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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe dá uma "voltinha"

rabiscado pela Gaffe, em 14.11.16

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 A Gaffe aceitou, depois de massacrada durante algumas penosas horas pelo mano, dar uma voltinha de moto.

 

Esta rapariga é apologista - ou podologista, como diz a Mélinha, - de coisas grandes enfiadas no meio das pernas, ou seja, de valentes motorizadas, mas admite que não contava com o tamanho do touro metálico que lhe foi orgulhosamente exibido.

Um bicho assustador! Uma montanha bruta de couro e de metal a reluzir a um sol de S. Martinho mirrado e humilhado por só poder oferecer umas castanhas pindéricas e sem rodas a uma ruiva capaz de ousar as maiores aventuras on the road.

 

Depois de perguntar onde estava o cinto de segurança e de ter sido olhada em silêncio macabro durante alguns instantes, aceitou que o capacete - negro, para sublinhar o risco, - lhe esmagasse os caracóis e que a viseira a transformasse numa bandeja com tampa.

Após uma espargata vertical usada para alcançar o dorso do colosso e já sentada no lombo do animal com as cuequinhas esbardalhadas e de elásticos a rebentar - não sabemos se de medo -  a Gaffe perguntou ao mano onde se encontrava o dispositivo que permite a uma rapariga ao vento segurar a dignidade nas curvas.

A Gaffe foi informada que se devia agarrar ao tronco do condutor o que não lhe pareceu de todo favorável ao pobre, tendo em conta que há sempre a possibilidade do terror mais acelerado provocar um espasmo nas garras e serem arrancadas as miudezas do guerreiro do asfalto.

 

Depois de agrafada às costas do mano, como uma carraça psicótica, a Gaffe nem teve tempo de gozar o incestuoso pensamento que lhe atravessou o ar e que catalogou os músculos do mano como muito elegíveis, bastante largos, duros e confortáveis, porque o animal desatou aos urros, como se fosse um aglomerado maciço de ursos em fúria depois de uma feijoada.

 

Com um solavanco digno de um embate de placas tectónicas, a Gaffe viu-se de repente a cavalgar um tsunami.

 

Receou perder o capacete, depois ficar careca, depois soltar os dentes e perder os olhos, logo depois de ficar de mamocas ao léu e de mamilos gelados - provavelmente de medo. Receou ser projectada, centrifugada, transfigurada, teletransportada para longe da estrada depois de a comer - um trocadilho com Ray Charles fica sempre bem quando acreditamos que nunca mais voltamos, - com os peitorais do mano presos nas gadanhas ou de ficar esbardalhada e a esfregar o asfalto com as pestanas sempre que o bruto curvava.

 

Aquilo parou, finalmente.

 

A Gaffe sentiu que aquela meia hora lhe tinha fornecido o entendimento de toda a teoria da relatividade. Desmontou, tentou não falecer quando percebeu que o espaço e o tempo se tinham desencontrado e que ainda estava em movimento acelerado, tendo chegado muito antes de chegar e a cambalear, de pés tortos, mamocas esgrouviadas, rabo transformado em duas azeitonas, cabelo finalmente liso e umbigo colado às costas, a Gaffe meditativa concluiu que mais vale tentar ultrapassar a barreira do som alapada num triciclo do que dar uma voltinha ao quarteirão a cavalo de um míssil psicopata.

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2 rabiscos

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De Pandora a 14.11.2016 às 23:27

Ah ah ah ah Muito bom!
E fizeste-me lembrar de um episódio semelhante, que vivenciei há muitos anos, quando jovenzinha de 18 ou pouco mais, lá me deixei convencer a ir dar uma voltinha num motão de um amigo de uma amiga, que essa sim, verdadeira motard ainda antes de ter idade legal para conduzir. Sobrevivi para contar história, mas virgem santíssima me livre de voltar a sentar o rabo num míssil psicopata.
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De Gaffe a 14.11.2016 às 23:46

É uma experiência medonha.
Ainda não consigo deixar de sentir que vou disparada lá à frente, mesmo aqui parada.

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