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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe com filtros

rabiscado pela Gaffe, em 05.04.17

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Ouvi dizer que a forma de percebermos que deixamos de ser amados é sentir que o nosso beijo deixou de ter qualquer significado para aquele ou aquela que beijamos, sobretudo quando já significou tudo.

 

É uma formulação bastante poética e os poetas raramente se enganam.

 

Há no entanto um dispositivo escondido dentro de nós que detecta o fim de um amor sem qualquer necessidade de ler desta forma osculatória os sentimentos do outro.

 

A erosão do amor faz-se de forma lenta, mas perceptível. 

 

Tem a ver com o nosso regresso à banalidade. O desamor é o confronto com a banalidade. Daí sentirmos que a solidão nos volta a preencher os dias. Nada é mais deserto do que nos descobrimos apenas mais um ponto acrescentado à multidão de pontos que nos são iguais.

 

Deixarmos de ser amados é voltar a saber que os rabiscos que fazemos nas páginas do caderno de apontamentos não rivalizam com os esboços de da Vinci; que os traços que deixamos arrastando palavras pelo papel não são cometas; que numa gare de partida – e raras são as gares onde chegamos – somos aquele casaco que se esqueceu no braço de uma cadeira e que ninguém guarda com receio da aproximação do dono; que não pisamos nuvens quando andamos, nem os nossos gestos fazem deslizar os rios com brandura, porque caminhamos para o emprego e temos nos braços os documentos que preenchemos na véspera; que não nos alimentamos do perfume das rosas, porque temos arroz de bacalhau para o jantar e o cadáver da loiça do almoço a apodrecer na banca; que não contemos universos mágicos no peito e que a único truque de ilusionista que conseguimos fazer consiste em arranjar tempo para retirar o verniz das unhas escaqueiradas ou aparar a barba antes do horário do autocarro; que não temos a eloquência de um senador romano e que os nossos discursos são como os sopros com que se enchem balões; que não somos Charlie todos os dias que passam, porque não nos pomos a jeito; que não espargimos luz quando aparecemos, porque a lâmpada da casa de banho está outra vez fundida e não nos apetece voltar a trocá-la; que não somos passarinhos que debicam grãos de orvalho, porque a alheira nos fez azia e não há anti-ácido em casa e que a porcaria do gato que não queríamos em casa nos rasgou as cortinas e não temos os véus dos olhos de quem quer que seja como abrigo.

 

Deixarmos de ser amados é regressarmos ao que somos sem qualquer filtro. Somos banais, quotidianos, comuns, vulgares, habituais e corriqueiros, mesmo sabendo que as palavras são sinónimos.

 

Deixarmos de ser amados - ou deixarmos de amar, que também serve -, mostra-nos uma realidade que nos é adversa, a única que descobrimos ser a nossa.

Não precisamos de um beijo para nos apercebermos disto.

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2 rabiscos

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De Pequeno caso sério a 05.04.2017 às 17:09

Começo por dizer algo que já deve ser óbvio para ti : adorei o que escreveste.

Adorei por todos os motivos que possas imaginar:

Porque gosto de ti tanto quanto o virtual permite (mesmo que fosses um gajo com 1,90 e ruivo e de bigode revirado era-me indiferente, continuaria a gostar desta Gaffe da mesma forma;

Porque escreves de uma forma absolutamente visceral e isso, minha amiga, é um dom (mais um...raça da mulher )

Porque mesmo falando de ti, falas de mim (e de muitos que te vão lendo)

Porque revelas cuidado na escolha das imagens que usas e hoje, minha amiga, hoje excedeste-te . Mesmo não tendo sido escolhida a pensar em mim, tu não imaginas o quanto "sou eu" nessa imagem...não só porque é um gesto que tenho de fazer sempre (pôr-me em bicos de pés) como porque os pés estão descalços...e tu já sabes a "cena" que tenho com pés descalços.

Porque disseste QUASE tudo. QUASE. O resto que te falta está num link que te deixo. Encontrei por acaso há muito tempo e guardei-o nos meus favoritos, local para onde foi já (mais) este teu post.
Bravo minha amiga, bravo!
;)*

http://jafoste.net/nem-sempre-nos-ficamos-com-os-amores-das-nossas-vidas/

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De Gaffe a 05.04.2017 às 21:18

Um ruivo de1,90m e de bigode revirado, não é uma imagem desagradável!

O resto é gentileza tua.

(O texto do link é admirável).
Obrigada.

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