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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe com lençóis brancos

rabiscado pela Gaffe, em 23.01.19

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Eram brancos os jogos de lençóis que a Jacinta trazia todos os Sábados das arcas para os quartos de cima.

 

Brancos, sempre brancos, brancos que de tão brancos doíam.

Alguns tinham bordados a cheio na dobra que expunham. Flores ou frisos a ondular arabescos que as fronhas repetiam. Outros eram rendas. Entremeios urdidos à mão, brancos, brancos, no negrume de Inverno.

 

 - Vá brincar, menina. Vá apanhar sol e deixe trabalhar quem sabe.

 

A Jacinta abria as asas de lençóis sobre as camas como quem atira redes de pesca aos mares sossegados das manhãs de Sábado. Cheiravam bem essas manhãs. A linho lavado, a sabonete e a alfazema que a Jacinta guardava em saquinhos laçados com fitinhas de cetim nas arcas dos lençóis brancos a doer.

Ficava a ver aqueles pássaros largos de asas, a abrirem o breve voo sobre os ninhos. Fechava os olhos. Pelos olhos fechados aspirava o odor daquele esvoaçar lavado e de açucenas.

Quarto após quarto, após quarto, após quarto. Seguia-lhe os passos. Os lençóis brancos a dardejar bordados.

 

- Vá brincar lá para fora com os manos, menina!

 

A luz do lá fora pelas janelas. Reflectida no voo dos pássaros como penas. O cheiro a luz lavada e a saquinhos de alfazema.

 

- Ajude então com as fronhas, menina. Vá lá Deus saber porque é que o avozinho a deixa aqui, a andar atrás de mim - e sorria, parada por instantes, de mãos cruzadas no regaço de onde a ternura subia até aos olhos.  

 

Chorou neste Sábado.

Ouvi-lhe as lágrimas como lençóis abertos e doridos.

 

Entrei devagarinho no quarto e vi-a sentada na cama que foi da minha avó. De mãos em concha, uma por cima da outra, num abandono branco e envelhecido.

Tinha-se enganado. Foi sem querer. Nem sequer pensou. Não sabe como aconteceu aquilo. Foi o hábito. É a velhice, menina.

 

Chorava tanto.

 

Ajoelhei-me. De joelhos venero imagens santas.

Entrou ali para mudar lençóis que não se mudam, mudos os que ficaram inúteis como trapos, e ficou ali a desfraldar, a apalmar, a estender saudade.

 

- Faz-me tanta falta - treme. É frio.

 

Abro a gaveta. Retiro o xaile que a minha avó usava nos entardeceres mais ásperos de negritude em que as crianças não brincam lá fora.  

Sento-me na cama, pouso as minhas mãos na concha das mãos enrugadas da Jacinta e as duas cobertas pelo xaile, sorrimos baixinho, baixinho, baixinho, para não inquietar as lágrimas.

 

- Vá, Jacinta, anda. Eu ajudo com as fronhas.

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Gavetas:


14 rabiscos

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De Maria Araújo a 23.01.2019 às 13:30

Sensibilidade, afecto e gratidão foi o que vi neste belíssimo retrato.
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De Gaffe a 23.01.2019 às 14:24

E mais todos os meus universos.
*
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De miss daisy a 23.01.2019 às 14:33

 
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De naomedeemouvidos a 23.01.2019 às 16:58

Não ouso dizer quase nada. Apenas que passei por cá.


Um beijinho. É muito bela, a homenagem. 
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De Gaffe a 23.01.2019 às 19:27


Obrigada.
Um beijo.
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De Pequeno caso sério a 23.01.2019 às 18:03

Tão lindo.
Tão bom.
Tão genuíno. 


Vou contar - te um segredo: 
Quando a minha avó materna morreu pedi apenas para ficar com três coisas:


1- a aliança de casamento,que diga - se não foi muito feliz (que entretanto já "transformei" noutra coisa que ainda hoje usei; 


2- um guarda "jóias" feito com búzios e conchas e que lá dentro guardava pequenos "tesouros" que ainda lá estão;


3- um lenço /xaile que guardo com um carinho imenso.


A minha avó era humilde, muito humilde mas foi a pessoa mais generosa que conheci . Morreu sem saber ler nem escrever e esse é um "desgosto" que carrego pois podia ter - lhe ensinado mas as prioridades da adolescência não permitiram.
Se existe céu, então a minha avó mora lá. Tenho pena de não ser digna de ter a mesma morada. Porquê?  Queria pôr -lhe o xaile pelos ombros e ensiná - la a ler. 
:)*






(lá estás tu a fazer - me revisitar estes cantos dolorosamente bons. Não sei se te abrace, se te bata. Ainda não me consegui decidir)
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De Gaffe a 23.01.2019 às 19:27


Não fiques triste.
As duas avós entendem-se. Tenho a certeza.
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De Pequeno caso sério a 23.01.2019 às 20:46

Não vejo como. São de mundos muito diferentes e em comum só vejo os xailes que cá deixaram e as netas que morrem de saudades.

Não é tristeza...mas lamento tanto,mas tanto, que ela não tenha conhecido a minha filha...
(E pronto. Desta é que foi. Lá surgiu uma lagrimita.)
...
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De Gaffe a 23.01.2019 às 21:10

Não vês como?

Eu vejo claramente. Foram as duas avós. Avós igualadas pela maravilha que foram.
Basta. Estão a tagarelar agora. A falar das netas.
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De Fleuma a 23.01.2019 às 18:16

Há já algum tempo que descobri o segredo da sua alquimia com as palavras Gaffe. Demorou demasiado a descobrir e estava tão próximo.


Para realmente apreciar o que escreve o seu punho é deixar que, por momentos, fiquemos cegos; de olhos fechados e deixar que nos transporte no labirinto.


Um cego desvendou-me a sua alquimia, Gaffe.


Abraço.
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De Gaffe a 23.01.2019 às 19:25


Comoveu-me.
Comoveu-me tanto.



Tive saudades suas.
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De Pedro Vorph a 23.01.2019 às 23:34

...nem sei o que escrever.
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De Gaffe a 24.01.2019 às 00:12

E escreveu tudo.

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