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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe com tigres

rabiscado pela Gaffe, em 19.06.19

Rudolf Dührkoop, Gertrude und Ursula Falke, 1906

Este últimos dois dias foram absorventes.

São as noites que os balançam.

Arrastamos o candeeiro - que velas, nem pensar! - para a varanda, com um esforço eléctrico de noviças enredadas nos terços das extensões e nas hóstias das tomadas, agarramos em mantas - à noite, meninas, faz frio - e, sentadas nas cadeiras pejadas de almofadas - eu, de chá de jasmin do Vietname e ela, mais complexa, mais exuberante, luxuriante, carnal e muito mais labiríntica, o de canela, gengibre, cravo, cardomomo e pimenta -, beberricamos a cumplicidade que nunca foi tida como tendo início, porque sempre se alojou na alma das duas, sem que disso fosse dada nota digna de saber consciente.

 

Falamos do tempo das quimeras e dos homens que nelas se alojaram.

Falamos do primeiro, num Verão qualquer saído breve da adolescência. Não o temos na memória, ao homem. Tímido, quase medroso.

- E loiro! – isso lembra.

Era bonito, temos a certeza, mas a beleza sozinha depressa apaga o rasto que subitamente se tornaria perene se aliado à inteligência. Mas bonito bastava-nos na altura.        

Quando a minha prima o viu, depressa o considerou seu, sem qualquer vestígio de consideração por mim, que o olhei primeiro e primeiro lhe detectei inúmeras potencialidades.

 

É evidente que o disputamos.


Eu, rondando como um tigre manso e pronto a obedecer ao chicote daquele domador, enterrava as garras na almofada da sedução. Estirava-me, esticava-me depois. Delongava o amanhecer nas minhas pálpebras e fazia rebolar na pele a luz raiada, oiro e sombra, que se alongava nos jardins. A minha prima pestanejando e esvoaçando em redor do rapaz, como andorinha tonta, pérfida, de voo armadilhado, que descobre que um grande predador é também o que amanhecido aguarda, esvoaçando, por quem na inocência breve adivinha não poder nunca domar um tigrezinho sonolento à espera que lhe pouse sob a almofada das patas o requinte de um acepipe da cor das folhas quentes onde preguiçoso se alonga a ronronar.


Quem perdesse a aposta deveria lamber as pedras do muro ainda por arranjar e comprovar o beijo - pois que de apenas um beijo constava a aposta - de forma inequívoca.


A minha prima, dias depois, entrou no meu quarto, esbaforida, de sorriso que lhe abria o rosto todo inteiro e pequenas queimaduras da barba que raspou no rosto.


Ganhou! O beijo foi dela.

O resto? Suponho que mentiu. Acreditei. Acredito muito, acredito sempre, mesmo sabendo que não existe nada de absolutamente credível, de fiável, neste animal. Ronrona, como gata enroscada nas pernas da vida. Subitamente, larga-nos aos pés um rato agonizante. 

Fotografia - Rudolf Dührkoop - Gertrude und Ursula Falke, 1906

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Gavetas:


6 rabiscos

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De imsilva a 21.06.2019 às 12:37

Bonito texto. Então, tinha razão no meu comentário, ou não?
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De Gaffe a 21.06.2019 às 13:56

Não sei.
É sempre indefinida a capacidade de avaliar em casa própria.
:)
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De Sarin a 21.06.2019 às 12:59

Esta amantíssima experiência da senhora tua prima recorda-me uma outra, não minha mas não lembro de quem, também... Assim, exactamente assim, a caixa a caneta... a pena e uma alma por medalha.
Acaso conhecerei a tua prima, ou dela terei ouvido a história numa esquina do Sena, numa curva de Montparnasse, no topo de uma esplanada.
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De Gaffe a 21.06.2019 às 14:00

Fausto no feminino?

Não creio que tenha sido narrada numa esquina do Sena. São interditas estas confidências em Paris. Só os homens são capazes de as manobrar em surdina.
O mais certo é teres cruzado com esta mulher numa das ruas da minha vida.
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De Rui Pereira a 21.06.2019 às 15:51

Caríssima,
Permita-me o desvario só hoje, porque é sexta-feira.

Tá Top! :)))
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De Gaffe a 21.06.2019 às 17:33

Permito-lhe sempre.
Mas permita-me discordar.
Não. Não está. Tanto não está, que penso seriamente retirar este infeliz da circulação.

(Não sei como de súbito me senti espiada e espiolhada. Evidentemente que a culpa é um exclusivo meu.)
Estou um bocadinho furiosa. Vou acalmar e depois decido. Se desaparecer, é por minha vontade e por - tenho de admitir - meu orgulho e soberba.
Acalmemos pois.

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