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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe da MTV

rabiscado pela Gaffe, em 20.05.19

MARIUS VAN DOKKUM Animação - JOEL REMY.gif

 

A sala de concertos estava repleta.

O público borbulha nervoso à espera dos finais das sinfonias de Bach.

Na semana anterior ouvira-se Wagner. Era a vez dos finais de Mahler, e de Schumann. Os fins de Debussy ficariam para o mês seguinte, que as duas outras salas existentes estavam ocupadas pelo concurso do mais rápido maestro do momento, aquele que num ápice acaba Beethoven, a nona ou outra que escolherem.    

 

O homem acomodou-se na poltrona. O camarote tinha sido reservado no imediato momento em que foi anunciado o concerto. Podia esgotar e o senhor nunca se perdoaria ter deixado - por descuido, indolência, falta de atenção ou letargia -  de ouvir os finais das sinfonias.

Ainda pensou que talvez fosse melhor assistir ao concurso do maestro mais rápido do mundo, na sala ao lado daquela, mas o mês ainda estava no começo e se se apressasse seria possível assistir à final.

 

Olhou a plateia.

Havia gente por todo o lado e de todas as classes. Pré-primária à frente, logo seguida do primeiro ciclo, segundo ciclo, jovens universitários, licenciados, doutorandos e professores de cátedra, misturados com sucessos de carreira oriundos de outros lados e de percursos distintos destes.

Sentia-se pertença do grupo dos profissionais que, sem trilho académico, tinham atingido todos os objetivos propostos e alcançado o sucesso almejado num curtíssimo espaço de tempo. Aos quarenta era já reconhecido como incontornável perito nas matérias que só os muito mais velhos dominavam. Novo, muito novo – os quarenta o que são?! -, tinha o estatuto que sempre desejara e pelo qual tinha lutado todos os instantes. Depois, foi só correr de sucesso em sucesso, até à reforma - parca, mas segura - que autorizava a compra do camarote para assistir aos finais das sinfonias.

 

A cortina moveu-se nervosa. Tardava alguns segundos.

Neste tardar, o homem foi acometido pela sensação de nunca se ter sentido diferente nos momentos em que alcançava cada um dos seus propósitos.

Nem depois.

Nos finais das suas lutas, das suas pressas, nunca se tinha sentido maior ou menor, pior ou melhor. Finalizado um projecto, corria atrás do fim de um outro, sem nunca se ter apercebido que procurar o fim das coisas e das lutas, buscar o terminal dos objectivos com a ânsia de o atingir com um brilho de um raio, tinha apenas permitido comprar o bilhete para o concerto a que assistia e possibilitado a reserva do lugar para o concurso de maestros.

 

Levantou-se, desta vez muito devagar, e saiu.

Em casa, pegou no comando da televisão e foi de canal em canal à procura das sinfonias inteiras.

Encontrou apenas a MTV.

 

Ilustração - Marius Van Dokkum; Animação - Joel Remy 

 

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12 rabiscos

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De Gaffe a 20.05.2019 às 14:04

Suponho que o essencial é ir ouvindo a melodia.
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De Gaffe a 20.05.2019 às 16:42

Acredita que é a única canção que consigo ouvir da dupla Simon & Garfunkel?!
Não sei porquê, pois são bastante bons.

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