imagens. Muito.
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De naomedeemouvidos a 13.11.2018 às 14:30

Eu sei que não sabe, e esse é que é o segredo
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De Gaffe a 13.11.2018 às 15:47

Ou o desastrado e imperdoável erro.
:)
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De cristinita a 03.12.2018 às 20:31

Desculpa incomodar a ou o naomedeemouvidos e espero que a gaffe aprove este comentário,eu gostaria de saber porque não dá para fazer comentários no teu blogue,eu já lá passei,achei interessante mas não dá para comentar,fiquei triste por isso!!
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De Gaffe a 03.12.2018 às 20:33

São opções.
Não podemos ficar deprimidas.
:)
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De cristinita a 03.12.2018 às 20:40

Pois,pois,eu compreendo,mas fiquei triste na mesma!!
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De Maria Araújo a 13.11.2018 às 22:07

Uma bela colecção.
E pelo que li no comentário, não pode esperar muito:nem antes, nem depois, e, desta forma a riqueza dos seus textos.
Eu gosto do que leio e das belíssimas imagens que escolhe, embora nem sempre os entenda, mas põe-me a reflectir.

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De Gaffe a 13.11.2018 às 23:12

Gonçalo M. Tavares escreveu um dia - e não sei se transcrevo correctamente - que um grito não pode ser dado lentamente.

Creio que é muitas vezes isto.
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De Pequeno caso sério a 13.11.2018 às 22:57

Mesmo sem saberes, fizeste a escolha mais fácil pois tens o dom inato de usar as palavras .

Quanto ao caderno de capa preta, vais sempre a tempo de o completar.
; )

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De Gaffe a 13.11.2018 às 23:15

Não imaginas a relação conflituosa que tenho com as palavras.

Às vezes detesto-as, outras vezes respiro-as.

O caderno não vai ficar completo. Existe sempre um outro à frente daquele que pensava poder fechar sem remorsos.
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De Corvo a 14.11.2018 às 10:51

Pois olhe! não chega a simbiose, mas muitas parecenças com o notável detido esverdeado.
Palavras. Ele também as coleccionou, com apenas uma significativa diferença.
Ele utilizou-as todas ao desbarato e a menina deu-lhes, e dá, incomparável melhor uso.
E sobretudo, uma entoação mais harmoniosa e agradável.
:)
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De Gaffe a 14.11.2018 às 13:34

Meu querido Corvo,
Obrigada. É como sempre de uma gentileza desmesurada.

Acontece que me recuso a falar do assunto que refere no 1.º parágrafo do seu comentário.
É um escândalo assistir a dezenas de horas sucessivas e a dezenas de canais de TV espoliadas nesse charco.
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De cristinita a 03.12.2018 às 07:05

Na minha opinião,acho que coleccionar palavras é demasiado fácil,pois estamos sempre a dizê-las e a aprendê-las,por isso,é demasiado fácil escrever a palavra e coleccioná-la!! Eu,no meu caso,se tivesse que fazer a mesma coisa que vocês fizeram,eu optaria por coleccionar canetas,aliás,tenho imensas canetas cá por casa!!
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De Gaffe a 03.12.2018 às 10:39

Devia ter-me lembrado disso!
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De cristinita a 03.12.2018 às 18:31

Deixa lá que as palavras também são uma boa colecção!!
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De Gaffe a 03.12.2018 às 19:46

Eu também acho!
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De cristinita a 03.12.2018 às 20:29

Muito boa noite!!

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