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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe cronista

rabiscado pela Gaffe, em 08.09.16

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Um dos primeiros livros que me foi dado a ler pelo meu avô chegou a estar incluído no rol de obras de leitura obrigatória nas Escolas Secundárias, implicando desta forma um estudo que apesar de quase sempre tacanho, redutor e confinado a aspectos linguísticos, semânticos e sintácticos que asfixiavam a dimensão literária dos textos, tinha pelo menos a vantagem de posteriormente evitar que confundíssemos o autor com um qualquer obscuro treinador de futebol.

 

A obra foi-me entregue numa transcrição que cuidadosa, rigorosa e responsável, nos poupava os anacronismos da linguagem que nos fazia sempre tropeçar e tantas vezes perder o sentido e a paixão com que a folheávamos. Creio que esta cautela foi de Oliveira Martins, mas posso estar a cometer um erro, tendo em conta que esta versão se encontrava na estante encostada às obras deste autor e o tempo que passou sobre a biblioteca da minha adolescência.

 

Falo de Crónicas de Fernão Lopes.

 

Descobri aqui dentro algumas das mais extraordinárias figuras que protagonizaram parte da História portuguesa, descritas com a perícia e o talento de um génio literário capaz de insinuar a intriga, o escuro, a perfídia e a traição com a mesma eficácia com que nos mostra o heroísmo, a abnegação e o sentido de honra.

Foi através das Crónicas, que encontrei senhores e súbditos, condenados e incensados, poder e servidão, guerra e não guerra, doença e cura e homens e mulheres que fizeram pulsar uma época e uma época que deles se serviu para adubar futuros.

Foi ali que me encontrei com uma das mulheres mais interessantes da História portuguesa. Leonor, mulher e rainha barregã de D. Fernando e que percebi que a ambição sem medida e a capacidade de nos movermos sobre a superfície dos gumes das facas e a de invadir territórios marcados pelo macho, exige muito mais do que uma beleza estonteante, uma inteligência dominadora ou do que a habilidade consciente de manobrar o pensamento, a emoção e o destino. Exige egoísmo. Um desmesurado e ofuscante egoísmo.

Foi ali que encontrei uma das minhas tiradas favoritas que ainda hoje não me canso de repetir e que descreve de forma genial a relação de Pedro o Cru, o primeiro de Portugal, com Afonso Madeira, o jovem de alaúde, por quem o rei nutria uma amizade inusual e mais que não se diz por ser verdade e que acaba castrado, castigo que infelizmente foi posto de parte, por ter traído com uma mulher o que a frase insinua.

 

Não encontro na estante a versão que o meu avô me deu a ler, aquela que não me fez colidir com os anacronismos, mas acabo por sentir bem perto algumas das figuras que povoam as Crónicas. Para escolher o nome dos netos, privilégio que o meu avô chamou seu sem qualquer hipótese de contraditório, abria as páginas de Fernão Lopes e fazia com que as novas mulheres e os novos homens desta casa tomassem a graça que primeiro encontrasse.     

 

Infelizmente, a página que abriu quando nasci, nomeava exclusivamente D. Fernando. O meu avô hesitou, abdicou, fechou o livro e decidiu-se pela graça da Princesa Santa, irmã de D. João II, porque era mais teimosa do que o poder do Rei.

 

Foto - Ellen McDermott

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Gavetas:


2 rabiscos

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De M.J. a 08.09.2016 às 09:56

li parte obrigada pela obrigatoriedade do ensino.
adorei.
tive, fora de aulas, longas conversas com a minha professora de português e jamais esquecerei a multidão, o poder da multidão que ele
escreve a dado momento.
juro que sempre que vejo manifestações, revoltas e afins me lembro de como seria útil que todos soubessem do seu poder, em multidão.
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De Corvo a 08.09.2016 às 12:11

Bom dia MJ.
particularmente penso que o poder da multidão em manifestações, daquelas de que tenho conhecimento, é que quanto mais pessoas envolvidas nela mais burra se torna cada uma delas.

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