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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe com papoilas

rabiscado pela Gaffe, em 07.12.16

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A Gaffe cruzou-se com o homem que a traiu.

 

Uns escassos metros a separaram do rapagão que só não a viu empalidecer porque, nas ruivas, a palidez súbita é disfarçada pelo tom de pele e já é demasiado tarde para ruborizar. 

Sorriram e numa polida atitude cosmopolita, moderna e sofisticada, o sedutor mentiroso aproximou-se e beijou-a na face perguntando em simultâneo pelos dias que correm.

Um sorrir elegante é uma das formas de fazer explodir em silêncio a lembrança da dor que nos provoca o murro brutal que sentimos no estômago quando somos confrontados com aqueles para quem um nosso beijo nunca foi mais do que nada, sobretudo quando, para nós, significava tudo.

 

A Gaffe tem de admitir que sentia, quando ao longe vislumbrava o sedutor passando como um deus pela brisa da tarde, o doloroso vácuo que a empurrava, lhe apertava a garganta e lhe amordaçava o respirar.

O tempo vagabundo, vagueando, foi atenuando e diluindo este impacto de bola de ferro contra uma parede frágil, em ruínas. Lentamente, a Gaffe foi cosmopolizando a dor. Consegue oferecer a bochecha para o beijinho urbano, polido e elegante do homem por quem daria outrora o seu universo inteiro com um peixe dentro e que a atraiçoou quebrando todos os aquários que existiam.

 

A Gaffe tem na alma o lastro de Paris e, tal como a cidade, sacode os caracóis repletos de ferrugem e descobre que somente resta o lamento, a pena resignada, a piedosa tristeza, que se arrastam vagarosos pela certeza de saber que ninguém amará aquele homem como esta cidade e esta ruiva o souberam fazer.  

 

Depois a Gaffe suspira, depois sorri, depois protege o sorriso com a gola de vison, depois atira a carteira Prada para o ombro e deixa que o sol de Inverno acabe de queimar a cor já morta da papoila do desgosto.        

 

Ilustração - R. Gruau 

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Gavetas:


2 rabiscos

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De Rapunzel a 08.12.2016 às 10:59

Tenho de confessar que, também, gostei muito de a ler, de a ler a si, porque acho que tem uma personalidade fascinante. E porque a acho muito parecida comigo.
São raras as mulheres que não passam por isso. Outras, passam uma vida inteira, a fingir que não dão conta...
Foi o motivo do meu divórcio. E o que mais me magoou foi a falta de lealdade daquele que eu considerava o meu melhor amigo. Ele nunca suportou que eu tivesse tido conhecimento dessa sua falha de carácter.
Aprendi muitas coisas com o divórcio:
- Que poucos são os homens que conseguem perceber que quando a paixão passa, o amor fica. E que essa é a maior prova de amor por alguém;
- Que não se mendigam afectos. Esta frase brilhante foi-me dita por um amigo e nunca a vou esquecer. É muito verdadeira;
- Aprendi, também, com uma excelente amiga, que nunca devemos dizer mal do pai do nosso filho, ao nosso filho. Às vezes é difícil, mas é um conselho muito sábio. As crianças crescem, percebem e mais tarde reconhecem o papel de cada um dos pais;
- Constatei, também, que a amante está sempre muito longe das virtudes da esposa. Habitualmente, têm em comum uma característica, são sonsas... Ou parecem... Definitivamente, são fraquinhas...;
- Dizem também, que não há homem que não se venha a arrepender, mais tarde, da decisão. Esta parte ainda não constatei na prática, mas acho que ele preferia morrer do que verbalizar isso.
Acho que deixei de acreditar no amor, mas passei a acreditar em momentos, que devem ser vividos em plenitude e incondicionalmente. Daí o nome Rapunzel. Porque os contos de fadas só são bonitos porque, habitualmente, terminam no dia do casamento. Nunca mostram o depois. Eu agora só quero viver essa parte bonita. Ofereço-me esse direito.
É triste mas não é dramático. E tem que ser ultrapassado... E isso acontece quando, finalmente, o decidimos fazer.
Na altura, a melhor amiga da minha mãe, que tinha passado pelo mesmo disse-me: Acredita, um dia vais pensar, abençoada a mulher que por aqui passou e o levou. Na altura, não acreditei. Hoje, acho que ela tinha toda a razão. E depois, quem o faz uma vez, não hesita em tornar a fazê-lo. A perda não é grande. Se formos inteligentes, guardamos tudo o que tivémos de bom e esquecemos tudo o que foi mau. É isto que uma rapariga esperta faz. E estas avenidas são apenas para raparigas espertas.
;)))
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De Gaffe a 08.12.2016 às 11:56

Não quis guardar qualquer momento. Nem bom, nem mau. Não foi difícil apagar o que se tornou um traço na poeira sobre os móveis.
Tornou-se um desconhecido, um estranho, um estrangeiro, no exacto momento da traição.
Há este beijinho cordial e social. É o mesmo que ofereço distraída ao desconhecido que me apresentam de repente, enquanto estou entretida a conversar com amigos.
Creio que esta atitude irreversível é talvez a ausência total de empatia e o único sinal de pacificação. Às vezes, este sentir - ou não sentir - causa-me alguma tristeza. Suponho que não deveria ser assim, que deveria resguardar os momentos mais conseguidos, mas fui "treinada" a ignorar ou a banir o que não presta.

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