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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe confessional

rabiscado pela Gaffe, em 09.11.15

 

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Às vezes, os meus olhos são olhos de olhar a véspera das coisas. Como se houvesse a esperança de ver chegar as coisas que não vão chegar pregadas nos olhos, como se os meus olhos fossem crucifixos.

Podia olhar a criança que nunca vou ter, vestida de vermelho a flutuar no lago. Os meus olhos veriam apenas a mancha escarlate das águas paradas onde não flutuam corpos de crianças que nunca pousaram de vermelho nas águas dos lagos.

Podia entregar as conchas dos olhos àqueles que falam do amor que, apesar de tudo, sentiram por mim, que nunca veria ver-me amada toda, que na véspera do amor nunca fui inteira ou, se inteira fui, nunca me abarcaram.

 

Às vezes, tenho os dias quebrados, como os ramos das árvores perto das águas onde os bichos trepam. Às vezes, tenho bichos que trepam os meus dias quebrados nas árvores pelas águas. Nunca será inteira a hora aquática onde se fecha a terra sobre os ramos da raiz, porque nunca o meu amor terá um ventre. E no entanto, algures eu sou unida, una e definida, definitiva. Algures não há razão que me amanheça em tons de branco sujo ou transparente.

 

Nunca terei nada depois das manhãs das vésperas. As esperas são inúteis como o vestido que não verei flutuar nos lagos de escarlate.

 

A minha alma pesa como uma criança de vermelho a flutuar na véspera dos meus olhos. A ausência da criança é breve vaga a alastrar eterna, como se a superfície dos lagos planos e parados fosse o meu rosto oferecido às pedras.

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Gavetas:


10 rabiscos

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De Gaffe a 09.11.2015 às 16:43

Obrigada, meu querido Corvo.
isto passa. Voltarei a um dia inquebrável não tarda.
:)

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