Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe da D. Arminda

rabiscado pela Gaffe, em 28.01.15

D. Arminda.jpgLembro-me perfeitamente da D. Arminda.

Costureira, vinha por socalcos infindos, arranjar umas coisinhas a casa dos meus avós. O costume era mantido apesar de já não fazer sentido, porque a sua mãe o tinha respeitado e antes dela a sua avó. Dedicava-se, na falta de umas coisinhas para arranjar, a tagarelar com toda a gente e a choramingar o seu amor violento.

A D. Arminda não era uma frágil flor campestre. Era colossal. Maior do que um embondeiro e com a força de um touro. Não hesitava em pegar nos cestos que nas vindimas retraíam qualquer um. Tinha braços imponentes, ancas hemisféricas, um peito descomunal e era capaz de arrancar a cabeça com um safanão aos rapazitos que lhe tentavam beliscar as nádegas baloiçantes de trintona robusta.

Tinha casado com um minúsculo bichinho, um homem fuinhas, mexeriqueiro, franzino, fanfarrão e oleoso que a espancava amiúde. 

Chorava, desabafando mágoas e hematomas ao lado da minha avó que constantemente lhe prometia abrigo e protecção. 

Mas o amor não deixava.

Numa dessas ocasiões de pranto desatado, a minha avó ultrapassou todas as regras da sua compostura habitual e, desenfreada e sem paciência, destruindo a fleuma aristocrática que tanto preza, fez deslizar o pé para o chinelo e descabelada vociferou:

-Se a Arminda se recusa a largar essa pevide, faça-me o favor de com esse corpanzil lhe partir a casca fedorenta na próxima vez que o homenzinho se atrever a tocar-lhe. Valha-me Deus, Arminda! A criatura é uma migalha no seu açafate!   

O pranto estancou estupefacto, não tanto pelo conselho, mas sobretudo porque a minha avó se tinha posto aos gritos.

- Só não pedi ainda ao Joaquim para tratar do assunto, porque sei como o homem gosta de matar os porcos – aquilo é assustador! -, e porque não quero mais uma vez  ter de fazer de conta que ouço as insinuações do idiota do padre.

 

Dias depois do sonoro e ligeiramente mafioso deslize da minha avó, a D. Arminda chegou triunfante, aureolada e ufana. O minúsculo parceiro tinha finalmente entendido que seguir um conselho de uma senhora irritada lhe podia a curto prazo fazer saltar dois dentes, mesmo que para isso tenha existido a preciosa ajuda de uma panela de pressão ali mesmo à mão de semear.

 

Nunca aquele casamento, como sem os dentes da frente, se viu tão abençoado por um entendimento cordial que se manteve incólume até ao dia em a D. Arminda trocou a migalha pela broa inteira e se uniu ao Joaquim, escândalo que deu que falar e que fez a minha avó deixar de ir à missa. 

 

Não é de todo generalizável este pequeno episódio telúrico e é perigossíssimo tentar a ousadia, sobretudo sabendo que há conselhos dados que não partem dentes, mas não haverá por aí um Joaquim qualquer disposto a tratar das mandíbulas de Manuel Maria Carrilho?

Da Bárbara Guimarães trata a minha avó.

 photo man_zps989a72a6.png


4 rabiscos

Sem imagem de perfil

De Taras e Manias a 28.01.2015 às 18:22

Eh pah a foto está brutal :):)


tarasemanias.pt
Imagem de perfil

De Fernando Lopes a 29.01.2015 às 19:37

Este post trouxe-me à memória tempos de criança em que acompanhava a avó - modista - a algumas casas de famílias tradicionais portuenses. De tenra idade, vi muitas senhoras da elite em combinação. ;)
Imagem de perfil

De Gaffe a 29.01.2015 às 20:43

E tão contentes que elas deviam ter ficado e tão corado que viam o menino!

Sem imagem de perfil

De Diana a 01.02.2015 às 09:43

E bem que uma avozinha da Gaffe fazia falta a esse casal!

Comentar post





  Pesquisar no Blog

Gui