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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe das bloggers

rabiscado pela Gaffe, em 23.02.18

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Encontrei nestas minhas andanças pela blogosfera uma preciosa peça que listava os blogs mais potentes deste vale de posts. Enumerados por ordem alfabética, tornava-se quase apetitoso visitar cada um deles, pela facilidade de acesso e pelo pouco esforço que um clique nos exige.

Não resisti.

Foram sobrevoados, um por um, nas asas abertas de alguns minutos e há que registar que nestes fugazes voos rasantes encontrei matéria para reflectir - e só Deus sabe o pouco que tal movimento vê a luz.

 

Confesso que ignorei os primeiros, pois que sempre fui indiferente aos panfletos do Pingo-Doce ou do Continente, embora tenha o vício de folhear os catálogos fininhos, que encontro mortos na caixa do correio, com fotografias e elogios sucintos aos mais inesperados e surpreendentes produtos - desde esfregonas a pilhas a vibradores para os dentes, passando por detergentes para higiene íntima e acabando em material didáctico destinado a pedófilos frustrados que se excitam a ver macaquinhos de peluche que chiam se apertados. Tudo a preços módicos.

 

Os seguintes vendiam crianças. Provavelmente os filhos das curadoras, porque me pareceu tudo muito maternal.

Admito que já esgotei a pouca capacidade de abrir a boca de espanto e de indignação que destinava ao assunto. Tendo em consideração que agora só abro a boca por motivos maiores e de maior idade, mantive a pose e fui passando indiferente pelas esquinas por onde aquela petizada trabalhava. Não encontrei nenhuma criança que me perturbasse. Todas saudáveis, felizes, fofinhas e rentáveis. Nada a necessitar de intervenção ou de petição para assinar. Confesso o famigerado quero saber.

 

Cheguei ao último e fiquei perplexa.

 

Encontrei uma mulher bonita, com um travo sofisticado que me agradou, com muito bom gosto, revelando que é cúmplice da câmera que a vai fotografando ao lado da filharada - uma adorável prole, comme il faut -, capaz de fazer com que se não perceba de imediato que está a fazer pela vida vendendo o que lhe cabe em parceria, posando de modo quase profissional e afastando-se claramente da imbecilidade do sorriso maroto, olhar marosca, perninha erguida, com o pequenino pé esquerdo logo ali à frente do direito e mãozinha na cinta de verniz por estalar.

Não me cansou e admito que perdi mais tempo do que o previsto a passear nas avenidas limpas, e mesmo agradáveis, da senhora. Vendia o sonho, o idílico, o desejado, o cor-de-rosa brando, incutia o desejo do inútil, incitava o consumidor de forma relativamente discreta e promovia o cliente que a subornava, sem nunca parecer patética, parola e pateta.

 

Gostei da senhora.

 

No entanto, fiquei perplexa ao perceber que, apesar das características que a diferenciavam das outras banais companheiras de folguedos, havia um borrão naquela paisagem quase perfeita.

A ausência da Elegância.

A senhora era desprovida do imperceptível toque da Elegância - mais danoso ainda do que nos casos anteriores em que esta inexistência é já prevista -, que aproxima as mulheres do imaterial, do abstracto, do mistério denso e longo e tantas vezes escuro e impenetrável, capaz de tornar incontornável a presença do silêncio que perto dela, em seu redor, a toda a volta, se vai impondo aos mais banais, até que o fascínio se torne proprietário do desejo.

Faltava a Elegância e essa ausência tornava a senhora bonita, não a vendedeira do costume - pelas razões apensas às parceiras -, mas uma vendedora doutorada.

 

Talvez por isso tenha percebido que não basta, de modo nenhum, parecermos cool.

Há que ser mulher de César.

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14 rabiscos

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De Pequeno caso sério a 23.02.2018 às 21:57

As mulheres bonitas são um perigo.Com ou sem elegância.

Ser cool é diferente.
Ser cool é um dom (?) e isso, não se "fabrica".

Já agora, o que é para ti uma mulher elegante? E uma mulher cool?
Podes concretizar dando exemplos...mas TU e a tua IRMÃ não vale.
; )
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De Gaffe a 23.02.2018 às 22:14

Sempre pensei que uma mulher elegante é aquela que nos desperta histórias, que nos recorda o que jamais vivemos, ou sonhamos ou tivemos, que nos faz ter saudades de qualquer coisa.

A minha irmã é sem dúvida uma das mulheres mais elegantes que conheço. A minha avó doou-lhe esse privilégio.
Mas é uma pergunta difícil. Creio que abordei o tema aqui:
http://agaffeeasavenidas.blogs.sapo.pt/a-gaffe-iconica-276306

Mas prometo que voltarei a ele. Prometo que com melhor resposta.
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De Pequeno caso sério a 24.02.2018 às 10:30

Eishhhhhh...que facada me deste agora. Nutro uma antipatia especial pela Jackie. Acho-a medonha, desinteressante e ,porque não dizê - lo, uma caçadora nata (no mau sentido).
A única coisa realmente interessante na mulher foi ter um grande par de bolas e ter usado "O" fato ainda com as manchas de sangue . Lembro-me de há muitos anos ter visto na TV uma série sobre a vida da senhora e sinceramente não desfez a antipatia que nutro por ela. Não sei explicar. Não me desce. Há ali qualquer coisa de falso.


Percebo então pelo que escreveste nesse post que uma mulher elegante passa por ser uma visionária no que à moda (?) diz respeito. Aquela mulher que se destaca e que dita tendências.
Então é a comum mortal? Aquela que não tem um staff que a ajuda nesse sentido? Pode uma mulher "normal" ser elegante? De que forma? Desculpa a insistência mas gostava mesmo de saber a tua opinião.
; )
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De Gaffe a 24.02.2018 às 11:44

Introduziste uma variante que alterou o conceito. A elegância é independente da biografia de uma mulher. Creio que pode mesmo ser isolada do conjunto, separada da personalidade.
Não é necessário que uma mulher elegante tenha uma personalidade diferente da predadora, da consumista, da psicopata, da assassina ou mesmo da que vai ganhar o Nobel da Paz. É possível encontrar elegância em mulheres que não conhecemos, de quem não sabemos nada. É instintivo, e ao mesmo tempo objectivo, este reconhecer e pode não passar por uma aproximação à personalidade da mulher que percebemos como elegante. Não simpatizo com J.O., com o seu percurso, com a sua vida - gosto mais de Callas, a rival e outra elegante -, mas não deixo de sentir J.O. como exemplo de elegância. Se lhe tirares o "som" verás que não estou muito errada.

Vou voltar a este assunto. Há pano para mangas.
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De Pequeno caso sério a 24.02.2018 às 19:31

Esclarecida.


Quando voltares a este assunto , cá estarei para te ler.
; )
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De Gaffe a 24.02.2018 às 20:56

Eu sei que estás sempre comigo.
:)

Creio que o conceito de elegância - e creio que existem vários - não são nestes comentários, o mesmo. Daí as "divergências" ou as hesitações.
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De Corvo a 24.02.2018 às 11:46

A opinião da Gaffe, ela lha dirá, com certeza.
A minha é que a mulher elegante, e sabe que o é, dita a sua própria moda.
Ainda que vá contra a moda do mundo feminino.
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De Gaffe a 24.02.2018 às 12:53

Mas sabe que penso que uma mulher elegante não se apercebe que o é?!
A inconsciência da elegância é essencial à mesma. Nenhuma mulher que "sabe" que é elegante, o é realmente. É como respirar.
Não pensamos nisso. Se tivermos de o fazer, não estamos bem, respiramos mal e normalmente temos um ataque de pânico.
Creio também que existe pouca ligação entre uma elegante e aquilo a que se chama "moda". Não há uma relação causa-efeito.
Uma mulher elegante pode estar nua. Há sempre um allure" que a veste, mesmo que isso lhe seja indiferente - por norma, é.
Garbo nunca se vestiu "comme il faut" e no entanto, meu caro, é uma elefante de primeira linha.
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De Gaffe a 24.02.2018 às 12:55

*elegante
Valha-me Deus! Chamar elefante a Garbo é criminoso.

... mas divertido ...
:))))
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De Pequeno caso sério a 24.02.2018 às 19:34

Opinião registada meu caro Corvo. Vou tê - la em consideração pois tenho - o como um dos últimos cavalheiros que por aqui se passeiam.

; )

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