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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe das camélias

rabiscado pela Gaffe, em 20.03.19

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As camélias começam a tombar.

Floresceram mordidas pela morte. Um rebordo decomposto, uma unha pisada podre em cada pétala, a cor de carne viva amortecida pelo quarto crescente da mordida.

 

A minha avó ao longe. Ao fundo da alameda. Ao longe branca nas ondas onduladas do cabelo. As camélias soltavam pétalas vermelhas no vestido preto da senhora.  

O meu avô ao lado.

Às vezes o braço pousava no vestido negro da senhora e havia pétalas vermelhas a tombar no gesto. A camélia no peito do meu avô não tinha rebordo morto. Floresceu num ápice, antes do voo do vento e do estancar da seiva.

 

Às vezes a minha avó sorria. Às vezes pousava a cabeça na camélia que o meu avô tinha pousada no ombro. Igual a que trazia no peito. Vermelha como um coração sem rebordo.

 

- Ah, menina! Gostavam tanto um do outro como se não tivessem as almas para salvar.  

 

As camélias mortas.

 

Às vezes a minha avó debruçada na alma que não tinha de salvar por amar tanto a dele que não tinha de ser salva.

Às vezes o gesto que corrigia a assimetria das pérolas no pescoço. Os dedos a aflorar o curvo das pérolas e as pétalas no chão, sem simetrias.

 

Às vezes o silêncio.

 

A alameda coberta de camélias e os meus avós ao longe de mãos dadas e o medo de não poderem morrer juntos.  

 

As camélias começaram a tombar.  

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Gavetas:


5 rabiscos

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De Maria Araújo a 20.03.2019 às 13:54

Um retrato de um amor sem limites.
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De Gaffe a 20.03.2019 às 14:59

Um amor absoluto e inacreditavelmente cúmplice.

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